LOGINVincenzo Moretti não precisava levantar a voz para ser obedecido.
Na verdade, quase nunca levantava.
Sentado atrás da grande mesa de madeira escura em seu escritório, ele analisava alguns documentos enquanto a cidade começava a despertar do outro lado das janelas.
O relógio marcava oito e quarenta e sete.
Uma xícara de café permanecia intocada ao lado de sua mão direita. Sobre a mesa havia contratos de importação, relatórios financeiros e uma pasta preta que, apesar de parecer comum, continha informações que jamais seriam encontradas nos arquivos oficiais da empresa.
Vincenzo terminou de ler a última página.
— Entre.
A voz veio depois de duas batidas na porta.
Matteo entrou e fechou a porta atrás de si.
— Bom dia.
Vincenzo ergueu os olhos.
— O devedor?
— Ainda não apareceu.
Ele fechou a pasta.
— E o dinheiro?
— Também não.
Vincenzo permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Não parecia surpreso.
— Quanto tempo?
— Quatro semanas desde o último pagamento.
— Quatro semanas não são quatro meses.
— Não.
Matteo colocou um envelope sobre a mesa.
— Mas ele parou de atender às ligações. Ontem também não apareceu no restaurante onde costuma beber.
Vincenzo abriu o envelope.
Havia algumas fotografias e informações sobre o homem.
Alberto Bellini.
Quarenta e oito anos.
Dívidas acumuladas.
Problemas com bebida.
Apostas.
E uma capacidade impressionante de gastar dinheiro que não possuía.
Vincenzo passou os olhos pelo relatório.
— Quanto?
— Cento e vinte mil.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Cento e vinte?
— É.
Vincenzo soltou um suspiro discreto.
— Para alguém que não consegue administrar nem a própria vida, ele certamente encontrou maneiras criativas de administrar o dinheiro dos outros.
Matteo quase sorriu.
Quase.
— Encontramos o endereço residencial — continuou. — Ainda está registrado no nome dele.
— E ele está lá?
— Não sabemos.
Vincenzo fechou o envelope.
— Então vamos descobrir.
Matteo assentiu.
— Você quer que eu vá?
Vincenzo levantou-se.
— Não.
— Tem certeza?
— Sim.
Pegou o paletó que estava sobre a cadeira.
— Quero resolver isso pessoalmente.
Não era uma questão de dinheiro.
Cento e vinte mil eram importantes, mas não eram suficientes para tirar Vincenzo Moretti de seu escritório.
O problema era outro.
Alberto Bellini havia recebido uma oportunidade.
Depois outra.
E mais uma.
Vincenzo não gostava de repetir cobranças.
Principalmente quando o devedor começava a acreditar que seu silêncio era uma opção.
Ი︵𐑼
A casa dos Bellini ficava em uma rua tranquila, distante das regiões mais movimentadas da cidade.
Vincenzo estacionou o carro diante do portão.
Olhou pela janela.
A casa não parecia abandonada.
As cortinas estavam abertas.
Havia vasos de plantas próximos à entrada e algumas caixas empilhadas perto da parede.
Ele desceu do carro.
Matteo ficou alguns passos atrás.
Vincenzo tocou a campainha.
Nada.
Esperou.
Tocou novamente.
Dessa vez, ouviu passos.
Lentos.
Cuidadosos.
A fechadura girou.
A porta se abriu apenas alguns centímetros.
— Quem é?
A voz feminina o fez parar por um instante.
Vincenzo esperava encontrar Alberto Bellini.
Não uma mulher.
— Vincenzo Moretti.
Silêncio.
— Eu deveria conhecer você?
Matteo desviou o olhar para esconder um sorriso.
Vincenzo apenas a observou.
A jovem estava atrás da porta, usando roupas simples e os cabelos castanhos caindo até a cintura em ondas suaves.
Mas havia algo diferente.
Ela não estava olhando exatamente para ele.
Seus olhos permaneciam direcionados para um ponto ligeiramente ao lado.
Vincenzo percebeu.
— Estou procurando Alberto Bellini.
— Meu pai?
— Sim.
Ela apertou um pouco os dedos contra a porta.
— Ele não está.
— Sabe onde está?
— Não.
Vincenzo ficou em silêncio.
— Ele saiu ontem?
— Não sei.
— Ele costuma avisar quando sai?
A mulher soltou uma pequena risada sem humor.
— Não.
Havia algo naquela resposta.
Não medo.
Irritação.
Talvez cansaço.
Vincenzo observou o interior da casa.
Tudo estava organizado.
Ao contrário das informações que tinha sobre Alberto.
— Você mora aqui?
— Moro.
— Sozinha?
Ela franziu levemente a testa.
— Por que tantas perguntas?
Vincenzo percebeu que havia ido longe demais.
