LOGINBara agora se sentia quase tão cansada quando tinha chegado naquele lugar. Só tinha um pouco mais de força. O suficiente para se manter desperta por mais um tempo.
Assim que aquele monstro tinha acabado com as suas explicações, ele a encarou de um jeito tão... tão desconfortável para Bara, que ela acabou ficando de pé, contra a parede.
Dark Yami aproximou-se devagar dela, sem deixar de sorrir de forma maldosa. Bara se mantinha o mais indiferente possível diante dele.
– Sois mesmo uma bela donzela... – havia tido ele enquanto lhe tocava o rosto – Comecemos logo, estais bem? – foi a última coisa que ele disse antes de citar o encantamento que usava com Nemuru.
Para Bara, aquele drenar foi como... Se um forte adesivo bem grudado na pele fosse arrancado beeeeem devagar. E com essa sensação envolvendo todo o seu corpo. Foi após alguns minutos de suplicio, onde ela fez de tudo para não deixar nem mesmo um gemido lhe escapar a garganta (pois sabia bem o quanto isso agradava aquele monstro), ela pode ver que o velho havia ficado quase tão jovem quanto Nemuru.
Bara caiu sentada assim que ele lhe desencostou a mão. Deixando-a sozinha, sorrindo de orelha a orelha, e sem dizer uma palavra.
Ela sentira (de forma muito mais lenta e delicada) aquilo que seu amor havia sentido por anos! Todos os dias...
Precisava dar um jeito de sair de lá. Mas como? Nem se aproximar da janela ela conseguia!
Passou-se um tempo. Ela estava quase cochilando quando ouviu o metal na porta outra vez. Bara acabou por ficar desperta na hora, tirando forças de sabe-se lá onde para ficar de pé. E quando a porta se abriu...
– Está... tudo bem... com você? Alteza.
– Kimbe? – era ele, e se aproxima de Bara com uma nova bandeja de comida e mancando – O que te aconteceu? Você foi mesmo ameaçado quando fez aquilo, não foi?
Kimbe suspirou pesadamente antes de responder.
– O mestre me ameaçou de virar comida do Askherone se eu “falhasse” mais uma vez em entrar nos sonhos do príncipe Nemuru. Estou mancando assim por causa da punição que recebi por o ter enganado por todo esse tempo.
– E... Qual, foi o castigo que ele lhe deu? – perguntou Bara da forma mais delicada que conseguia e recebendo a comida.
– Trinta chibatadas. Com pontas de ferro em brasa.
– Mas que horror!! – Bara quase perdia o apetite.
– Realmente. Eu pensei que, como ele havia descoberto que lhe enganava sobre nossos encontros, ele me entregaria sem pensar duas vezes para o Askherone. Mas descobri-la, uma Filha do Luar, o fez ser brando comigo.
– Se isso é ser brando, não quero nem imaginar o que ele faz quando é ruim. – declarou Bara provando da comida.
Um risinho escapou de Kimbe. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos.
– Perdoe-me mais uma vez. – pedia Kimbe quase sem voz.
– Só estou aqui graças a você, não é mesmo? Bem que você poderia me ajudar a encontrar uma forma de escapar... – falava Bara encarando a janela, e fazendo o homenzinho engolir seco.
– Eu... Eu não sei bem, como poderia estar fazendo isso. Não... Não conheço todas as suas capacidades. E nem é seguro que as revele! O mestre é capaz de aparecer em qualquer momento.
– Tudo de que eu precisaria era um pouco de luar...
– É só do que precisa? Só isso mesmo?
– Sou uma Filha do Luar, não?
– Se for somente isso mesmo... – Kimbe começava a matutar – Talvez... Possa haver uma maneira.
– Que maneira? – Bara se interessava.
– Na próxima vez que o mestre vier vê-la, é provável que ele a questione sobre sua satisfação aqui e... Se vossa alteza puder fazê-lo acreditar que ficar sem ver a luz da lua, lhe é uma coisa boa. É possível que ele a deixe ter isso apenas para que sofra!
– Mas Kimbe... Eu nunca menti antes, quero disser, não totalmente, e se eu não conseguir o enganar?...
