FAZER LOGINAquela pergunta surpreendeu Bara. Ela não esperava por uma dúvida dessas, tanto que começou a folhear o seu guia para conferir se algo assim já havia sido tentado.
– Eu vou ser honesta majestade, não sei se o que me pede é ou não possível. Acho que nenhuma de minhas antecessoras chegaram a tentar algo assim. – explicou Bara ainda conferindo seu pequeno livro. – Se isso for algo possível, nós duas seriamos as primeiras a tentá-lo. Você está me pedindo isso para poder conversar de verdade com o Nemuru, não é?
– Compreendo... – Jõo suspirava – Mas... Podemos tentar não? Hoje à noite?
– Bem, se a senhora de fato está disposta a tentar algo pouco... cientifico. Não vejo porque não. – respondeu Bara, confirmando que realmente as duas seriam as primeiras a tentar aquilo, segundo o seu guia.
– Então, imagino que a senhora dormirá na Torre Kendrada essa noite. – comentou Acnarepse.
– Se uma boa fonte de luar é exigida... Imagino que sim. Mom, você ficará com meu filho, está bem? – Mom assentiu sorrindo para a Rainha – Certo. Vamos todos nos preparar?
– Vamos. – responderam em uníssono os que eram de Heiwa, com os demais apenas assentindo com a cabeça.
Para ajudar a esconder que Nemuru era o príncipe de Kyuden, todos haviam combinado de tratarem Nemuru (diante daqueles que não o conhecia) como um parente distante, porém muito querido, dos Soamri. E a razão de Jõo estar “aceitando” buscar ajuda para o rapaz em Heiwa, era porque estranhos objetos haveriam sido encontrados com o rapaz. Objetos estes ligados ao misticismo.
Não demorou muito para que todos terminassem de se organizar. Mahotsukai apresentou alguns documentos de Heiwa que mencionam sobre Dark Yami para Jõo, uma vez que ela não tinha como fazer o mesmo em relação aos documentos presentes em Kyuden.
Enquanto aguardavam pela hora do jantar, Mahotsukai apresentava a Biblioteca Mística (área restrita e de acesso apenas para usuários de magia e convidados especiais) para a Rainha de Kyuden.
– Tenho a certeza Rainha Jõo, seja lá qual for o método que o seu algoze está utilizando com aquele rapaz, sei que o descobriremos aqui. Eu mesmo só consegui ler metade do conteúdo aqui presente.
– Honestamente ainda me custa aceitar tais... possibilidades. Mas se o senhor estiver carregando alguma razão sobre esse assunto em particular... Tentarei ser um pouco mais aberta. Espero que não se importe de Zula me fazer companhia, ela sempre foi excelente com linguagens antigas.
– Quanto mais ajuda podermos ter, melhor. Apenas há uma pequena restrição a ser tomada durante a leitura de certos domos aqui presentes.
– Que seria?...
Mahotsukai chamou um dos responsáveis pela velação do lugar e lhe pediu para buscar algo. Dois minutos depois, o mesmo zelador retornou com alguns aros na mão que entregou ao Rei.
– Peguem vocês duas. – dizia o Rei oferecendo um aro para cada uma – São pulseiras de ferro bruto. Moldadas ao menos dez vezes.
– E para quê que elas servem? – questionava Jõo observando a dela enquanto Zula colocava a sua.
– Imagino que você entenda que a magia é vista como uma forma de energia ainda pouco compreendida pela maioria, certo? – Jõo só assentiu – Pois bem, o ferro puro e moldado várias vezes, tem a característica de bloquear o fluxo dessa energia. Impede sua manifestação acidental.
– Mas majestade... Nenhuma de nós duas tem entendimento sobre essa... energia! Como que poderíamos estar “ativando” algo que não obtemos...
– É aí que a senhora se engana, Rainha Jõo. – respondeu o Rei sorrindo e deixando-a intrigada – Todos nós nascemos com a maana, nome que foi dado a essa energia, dentro de nós. Alguns nascem com mais, e alguns nascem com menos. E apenas uma pequena parte dos humanos são capazes de reconhecer e manipular essa energia.
– Pois repito, Zula e eu não temos esse conhecimento. Por qual motivo exatamente, somos obrigadas a utilizarmos essas pulseiras.
Mahotsukai soltou um longo suspiro por conta da resistência de Jõo.
– Me diga Jõo, você é capaz de controlar o fluxo do sangue que corre dentro de si? Consegue impedir o ar que respira de tocar o seu corpo sem ter de entrar na agua? Ou até mesmo de romper as leis da natureza e trazer uma pessoa de volta à vida?
– Mas quando disparate! Óbvio que não! – respondeu ela quase ofendida.
– Verdade. Mas assim como é impossível realizar tais coisas, é igualmente impossível impedir que a maana existente dentro de cada um de nós reaja diante da invocação dela, mesmo não carregando o conhecimento necessário para contê-la.
– O que o senhor está me dizendo, é que mesmo não tendo nada a ver com esse seu mundo, eu posso acabar invocando... sei lá! Chamas neste lugar se eu não estiver usando isto enquanto leio algum determinado livro?! – questionava Jõo ainda incrédula.
