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16. Inquéritos e prêmio

Author: Tsuki-Hime
last update publish date: 2021-09-22 23:40:04

Por volta de oito e meia da manhã, Acnarepse, Bara, Jõo, Zul e Zula estavam à mesa tomando o café da manhã.

– Aconteceu alguma coisa ontem à noite majestade? Notei que há bem mais guardas hoje do que ontem no palácio. – perguntou Acnarepse meio preocupada.

– Alguém conseguiu invadir a Zona do Silêncio ontem à noite. – respondeu Jõo.

– Invadiram aquela área?!? – Chocou-se a Acnarepse enquanto Bara só ouvia em silêncio com grande interesse.

– Sim. Uma mulher se passando por mim atravessou nossa segurança e penetrou aquela área. – respondeu Jõo enquanto Zul e Zula as observavam.

– Que quis dizer com se passando pela senhora? – questionou Acnarepse, disfarçando um olhar reprovador para Bara que continuava prestando atenção no assunto.

– É... uma mulher meio que idêntica a mim, entrou em um dos aposentos da Zona do Silêncio e fugiu pela janela do mesmo que dava para os jardins.

– Fugiu pela janela?! Aquelas altas?!?! – Acnarepse estava horrorizada.

– Sim. E o mais estranho, é que ela não levou ou deixou nada! Sem mencionar o método inacreditável que usou para descer da janela.

– Método inacreditável? O que quer dizer majestade? – perguntou Bara na esperança de acalmar um pouco a sua ama com a resposta de Jõo.

– Provavelmente ela é uma encantadora de insetos, já que uma nuvem de gafanhotos a ajudou a escapar.

Acnarepse trocou o horror pelo nojo quando ouviu a resposta, mas nem por isso estava menos zangada com Bara. Bara continuou com o assunto.

– Será que... era alguma espiã?

– Talvez... Mas não tenho certeza se ela seria capaz de compreender o tipo de informação ou tesouro que ela poderia obter naquele cômodo.

– Como assim? – continuou Bara curiosa com as respostas da Rainha.

– No cômodo em questão só havia um tesouro de valor pessoal meu. E mesmo que ela soubesse o real valor dele para mim, nunca que ela conseguiria carregá-lo consigo sozinha de modo seguro e sem ser flagrada por ninguém.

– Este tesouro é tão grande assim?

– Sim, é sim Bara. Tanto que são necessárias duas pessoas para carregá-lo, sem mencionar a fragilidade dele... hum... – Jõo começou a observar Bara desconfiada por um momento, deixando Bara um pouco desconfortável – Bara, querida.

– Sim? – Bara estava receosa por conta de como Jõo a ficou observando.

– Zul me contou hoje cedo que você estava no jardim ontem à noite.

– Bom, de fato eu fui para o jardim ontem à noite. – Bara tentava se manter neutra, principalmente com o olhar de sua ama pesando sobre ela.

– E também disse-me que você viu a intrusa fugir. – Jõo parecia focada em Bara.

– Olha... Eu ainda não sei bem o quê eu vi passando por mim. – Bara sabia que se mentisse estaria com problemas, se ela mentisse – Seja lá o que fosse aquela coisa, só me recordo de um enxame de insetos que pareciam esconder uma pessoa correndo. – ela pensava nos gafanhotos que a ajudara – Nem deu para perceber se era um homem ou uma mulher!

– Entendo. E... o que você fazia no jardim àquela hora? – continuou Jõo.

Acnarepse, que conhecia a protegida que tinha, começou a rir disfarçadamente, adivinhando a resposta que Bara deu com um enorme sorriso.

– Como expliquei ao guarda... Augustos. Eu estava admirando a lua majestade.

– Admirando a lua?! – Jõo, junto de Zul e Zula ficaram sem entender.

– Sim majestade. Depois dos meus quinze anos, comecei a observar mais o luar e quando soube que minha mãe fazia o mesmo, comecei a admirá-la ainda mais!

– Realmente, Mahina gostava muito de observar a lua. – Jõo ficou nostálgica – Uma vez ela me disse que o luar lhe acalmava a alma, e por isso nunca perdia uma chance de observar a lua.

