LOGINUmberto entrou em casa naquela noite completamente transtornado.
Assim que passou pela porta, fechou-a atrás de si e permaneceu alguns segundos parado no hall. As palavras de Emilyke continuavam ecoando em sua mente. “É pelo nosso filho.” Ele passou a mão pelos cabelos e caminhou até a sala. Não conseguia entender. Depois de tudo o que havia acontecido, depois de descobrir a traição, depois de ver as fotografias e perceber que havia sido enganado por duas das pessoas em quem mais confiava, Emilyke aparecia diante de sua casa com uma notícia daquela. Um filho. Umberto caminhou de um lado para o outro. — Não pode ser... Sentou-se no sofá, mas não conseguiu permanecer ali por muito tempo. Levantou-se novamente. Foi até a janela. Depois voltou para a sala. Sua mente estava inquieta. Ele se perguntava se havia alguma possibilidade de Emilyke estar dizendo a verdade. Ao mesmo tempo, lembrava-se de tudo o que havia descoberto. Vito. As fotografias. As mentiras. Aquela vida dupla. Umberto fechou os olhos. — Não. Não queria acreditar. Não queria sequer considerar aquela possibilidade. Foi até o bar e pegou uma garrafa. Serviu uma dose. Bebeu rapidamente. Depois outra. E mais uma. A cada gole, tentava silenciar os pensamentos que não paravam de surgir. Naquela noite, não havia documentos sobre a mesa, reuniões, telefonemas ou qualquer assunto relacionado à empresa que pudesse ocupar sua mente. Havia apenas uma pergunta. E se Emilyke estivesse dizendo a verdade? Umberto voltou a servir a bebida. O tempo passou sem que ele percebesse. A casa permaneceu silenciosa enquanto ele continuava sentado, perdido em seus próprios pensamentos. Em algum momento, perdeu completamente a noção de quanto havia bebido. Sentiu o corpo pesado. A visão ficou um pouco turva. Ele apoiou uma das mãos sobre o braço do sofá. — Eu não estou me sentindo bem... Tentou se levantar, mas precisou se apoiar na mesa. Seu coração parecia acelerado e uma forte sensação de mal-estar tomou conta de seu corpo. Respirou fundo. Deu alguns passos. Mas suas pernas falharam. Umberto caiu no chão. A garrafa que estava sobre a mesa tombou, espalhando parte da bebida pelo tapete. Ele tentou abrir os olhos, mas a visão ficou cada vez mais distante. Então tudo ficou escuro. --- Na manhã seguinte, os funcionários chegaram à residência como de costume. Uma das funcionárias estranhou o silêncio. Chamou por Umberto algumas vezes, mas não recebeu resposta. — Senhor Umberto? Nada. Ela caminhou pela casa até encontrar o empresário caído no chão da sala. Assustada, aproximou-se. — Meu Deus! Imediatamente chamou os outros funcionários. Poucos minutos depois, o serviço de emergência foi acionado. Umberto foi levado às pressas para o hospital. --- No hospital, os médicos e enfermeiros iniciaram os procedimentos necessários. Umberto estava desacordado e não havia ninguém da família presente. A equipe tentou encontrar algum contato familiar, mas não conseguiu localizar ninguém que pudesse comparecer imediatamente. Foi então que um dos profissionais verificou o celular do paciente em busca de um contato de emergência. Havia um nome registrado. Ludovica. O médico fez a ligação. --- Naquele momento, Ludovica estava na Doce Sonhos, organizando algumas encomendas. O telefone tocou. Ela limpou as mãos no avental e atendeu. — Alô? Do outro lado, uma voz profissional perguntou: — Boa tarde. Estou falando com a senhora Ludovica? — Sim. Quem está falando? — A senhora é mãe do senhor Umberto Zanobi? Ludovica franziu a testa. — Não. Quem está falando? — Meu nome é doutor Marcelo. Estou ligando do hospital municipal. Nós estamos com