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45. Grito

Author: Tsuki-Hime
last update publish date: 2021-11-05 22:25:55

Quando Kimbe apareceu com o café da manhã, Bara ainda não havia despertado.

– Princesa? Princesa Bara? Passou a noite em claro outra vez? – chamava Kimbe.

 – Já é de manhã? – se erguia Bara com dificuldades em despertar bem.

– O que aprontou dessa vez durante a noite?

– Te dou minha palavra, Kimbe. Eu não fiz nada demais dessa vez. Apenas me encontrei um pouquinho com Nemuru e fui dormir. Não entendo o porquê de eu ainda estar sonolenta.

– Seja qual for o motivo, está na hora da refeição. E há algo de estranho acontecendo neste lugar.

– Estranho? Como assim? – Bara tomava sua bebida.

– O mestre ordenou aos espectros que velassem cada entrada importante do abrigo, e não deu qualquer explicação do porque e... Acho que é hoje que os zumbis remanescentes retornam.

– Err... O quão mesmo que um espectro pode ser poderoso?

– Comparando apenas sua força física, um espectro se assemelha a 50 homens comuns, mas se somarmos sua força mística o valor dobra.

– Cem homens em um só ser?! Espero que não se encontrem com nenhum...

– Perdão?

– Nemuru e meu pai, junto dos outros já se encaminham para dentro desse lugar. Não ficaria surpresa se estivessem faltando algumas criaturas a essa hora...

– Sério?! Tentarei ficar mais atento então. Não quero acabar confundido com os seres daqui!

– E também não seria boa ideia se o meu anfitrião desconfiasse de alguma coisa.

Os dois riram de leve, mas, assim que Kimbe reconheceu os passos de Dark Yami, afastou-se de Bara lhe fazendo sinal de silêncio. Quase que Bara não conseguia desfazer o sorriso antes do mago abrir a porta com tudo.

– Como vais vossa alteza?... – ele sorria.

– Dentro do possível. – respondeu Bara com indiferença.

– Sabes... Andei a refletir e... Creio que sejas melhor trocar os teus aposentos.

– Como é? – tanto Bara quanto Kimbe ficaram surpresos e confusos.

– Sim! Tuas forças oscilam muito neste ambiente, então... Passei a noite à procuras de um aposento melhor para ti. E Askherone lhe farás companhia! Pareces que ele gostou bastante da senhorita.

Bara sentiu como se sua alma gelasse. Ser levada para sei lá onde e colocada sob a custódia de um dragão negro justo quando ela estava prestes a ser tirada dali?!

– Por mais desconfortável que este lugar possa ser, não creio que tenha alguma relação com as forças que você rouba de mim. – declarou Bara com a esperança de continuar naquele lugar.

– Podes até estar certa. Mas façamos os testes. – falava o mago sem deixar de sorrir – Se mesmo ao mudares de quarto, continuares com esta oscilação, retorno-a para cá! Já que pareces bem acostumada aqui.

– Ainda não vejo necessidades. E em que sentido seu dragão parece gostar de mim?

– Ora donzela... Askherone pareceis apreciar tua companhia. Nunca o vi tão à vontade quanto na vez em que ele lhe fizestes cortejo em teu banho.

Bara se sentia sem saída – “Já que não posso fazê-lo desistir, talvez consiga adiar.” – pensava consigo ela.

– E quando exatamente pretende me mudar de lugar.

– Assim que acabares o dejejum.

– O quê!?! – Bara tinha dificuldades em esconder seu desespero – Assim que eu terminar de comer?! O que está realmente planejando fazer comigo?

Ah, se soubestes o que sei...” – pensava Dark Yami se deliciando com aquele pânico que vislumbrava da princesa.

– Só a quero segura e saudável. E também... Podereis conhecer alguns de meus lacaios no caminho, deixando até eles cientes que tu me és muito importantes.

– Não me sinto inclinada a aquiescer tua decisão. – declarou Bara fazendo o possível para não deixar as lágrimas se formarem.

– Não te preocupes... Se o que tens sois medo do que meus servos possam lhe querer fazer no caminho, Askherone os ensinarás! E ele já a aguardas lá fora. Se bem que... Ele já não gostas tanto desse pequeno tolo aqui...

