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Capítulo 3

Chu
— Vou ficar uns dias na casa de uma amiga.

Não tive coragem de encarar seus olhos.

Prendi a vista no zíper da mala, no piso, em qualquer coisa que não fosse ele.

As sobrancelhas de Adrian se franziram de imediato. A preocupação surgiu em seu olhar.

— Por que saiu do hospital sozinha, sem me esperar? Seu corpo ainda precisa...

— Querido, eu quero ficar neste quarto. Posso?

Minha mão apertou a alça da mala com força.

Bianca já estava ao lado de Adrian, enlaçando o braço dele com intimidade.

As alianças dos dois brilhavam sob a luz, quase gritando:

Olhe para mim.

Olhe para o que você nunca vai ter.

— Esta deve ser a senhorita Selena, não é? — O sorriso dela parecia veneno coberto de açúcar. — Ouvi dizer que você é a empregada em quem Adrian mais confia. Depois de servi-lo por sete anos, deve estar exausta.

Empregada?

A palavra me atingiu como uma agulha enterrada no peito.

Levantei os olhos para Adrian, esperando que ele negasse.

Esperando que dissesse: não, ela não é empregada. Ela é a mulher por quem eu me perdi durante sete anos.

Mas ele apenas estreitou os olhos.

Só isso.

— Claro. — A voz dele saiu tranquila. — Se você gostou deste quarto, ele é seu. Mordomo, Bianca é minha noiva. Quero que ela seja tratada como tal, em todos os detalhes.

O mordomo lançou um olhar rápido para mim e logo desviou os olhos.

Respondeu em voz baixa e se retirou.

Naquele instante, senti meu coração ser esmagado sem piedade. Até respirar doía, num peso surdo.

Durante sete anos, fui eu quem costurou os ferimentos dele quando Adrian apertava os dentes para não gritar de dor.

Fui eu quem segurou sua cabeça no colo quando ele despertava dos pesadelos manchados de sangue.

E, para o mundo, eu não passava de uma empregada.

— Obrigada, querido. — Bianca lhe deu um beijo no rosto. Depois se virou para mim, ainda sorrindo. — Senhorita Selena, se não se importar, poderia arrumar o quarto para mim?

Adrian se moveu de leve. Uma sombra de pena passou rápido demais por seus olhos.

— Ela sofreu um acidente ontem e precisa descansar. Peça a outra empregada.

Bianca arregalou os olhos de um jeito teatral, como se acabasse de ouvir uma tragédia.

— Ah, eu não fazia ideia. Claro, claro. Não vou incomodar a senhorita Selena.

Adrian voltou o rosto para mim. A voz dele baixou, suave e autoritária ao mesmo tempo.

— Peça ao mordomo que lhe prepare outro quarto. Descanse bem. Se recupere. E não saia daqui.

Ele obviamente não levou a sério minha decisão de ir embora.

Franzi a testa, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Adrian já saía com Bianca.

Pelo visto, ainda achava que eu continuaria obediente como sempre.

Balancei a cabeça e comecei a arrumar tudo mais rápido.

As joias caras ficaram nas gavetas.

Não me pertenciam. Eram apenas pagamento.

As lembranças, não.

Elas não cabiam na mala. Ficavam presas ao cheiro dos lençóis, ao silêncio das paredes, à luz morta que ainda repousava no chão.

Arrastei a mala pelo corredor e passei diante da porta do escritório. Estava entreaberta. A voz do mordomo escapou pela fresta.

— Don. — A voz dele vinha tensa. — O senhor trouxe a senhorita Bianca para casa como sua noiva... A senhorita Selena vai ficar arrasada. Ela até disse que ia embora.

— Eu também não quero magoá-la. — A voz de Adrian soou calma, mas havia uma tensão escondida por trás dela.

Meu coração tremeu. Parei sem querer.

Depois de uma pausa, ele continuou, seguro demais:

— Mas eu conheço Selena. Ela não é do tipo que faz escândalo. Sempre foi obediente. O mundo inteiro dela sou eu. Essa história de ir embora? Só birra. Ela quer chamar minha atenção. Nada além disso.

— Além do mais, ela não tem para onde ir. Sem mim, não tem nada.

Do lado de fora, senti meu sangue esfriar devagar. Meus dedos tremiam sem controle.

Então, para ele, meu coração em pedaços era apenas uma cena mal encenada.

Minha partida, uma ameaça vazia.

Meus sete anos de amor, uma aposta que Adrian tinha certeza de que não podia perder.

Era um jogo no qual eu nem sabia que entrava, enquanto ele já se via vencedor desde o início.

Parei de tremer.

Peguei a mala e saí por aquela porta sem olhar para trás.

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