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14. Corações intensos

Author: Tsuki-Hime
last update publish date: 2021-09-22 23:37:56

Os cinco assentiram com a cabeça fazendo-a sorrir.

– Obrigada. Então... quando a Rainha estiver vindo, um de vocês sobe no meu pé para me chamar a atenção. Combinados assim?

Os cincos assentiram novamente, se puseram de pé sobre as patas traseiras e, como se fossem verdadeiros soltados, prestaram continência, e saíram disparado para sua missão logo em seguida. Bara só parou de querer dar risada daquela pequena cena quando finalmente colocou sua atenção em Nemuru.

Alto, de pele um pouco mais clara e os traços um pouco mais suaves do que estava acostumada a ver nos sonhos. Olhando ele naquela condição, de sono profundo, nunca que iria imaginar o sofrimento que ele verdadeiramente passava. Ela se aproximou, sentou-se na cadeira próxima de sua cama, retirou o colar do pescoço, segurou-lhe a mão e sussurrou ao ouvido.

– Neemuuuruuu...

Nemuru respirou surpreso e apertou suavemente a mão que o segurava ao reconhecer a voz de Bara. Ela sorriu e continuou sussurrando-lhe ao ouvido.

– Desde o dia que minha ama, a Acnarepse, deu a ideia de virmos até Kyuden que carrego o desejo de poder vê-lo assim, fora dos sonhos. E sabe de uma coisa? Mesmo você não sendo exatamente como o vejo no mundo dos sonhos, você ainda é um rapaz muito bonito.

Nemuru deu um leve sorriso corado e tentou trazer a mão de Bara para mais perto de si. Bara percebeu e levou a mão que segurava a de Nemuru para cima do coração dele, onde pode sentir que batia alegremente. Os olhos de Bara se encheram devido à emoção e continuou sussurrando.

 – Eu estou aqui agora, mas porque vim escondida. Usei o colar da metamorfose para me passar por sua mãe e ter acesso ao seu quarto. Até o momento, ninguém desconfiou.

Nemuru preocupou-se, e Bara continuava falando.

Enquanto isso, os roedores que haviam sido invocados com o apito, após encontrarem o aposento em que a Rainha se encontrava, dividiram-se pelo caminho que levava ao quarto de Nemuru, ficando um de olho em Jõo e os outros quatro em pontos estratégicos do percurso.

– Chega por hoje. – Jõo encerrava as aulas do dia – É melhor todos nos deitarmos agora, já está bem tarde.

– A senhora irá direto para cama, mestra? – perguntou Zul.

– Não. Terminarei de guardar estes componentes e passarei no quarto de Nemuru antes. Aí irei dormir.

– Permita-me ajudá-la e, tudo bem se eu acompanhá-la?

– Aceito sua oferta, Zul.

O rato que ficara responsável de vigiar Jõo, observou o trabalho rápido dos dois e assim que a Rainha se aproximou da porta, disparou para alertar seu companheiro que, assim avisado, correu ao encontro do próximo que repediu a ação como um telefone sem fio. Quando chegou no terceiro camundongo (último roedor da fila), Jõo já estava na metade do caminho.

Ele correu o mais rápido que suas patinhas lhe permitiam e quando entrou no quarto, Jõo já estava diante da entrada da Zona e, como a troca de guardas havia sido à meia-hora atrás (e os guardas anteriores esqueceram de avisar aos seguintes sobre a presença da Rainha), Jõo seguiu caminho normalmente.

Bara ainda falava com Nemuru quando o pequeno roedor assustou-a subindo-lhe no pé como combinado.

– Essa não, sua mãe está vindo. – Bara começou a ajeitar Nemuru – É melhor eu me esconder agora e quando ela for embora, volto pro meu quarto. – Nemuru deu um sorriso triste – E depois... nos encontramos nos sonhos.

No que Jõo chegou à porta do quarto acompanhada de Zul, os guardas (que ainda eram os mesmos) estranharam ver a Rainha diante deles sem que ela tivesse deixado o quarto antes.

– Qual o problema de vocês? Deixe-me entrar!

Bara mal terminara de puxar sua saia pra debaixo da cama quando abriram a porta. Os guardas olharam todo o cômodo sem passar a patente com a Rainha entrando logo em seguida e Zul atrás dela. Os guardas fecharam a porta esfregando os olhos ou a testa.

– Zul, por favor me confirme, quem deveria estar vigiando este quarto agora? – questionou Jõo ao perceber que Nemuru estava sozinho.