Bara se sentia cada vez mais encurralada. Nem com Kimbe ela poderia contar?! Ao menos existiria alguma fresta em que ela poderia avistar a lua?

– Não tem mesmo como deixar essa mudança para outro dia? Por alguma razão, eu não consegui descansar muito bem essa noite... – tentava Bara uma última vez.

– Eu ou Askherone podemos lhe ceder apoio durante o percurso. Agora... Acabes logo com a comida. Tenho muito que fazer e tu estais a enrolar-me.

Definitivamente não tinha jeito. Bara, apesar de estar com o coração apertado, terminou sua refeição e recolheu as coisas que ela podia chamar de suas daquele lugar, e acompanhou o perverso.

Askherone, que estava no corredor, realmente pareceu animar-se ao ver a princesa. Ao ponto de até mesmo acaricia-la com a cabeça. Diante desse afeto, Bara preferiu ficar mais perto do dragão do quê de seu mestre.

 “Por favor, Selena.” – rezava ela durante o caminho – “Se não houver meios de eu ou o Kimbe alertar os outros sobre essa mudança, faça-o por nós! Eu lhe suplico...

Sempre que via uma daquelas criaturas sombrias se aproximar dela no caminho, o dragão lançava um olhar ameaçador para os mesmos, fazendo-os se afastarem. E todos os curiosos recebiam broncas do mago que deixava bem claro que não queria nenhum deles encostando em um só fio de cabelo que fosse de Bara.

Quando eles finalmente chegaram ao cômodo desejado, Bara supôs que aquele lugar fosse a Sala de Tesouros do esconderijo, pois ele estava repleto de gemas e itens de aparente alto valor.

– Sois aqui que ficarás.

– Passei a ser algum tipo de joia? – falava Bara ainda observando o lugar – Pois este lugar não tem a aparência de um quarto.

– De fato sois uma joia preciosa para mim, Filha do Luar. Mas podereis encontrar tudo o que precisares aqui dentro: cama, roupas, distrações, viveres, tudo! Askherone sereis teu guarda e tua companhia. Eu ei de ser a tua única visita enquanto estiveres aqui. – Bara fazia de tudo para que aquele homem não visse o seu pavor diante de todo aquele pesadelo – Tenhas uma boa estadia. – despediu-se ele deixando-a trancada com o dragão.

Kimbe estava desorientado. Assistiu o deixar de Bara daquele cômodo e levou a bandeja usada de volta para a cozinha sem saber direito o que fazer para continuar se encontrando com ela.

Askherone nunca gostou de ninguém além de Dark Yami, quem ele via como um pai, então se Kimbe tentasse se aproximar desacompanhado do mestre, as chances de ser esquartejado ou convertido em cinzas eram bem altas!

E mais importante. Ele tinha que encontrar algum meio de avisar o príncipe e os que o acompanhavam daquela mudança inesperada.

Será que o mestre começou a desconfiar de alguma coisa, por isso tomou essas decisões?” – meditava ele enquanto seguia o curso de seus afazeres.

Ele trafegava por um dos corredores que poucos utilizavam, refletindo, quando sentiu um par de mãos lhe tampando a boca e o agarrando para trás de passagem (até onde ele sabia) nunca utilizada.

O pânico que o homenzinho sentiu naquele momento só não lhe separou a alma do corpo porque ele reconheceu a pessoa que lhe tinha agarrado.

– Alteza?! Não acredito que já esteja aqui! Mas não poderia ter me poupado do susto não?

– Foi mau aí Kimbe. – falava Nemuru de forma divertida (com uma parte dos que o acompanhava sem entender o “alteza”) – Não podíamos arriscar que você acabasse nos denunciando sem querer. Como está Bara?

– Não tenho como dizer com certeza... Dark Yami decidiu de repente que mudaria o alojamento da princesa.

– Como!? – falaram quase todos juntos.

Kimbe começou a repassar as mudanças inesperadas, e também o motivo de não ter acompanhado a princesa até suas novas acomodações.

– Se não fosse por Askherone, eu teria arranjado qualquer desculpa plausível para acompanha-los e assim saber onde ela está agora.

