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8. Armando-se

Author: Tsuki-Hime
last update publish date: 2021-09-15 03:31:44

Mais uma vez Bara se encontrava no jardim de Nemuru. Ela o avistou encolhido, sentado na grama com os olhos fixos no chão, ao lado de uma fonte pequena bem entre as flores.

Ao perceber Bara se aproximando em silêncio, Nemuru se manteve observando o gramado próximo de seus pés. Quando ela sentou ao seu lado, começou a falar sem lhe dirigir o olhar:

– Andei pensando Bara... Refletindo o que minha mãe e eu passamos por conta daquele... monstro! E resolvi aceitar a sua ajuda.

– Mesmo Nemuru. – havia ânimo na voz de Bara, que o observava desde o primeiro instante que o viu.

– Sim. – respondeu ele fechando os olhos. Ele respirou fundo e começou a focar no horizonte – Já faz tantos anos que Dark Yami fica se alimentando de mim que nem me faz muita diferença, mas... pra minha mãe...

– Se alimentando de você? Como assim?

– É. Toda noite ele vem em meus sonhos e absorve uma boa parte de minha energia vital, incapacitando-me de acordar e recuperando a própria juventude por um tempo ao que parece.

– Entendi... Ele age como uma espécie de parasita, não é isso?

– Exatamente. E é por isso que nunca acordo.

– Espera. – Bara intrigou-se – Que quis dizer com nunca acorda?

Nemuru soltou um suspiro forte e continuou.

– Agora você me vê desperto, não é verdade?

– Sim, mas, estamos em um sonho.

– Precisamente. E por conta da falta da energia que Dark Yami rouba de mim, eu não acordo!

– Em momento algum?!

– É, em momento algum... BARA! O que aconteceu com você?!?! – gritou Nemuru do nada, quase caindo para trás ao finalmente olhar para Bara.

– Como assim Nemuru?! – perguntou ela assustada com a reação dele, se erguendo do chão e ainda olhando só para ele.

– Você está transparente!!

Bara olhou para as próprias mãos ao ouvir estas palavras e viu que realmente estava transparente. Surpreendeu-se de início, mas logo recordou da Transição do Luar e que é uma Filha do Luar, apenas soltou um suspiro em meio a um sorriso, pensando em voz alta.

– É normal.

– Que quer dizer com normal? – questionou Nemuru ainda sem entender.

 – Bom, é que...

Bara foi interrompida pela chegada das nuvens negras de tempestade e correu para esconder-se.

– Explico-lhe daqui a pouco!

Após esconder-se, no que Nemuru olhou para trás, o raio que sempre trazia Dark Yami o derrubou de costas no chão.

– Boa noite meu jovem príncipe. – falou o velho cruel.

– Estava boa até você se anunciar. – respondeu Nemuru irritado com a presença do mago enquanto se ajeitava da queda.

– Hum-hum-hum-hum, vejo que a tua língua ainda não perdeste o fio. – riu Dark Yami maliciosamente.

– Termine logo com isso! – reclamou Nemuru cada vez mais incomodado.

– Então vamo-nos... – disse ele erguendo o braço e começando a drenar a energia de Nemuru enquanto sorria.

Terminado o processo, com Nemuru caído no chão feito um saco de batatas, fechou devagar a mão antes erguida observando o próprio rejuvenescimento de sua pele enquanto dizia:

– Muito agradecido, até o nosso encontro de amanhã. Digas um olá a tua mãe por mim... Se o puderes. – e desapareceu em forma de fumaça dando uma risada.

Ao ver que Dark Yami finalmente havia ido embora, Bara aproximou-se de Nemuru.

– Ele nunca lhe dá um dia de folga?

– Quem dera... ele o fizesse... Bara.

Bara chegou mais perto para poder ajudar a Nemuru a ficar um pouco mais confortável. Mas, quando tentou tocá-lo, simplesmente o atravessou como um fantasma, assustando-se. Nemuru percebeu sua reação.

– O... que foi,... Bara?

– Não, não foi nada não. – Bara ainda tentava entender tudo sobre suas reais habilidades – Amanhã eu volto e conversamos melhor.

– Está bem. Até... amanhã ... à noite. – disse Nemuru terminando de se ajeitar e “perdendo a consciência” logo em seguida.

O jardim em volta deles aos poucos terminava de se desfalecer e desaparecer. Bara observando aquilo junto a sua própria transparência desejou voltar para casa, acordando.

A Rainha Jõo que ficara outra vez de vigília em segredo do filho, novamente só percebeu reações até o momento que Dark Yami atacou.

“Meu filho, queria tanto saber com o quê sonha...” – pensou a Rainha, caindo no sono ao lado de Nemuru em seguida.

Quando o sol surgiu novamente em Heiwa, Bara já havia lido mais da metade de seu guia. Ela queria descobrir se alguma de suas antecedentes tinha passado por uma situação semelhante e assim, achar mais fácil uma forma de ajudar Nemuru. Ela só interrompeu sua leitura quando lhe bateram à porta (que tinha uma grande caixa a bloqueando).

