LOGINUm ano depois…
Estava na floresta escura. Olhei para mim: vestia um vestido branco, molhado e tão transparente que deixava tudo visível. Olhei para o céu, e as gotas da chuva caíam no meu rosto. Meu corpo tremia de frio, meus cabelos estavam ensopados. E um uivo ao longe fez meu corpo inteiro arrepiar. Não conseguia correr; minhas pernas pareciam feitas de chumbo. Estava indefesa, enquanto ouvia o barulho dos galhos se quebrando e o chão tremendo sob os passos de algo que se movia na escuridão. Tentei me mover, mas não conseguia — estava presa no lugar. Minhas pernas tremiam de medo. E quando aquela fera enorme apareceu: um lobo preto, de olhos dourados. Avançou na minha direção. Gritei. — NÃO! NÃO! NÃO! Me arrastei trêmula na cama, ofegante, voltando à realidade. Chorava novamente; esse sonho se tornava cada vez mais frequente e assustador. Já fazia um mês que vivia esse tormento. Antes até conseguia correr no sonho, mas ultimamente ficava imóvel, como se não tivesse nenhum controle sobre o próprio corpo. Passei a mão no rosto, limpando as lágrimas. Meus cabelos estavam molhados de suor. Nunca vira aquela criatura na vida real. Ainda assim, ela aparecia todas as noites nos meus sonhos. Suspirei. Depois de um tempo, consegui controlar os batimentos cardíacos. O canto dos pássaros do lado de fora avisava que o dia já havia começado. Fui até o banheiro, mas como sempre não havia água, e a luz há muito deixara de funcionar. Não podia abrir as janelas, pois o sol acabaria comigo. Estava na escuridão total, já que as cortinas blackout não deixavam a luz do lado de fora entrar. Usava apenas uma vela para iluminar o ambiente. Mas chegaria o momento em que não teria mais dinheiro para comprar outras. — Preciso arrumar um emprego — falei, exasperada. Relâmpago se esfregou na minha perna, pouco se importando que sua dona estivesse em maus lençóis. Saiu miando atrás de mim, exigindo cuidado; peguei então o último pacote de ração, comprado com o dinheiro que restara da caixinha da minha mãe. Olhei para o segundo andar da casa — o lugar onde minha mãe escolheu viver depois que conheceu meu pai. Após a morte dela, ele nunca mais apareceu. Estava literalmente sozinha. Uma lembrança de um ano atrás me atingiu de golpe: no dia seguinte ao da internação, liguei novamente ao escritório e recebi a notícia pela secretaria de que minha mãe não resistira. Naquele instante, perdi o chão por completo. A dor me consumiu inteira. Já fazia dois dias que não comia… e fiquei mais dois em luto absoluto, encolhida na cama escura do porão, chorando. Rezei para que a morte me levasse, mas ela não veio. No lugar dela, veio uma sede tão intensa que parecia rasgar minha garganta por dentro. Quando a noite caiu, me esforcei para me levantar e fui até uma área de sítios. Ao ver as vacas, a ideia mais insana surgiu — e eu a segui. No começo foi horrível: o gosto era estranho, e eu precisei lutar contra o instinto de rejeitar aquilo. Mas tive que me acostumar. E assim, todas as noites ia até a fazenda para me alimentar. Sem água em casa, encontrei um córrego perto da zona de sítios para tomar banho; pensei em morar ali, mas não podia abandonar a casa onde cresci. Olhei mais uma vez para o segundo andar e, finalmente, subi as escadas. Ao entrar no quarto da minha mãe, uma saudade dolorosa me atingiu. Peguei um de seus perfumes e cheirei profundamente. Queria tanto tê‑la de volta… mas ali estava eu, só com meu gato. Desci de novo para a sala e fiquei desenhando um pouco sob a luz fraca da vela. Enchi a vasilha de Relâmpago com a garrafa de água, e ele bebeu satisfeito. Quando a noite chegou, me preparei: peguei a mochila, a garrafinha e um pote. Dessa vez seria mais ousada. A ração de Relâmpago