– Sim. – respondeu o Rei já no limite da paciência – Agora, a senhora vai colocar isto e começar a ajudar sua aprendiza com os livros, ou prefere continuar discutindo?
Jõo nem havia percebido que Zula já estava sentada à mesa com alguns domos à sua frente, e começando a leitura de um.
– Está bem majestade. – respondia ela já colocando a pulseira – Vamos logo com isso porque não temos todo o tempo do mundo.
E começaram com as pesquisas.
Aqueles “estudos” estavam sendo como uma comédia para a Rainha. Poucas vezes ela enxergava lógica no que lia. Isto entre as coisas que ela conseguia ler! Jõo se manteve na biblioteca se muito, por duas horas. Deixando a “irreverente” sala quando o jantar lhes foi anunciado.
Zula que estava apresentando um interesse incomum por todas aquelas relíquias de leitura incompreensíveis para a maioria (inclusive para o Rei que não conseguia lê-los), pediu permissão para poder efetuar sua refeição lá dentro. Permissão que o Rei não se importou em ceder após Jõo repassar o pedido.
Bara havia apresentado o castelo para o restante dos Soamri enquanto Acnarepse velava Nemuru. Terminado o passeio, ela ficou um pouco com Mom cuidando do príncipe, e depois foi preparar pessoalmente o seu quarto para poder dividi-lo com a Rainha.
Durante o jantar, todos (menos Zula que comia na Biblioteca Mística) discutiam entre si como que eles prosseguiriam com a noite.
– A senhorita Acnarepse e Zunol poderiam nos vigiar durante esse... experimento. – sugeria a Rainha.
– E imagino que você queira deixar os outros dois jovens com a mãe que estará tomando conta de seu “paciente”. – comentou o Rei.
– Não é que a ideia seja ruim, mas acho um pouco exagero colocar os dois para ajudar Mom. Zul tudo bem, pois seria um reforço na segurança, mas acredito que Zuline seja capaz de ajudar um pouco a Zula. O que o senhor pretende fazer durante isso? – prosseguia a Rainha.
– Primeiro... Vou confirmar a segurança ao redor de Heiwa, não podemos baixar nossas guardas. – sussurrou o Rei nas últimas palavras. – Depois, acho que darei uma mãozinha à Zula. Ela realmente consegue compreender todos aqueles textos? Alguns são de linguagens tão antigas que nem eu consigo traduzir.
– Até eu me impressiono com essa habilidade dela. – falava a Rainha em meio a um sorriso – Todos os Soamri carregam talentos de fato impressionantes. Quisera eu ter metade da habilidade de todos eles...
Isso fez os irmãos presentes corarem. Sabiam que a Rainha valorizava seus talentos, mas não ao pouco dela ter uma pequena inveja de seus dons.
– Pois eu acho melhor nós duas já nos preparamos para deitar Rainha Jõo. – declarava Bara, já terminando sua refeição. – Nem temos certeza se essa experiência irá funcionar! E nem como que vai ser isso, caso funcione...
– Ansiosa, Bara querida?... – questionava Acnarepse com uma leve malícia.
– Mais ou menos... – respondeu a princesa levemente corada (detalhe esse que não escapou aos reis) – Estou... preocupada, com o que pode acontecer. Se acontecer.
– Relaxe minha filha. Vai indo na frente e depois sua ama acompanha a Rainha de Kyuden. Vou fazer o que eu disse e desejo muita sorte para vocês. – declarou o Rei já se erguendo e apoiando a mão sobre um dos ombros Bara, saindo em seguida.
– Muito obrigada papai. – respondeu Bara antes dele se afastar.
Bara seguiu em frente com os visitantes de Kyuden fazendo o mesmo poucos minutos depois. Os serventes do castelo já estavam avisados de que deveriam ajudar sem perguntar muito, porque o caso que eles estudavam podia ter magia negra envolvida. Motivo mais que suficiente para ninguém querer saber mais do que o necessário.
Zul acabou “conversando” com Mahotsukai antes de velar Nemuru e sua mãe, para conhecer melhor a segurança do reino, o que o Rei teve prazer em lhe explicar em detalhes.
Zuline foi guiada até a Biblioteca Mística, onde Zula trabalhava com avinco, para assim poder ajuda-la no que lhe fosse possível, e Bara e Jõo se preparavam no quarto.
– Apenas para confirmar, a senhora tem certeza que deseja tentar fazer isso de mente aberta? – prevenia-se Bara.
– Tenho. Nós só teremos de ficar deitadas, certo? E de preferência de mãos dadas por precaução.
Bara soltou um suspiro e entregou tudo nas mãos do Senhor (ou de Selena). Deitaram-se as duas assim que o luar apareceu (com Bara torcendo para que nenhuma nuvem viesse a intervir na Transição) e Bara começou a observar o luar lado-a-lado do camafeu que antes pertencera a Nemuro.