– Quanto às amas, hoje o turno noturno é da Liana. E quanto aos guardas, eram para serem uns amigos de meu pai que, por conta de alguns incidentes, tiveram as trocas de guarda atrasadas.

– Obrigada. Terei uma conversinha com todos amanhã.

Bara engoliu seco. Não pensara nos transtornos que iria causar nos vigias de Nemuru.

Zul apoiou-se na porta e Jõo sentou-se na cadeira ainda quente. – “Ao menos a saída de Liana é recente.” – Pensou Jõo consigo.

– Olá meu tesouro, como você está se sentindo hoje, hum? – Nemuru deu um sorriso tímido, fazendo sua mãe sorrir também. – Só vim mesmo para lhe dar uma olhada, hoje dei uma aula de Alquimia Elemental e... foi bem cansativa. – Jõo acariciava a testa de Nemuru – É melhor eu ir descansar agora meu querido... – ela beijou-lhe demoradamente a fronte – ... te vejo outra vez amanhã, para lhe dar a merecida atenção.

Ela se ergueu e Zul abriu-lhe a porta. A Rainha ainda deu uma última olhada no filho antes de sair em meio um suspiro e com Zul a fechando atrás.

Bara que aguardava pacientemente debaixo da cama, esperou por mais uns cinco minutos depois que deixou de ouvir barulhos vindos de fora para evitar ser flagrada. Após ficar de pé novamente, tirando a poeira das saias sem fazer barulho, aproximou-se da janela enquanto recolocava o colar.

Ela conferia se havia algum sentinela por perto, pois, enquanto não ocorresse a troca de guardas ou passasse pelo menos uma hora da saída da Rainha, a janela era a sua única saída confiável. E como pesadas nuvens podiam ser vistas ao longe e o vento soprava para trazê-las, esperar não era uma opção se ela realmente quisesse se encontra com Nemuru nos sonhos.

No mesmo instante em que Bara viu o sentinela mais próximo afastar-se, Jõo lembrou-se de ter deixado seu lenço junto de Nemuru, resolvendo voltar para buscá-lo. No momento em que Jõo abriu a porta do quarto, teve um choque ao ver-se pronta para saltar a janela.

 Sem esperar muito, Bara (que já tinha citado o encanto) sobrou o apito desesperada com toda a força que podia. Zul, que ainda acompanhava a Rainha, sacou e lançou uma de suas adagas contra Bara para detê-la de fugir, mas antes que a adaga pudesse encostar em Jõo (Bara), uma grande nuvem de gafanhotos vindos de fora interrompeu sua trajetória e envolveu Bara descendo-a pela janela de forma rápida e delicada.

Os gafanhotos a esconderam completamente, quem olhasse para ela veria apenas uma criatura humanoide de insetos. Ela correu desse jeito pelos jardins onde as arvores frondosas lhe davam cobertura, junto ao vento que lhes balançava.

Jõo e Zul que a viam correr da janela, não pensaram duas vezes, enquanto Jõo gritava chamando os guardas, Zul se pôs a perseguir a intrusa pulando da mesma janela.

Percebendo que Zul a seguia, Bara começou a correr ainda mais depressa. Parte dos gafanhotos que a ocultava passou a atrapalhar Zul na perseguição, aumentando a distância entre os dois. Isso até ela se aproximar da fonte principal, a mesma em que ficava a roseira de Jõo. Bara tropeçou, gritando ao cair, um pequeno grupo de gafanhotos removeu-lhe o colar e apoiou-o em uma de suas mãos. Ela engatinhou pra junto da fonte o mais rápido que pode ao mesmo tempo em que guardava o colar na shiruku.

A nuvem que a protegia manteve a forma humanoide e continuou correndo mesmo depois da queda de Bara.

Zul que já estava acompanhado de alguns guardas livres do voto de silêncio, a viu encolhida na fonte.

– Você viu alguém correndo por aqui senhorita? – perguntou um dos guardas.

– Não sei se era alguém, mas vi algo correndo naquela direção. – ela respondeu apontando em direção aos gafanhotos.

Zul continuou a perseguição junto dos guardas com exceção de um que ficou para interrogar Bara.

– O que faz aqui a esta hora da noite princesa?

– Não conseguia dormir. A lua estava tão bonita... que achei que não haveria problemas em observá-la dos jardins.

– Observar a lua?