estava acabando; talvez o fazendeiro nem percebesse se eu pegasse um pouco da ração dos cachorros. No início eles latiam para mim, mas depois sempre vinham lamber minha mão e brincar. Relâmpago miou irritado, como se adivinhasse que eu queria dar‑lhe comida “de segunda categoria”. — Calma, parceiro… É só até eu arrumar um emprego noturno — falei baixinho. Mas ao chegar à fazenda, fiquei sem palavras. As vacas haviam sumido. Tudo havia sumido. Entrei no terreno e olhei pelas janelas: nada. Ninguém. O velho fazendeiro e sua esposa — para onde teriam ido? Fiquei totalmente sem rumo. Já tinha me acostumado a esse lugar. — Que maravilha! — bufei, sentando‑me tristemente. Estava com fome, mas ainda podia suportar. Testei as maçanetas e, por incrível que pareça, uma estava aberta. Entrei e vasculhei tudo: encontrei pacotes de ração canina e peguei, enchendo a vasilha que tinha levado. No banheiro, para minha surpresa, havia água corrente — tomei um banho demorado e caprichado, sem precisar recorrer ao córrego. Depois, continuei procurando: achei alguns enfeites bonitos e os guardei — se deixaram para trás, é porque não precisavam mais. Mas o melhor achado foi um caderno de desenhos novinho, com folhas brancas e limpas. Parecia um presente do universo. Mesmo sem conseguir o que planejava, voltei satisfeita com o que encontrei. Já em casa, olhei para o relógio e suspirei. Já eram cinco horas da manhã. Hora de dormir. Deitei‑me na cama, mas meus olhos se recusavam a fechar. E, quando finalmente fechavam, eu via aquele lobo. Como se estivesse escondido na escuridão, apenas esperando o momento certo para me atacar.POV — DESCONHECIDO Ele entrou na sala usando um sobretudo preto. Os óculos escuros escondiam seus olhos enquanto caminhava até a mesa e se sentava diante da velha feiticeira. Ela passava lentamente as unhas pintadas de preto sobre a superfície de uma esfera escura e impura. A velha feiticeira das sombras ergueu os olhos para ele. — Ela está grávida de um lobisomem... Então, definitivamente, eliminei todos os Dunstan vampiros — afirmou, recostando-se na cadeira, confiante. A feiticeira arqueou uma sobrancelha branca. — Será mesmo? Ele franziu o cenho imediatamente. — O que quer insinuar? Olhe logo meu futuro na esfera — exigiu entre os dentes. — Se o senhor quer... assim será. A velha colocou as mãos sobre a esfera. Seus olhos emitiram uma luz negra, como se duas pequenas fendas para um vazio infinito tivessem se aberto em seu rosto. A mesa começou a tremer sob o poder maligno que emanava dela. Por alguns segundos, a sala permaneceu em absoluto silêncio. Então, a feiticei
Um mês depois... Ajudei uma serva a organizar os vasos de flores enquanto o clã comemorava a tradicional época da colheita. Os lobos já não se afastavam de mim. Não podia afirmar que havia sido totalmente aceita, mas percebia que os olhares de desconfiança haviam diminuído. Alguns ainda me observavam com curiosidade, mas já não sentia aquela sensação de estar sendo julgada a cada passo que dava. Depois que Dante anunciou minha gravidez, ouvi muitos cochichos sobre a possibilidade de meu filho ser um Alfa. Mas, para falar a verdade, aquilo não me importava. Eu estava feliz porque minha gravidez estava indo bem. Apesar de a curandeira ter dito que minha natureza vampírica voltaria assim que o bebê nascesse, estava aproveitando cada momento daquela fase. E, realmente, estava comendo de tudo. Peguei um pedaço de bolo de chocolate que estava sobre a mesa e o levei à boca. O sabor doce se espalhou pela minha língua, e fechei os olhos por um instante, apreciando a textura