– Entendo. Ultimamente pra mim, observar a lua e adormecer sobre o luar, é como... viajar, para junto de pessoas especiais. – respondeu Bara emanando paz com suas palavras diante da nostalgia recém-chegada.

Elas ficaram em silêncio, esquecendo o interrogatório sobre a noite interior e o clima provocado por ele. E o silêncio continuou até Bara resolver interrompê-lo.

– É hoje que a esfinge fica pronta, não é?

– Sim, é hoje sim. – respondeu Acnarepse.

– Depois do almoço poderemos buscá-la. – comentou a Rainha.

– Boa ideia! E dessa forma poderemos retornar para Heiwa essa tarde, não estou certa Ac?

– É... – Acnarepse desconfiava da presa em voltar de Bara – Está certa sim Bara.

Jõo começou a pensar em seu filho enquanto observava Bara e Acnarepse. Não vendo a rosa que dara à Bara, ela recordou da flor que amanheceu nas mãos de Nemuru.

– O que aconteceu com a rosa que lhe dei ontem Bara?

– A rosa? – disse Bara colocando a mão onde a flor estava antes de entregá-la à Nemuru – Acho que a perdi ontem à noite...

– A perdeu? Onde? – continuou Jõo com Acnarepse observando bem as reações de sua protegida.

– Bom... – Bara tentava ser o mais honesta possível – Talvez tenha sido no jardim. Sabe, aquela coisa que fugiu ontem, ela meio que tropeçou em meu pé, já que eu estava deitada na grama. Devo ter ficado sem ela depois disso.

Acnarepse ergueu uma sobrancelha para Bara de forma disfarçada enquanto a Rainha concordava com a cabeça, terminando de beber seu copo de suco.

– Acaso desconfia de mim majestade? – questionou Bara ao perceber que Jõo ainda lhe duvidava.

– Não vou lhe mentir Bara. No que se refere à segurança da Zona do Silêncio, sou extremamente rígida e, mediante a tantas circunstâncias que ligue você ao ocorrido de ontem, não consigo deixar de ter uma pequena suspeita sobre você. Apesar de não ter prova alguma contra você.

Bara não sabia se sentia-se culpada ou ofendida com as palavras da Rainha. Ela apenas juntou toda a sinceridade e seriedade que tinha dentro de si para respondê-la.

– Só para deixar-lhe bem claro, majestade: independentemente de minhas ações em Kyuden, de maneira alguma desejo causar qualquer mal que seja à senhora ou à quem quer que seja que habite neste palácio ou até mesmo este reino. O meu único desejo é de ajudar.

Diante da resposta que Bara lhe dará e da profunda sinceridade em seus olhos, Jõo não teve outra escolha se não remover suas suspeitas dela.

– Tudo bem minha querida. – desculpou-se Jõo – Sinto muito se a ofendi e acredito em sua sinceridade, não falemos mais sobre este assunto.

– Como desejar majestade. – respondeu Acnarepse por Bara que se manteve em silêncio.

Poucos instantes depois, Jõo se levantou e saiu da mesa, seguida de Zul e Zula. Percebendo Acnarepse que ela e Bara estavam sozinhas, Acnarepse sussurrou à Bara:

– As suspeitas da Rainha não estão incorretas, estão Bara Kuroshy?...

Bara quase engasgou-se com o resto de seu suco, ela conseguira escapar da Rainha mas não de sua ama. Ela olhou bem no fundo dos olhos de sua ama, junto com o sorriso que sempre convencia dizendo:

– Na hora certa Ac...

E se levantou em direção ao jardim antes que ela lhe perguntasse mais alguma coisa.

Sentada na fonte da roseira, Bara refletia sobre o beijo com Nemuru... e sobre seu coração. Aos poucos, ela admitia para si que se apaixonara por Nemuru, e só percebeu isto de fato, graças ao beijo.

Acnarepse a observava de longe e percebeu por seus muitos suspiros e expressão de felicidade, que a “invasão” não foi a única aventura de Bara na noite anterior. Depois que Bara deu seu quinto suspiro, Acnarepse resolveu se aproximar.