— Seu pai tem assuntos pendentes comigo.
Ela ficou quieta.
— Dívidas?
A pergunta veio tão diretamente que Matteo olhou para Vincenzo.
Ele não respondeu imediatamente.
Ela suspirou.
— Então sim.
— Ele comentou alguma coisa?
— Não precisava.
Lucia passou a mão pelos cabelos, afastando algumas mechas do rosto.
— Se você veio cobrar, pode voltar outro dia.
— E por que eu voltaria?
— Porque ele não está aqui.
Vincenzo quase sorriu.
Aquela mulher tinha uma maneira curiosamente direta de conversar com um desconhecido.
— Você não parece preocupada.
— Eu deveria?
— Talvez.
— Por quê?
Vincenzo a encarou.
Só então percebeu que ela não estava olhando para ele.
Não de verdade.
Seu olhar permanecia parado.
Os olhos tinham uma aparência diferente, opaca, sem acompanhar seus movimentos.
Ela era cega.
A compreensão veio silenciosamente.
E, de repente, algumas coisas da conversa fizeram sentido.
A maneira como ela perguntou quem estava diante da porta.
O fato de não ter olhado para ele.
A atenção exagerada aos sons.
Vincenzo baixou discretamente o olhar.
— Não.
Lucia franziu a testa.
— Não o quê?
— Nada.
Ele deu um passo para trás.
— Diga ao seu pai que eu estive aqui.
— Posso perguntar seu nome novamente?
Vincenzo ergueu os olhos.
— Vincenzo.
Ela repetiu baixinho:
— Vincenzo.
Como se estivesse tentando guardar o som.
— Certo.
Ele se virou.
— E, Vincenzo?
Ele parou.
— Sim?
— Se encontrar meu pai...
Ela hesitou.
— Diga para ele voltar para casa.
Vincenzo olhou para ela por cima do ombro.
Havia algo naquela frase que não combinava com uma simples cobrança de dívida.
Não era apenas irritação.
Era preocupação.
— Eu direi.
Ele caminhou até o carro.
Antes de entrar, olhou novamente para a casa.
Lucia ainda estava parada à porta.
Quando ouviu o motor ligar, fechou a porta.
Vincenzo entrou no carro.
Matteo sentou-se ao lado dele.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Então Matteo perguntou:
— Era a filha?
— Sim.
— Ela sabe da dívida?
Vincenzo olhou pela janela.
— Sabe o suficiente.
— Parece tranquila.
— Não está.
Matteo o encarou.
— Como sabe?
Vincenzo demorou um instante para responder.
— Ela pediu que eu dissesse ao pai para voltar para casa.
O carro começou a se afastar.
Vincenzo olhou uma última vez pelo retrovisor.
A casa desapareceu na curva.
Ele voltou os olhos para a rua.
— Encontre Alberto.
— E quando encontrarmos?
Vincenzo ajeitou o punho da camisa.
Sua expressão voltou a ser a mesma de sempre.
Fria.
Impenetrável.
— Dessa vez, ele vai pagar.
Lucia finalmente percebeu.— Está rindo?Ele levantou os olhos do celular.— Não.— Está sim.— Talvez.Ela virou o rosto na direção dele, reconhecendo a voz.— Você de novo.— Eu poderia dizer o mesmo.— Mas eu venho aqui quase todos os dias.Vincenzo ficou em silêncio por um instante.— Então eu sou o intruso.— Ainda não decidi.Ela voltou a atenção para o notebook, passando os dedos pelo teclado para verificar se a máquina havia voltado a funcionar. Vincenzo observou a maneira natural com que ela lidava com aquilo. Não pediu ajuda a ninguém. Não demonstrou constrangimento. Apenas esperou o computador responder e continuou de onde havia parado.— Você trabalha aqui? — ele perguntou.— Não.— Então por que vem todos os dias?Lucia apoiou o queixo na mão.— Porque gosto daqui.— Só isso?— Só isso já é bastante.Ela fez uma pausa antes de continuar:— Em casa é muito silencioso.Vincenzo não respondeu.Lucia passou os dedos pela borda da caneca.— Não que eu não goste de silêncio. Ma
Na manhã seguinte, Vincenzo acordou antes do despertador.O quarto estava escuro.Ainda era cedo.Ele ficou alguns segundos olhando para o teto antes de se levantar.A rotina não mudava.Banho.Terno.Relógio.Telefone.Café.Carro.Trabalho.Nada diferente.Até que, durante o café da manhã, seu celular vibrou.Era Matteo.“Encontramos Alberto”.Vincenzo deixou a xícara sobre a mesa.“Onde?”A resposta veio poucos segundos depois.“Em um bar. Bebendo desde ontem.”Vincenzo fechou os olhos por um instante.É claro.“Traga-o.”Depois de alguns segundos, outra mensagem apareceu.“Tem mais uma coisa”.Vincenzo esperou.“Descobrimos que ele está praticamente sem dinheiro. A dívida não foi usada para manter a casa ou pagar contas. Quase tudo foi para bebida e apostas”.Vincenzo olhou para a tela.Aquilo não o surpreendia.Mas havia outra informação no relatório que chamou sua atenção.“A filha ainda mora com ele”.Lucia.Ele deixou o celular sobre a mesa.Por algum motivo, a imagem dela na