um paciente internado chamado Umberto Zanobi. Ludovica ficou imóvel. — Umberto? — Sim, senhora. Ela sentiu o coração apertar. — O que aconteceu com ele? — Ele foi encontrado desacordado em casa e trazido para cá. Neste momento, nossa equipe está cuidando dele. Ludovica segurou o telefone com mais força. — Mas ele está bem? O médico fez uma pequena pausa antes de responder. — Ele está recebendo atendimento. Precisamos que algum responsável ou pessoa próxima venha até o hospital. Ludovica olhou ao redor da confeitaria. — Eu posso ir. — A senhora é familiar? — Não. Mas conheço o senhor Umberto. E o meu nome está no contato de emergência dele? — Sim. É justamente por isso que estamos entrando em contato. Ludovica respirou fundo. — Eu vou imediatamente. Desligou o telefone e permaneceu alguns segundos parada. Seu rosto havia perdido completamente a tranquilidade. — O que aconteceu com você, Umberto? Sem perder mais tempo, Ludovica pegou sua bolsa. Precisava descobrir por que o homem que parecia sempre ter tudo sob controle havia sido encontrado sozinho, desacordado, dentro da própria casa. Constantine percebeu imediatamente a mudança no semblante da tia. Ludovica havia desligado o telefone, mas continuava parada, segurando o aparelho nas mãos. — Tia? — Constantine se aproximou. — O que aconteceu? Ludovica levantou os olhos. — Era do hospital. Constantine sentiu um aperto no peito. — Hospital? — O Umberto está internado. — O quê? Constantine aproximou-se ainda mais. — O que aconteceu com ele? — Disseram que ele foi encontrado desacordado em casa. Os funcionários o encontraram pela manhã e chamaram o socorro. Constantine ficou alguns segundos em silêncio, tentando assimilar a notícia. — Ele está bem? — Eu não sei. O médico disse apenas que ele está recebendo atendimento e que precisavam de alguém próximo a ele no hospital. Constantine não hesitou. — Então vamos. Ludovica a encarou. — Você vai comigo? — Claro que vou. Senhora não pode ir sozinha. As duas pegaram suas coisas e saíram rapidamente da Doce Sonhos. O hospital municipal estava movimentado quando elas chegaram. Ludovica aproximou-se da recepção e explicou que havia recebido uma ligação sobre Umberto Zanobi. Uma funcionária conferiu algumas informações no sistema. — A senhora é familiar do paciente? Ludovica negou com a cabeça. — Não. Nós conhecemos o senhor Umberto, mas não somos parentes. Constantine completou: — Nós temos contato com ele por causa de um projeto que estamos desenvolvendo na comunidade. A funcionária assentiu e pediu que aguardassem alguns instantes. Pouco depois, um médico aproximou-se. — A senhora Ludovica? — Sim. — E a senhora? — Constantine. O médico fez um breve cumprimento. — O senhor Umberto chegou desacordado durante a manhã. Os funcionários da residência acionaram o atendimento de emergência, e ele foi encaminhado para cá porque era o hospital público mais próximo. Ludovica ficou apreensiva. — Como ele está? — Ele está sendo acompanhado pela nossa equipe. No momento, está estável, mas ainda precisamos observar a evolução do quadro. Constantine respirou fundo. — Podemos vê-lo? — Por enquanto, precisamos aguardar. Assim que houver autorização, avisaremos. Ludovica olhou para o médico. — Existe algum familiar que possa ser chamado? — Estamos tentando localizar alguém. No celular dele havia o contato da senhora como contato de emergência, por isso ligamos. Ludovica assentiu. — Nós conhecemos o pai dele. O médico imediatamente perguntou: — O senhor Edvaldo Zanobi? — Sim. — Vocês têm algum telefone para contato? Ludovica balançou a cabeça. — Não temos contato direto com ele. Sabemos