– Me diga princesa, após você fizer o que for que deseja, ao se deparar que ainda estaria aqui. Pressa. Vossa alteza ficaria feliz ou triste?
– Triste, não é mesmo...
– Pois então! Tenha isso em mente quando fizer o pedido! E... Como eu fui incumbido de garantir que a senhorita seja mantida forte e saudável, posso... Posso tentar ajuda-la no que puder...
– Obrigada Kimbe. – Bara agradecia de coração – Sabe... me dizer... quantos humanos existem aqui?
– Tirando nós dois?! – Bara assentia – Apenas o mestre... Se é que ele pode ser chamado de Humano. – um riso escapou de Bara – Posso lhe dizer com toda a certeza, este, é o cômodo mais seguro a se encontrar dentro dessas galerias vulcânicas.
– Mas ainda é um pouco desconfortável... – declarava Bara.
Os dois riram e continuaram conversando baixo enquanto Bara comia a refeição.
– Me diga Kimbe, o quão longe estamos de Heiwa?
– Oh princesa... Com um dragão negro, a mais poderosa raça dragônica, no máximo se gasta umas duas ou três horas para se chegar. Mas, para fazer o caminho a pé... No mínimo! Gastam-se de quatro a cinco dias...
– Compreendo. Estou realmente presa aqui.
– Eu lamento muito mesmo princesa...
Kimbe, apesar do que tinha feito, era um consolo para Bara naquele lugar. E se as coisas que ele lhe contava estivessem corretas... Ele seria todo o suporte de que Bara precisaria.
– Kimbe!
– Diga princesa!
– Você se importa se eu...
– Sim?
Bara respirou fundo.
– Eu posso ver... como é que estão... as suas costas?
– O... – Kimbe cobriu rápido a boca devido a surpresa do pedido – Mostrar-lhe as minhas costas?! Princesa... Não lhe será uma visão agradável... E nem é nas cicatrizes que penso ao dizer-lhe isso!
– Por favor! Se eu não tivesse tido o seu nome, provavelmente, não teria sido chicoteado.
Kimbe ainda não queria atender-lhe o pedido, mas a forma com que Bara lhe olhava acabou o convencendo a deixa-la ver.
– Apenas... Apenas... Tente não comentar nada. Eu mesmo não me aguento olhar no espelho depois que assumi essa forma.
– Está bem Kimbe. – prometia Bara.
Ainda com um pouco de receio, e até mesmo um pouco sem jeito, Kimbe começou a retirar o manto que escondia seu corpo. Bara precisou morder a língua para se manter calada. Era quase impossível acreditar que aquele pequeno ser já havia sido um humano comum antes! Sua pele, toda enrugada e carocenta, não tinha uma cor natural, era algo entre o verde e o cinza. O corpo fino, mostrava claramente os seus ossos e quanto às cicatrizes? Foi impossível Bara impedir as lágrimas de caírem diante daquelas centenas de riscas na pele deformada dele.
Kimbe, que ficou de costas para ela, por não querer ver sua reação diante de uma visão tão horrível que era ele, ainda conseguiu ouvi-la chorando. Assustou-se quando Bara havia lhe tocado as costas, mas fez o possível para se manter parado. Diferente do que ele esperava, o toque da princesa em sua pele era agradável, como se ela lhe passasse um balsamo com as pontas dos dedos. Contrariando o ardor que até mesmo sua roupa lhe causava nos ferimentos.
Apesar do acidente ter lhe dado aquela forma lastimável, um beneficio ele obteve. Seus sentidos como a visão e a audição por exemplo, haviam ficado muito mais sensíveis, por isso, ao reconhecer os passos de seu mestre apresou-se a vestir o manto.
– O mestre está vindo.
– Como sabe?
– Não há tempo para explicar agora. Lembre-se do que eu disse para conseguir o que deseja!
– Eu... Eu vou tentar.
– Ótimo. Agora se prepare porque ele está quase aqui.
Foi o tempo de Kimbe terminar de se ajeitar. Ele mal se posicionara e a porta foi aberta bruscamente.
– Mas vejam! Pareces mais animada princesa. – era Dark Yami, velho outra vez.