Do lado de fora da cafeteria, Vincenzo parou por alguns segundos antes de entrar no carro.A reunião.O trabalho.Alberto.Tudo deveria ocupar seus pensamentos.Mas, contra sua vontade, a conversa continuava voltando."Sua voz é familiar."Ele abriu a porta do carro.Antes de entrar, olhou através da vitrine.Lucia continuava sentada.Ela havia aberto um pequeno caderno sobre a mesa.Passou os dedos pelas páginas, procurando alguma coisa, e então começou a escrever.Vincenzo observou por alguns segundos.Não sabia o que ela estava escrevendo.Não deveria se importar.Entrou no carro.— Para a reunião — disse ao motorista.O carro começou a se afastar.Vincenzo olhou para a cafeteria pelo retrovisor até que ela desaparecesse atrás dos outros veículos.Só então percebeu uma coisa.Naquela manhã, ele havia ido até a cafeteria apenas porque precisava de um café.Mas saiu de lá lembrando de uma mulher que, provavelmente, sequer saberia descrever seu rosto.E isso era...Inesperadamente per
Naquela noite, Vincenzo não pensou novamente em Lucia Bellini.Pelo menos foi o que disse a si mesmo.Até o dia seguinte.A manhã havia começado como todas as outras.Vincenzo chegou à empresa pouco depois das oito, atravessou o saguão sem diminuir o passo e recebeu os cumprimentos discretos dos funcionários. Alguns desviavam os olhos quando ele passava. Outros faziam um pequeno aceno com a cabeça.Ele não se importava.Já estava acostumado.No elevador, verificou algumas mensagens no celular enquanto subia.Três delas eram de Matteo.A primeira informava que um dos carregamentos chegaria naquela tarde.A segunda dizia que a reunião das onze havia sido antecipada.A terceira era sobre Alberto Bellini.Ainda não encontramos.Vincenzo leu a mensagem uma segunda vez.Guardou o telefone no bolso.As portas do elevador se abriram.— Bom dia, senhor Moretti.Ele apenas assentiu.Seu escritório estava exatamente como havia deixado na noite anterior.A mesma mesa.Os mesmos documentos.A mesm
Vincenzo Moretti não precisava levantar a voz para ser obedecido.Na verdade, quase nunca levantava.Sentado atrás da grande mesa de madeira escura em seu escritório, ele analisava alguns documentos enquanto a cidade começava a despertar do outro lado das janelas.O relógio marcava oito e quarenta e sete.Uma xícara de café permanecia intocada ao lado de sua mão direita. Sobre a mesa havia contratos de importação, relatórios financeiros e uma pasta preta que, apesar de parecer comum, continha informações que jamais seriam encontradas nos arquivos oficiais da empresa.Vincenzo terminou de ler a última página.— Entre.A voz veio depois de duas batidas na porta.Matteo entrou e fechou a porta atrás de si.— Bom dia.Vincenzo ergueu os olhos.— O devedor?— Ainda não apareceu.Ele fechou a pasta.— E o dinheiro?— Também não.Vincenzo permaneceu em silêncio por alguns segundos.Não parecia surpreso.— Quanto tempo?— Quatro semanas desde o último pagamento.— Quatro semanas não são quatr
Vincenzo Moretti não precisava gritar para ser obedecido.Na verdade, quase nunca levantava a voz.Naquela manhã, sentado atrás da grande mesa de madeira escura de seu escritório, ele lia um relatório como se estivesse diante de qualquer outro documento comercial.O relógio na parede marcava oito e quarenta e três.Sobre a mesa havia uma xícara de café que permanecia intocada, alguns contratos, um telefone e uma pasta preta que Vincenzo ainda não havia aberto.Do lado de fora, a cidade começava a despertar.Carros passavam pelas ruas estreitas. Funcionários entravam nos prédios comerciais. Restaurantes começavam a receber suas primeiras entregas.E, para qualquer pessoa que olhasse para aquele edifício, Vincenzo Moretti era apenas o proprietário de uma empresa de importação e distribuição.Era uma explicação conveniente.E suficientemente verdadeira.— Ele chegou.Vincenzo ergueu os olhos.Seu braço direito, Matteo, permanecia junto à porta.— Mande entrar.Poucos segundos depois, um







