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A cega do mafioso
A cega do mafioso
Lykke

Prólogo

last update Veröffentlichungsdatum: 28.09.2026 14:21:01

Vincenzo Moretti não precisava gritar para ser obedecido.

Na verdade, quase nunca levantava a voz.

Naquela manhã, sentado atrás da grande mesa de madeira escura de seu escritório, ele lia um relatório como se estivesse diante de qualquer outro documento comercial.

O relógio na parede marcava oito e quarenta e três.

Sobre a mesa havia uma xícara de café que permanecia intocada, alguns contratos, um telefone e uma pasta preta que Vincenzo ainda não havia aberto.

Do lado de fora, a cidade começava a despertar.

Carros passavam pelas ruas estreitas. Funcionários entravam nos prédios comerciais. Restaurantes começavam a receber suas primeiras entregas.

E, para qualquer pessoa que olhasse para aquele edifício, Vincenzo Moretti era apenas o proprietário de uma empresa de importação e distribuição.

Era uma explicação conveniente.

E suficientemente verdadeira.

— Ele chegou.

Vincenzo ergueu os olhos.

Seu braço direito, Matteo, permanecia junto à porta.

— Mande entrar.

Poucos segundos depois, um homem entrou na sala.

Parecia nervoso.

Vincenzo percebeu antes mesmo que ele fechasse a porta.

Não era necessário conhecer alguém por muito tempo para reconhecer o medo. As pessoas tinham pequenas maneiras de denunciá-lo. Mãos inquietas. Olhares que evitavam os olhos dos outros. Respiração curta.

O homem parou diante da mesa.

— Senhor Moretti.

Vincenzo fechou a pasta que estava lendo.

— Sente-se.

Ele obedeceu.

Vincenzo entrelaçou os dedos sobre a mesa.

— Você sabe por que está aqui?

O homem hesitou.

— Imagino que seja sobre o carregamento.

— Não.

A resposta veio tranquila.

O homem engoliu em seco.

Vincenzo inclinou levemente a cabeça.

— É sobre a mentira que você contou ontem.

O silêncio que se seguiu pareceu maior do que realmente era.

Vincenzo não tinha pressa.

Essa era uma das coisas que seus homens haviam aprendido sobre ele.

Ele nunca tinha pressa.

Não quando precisava tomar uma decisão.

Não quando alguém tentava enganá-lo.

E muito menos quando precisava decidir o que fazer com alguém que havia quebrado sua confiança.

— Eu não menti.

Vincenzo o observou por alguns segundos.

Depois abriu a pasta preta.

Havia algumas folhas dentro.

Ele retirou uma delas e a colocou sobre a mesa.

— O relatório diz uma coisa.

Colocou outra folha ao lado.

— O registro diz outra.

Mais uma.

— E você me contou uma terceira versão.

O homem ficou pálido.

Vincenzo recostou-se na cadeira.

— Qual delas devo considerar verdadeira?

— Senhor Moretti, eu posso explicar.

— Pode.

Vincenzo fez um pequeno gesto com a mão.

— Estou ouvindo.

O homem começou a falar.

Explicou.

Tentou justificar.

Culpou outras pessoas.

Falou sobre pressão, dinheiro, medo e uma série de circunstâncias que, para ele, pareciam perfeitamente capazes de transformar uma mentira em algo aceitável.

Vincenzo deixou que terminasse.

Não o interrompeu uma única vez.

Quando o homem finalmente ficou em silêncio, Vincenzo olhou novamente para os documentos.

— Você sabe qual foi seu erro?

O homem não respondeu.

— Não foi o dinheiro.

Ele levantou os olhos.

— Dinheiro pode ser recuperado.

Vincenzo colocou a folha de volta na pasta.

— Não foi a carga.

Outra pausa.

— Nem sequer foi ter trabalhado pelas minhas costas.

O homem respirou fundo.

— Então o que foi?

Vincenzo o encarou.

— Você achou que eu não descobriria.

A expressão do homem mudou.

Foi pequena.

Quase imperceptível.

Mas Vincenzo viu.

Ele sempre via.

— Matteo.

O homem junto à porta se aproximou.

Vincenzo fechou a pasta.

— Tire-o dos negócios por enquanto.

O homem imediatamente se levantou.

— Senhor Moretti, por favor—

— Eu não terminei.

Ele parou.

Vincenzo continuou:

— Você vai devolver o que pegou. Vai deixar de ter qualquer acesso às operações e vai permanecer longe delas até que eu decida o que fazer com você.

— Mas—

— E agradeça.

O homem ficou imóvel.

Vincenzo levantou-se.

Seu terno escuro estava perfeitamente alinhado, a gravata no lugar e os cabelos pretos penteados para trás sem um fio fora do lugar.

— Porque se eu tivesse decidido hoje que você não merece uma segunda oportunidade, esta conversa teria sido muito mais curta.

Matteo conduziu o homem para fora.

A porta se fechou.

Vincenzo permaneceu de pé.

Por alguns segundos, apenas observou a cidade pela janela.

Não sentia culpa.

Também não sentia prazer.

Era trabalho.

A família Moretti havia construído seu poder daquela maneira durante décadas.

Vincenzo apenas havia aprendido a administrar aquilo melhor do que os homens que vieram antes dele.

Ele não gostava de violência.

Mas também não tinha ilusões sobre o mundo em que vivia.

Havia pessoas que precisavam ser convencidas.

Outras precisavam ser afastadas.

E algumas simplesmente não podiam continuar próximas.

Seu telefone vibrou sobre a mesa.

Vincenzo olhou para a tela.

Uma mensagem.

"A reunião foi confirmada para as onze."

Ele respondeu apenas:

"Certo."

Outra mensagem apareceu quase imediatamente.

"Há um problema com os Moretti do sul."

Vincenzo ficou alguns segundos olhando para aquelas palavras.

Então guardou o telefone no bolso.

— Claro que há.

Pegou o paletó que estava sobre a cadeira.

Quando saiu do escritório, Matteo já o esperava no corredor.

— Vamos?

Vincenzo ajeitou o relógio no pulso.

— Vamos.

Os dois caminharam pelo corredor.

Funcionários abaixavam discretamente a cabeça quando ele passava.

Não porque Vincenzo exigisse.

Porque todos sabiam quem ele era.

O dono da empresa.

O homem que controlava negócios que apareciam nos documentos e outros que jamais apareceriam.

O nome que fazia algumas pessoas reconsiderarem uma decisão antes mesmo de tomá-la.

Vincenzo Moretti.

Para alguns, era um empresário.

Para outros, era o homem que comandava uma das famílias mais influentes da região.

Para Vincenzo, era simplesmente sua vida.

Uma vida que havia aprendido a aceitar muitos anos atrás.

Ele entrou no elevador.

As portas começaram a se fechar.

Por um instante, seu reflexo apareceu no espelho metálico.

Um homem sério.

Frio.

Intocável.

Vincenzo olhou para a própria imagem sem demonstrar qualquer emoção.

Havia muito tempo que não esperava nada da vida além de mais um dia igual ao anterior.

Mais uma reunião.

Mais um problema.

Mais uma decisão.

Mais uma noite sozinho.

E, até aquele momento, isso era suficiente.

Ele ainda não sabia que aquela rotina estava prestes a acabar.

Não sabia que, em algum lugar daquela mesma cidade, uma mulher chamada Lucia Bellini estava vivendo uma vida completamente diferente da sua.

Uma mulher que não podia vê-lo.

Uma mulher que, ironicamente, seria a primeira pessoa em muitos anos capaz de enxergá-lo de verdade.

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