– Se venho repetir a dose, não sei se seria seguro. – declarou Bara assumindo a indiferença.
– Oh não, não, não, não minha cara... Eu lhe dizes que não cometerias os mesmos erros com a donzela...
– Então está aqui para quê. – terminava ela a refeição e devolvendo a bandeja ao Kimbe.
– Apenas desejavas vê-la. Gostastes de teus aposentos? – perguntava ele assim como Kimbe dissera que poderia ocorrer. Bara tentava seguir o plano de seu amiguinho.
– Não é dos mais confortáveis, mas me tranquiliza de certa forma.
– Que quereis dizer?!
– Não dá para ver o céu. E se eu não puder vê-lo, também não poderei ver a lua.
– E o que tens a lua com tudo isso?...
Bara lhe deus as costas dando um longo suspiro. Demorando-se na resposta que só cochichou alto o bastante para que ele pudesse ouvir.
– Ela... Me faz pensar, naqueles que amo...
– Oh!... És realmente interessante. – Bara percebia pela voz que ele sorria – Então, se eu fizer-tes isto...
O mago se aproximou um pouco da janela e recitou algo que Bara reconheceu como algum tipo de encantamento. E logo depois de citado, os ventos que passavam fortes por ali foram se acalmando. E instantes depois, a luz do sol atravessava a janela fornecendo uma claridade maior e melhor da que era oferecida pela lava.
Bara ficou boquiaberta, e virou as costas para o mago antes que não lhe fosse possível esconder o sorriso (do qual Kimbe compartilhava escondido em seu capuz) e chamando-o de monstro sem se preocupar em conter as lágrimas.
– Mas horas princesa... Não te sintas tããão sozinha... Esse mentecapto que conquistou tua amizade, lhe faras companhia em cada refeição tua.
– Não quero a companhia desse traidor. – falava Bara assim como havia sido orientada.
– Pois tereis de aceitar-tes! As alternativas não me são muitos confiáveis... E nem lhe serias seguras...
– Dá para me deixar sozinha?! – declarou ela antes que não conseguisse mais enganar aquele ser.
– Se assim desejais... O sol não conseguiras acabar com o gelo que a garante aqui dentro, e logo os ventos que o mantem sólido retornarão, mas a noite serás bem clara e visível para tu. Visitá-la-ei amanhã novamente, após desjejuares.
– Suma de uma vez... – sussurrou ela o mais baixo e convincente possível.
– Como a princesa desejares... – a reverenciava Dark Yami – Andais logo teu parvo! – ordenava ele ao Kimbe lhe chutando – Ouvistes a donzela! Ela desejas ficar sozinha...
E saíram os dois do quarto, com Bara sentindo um nó no coração por Kimbe.
“Aguente princesa.” – Bara dizia para si mesma – “Aguente da mesma forma com que Kimbe o aguenta todos os dias, e você não só vai conseguir escapar desse lugar, como também poderá por um fim definitivo nos planos dele.”