quem ele é, mas nunca tivemos o telefone dele. Constantine acrescentou: — Mas podemos tentar conseguir. — Isso ajudaria bastante — respondeu o médico. — Principalmente porque, caso seja necessário tomar alguma providência ou autorizar a transferência, será importante localizar um familiar. Constantine olhou para a tia. — Vamos descobrir algum contato. O médico assentiu. — Por enquanto, o senhor Umberto permanecerá aqui. Assim que o estado dele permitir e houver indicação médica, a família poderá providenciar a transferência para um hospital particular, caso seja essa a decisão. Ludovica agradeceu. — Nós vamos aguardar. As duas se sentaram próximas à recepção. Constantine permaneceu em silêncio por alguns segundos. Apesar de conhecer Umberto havia pouco tempo, aquela notícia havia mexido profundamente com ela. Pensou nele sempre tão seguro, tão concentrado, sempre tentando resolver tudo sozinho. Agora estava em uma cama de hospital. Sozinho. Constantine baixou os olhos. — Tia... — O quê? — Ele estava diferente ultimamente. Ludovica olhou para ela. — Você percebeu? — Sim. Depois de tudo que aconteceu, parecia carregar alguma coisa muito pesada. Ludovica segurou a mão da sobrinha. — Talvez ele tenha chegado ao limite. Constantine permaneceu olhando para a porta por onde o médico havia desaparecido. — Espero que ele fique bem.Na manhã seguinte, o estado de Umberto apresentou uma melhora significativa. Depois de algumas horas de observação e dos cuidados da equipe médica, ele finalmente estava consciente e conseguia conversar com mais tranquilidade. Ainda se sentia fraco, mas já não apresentava o mesmo quadro preocupante da noite anterior. Quando o médico entrou no quarto para avaliá-lo, Umberto perguntou: — Doutor, aquelas duas mulheres que vieram me visitar... Ludovica e Constantine. Elas ainda estão aqui? — Sim. Elas aguardam notícias suas. Umberto ficou alguns segundos em silêncio. — Pode deixá-las entrar. Pouco depois, Ludovica e Constantine entraram no quarto. — Senhor Umberto... — Ludovica aproximou-se da cama. — O senhor nos deu um susto enorme. Ele esboçou um pequeno sorriso. — Desculpe. Não era minha intenção. Constantine ficou ao lado da tia, observando-o. — Como está se sentindo? — Melhor. Ainda um pouco fraco, mas melhor. Nesse momento, o médico entrou novamente no quarto. — Apr
Umberto entrou em casa naquela noite completamente transtornado. Assim que passou pela porta, fechou-a atrás de si e permaneceu alguns segundos parado no hall. As palavras de Emilyke continuavam ecoando em sua mente. “É pelo nosso filho.” Ele passou a mão pelos cabelos e caminhou até a sala. Não conseguia entender. Depois de tudo o que havia acontecido, depois de descobrir a traição, depois de ver as fotografias e perceber que havia sido enganado por duas das pessoas em quem mais confiava, Emilyke aparecia diante de sua casa com uma notícia daquela. Um filho. Umberto caminhou de um lado para o outro. — Não pode ser... Sentou-se no sofá, mas não conseguiu permanecer ali por muito tempo. Levantou-se novamente. Foi até a janela. Depois voltou para a sala. Sua mente estava inquieta. Ele se perguntava se havia alguma possibilidade de Emilyke estar dizendo a verdade. Ao mesmo tempo, lembrava-se de tudo o que havia descoberto. Vito. As fotografias. As mentiras. Aquela vida