– Sim! Eu gosto muito de admirar a lua, puxei minha mãe segundo o meu pai. Em noites de lua cheia, eu até durmo sob o luar! Se ainda tem dúvidas, pode consultar minha ama ou até mesmo meu pai.

– Hum... Tudo bem então, mas... porque essa expressão de dor?

– Eu estava deitada na grama, quase cochilando quando... aquela coisa, passou tropeçando em meu pé que está dolorido agora.

– Me permite.

O homem se aproximou e examinou o pé de Bara que realmente havia machucado na hora em que ela tropeçou.

– Não parece haver torção ou machucados, foi só o choque mesmo. Em breve nem se lembrará da dor.

– Obrigada, eh...

– Augustos. Me chamo Augustos.

– Certo. Muito obrigada Augustos. Bem... tudo bem se eu ficar aqui fora só mais um pouquinho? Eu ficarei na fonte ao invés do gramado dessa vez.

– Eu não sei. – Augustos observava os céus – Acho que o melhor seria que retornasse ao seu quarto agora.

– Por favor! – Bara usava seu olhar e sorriso que convencia a todos – Observar a lua me acalma. E aquela coisa me deixou um pouco agitada. Diga-me que sim, vai...

O guarda estava meio repreensivo com o pedido, mas o olhar implorante de Bara somado ao seu sorriso doce acabou por amolecê-lo.

– Tudo bem. Uma tempestade parece se aproximar, mas não é imediata. Deixarei se me permitir guardá-la durante este tempo.

– Perfeito. Sem nenhum problema. Muito obrigada senhor Augustos.

Bara deitou-se na fonte com a cabeça próxima à roseira e Augustos ficou de guarda próximo aos seus pés. O mais discretamente que pôde, Bara pegou o camafeu na shiruku e o pôs junto à lua para admirar. Ela adormeceu rápido devido ao esforço feito durante sua fuga.

Enquanto Zul procurava por pistas da intrusa (pois os gafanhotos já haviam se dispersado) Jõo permaneceu junto de seu filho. Ela verificou o quarto inteiro em busca de algo que estivesse fora do lugar sem sucesso. Cansada e preocupada com Nemuru, decidiu dormir ali mesmo; se bem que a ideia de uma segunda Jõo lhe atrapalhasse o sono.

Já nos sonhos, Bara aproximou-se devagar de Nemuru, que estava bem preocupado com ela.

– Ouvi os gritos de minha mãe. Não se machucou ou... foi pega??

– Calma Nemuru. Eu estou bem.

Bara contou tudo o que aconteceu deste o minuto que saiu de debaixo da cama.

– Você é meio louca, sabia.

– Louca por quê?!?

– Correr todo este risco só para ver alguém que está dormindo?

– Corri este risco para ver alguém que tenho grande afeto. – Bara deu as costas sem se erguer e cruzando os braços.

– Não é justo. – respondeu Nemuru, corado.

– O quê não é justo? – Bara virava-lhe o rosto.

– Você pode me conhecer fora deste mundo de sonhos, e eu... bem... já não posso fazê-lo.

– Por enquanto Nemuru. – Bara voltou a ficar de frente para ele – É só por enquanto.

Eles se olharam em silêncio por um momento. Nemuru aproximou-se devagar e acariciou os cabelos de Bara até perceber a rosa neles.

– E esta rosa?

– É da roseira de sua mãe.

– Ela é um pouco diferente das rosas de meus sonhos.

– As suas são mais belas. – disse Bara a entregando a Nemuru.

Nemuru se aproximou um pouco mais dela sem perceber, ambos sentiam seus corações acelerados e em meio a uma troca de olhares cada vez mais intensa, seus rostos se aproximavam cada vez mais.

Bara apoiou uma das mãos sobre a mão de Nemuru que segurava a rosa.

Nemuru passou a mão que afagava os cabelos de Bara para o rosto dela.

Eles se aproximavam cada vez mais um do outro sem desviar o olhar ou piscar. Com seus narizes quase se tocando, os dois fecharam os olhos e, instantes depois, um beijo.

O beijo, fez surgir uma luz suave de todas as cores que envolvia os dois por completo no mundo dos sonhos, já no mundo real, aquela mesma luz envolvia apenas a Nemuru e com menor intensidade.

Jõo que estava junto do filho pôde vê-la, mas por conta do cansaço esfregou os olhos acreditando estar sonhando, o beijo que durou menos de meio minuto já havia terminado quando ela parou de esfregá-los, e a luz cessou-se junto do beijo.

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