O casal observava o crepúsculo da janela da torre.– O tempo voou, não é mesmo?... – Bara se recostava no marido.– Realmente. – ele a recolhia – Nem acredito que já faz um mês que você assumiu o lugar de seu pai. E nem no tanto que ele conseguiu viver! Não são muitos os que alcançam os 70 anos atualmente.– Isso só foi possível por minha causa e de Tsuki. Se minha mãe não tivesse sido impedida de me criar, meu pai teria vivido muito mais...– Teria gostado de conhecer minha sogra. A mulher que gerou o mais precioso tesouro de minha vida. – ele lhe roubava um selinho.– Você é sempre um doce. Acha que nossos filhos já superaram a perda do avô? Meu pai foi muito coruja com eles...– Os gêmeos já fizeram 15 anos, a Reinheit está quase fazendo 13 e o Ad
A resposta de Bara foi agraciada com uma imensa e calorosa salva de palmas (se bem que os seus ex-pretendentes pareciam que perderiam os braços de tão sem vontade que aplaudiam), e o sorriso de Nemuru pela resposta de sua amada ia de orelha a orelha.Askherone criou com suas chamas azuladas a figura de um grande coração para cima. Um dos muitos truques que ele desenvolvera com a ajuda de Kimbe, do qual ficara mais amigo, para deslumbrar as tantas crianças que apareciam para brincar com a princesa no castelo. Impressionando os nobres e deixando o ambiente ainda mais formidável.– Senhores! – Mahotsukai tomava a atenção – Vocês não imaginam a alegria que sinto nesse momento. Há entre vocês alguns jovens que me procuraram para fazer esse mesmo pedido à minha filha, mas... Eu pude testemunhar por mim mesmo, tudo o que lhes faltava para que eu lhe cons
As semanas correram, e Dark Yami já se tornou um sonho ruim do passado. Os Montes Korionenshõ se tornaram muito mais brandos com suas nevascas, permitindo a travessia semi-segura deles, pois ainda possuíam seus riscos naturais. E todos os reinos receberam o convite de uma grande festa em Kyuden que pretendia pronunciar uma grande noticia especial.Não foram poucos os curiosos para a tal revelação.Bara partiu com o pai, Acnarepse, Kimbe e Askherone uma semana antes para ajudarem na preparação da noticia, pois o plano era de apresentar Nemuru (acompanhado de Bara) a todos os presentes somente depois da revelação da verdade.– Ainda acho que iria ser mais interessante se eu me revelasse saindo do meio de todos eles do que de um “esconderijo”. – reclamava Nemuru em seu novo quarto.– Do jeito que você fala, até parece que aguardar do meu lado &eac
Passou-se alguns dias. Kimbe ajudou a limpar as cavernas vulcânicas de todos os seres sombrios e também a esvazia-los de tudo. Gemas, mantimentos, equipamentos, tudo foi divido por igual entre os quatro Reis.Esvaziada e limpas as montanhas de Korionenshõ, Mahotsukai convidou Kimbe a viver em Heiwa como um de seus servos, pois, apesar dele ter servido ao seu pior inimigo, reconheceu nele uma preciosa fonte de conhecimento de defesa contra as artes das trevas.De início, Kimbe se sentiu receoso em aceitar tão maravilhosa oferta (pois já se imaginava voltando a mendigar pelos becos sombrios), mas Bara e Nemuru o convenceu a aceitar. Até Askherone se mostrou mais amigável com ele!Sobre Askherone, muitos foram os que se assustaram com o dragão ao vê-lo de imediato. Acnarepse quase desmaiou ao ver o lagarto gigante caminhando lado-a-lado de sua menina! Mas aos poucos, não só Askherone
Assim que Nemuru percebeu que a razão de Askherone ter criado barreiras de chamas em todas as saídas era para impedir que Dark Yami fugisse, saltou do lugar em que estava, com Candra na mão.“De jeito nenhum que esse demônio escapará outra vez!” – pensava ele enquanto se recordava da maneira que o mago costumava abandonar o seu mundo de sonhos, sempre que aparecia.Enquanto aqueles que não estavam responsáveis pelo vórtice se desnorteavam com as chamas de Askherone, Nemuru correu em direção ao mago que citava alguma coisa que o príncipe sabia que ele não podia terminar em hipótese alguma.Seja o que fosse que Dark Yami fazia, de olhos fechados, uma espécie de névoa negra se formava ao seu redor. E essa névoa que o cercava, era facilmente repelida pela Candra.Nemuru, usando cada gota de força que conseguira recup
A situação de Nemuru era complicada. Dark Yami se mostrava um adversário tão implacável quanto a sua mãe! E ainda tinha o extra que ele suportara com os espectros antes de encarar aquela batalha.– Pirralho desprezível, inconveniente, tolo e inútil! Fareis com que te arrependas de colocastes os pés nestas passagens! – ameaçava o mago enquanto o atacava.– Acredite peste, se não tivesse colocado as patas em Bara, nem em pesadelo que eu me aproximava daqui! – declarou Nemuru se defendendo e atacando como podia.– Ínfimo! Lhe dareis a lição de tua vida! Vou acorrentardes e o torturares pelo resto de tua miserável vida! E tudo bem diante dos olhos de tua querida princesinha...– Não permitirei isso nem mesmo sob o meu cadáver. – declarou o príncipe ganhando um novo estimulo com a ameaça.