O casal observava o crepúsculo da janela da torre.– O tempo voou, não é mesmo?... – Bara se recostava no marido.– Realmente. – ele a recolhia – Nem acredito que já faz um mês que você assumiu o lugar de seu pai. E nem no tanto que ele conseguiu viver! Não são muitos os que alcançam os 70 anos atualmente.– Isso só foi possível por minha causa e de Tsuki. Se minha mãe não tivesse sido impedida de me criar, meu pai teria vivido muito mais...– Teria gostado de conhecer minha sogra. A mulher que gerou o mais precioso tesouro de minha vida. – ele lhe roubava um selinho.– Você é sempre um doce. Acha que nossos filhos já superaram a perda do avô? Meu pai foi muito coruja com eles...– Os gêmeos já fizeram 15 anos, a Reinheit está quase fazendo 13 e o Ad
A resposta de Bara foi agraciada com uma imensa e calorosa salva de palmas (se bem que os seus ex-pretendentes pareciam que perderiam os braços de tão sem vontade que aplaudiam), e o sorriso de Nemuru pela resposta de sua amada ia de orelha a orelha.Askherone criou com suas chamas azuladas a figura de um grande coração para cima. Um dos muitos truques que ele desenvolvera com a ajuda de Kimbe, do qual ficara mais amigo, para deslumbrar as tantas crianças que apareciam para brincar com a princesa no castelo. Impressionando os nobres e deixando o ambiente ainda mais formidável.– Senhores! – Mahotsukai tomava a atenção – Vocês não imaginam a alegria que sinto nesse momento. Há entre vocês alguns jovens que me procuraram para fazer esse mesmo pedido à minha filha, mas... Eu pude testemunhar por mim mesmo, tudo o que lhes faltava para que eu lhe cons
As semanas correram, e Dark Yami já se tornou um sonho ruim do passado. Os Montes Korionenshõ se tornaram muito mais brandos com suas nevascas, permitindo a travessia semi-segura deles, pois ainda possuíam seus riscos naturais. E todos os reinos receberam o convite de uma grande festa em Kyuden que pretendia pronunciar uma grande noticia especial.Não foram poucos os curiosos para a tal revelação.Bara partiu com o pai, Acnarepse, Kimbe e Askherone uma semana antes para ajudarem na preparação da noticia, pois o plano era de apresentar Nemuru (acompanhado de Bara) a todos os presentes somente depois da revelação da verdade.– Ainda acho que iria ser mais interessante se eu me revelasse saindo do meio de todos eles do que de um “esconderijo”. – reclamava Nemuru em seu novo quarto.– Do jeito que você fala, até parece que aguardar do meu lado &eac
Passou-se alguns dias. Kimbe ajudou a limpar as cavernas vulcânicas de todos os seres sombrios e também a esvazia-los de tudo. Gemas, mantimentos, equipamentos, tudo foi divido por igual entre os quatro Reis.Esvaziada e limpas as montanhas de Korionenshõ, Mahotsukai convidou Kimbe a viver em Heiwa como um de seus servos, pois, apesar dele ter servido ao seu pior inimigo, reconheceu nele uma preciosa fonte de conhecimento de defesa contra as artes das trevas.De início, Kimbe se sentiu receoso em aceitar tão maravilhosa oferta (pois já se imaginava voltando a mendigar pelos becos sombrios), mas Bara e Nemuru o convenceu a aceitar. Até Askherone se mostrou mais amigável com ele!Sobre Askherone, muitos foram os que se assustaram com o dragão ao vê-lo de imediato. Acnarepse quase desmaiou ao ver o lagarto gigante caminhando lado-a-lado de sua menina! Mas aos poucos, não só Askherone
Assim que Nemuru percebeu que a razão de Askherone ter criado barreiras de chamas em todas as saídas era para impedir que Dark Yami fugisse, saltou do lugar em que estava, com Candra na mão.“De jeito nenhum que esse demônio escapará outra vez!” – pensava ele enquanto se recordava da maneira que o mago costumava abandonar o seu mundo de sonhos, sempre que aparecia.Enquanto aqueles que não estavam responsáveis pelo vórtice se desnorteavam com as chamas de Askherone, Nemuru correu em direção ao mago que citava alguma coisa que o príncipe sabia que ele não podia terminar em hipótese alguma.Seja o que fosse que Dark Yami fazia, de olhos fechados, uma espécie de névoa negra se formava ao seu redor. E essa névoa que o cercava, era facilmente repelida pela Candra.Nemuru, usando cada gota de força que conseguira recup
A situação de Nemuru era complicada. Dark Yami se mostrava um adversário tão implacável quanto a sua mãe! E ainda tinha o extra que ele suportara com os espectros antes de encarar aquela batalha.– Pirralho desprezível, inconveniente, tolo e inútil! Fareis com que te arrependas de colocastes os pés nestas passagens! – ameaçava o mago enquanto o atacava.– Acredite peste, se não tivesse colocado as patas em Bara, nem em pesadelo que eu me aproximava daqui! – declarou Nemuru se defendendo e atacando como podia.– Ínfimo! Lhe dareis a lição de tua vida! Vou acorrentardes e o torturares pelo resto de tua miserável vida! E tudo bem diante dos olhos de tua querida princesinha...– Não permitirei isso nem mesmo sob o meu cadáver. – declarou o príncipe ganhando um novo estimulo com a ameaça.