LOGINO grande dia finalmente havia chegado.
Antes mesmo de o sol nascer, a pequena casa de Ludovica já estava completamente desperta. O forno permanecia aceso desde a madrugada. O aroma de bolos recém-assados e tortas quentinhas espalhava-se por toda a vizinhança. Sobre a mesa da cozinha, dezenas de doces aguardavam os últimos detalhes da decoração. Ludovica conferia cada encomenda com o mesmo cuidado de quem preparava um presente. Nenhum detalhe passava despercebido. Constantine embalava os pedidos enquanto o tio organizava as caixas que seriam transportadas. Apesar do cansaço, os três estavam muito felizes. Aquela era, de longe, a maior encomenda que já haviam recebido. — Quem diria... — comentou Ludovica, emocionada. — Há pouco tempo eu nem imaginava vender uma única torta. Constantine sorriu. — E hoje estamos entregando cinquenta. — Cinquenta tortas e cinquenta bolos — corrigiu o tio, orgulhoso. Ludovica levou as mãos ao peito. — Se alguém tivesse me contado isso há alguns meses, eu não acreditaria. Nesse instante, uma buzina soou do lado de fora. Constantine aproximou-se da janela. — É a Nay. Ela saiu rapidamente para recebê-la. Assim que desceu do carro, Nay abriu um enorme sorriso. — Bom dia, meus confeiteiros preferidos! — Bom dia! — responderam quase ao mesmo tempo. Nay olhou para a quantidade de caixas empilhadas. Seus olhos se arregalaram. — Meu Deus... vocês conseguiram mesmo. Ludovica sorriu com humildade. — Viramos a madrugada. — Valeu a pena. — Espero que sim. — Tenho certeza. Nay bateu palmas, animada. — Então vamos! Hoje ninguém pode se atrasar. Tem uma empresa inteira de gente faminta querendo provar essas delícias. Os quatro começaram a acomodar cuidadosamente as caixas no veículo. Enquanto fechava o porta-malas, Constantine respirou fundo. Era gratificante ver seus tios felizes. As caixas já estavam cuidadosamente acomodadas no veículo, Nay conferia a lista de encomendas pela terceira vez. Tudo estava pronto para a entrega no auditório onde, inicialmente, aconteceria a reunião entre as duas empresas. Foi então que seu celular tocou. Ao olhar para a tela, viu o nome de Umberto. Atendeu imediatamente. — Bom dia, senhor. Do outro lado da linha, Umberto falava enquanto caminhava de um lado para o outro. A voz permanecia firme e tranquila, mas se percebia uma certa ansiedade. — Nay, houve uma mudança de planos. Ela pegou rapidamente um bloco de anotações. — Certo. O que aconteceu? — Decidimos realizar a reunião aqui mesmo, na Zanobi Corporation. Nay franziu a testa. — Na empresa? — Sim. O auditório principal comporta todos os convidados. Além disso, quero que nossos parceiros conheçam nossas instalações. Enquanto falava, Umberto observava alguns funcionários ajustando os últimos detalhes da recepção. Nada podia sair do controle. Aquela parceria era recente, e ele fazia questão de transmitir a imagem de uma empresa organizada, eficiente e impecável. — Pode trazer toda a encomenda diretamente para cá. — Sem problemas, senhor. — Já estou aguardando vocês. — Estaremos aí em poucos minutos. A ligação foi encerrada. Nay permaneceu imóvel por alguns segundos. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou Ludovica. — Mudou o local da entrega. — Mudou? — Sim. Ela respirou fundo. — A reunião não será mais no auditório. Constantine levantou os olhos. — Então será onde? Nay respondeu naturalmente, sem imaginar o impacto que aquelas palavras causariam. — Na Zanobi Corporation. O sorriso no rosto de Constantine desapareceu por um instante. Seu coração pareceu perder o compasso. Ela conhecia aquele prédio. Conhecia aqueles corredores. E o que ela menos queria era estar naquele ambiente ou então ter qualquer contato com Umberto. Baixou os olhos por alguns segundos. E, sem dizer uma única palavra, voltou a ajudar a acomodar as últimas caixas. Afinal, aquele era apenas mais um trabalho. Era isso que ela repetia para convencer a si mesma. Enquanto organizava cuidadosamente as encomendas, traçou um plano. Entraria na Zanobi Corporation. Faria apenas o necessário. Ajudaria na montagem da mesa do coffee break. E iria embora sem chamar atenção e sem procurar Umberto. E, principalmente, evitaria ao máximo ser vista por ele. Acreditava que seria fácil pois a empresa era enorme. Bastaria permanecer ao lado dos tios durante todo o tempo. Infelizmente, os planos nem sempre sobrevivem ao primeiro imprevisto. Assim que as últimas caixas foram levadas para o salão principal, Constantine respirou aliviada. Tudo parecia estar dando certo. Foi quando uma movimentação no corredor chamou sua atenção. Ao erguer os olhos, encontrou Umberto caminhando em direção ao auditório. Ele