– Bara! Deixe-me entrar menina!

– Já vai Ac! – respondeu ela guardando o guia na shiruku e removendo a caixa o mais rápido que podia.

– Entre, Ac.

– Porque bloqueou a porta, Bara?

– Ah Ac, nem percebi que eu a tinha bloqueado. – Bara disfarçava o melhor que podia.

– Está me escondendo algo menina. – disse Acnarepse cruzando os braços nervosamente.

– Imagina Ac. Porque eu esconderia algo da senhora? – Bara começou a arrumar a cama para evitar de olhar nos olhos de sua ama (pois era assim que ela descobria a verdade) e para colocar a shiruku sobre o corpo disfarçadamente.

– Eu não sei! Talvez... por estar se envolvendo com algo perigoso demais para arriscar a segurança dos outros.

– Para Ac. – foi a chance para por a bolsa. – Porque é que eu me envolveria em algo perigoso?

– Porque lhe conheço! – prosseguiu Acnarepse – Seu coração é bondoso demais! E não seria a primeira vez que você se arrisca por alguém necessitado; lembra do rio, quando fomos colher ervas medicinais com um grupo de mulheres? Sinceramente, não sei por que seu pai lhe permite certas loucuras.

– Credo Acnarepse. Assim você me faz parecer uma louca irresponsável. – disse Bara meio ressentida, sentando-se na cama ainda por arrumar.

– Não foi isso que eu quis dizer, minha querida. – continuou Acnarepse sentando-se ao lado de Bara e com tom mais suave – O que eu quero dizer, é que você sempre pode confiar em mim para ajudá-la... – depois mudou para um tom repreensivo – E em todas as vezes que você me escondeu os seus planos, alguma coisa aconteceu.

Elas se olharam e, em silêncio, se abraçaram.

Após se vestir, tomar o desjejum e “escapar” de Acnarepse, Bara escondeu-se no labirinto de cercas-vivas do jardim para terminar de ler o seu guia. Mas, infelizmente ela só descobriu formas de obter informações diretas da fonte, direto de Dark Yami.

Ela descobriu que a partir da terceira noite minguante até a sexta noite nova (em que havia luar) ela ficaria invisível e às vezes inaudível, com o enfraquecer da Transição. Uma forma de permanecer ao lado de Nemuru sem ser notada pelo mago. Enquanto só ficava totalmente materializada (e capaz de trocar, receber ou entregar itens) entre a quarta noite crescente e a quinta cheia. Nas noites restantes, ela era apenas uma “fantasma” no mundo dos sonhos.

Chegada a noite mais uma vez, Bara se deitou no momento em que viu a lua, pois queria tempo para contar tudo ao Nemuru antes que Dark Yami chegasse.

– Então é por isso que está assim, toda transparente como um fantasma? Bara, Filha do Luar. – falou Nemuru ao terminar de ouvir toda a história.

– Exatamente Nemuru. E com essas “armas” na mão, nós dois, não só encontraremos um ponto fraco de Dark Yami, como também te livraremos de vez desta condição!

– Hum... Eu não sei. E se ele estranhar as perguntas?

– É só você perguntar aos poucos! E se ele desconfiar... Diga que você resolveu tentar entendê-lo um pouco. Depois de tantos anos...

– Pode até ser. E se mesmo assim ele não acreditar?

– Nemuru, você quer que ele continue sendo o seu parasita? – Bara estava ficando sem paciência com o pessimismo de Nemuru.

– Mas é claro que não! – disse ele bravo se erguendo – Eu só me preocupo com você. – prosseguiu calmo e meio tímido, sentando-se novamente.

 – Ah Nemuru... você é um anjo! Mas não se preocupe, sei que dará tudo certo. – Bara tentava animá-lo.

– Tomara.

Nemuru tentou sobrepor sua mão sobre a de Bara, mas apenas a atravessou. Eles ficaram em silêncio se olhando nos olhos, sem perceberem que a mão de Nemuru que atravessava a de Bara brilhava levemente.

Eles se mantiveram assim até o anúncio da chegada de Dark Yami que assustou à ambos. Bara se escondeu já que ainda estava visível, deixando Nemuru a sós com Dark Yami. Acabada a cruel cena cotidiana e tendo o mago partido, Bara correu pra junto de Nemuru e manteve-se ao seu lado até ele desmaiar, despertando em seguida.

Bara precisou aguardar mais três noites para tornar-se invisível. Durante a espera, ela e Nemuru combinavam entre si quando e quais perguntas seriam feitas ao mago, tudo de forma que desse o mais certo possível.

Toda vez que Nemuru “apoiava” suas mãos sobre as de Bara, ou vice-versa, a mão de Nemuru emitia um suave brilho e, aos poucos, eles ficavam cada vez mais próximos um do outro.

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