Mag-log inO verão havia voltado a Santa Aurélia.As videiras se estendiam em curvas verdes pelas colinas, e o ar cheirava a terra quente e jasmim. O solar Ferraz, agora reformado pela última vez, parecia diferente — mais leve, como se as paredes respirassem em paz.Isabel caminhava descalça pelo jardim, a barra do vestido branco roçando a grama úmida.O vento suave brincava com seus cabelos, e o som distante do piano ecoava de uma das janelas abertas.Era uma melodia nova, simples e serena, nascida de um coração que, depois de tantas ruínas, finalmente aprendera a descansar.Gabriel a observava de longe, apoiado no parapeito da varanda.O sol do entardecer banhava o rosto dele em tons dourados, e havia algo nos olhos — uma mistura de alívio e reverência.Ele havia sobrevivido a feridas que o corpo jamais esqueceria e, ainda assim, era o olhar dela que o curava todos os dias.Quando ela o viu, sorriu.— Está me observando de novo.— Sempre. — ele respondeu, descendo os degraus para encontrá-la.
A madrugada em Santa Aurélia era de uma escuridão espessa, pesada. O vento soprava do mar, trazendo o cheiro de chuva e despedida. Isabel fechou a mala pequena com mãos trêmulas. Não levou muito — apenas o necessário.O celular ainda mostrava a mensagem:“A verdade está em Genebra. Venha sozinha.”Ela não sabia se era armadilha, ou a chance de acabar com tudo de uma vez.O medo não a impedia mais. Depois de tudo o que vivera — traições, fugas, segredos — a incerteza era quase um velho conhecido.Antes de sair, passou pelo quarto e olhou pela última vez para o retrato dela e Gabriel na estante. O sorriso dele, tão real, tão sereno, parecia observar o que ela estava prestes a fazer.— Eu preciso entender, Gabriel — murmurou. — Só assim poderei te perdoar.E partiu.O avião pousou em Genebra sob uma chuva fria. Isabel desceu a escada de metal com o coração acelerado.Um motorista a esperava com um cartaz onde se lia “Madame Ferraz”.— Quem enviou você? — perguntou, desconfiada.— Um amig
O telefone tocava com insistência no solar Ferraz, e o som ecoava pelos corredores silenciosos. Isabel atendeu sem pensar — a rotina de chamadas da Casa Aurora havia se tornado parte dos seus dias.Mas a voz que veio do outro lado da linha não era familiar.Era calma. Feminina. Inquietantemente confiante.— Madame Ferraz, sei que esse telefonema pode parecer inoportuno, mas o que tenho para lhe dizer não pode esperar.Isabel franziu o cenho, recostando-se na cadeira.— Quem está falando?— Alguém que sabe que seu marido está em Genebra. — A voz soou baixa, quase um sussurro. — E que ele não contou o motivo real.Um arrepio percorreu a espinha de Isabel.— Eu sei por que ele foi. — respondeu, tentando manter a calma. — Negócios da família.A mulher riu de leve.— Negócios? É esse o nome que ele dá para acobertar os rastros que o ligam ao império Monteiro e à família Larrieux?Isabel apertou o telefone contra o ouvido.— Isso é mentira.— Mentira? — a voz continuou, agora mais suave, qu
O vento era cortante em Genebra. As montanhas ao redor da cidade pareciam envolver tudo em um silêncio gelado, e Gabriel sentia o frio atravessar o sobretudo, mesmo enquanto apertava o passo pelas ruas estreitas do centro antigo. Cada pedra daquele lugar respirava poder — discreto, oculto, antigo. O tipo de poder que se transmitia em silêncio, de pai para filho, de geração para geração.Era ali que tudo começara. E era ali que ele pretendia encerrar.A viagem fora rápida e sem aviso. Nenhum contato, nenhuma mensagem para Isabel. Quanto menos ela soubesse, mais segura estaria. Mas a verdade é que, desde que deixara Santa Aurélia, Gabriel não dormira. O rosto de Étienne o perseguia, o mesmo olhar frio de Henri, o mesmo sorriso controlado que escondia a crueldade.Agora, o filho comandava o Círculo. E Gabriel sabia que, para destruir um império, precisava encontrar sua raiz.Ele entrou em um edifício discreto na Rue de la Confédération — fachada de consultoria financeira, interior de f
A manhã nasceu clara em Santa Aurélia, mas dentro do solar Ferraz o clima era de inquietação. Gabriel acordou cedo, incapaz de ignorar o instinto que o alertava havia dias.Desde a chegada de Étienne Leclerc, algo em seu comportamento o incomodava. A polidez exagerada, o sorriso contido, os olhares calculados — era como se cada gesto dele fosse ensaiado.E Gabriel conhecia demais os homens que sorriam com calma enquanto tramavam silenciosamente.Já trabalhara com eles. Já quase morrera por causa de um deles.Quando Isabel saiu para a Casa Aurora, ele desceu até o escritório, trancou a porta e ligou o computador.Abriu uma conexão segura, a mesma que usara em Valdívia para investigar o Círculo Tríplice.Digitou: Étienne Leclerc, Institut Européen des Arts, Lyon.Os resultados foram poucos — um artigo acadêmico, algumas menções em jornais franceses e um currículo perfeito. Perfeito demais.Todas as referências foram criadas no mesmo ano, com datas sobrepostas.Um dossiê fabricado.Gabri
O sol voltara a brilhar sobre Santa Aurélia, e o solar Ferraz, com suas janelas grandes e jardins renovados, parecia finalmente respirar em paz. As flores voltavam a florescer, o vinhedo ganhava vida, e o riso — aquele som que parecia impossível meses antes — começava a preencher os corredores novamente.Mas a paz, Isabel aprendera, era um véu frágil. Bastava um toque para se rasgar.Naquela manhã, uma carta chegou à escola de música que ela e Amélia administravam. O envelope, de papel creme e selo estrangeiro, trazia o nome Instituto Europeu de Artes de Lyon.— É um convite para uma parceria — explicou Amélia, empolgada. — Um professor francês quer fazer intercâmbio conosco, ajudar nos programas e ministrar aulas de técnica vocal e composição.Isabel folheou o documento, surpresa com o selo autêntico e o texto formal.— Isso é… inesperado.— Ele chega amanhã. — completou Amélia. — Diz que ficou encantado com o trabalho da Casa Aurora.Isabel assentiu, sem desconfiar de nada.Na manhã