conversava com alguns diretores enquanto observava os últimos preparativos da reunião. Por um instante, seus olhares se encontraram e um calafrio percorreu sua espinha, acompanhado por uma inquietação que ela não conseguiu explicar. Constantine foi a primeira a desviar o olhar. Continuou organizando as bandejas como se nada tivesse acontecido. Mas já era tarde. Umberto a havia reconhecido. Alguns minutos depois, assim que terminou de orientar sua equipe, caminhou discretamente até o espaço onde Ludovica, Tommaso e Constantine finalizava os últimos detalhes. — Bom dia. Os três se voltaram imediatamente. Ludovica e Tommaso demonstraram surpresa. Constantine permaneceu imóvel. — Senhor Zanobi... — cumprimentou Tommaso. Umberto sorriu com cordialidade. — Fico feliz em revê-los. Seu olhar percorreu os três. — Como vocês estão? — Graças a Deus, estamos bem — respondeu Ludovica. — E o senhor? — Muito bem. Ele observou rapidamente a mesa preparada. — Vejo que o talento de vocês conquistou novos clientes. Ludovica sorriu, um pouco envergonhada. — Estamos tentando. — E estão conseguindo. Após alguns instantes de conversa, Humberto voltou sua atenção para Constantine. — Você poderia me acompanhar por um momento? Ela hesitou. Olhou discretamente para os tios. Ludovica apenas sorriu, acreditando que se tratava de algum assunto relacionado ao evento. Constantine respirou fundo. — Claro. Os dois caminharam alguns metros, afastando-se da movimentação. Quando tiveram um pouco mais de privacidade, Umberto parou. Permaneceu alguns segundos em silêncio. Não havia irritação em seu semblante. Havia apenas uma dúvida que o acompanhava desde o dia em que ela deixou sua casa. — Posso fazer uma pergunta? — Claro. — Por que você foi embora sem me dizer absolutamente nada? Constantine baixou os olhos por um instante. Ela já imaginava que aquela pergunta chegaria. Só não esperava que fosse justamente naquele dia. Constantine permaneceu em silêncio. A pergunta de Umberto ecoava em sua mente. “Por que você foi embora sem me dizer absolutamente nada?" Respirou fundo. Uniu forças para organizar os pensamentos. Havia tantas respostas. Tantas justificativas. Mas nenhuma parecia suficiente. Ergueu novamente o rosto. Encontrou os olhos de Humberto fixos nos seus, aguardando pacientemente uma explicação. Abriu os lábios. Estava pronta para responder. — Zanobi! A voz apressada ecoou pelo corredor. Os dois voltaram o olhar na mesma direção. Vitor aproximava-se com passos rápidos, trazendo uma pasta nas mãos. Seu semblante demonstrava preocupação. — Desculpe, interromper, mas surgiu um problema. Precisamos da sua decisão imediatamente. Umberto franziu discretamente a testa. — Aconteceu alguma coisa? — A equipe da empresa parceira chegou antes do previsto, e houve uma alteração na apresentação. Precisamos definir algumas mudanças antes que todos entrem no auditório. Umberto olhou novamente para Constantine. Por um breve instante, pareceu dividido entre permanecer ali ou atender ao compromisso. Por fim, suspirou. — Voltaremos a conversar. Constantine apenas assentiu. — Ok Ele acompanhou Vitor pelo corredor e desapareceu entre os funcionários que corriam de um lado para o outro. Ela permaneceu imóvel por alguns segundos. Sentia o coração bater mais rápido do que deveria. Não sabia dizer se estava aliviada por não precisar responder. Sabendo que aquela conversa chegaria em outro momento.Os dias seguintes foram dedicados aos preparativos para a Feira do Empreendedor.Umberto e sua equipe organizaram tudo com cuidado. Um espaço foi alugado na própria comunidade, para que os moradores não precisassem se deslocar para longe. O local foi preparado para receber as pessoas com conforto, e não faltaram comida, bebidas e um ambiente acolhedor.Ainda assim, havia certa desconfiança.Quando os moradores perceberam que a Montreau Industries estava por trás do projeto, algumas pessoas preferiram manter distância.Afinal, a empresa de Edvaldo não era vista com bons olhos naquela comunidade.Durante anos, os moradores haviam convivido com os problemas causados pela fábrica instalada nas proximidades. Por isso, para muitos, aquela iniciativa parecia apenas mais uma tentativa da empresa de melhorar sua imagem diante das mídias.Mas Constantine conseguiu mudar aquela percepção.Ela não falou como representante da empresa.Falou como alguém que vivia ali.Contou um pouco da própria tra