– Aconteceu algo mais com você ontem à noite?

– O quê!?! – respondeu Bara no susto por não perceber ninguém se aproximar dela.

– Perguntei se aconteceu mais alguma coisa além da invasão ontem à noite. Seus pensamentos parecem estar bem longe daqui.

Bara ficou refletindo por um momento sobre a resposta enquanto Acnarepse a observava nos olhos. “Conte tudo minha querida.” A voz que lhe despertara de manhã lhe veio à memória.

– A senhora realmente não disse nada hoje cedo antes de sairmos da cama?

– Não Bara, já lhe disse que não. Acordei com você me chamando e ainda não ouvi a resposta da minha pergunta!

– Hum... – Bara agora estava com a mente focada na voz – Antes de irmos, responderei a sua pergunta. – e continuou meditando sobre a voz misteriosa e seu pedido.

Antes que Acnarepse pudesse dizer mais alguma coisa, ouviram um dos servos as chamarem a mando da Rainha. Ele as guiou até o local de treinos de combate, onde Jõo enfrentava seus quatro aprendizes ao mesmo tempo.

As duas ficaram observando impressionadas com a forma com que Jõo defendia-se e contra-atacava os golpes que vinham de todos os lados, golpes que pareciam realmente lhe quererem a vida.

Jõo parecia ter olhos atrás da cabeça durante a “batalha” que durou mais quinze minutos. Ao final dela, os quatro irmãos estavam praticamente no chão devido à exaustão: a espada de Zunol parecia lhe pesar dez vezes mais; Zuline mal conseguia se manter em pé com o auxílio de seu bastão; Zula mal conseguia se erguer do chão em que estava deitada; e Zul, além de ter gasto todos os seus projéteis, estava com os braços temporariamente paralisados devido às técnicas de pressão desenvolvidos pela Rainha.

Acnarepse que via as condições dos quatro jovens em contraste ao ânimo que Jõo tinha para continuar lutando, ficou preocupada. Já Bara, estava boquiaberta com as habilidades de Jõo.

– Desculpe por fazê-las esperar. – Jõo se aproximava limpando o suor com uma toalha fria e úmida – Chamei-as para almoçarmos aqui fora aproveitando que o dia está tão bonito e agradável, tudo bem pra vocês? – perguntou ela fincando o par de espadas que tinha nas mãos próximas aos próprios pés.

– Não! Não há problema algum, majestade! – respondeu Bara ainda fascinada pela forma com que a Rainha manuseava suas espadas e como ela lutava.

– Vossa alteza é realmente uma guerreira bem habilidosa... – comentou Acnarepse ainda observando a condição dos Soamri.

– Com certeza há pessoas bem mais hábeis que eu, minha cara. – respondeu Jõo enquanto discordava de Acnarepse com a cabeça em meio a um sorriso satisfeito. – Vamos então?

– Vamos! – responderam Bara e Acnarepse em uníssono.

Era algo próximo das 13hs da tarde quando elas almoçaram. Quase uma hora depois, Jõo tomou um banho rápido. Vinte minutos depois, as três estavam juntas ao encontro da recompensa.

A esfinge era maravilhosa: esculpida em mármore cândido com 25cm de altura X 35cm de comprimento X 15cm de largura; a faixa azulada de 30cm de largura X 10cm de altura sendo segurada pelas patas dianteiras na parte superior da placa, com os dizeres “Eis o sábio Mestre dos enigmas” esculpida em relevo com letra de mão; os braceletes e tornozeleiras pintados de ouro com uma bela safira redonda de uns 2cm cravada em cada um; e todos os demais detalhes feitos com ouro e pequenas sodalitas.

Bara ficou extremamente satisfeita com a futura recompensa. Mais tarde, após ela e sua ama já terem terminado de arrumarem suas coisas para voltarem à Heiwa; a frase “conte tudo minha querida” martelava na cabeça de Bara. Como o crepúsculo estava perto de se anunciar, resolveram partir logo para chegarem o mais cedo possível em casa.

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