Um mês havia se passado desde a descoberta.Durante todo aquele tempo, Umberto não havia recebido nenhuma notícia de Emilyke ou de Vito.Ele seguiu com sua vida e com seu trabalho, tentando colocar as coisas no lugar depois de tudo o que havia acontecido.Emilyke, por outro lado, começava a perceber que a vida ao lado de Vito não era nada parecida com aquilo que havia imaginado.Aos poucos, uma espécie de saudade começou a surgir.Mas não era exatamente saudade de Umberto.Era saudade da forma como ele a tratava.Enquanto esteve ao lado dele, Emilyke havia sido constantemente colocada em primeiro lugar.Umberto fazia questão de incluí-la em seus melhores eventos, apresentá-la às pessoas importantes, apoiar seus projetos e proporcionar uma vida confortável.Ele sempre a tratara com respeito e consideração.Vito havia prometido que poderia oferecer algo ainda melhor.Mas a realidade tinha sido completamente diferente.Com ele, Emilyke conhecera o medo, a pressão e as ameaças.Aquela vid
Capítulo 47 — A ConversaAlguns dias se passaram após o jantar.Desde aquela noite, Umberto havia mantido sua rotina praticamente intacta.Continuava trabalhando, participando das reuniões e cuidando dos assuntos da empresa.Mas havia uma diferença.Agora, ele observava tudo com muito mais atenção.Naquela manhã, decidiu que era hora de conversar com Nay.Pediu que ela fosse até sua sala.Poucos minutos depois, ela bateu à porta.— Entre.Nay abriu a porta e entrou.— O senhor queria falar comigo?Umberto fez um gesto em direção à poltrona diante de sua mesa.— Sente-se, Nay.Ela obedeceu.— Boa tarde, senhor Zanobi.Umberto fechou a pasta que estava em suas mãos.Abriu o botão do paletó e se endireitou no assento.Por alguns segundos, permaneceu em silêncio.Então abriu uma das gavetas da mesa e retirou alguns papéis.Eram as fotografias.Colocou o material sobre a mesa, virado para baixo.Nay acompanhou o movimento com os olhos.Umberto apoiou as costas na poltrona.— Nay, acredito
No esconderijo, a atmosfera era completamente diferente daquela que Vito costumava apresentar diante das outras pessoas. Não havia sorrisos. Não havia cordialidade. Não havia mais espaço para fingimentos. Vito caminhava de um lado para o outro, furioso, enquanto Emilyke permanecia diante dele, tentando conter as lágrimas. — Já chega! — Emilyke explodiu. — Eu não quero mais essa vida. Vito parou e a encarou. — Que vida? — Essa vida de mentiras, de medo, de ficar escondida. Eu tenho a minha loja. Tenho a minha independência. Não preciso continuar vivendo assim. Quero me afastar de tudo isso e seguir a minha vida. Vito soltou uma risada de desprezo. — Que independência você acha que tem? Você não é ninguém! Emilyke o encarou, indignada. — Não fale assim comigo. Vito se aproximou e agarrou seu braço com fúria. — Quer que eu conte para todo mundo que os seus diplomas são falsificados? Emilyke tentou se soltar. — Me solta! — Você acha que vai simplesmente sair dessa e fingi
No dia seguinte, Umberto foi trabalhar normalmente. Ou, pelo menos, era isso que todos ao seu redor acreditavam. Ele entrou na empresa no horário de sempre, cumprimentou alguns funcionários e seguiu para sua sala sem demonstrar qualquer alteração. Por dentro, porém, estava completamente destruído. A noite havia sido longa. Ele praticamente não dormira. Ainda assim, conseguiu guardar tudo o que sentia em algum lugar dentro de si. Não podia deixar que ninguém percebesse. Ou talvez não tivesse conseguido esconder tão bem quanto imaginava. Durante a manhã, participou de videoconferências, analisou contratos, assinou documentos e conversou com diferentes setores da empresa. Delegou funções. Tomou decisões. Respondeu às perguntas da equipe com segurança. Em determinado momento, autenticou o documento referente à compra do espaço que seria utilizado como escritório do Projeto Novos Caminhos dentro da comunidade. Tudo parecia seguir normalmente. — Pode encaminhar esse