Depois da conversa com Vito, Umberto finalmente deixou a empresa.Os últimos dias haviam sido uma verdadeira correria.Três dias na casa de Edvaldo, conversas que preferia esquecer, documentos que ainda precisava analisar e, assim que havia saído da casa do pai, fora diretamente para a empresa.Nem sequer tivera tempo de passar em casa.Agora, enquanto dirigia de volta, sentia o peso daqueles dias sobre os ombros.Precisava descansar.Quando finalmente chegou, entrou em casa e deixou a pasta sobre o móvel da entrada. Tirou o paletó, afrouxou a gravata e soltou um suspiro profundo.— Finalmente...Seguiu diretamente para o quarto.Um banho quente e demorado parecia ser exatamente o que precisava naquele momento.Depois, vestiu uma roupa confortável e pediu algo para comer.Enquanto esperava o delivery, levou os documentos que Edvaldo havia lhe entregado para o escritório.Sentou-se na poltrona e abriu a pasta.Começou a analisar cada página com atenção.Havia informações sobre a comuni
— Umberto, preciso conversar com você — disse Vito, assim que o amigo entrou na empresa.Umberto deixou a pasta sobre a mesa e soltou um suspiro cansado.— Certo, mas não agora. Acabei de chegar. Esses últimos dias foram uma loucura.Vito assentiu.— Tudo bem. Passo aqui mais tarde. Bom te ver, meu amigo.Ele já estava se afastando quando Umberto o chamou:— Ah, já que você está indo na direção da cafeteria, pede para alguém trazer um café caprichado e um pedaço de torta da Ludovica.Vito acenou positivamente.— Deixa comigo.Assim que saiu da sala, encontrou Nay no corredor.— Nay!Ela se virou.— Oi?— O chefe está pedindo café. Se vira e vai levar para ele agora.Nay congelou. Por um instante, sentiu o coração acelerar.— Eu?— Você mesma.Ela olhou para a porta da sala de Umberto. A lembrança daquela noite no restaurante voltou imediatamente. Pegou a bandeja e seguiu pelo corredor. A cada passo, suas mãos ficavam mais trêmulas. A xícara e os talheres balançavam sobre a bandeja, pr
No terceiro dia, Umberto já não conseguia esconder a impaciência. Havia passado tempo demais naquela casa. Três dias. Três dias longe de sua empresa, de seus negócios e de tudo aquilo que havia construído com tanto esforço e dedicação. Mesmo que tivesse conseguido trabalhar remotamente em alguns momentos, sabia que precisava voltar. Naquela manhã, encontrou o pai no escritório. Edvaldo estava sentado atrás da enorme mesa de madeira, analisando alguns documentos. Umberto entrou sem bater. — Pai. Edvaldo ergueu os olhos. — Sente-se. — Não. Dessa vez eu vim avisar que preciso voltar. O homem pousou os documentos sobre a mesa. — Já? — Já estou aqui há três dias, pai. — E isso é muito? — Para mim, é. Edvaldo o observou em silêncio. Umberto continuou: — Preciso voltar para os meus negócios. A empresa de mim. Existem muitas coisas que preciso analisar e revisar pessoalmente. Não posso continuar afastado por tanto tempo. Ele esperava uma discussão. Ou então,
— Eu sempre quis te orientar da forma correta, mas você sempre me desafiou — disse Edvaldo, com a voz carregada de ressentimento. Umberto o encarou. — Eu nunca quis fazer as mesmas coisas que você fazia. O rosto de Edvaldo endureceu. — Porque você é um frouxo! Mole, chorão. A sua mãe te arruinou com aquele jeitinho dela. Deixou você assim. Por alguns segundos, Umberto permaneceu em silêncio. Aquelas palavras atingiram um lugar que ele tentava manter protegido havia anos. Sua mãe. Edvaldo sabia exatamente onde tocar. Mas, daquela vez, Umberto não abaixou os olhos. Deu um passo na direção do pai e respondeu, com a voz baixa e firme: — Não foi minha mãe que me tornou diferente de você, pai. Mas foi justamente ela que me mostrou que eu não precisava me tornar um homem cruel para ser forte. Edvaldo ficou em silêncio. Umberto continuou: — Você chama de fraqueza tudo aquilo que não consegue controlar. Minha escolha, minha consciência, minha liberdade... até o amor que
Após aquele dia cansativo na empresa, Umberto organizou os documentos que levaria na viagem. As malas já estavam prontas e, em poucos minutos, ele precisaria apenas entrar no táxi em direção ao aeroporto. Tudo estava perfeitamente organizado. Conferiu pela última vez os contratos, os relatórios e alguns documentos importantes. Pegou os últimos papéis e os colocou dentro da pasta escura que sempre carregava consigo. Era quase um ritual. Nada podia sair do lugar. Depois de verificar se havia esquecido alguma coisa, desligou o computador, apagou as luzes da sala e saiu. O corredor central estava praticamente vazio. Seus passos ecoavam pelo ambiente silencioso enquanto caminhava em direção às escadas. Antes de descer, pegou o celular e enviou uma mensagem para Emilyke. Ela também viajaria naquela noite, embora para um evento completamente diferente. Mesmo com a rotina corrida dos dois, Umberto fazia questão de saber se ela havia chegado bem ao aeroporto. Guardou o celular