– Não se preocupe Kimbe, ainda existe uma forma de sabermos onde ela está. – consolava-o Nemuru.

– Mas ainda não muda os fatos de seus planos podem ter sido consideravelmente afetados. Chegaram a se encontrar com algum dos “nossos” em algum momento?

– Durante o caminho para cá, nos deparamos com umas quinze criaturas. – comentava um soldado.

– Mas todos foram eliminados no mesmo instante que a espada de Nemuru os tocou. Porque se referiu ao rapaz como alteza? – perguntava outro soldado ao concluir o relato.

– Eles não sabem quem você é de fato?! – Kimbe estava espantado.

– Errr... Quase ninguém sabe. – se explicava Nemuru – E de quem sou filho não é o que realmente nos importa nesse momento. – encerrava ele o assunto.

– Podes até ter razão, mas ainda não deixa de ser uma surpresa. O que exatamente vocês encontraram e o que foi que a Candra fez com cada um deles?

O grupo descreveu para Kimbe, cada uma das criaturas que eliminaram. Detalhando a reação diferente que cada tipo teve com o toque da espada.

– Já o último,... – concluía Nemuru – ...que parecia algum tipo de elfo distorcido...

– Provavelmente um goblin. – sugeria Kimbe.

– Talvez. Ele petrificou e rachou, desmanchando algumas partes do corpo.

– Ao que pude entender, a espada é capaz de purificar qualquer ser pertencente às trevas da forma mais eficaz para cada tipo... – cogitava Kimbe – Se importa se efetuarmos um pequeno teste?

– Que tipo de teste, carinha? – perguntava um dos guardas.

– Estamos bem próximos de uma das entradas veladas pelos espectros. E eu queria saber o quão eficaz essa espada consegue ser com eles. Desejas tentar my lord?

– Um espectro?! – se assustava um dos místicos do grupo – Assim tão perto?! Que tem na cabeça para encarar um sem causar a nossa entrega?

Kimbe acabou por soltar um suspiro.

– Tem ideia de há quantos anos eu vivo me esquivando desses seres? O que não me falta são artimanhas para passar por cada uma das assombrações que habita aqui e continuar vivo! – declarava Kimbe – Mas é o portador da espada quem deve decidir se aceita ou não fazer o que desejo.

– Diz aí o que devo fazer Kimbe. – Nemuru estava determinado – Já me foi explicado que as nossas maiores ameaças neste lugar são os dragões e os espectros. E se há a chance de nos livrarmos de um, que o façamos.

– Muito bem alteza. Ouça bem o que faremos.

Kimbe explicou o estratagema com detalhes. Era um plano simples, mas ainda arriscado. Quando prontos, Kimbe começou a ir até a entrada guardada arrastando um grande “embrulho”.

O espectro avistou Kimbe que se “matava” para conseguir carregar seja lá o que fosse, mas se manteve em seu posto.

– Ei você! – Kimbe lhe chamava a atenção – Tem como me ajudar a levar isso até lá fora? E uma ordem que o mestre disse ser de urgência, e nenhum dos ogros estavam disponíveis para me ajudar. Ou vai me dizer que você é mais fraco que aqueles sem cérebro?!

Espectros são criaturas perversas, mas também orgulhosas. Ter suas capacidades questionadas era um risco para quem o fazia. Se não fosse o detalhe de Kimbe ter tido que aquilo era uma ordem especial de seu senhor, teria esquartejado o pequenino em um piscar de olhos.

Para provar sua capacidade, ele se aproximou para ajudar. Mas... antes que tivesse erguido o embrulho do chão... Candra lhe atravessava o centro do peito.

A criatura soltou uma espécie de berro extremamente alto. Que pode ser ouvido por todos do esconderijo e por alguns que estavam nas proximidades do abrigo.

As criaturas que trabalhavam, ficaram travados (de pavor) por alguns instantes; os dragões e as bestas ficaram em alerta sem se moverem; Bara encolheu-se assustada; Dark Yami (que não havia chegado a testemunhar nenhuma das mortes dos espectros que tivera antes) não soube reconhecer o significado daquilo; os demais combatentes reagiram ou como Bara ou como os dragões; e apenas os próprios espectros mantiveram a calma ao confirmarem a libertação de um deles.

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