POV — FRIDA Quando acordei, fiquei surpresa ao perceber que Dante ainda me envolvia em seus braços. — Ficou todo esse tempo me olhando? — perguntei, curiosa. Ele assentiu, acariciando minha bochecha. — Acho que quer saber como consegui fugir de Lady — falei, por fim. — Sim... — respondeu, olhando para mim com curiosidade. Suspirei. — Eu não fugi. Apesar de ter tentado... fui salva por Demétrius, um vampiro que tinha uma relação de quase amizade com meu irmão, Boris. Dante assentiu. — Ele cuidou dos meus machucados. Lady havia me chicoteado. O maxilar de Dante enrijeceu imediatamente. Vi o dourado tentando se sobrepor ao cinza de seus olhos. — Aquela maldita! Ainda conseguiu fugir da minha fúria — rosnou entre os dentes. Coloquei a mão sobre seu peito. — Esqueça ela. Ele respirou fundo, tentando conter a raiva. — Melina... onde ela está? — perguntei, curiosa. — Não sei... Na verdade, fiquei todo esse tempo fora. Apenas mandei que a mãe dela fosse presa
POV — DANTE Estacionei o carro de forma brusca. Mal desliguei o motor, já abri a porta e saí, sem me importar com a chuva que voltava a cair forte sobre mim. Lorenzo havia ligado minutos antes, avisando que Frida tinha retornado. Frida. Minha companheira estava de volta. Mil perguntas se acumulavam em minha cabeça. Onde ela esteve? Quem a ajudou? Por que demorou tanto a voltar? E, acima de tudo, como estavam ela e o meu filho? Eu precisava saber tudo. Mas, naquele momento, só conseguia pensar em uma coisa. Ela estava viva. Ela estava de volta. Por alguns segundos, até cheguei a me perguntar se estava sonhando. Atravessei a entrada do castelo quase correndo. E então a vi. Frida estava sentada no sofá, com um caderno de desenhos apoiado sobre as pernas. Meu coração pareceu querer sair pela boca. Ela ergueu aqueles olhos azuis que eu tanto amava e, ao perceber minha presença, deixou o caderno de lado. Não pensei. Não me importei com mais nada. A
POV — FRIDA Caminhei pela noite segurando o guarda-chuva, enquanto as gotas de água gelada atingiam minha pele. A cidade parecia diferente naquela noite. Talvez porque, pela primeira vez, eu a observasse sem pensar em fugir de alguma coisa. Parei diante do grande vidro de um restaurante italiano. Do outro lado, um casal apaixonado jantava. O homem levou um pedaço de comida até a boca da mulher, e os dois sorriram, completamente alheios a tudo ao redor. Fiquei observando aquela cena por alguns segundos. Parecia tão simples. Tão comum. Continuei andando. Mais adiante, uma loja de brinquedos chamou minha atenção. Uma mãe pegava um boneco da prateleira que o filho, acomodado em seu colo, apontava com entusiasmo. A criança sorriu. A mãe também. Levei a mão à minha barriga, que já começava a ficar levemente saliente. Por alguns segundos, imaginei como seria ter uma vida assim. Uma vida comum. Sem responsabilidades de Luna. Sem problemas de clã. Sem guerra
POV — DESCONHECIDO Dias antes... — Droga! Aquela estúpida fugiu! — rosnou Lady. Um de seus homens permanecia parado, observando-a em silêncio. — Saia! — gritou ela. O homem obedeceu sem dizer uma palavra, deixando-a sozinha com sua irritação. Lady caminhou até o banheiro e abriu a torneira. Jogou água no próprio rosto, tentando se acalmar. Ergueu os olhos para o espelho. Seus cabelos rosas estavam completamente despenteados. A maquiagem havia desaparecido, deixando à mostra apenas sua pele pálida e os olhos cansados. Por alguns segundos, ficou encarando o próprio reflexo. Já não reconhecia aquela loba poderosa que um dia acreditara ser. Onde estava a mulher que não tinha medo de ninguém? Onde estava aquela que enfrentava qualquer um que ousasse desafiá-la? Agora, diante do espelho, parecia apenas uma sombra do que havia sido. Lady abaixou a cabeça e jogou mais água no rosto. Respirou fundo. Talvez ainda pudesse consertar as coisas. Talvez aquele maldi







