LOGINNaquela noite, Vincenzo não pensou novamente em Lucia Bellini.
Pelo menos foi o que disse a si mesmo.
Até o dia seguinte.
A manhã havia começado como todas as outras.
Vincenzo chegou à empresa pouco depois das oito, atravessou o saguão sem diminuir o passo e recebeu os cumprimentos discretos dos funcionários. Alguns desviavam os olhos quando ele passava. Outros faziam um pequeno aceno com a cabeça.
Ele não se importava.
Já estava acostumado.
No elevador, verificou algumas mensagens no celular enquanto subia.
Três delas eram de Matteo.
A primeira informava que um dos carregamentos chegaria naquela tarde.
A segunda dizia que a reunião das onze havia sido antecipada.
A terceira era sobre Alberto Bellini.
Ainda não encontramos.
Vincenzo leu a mensagem uma segunda vez.
Guardou o telefone no bolso.
As portas do elevador se abriram.
— Bom dia, senhor Moretti.
Ele apenas assentiu.
Seu escritório estava exatamente como havia deixado na noite anterior.
A mesma mesa.
Os mesmos documentos.
A mesma xícara de café que havia sido retirada durante a limpeza.
Vincenzo colocou o paletó sobre a cadeira e se sentou.
Por quase uma hora, conseguiu se concentrar completamente no trabalho.
Quase.
Porque, em determinado momento, enquanto assinava um documento, sua atenção se desviou por uma razão que considerou particularmente irritante.
Ele se lembrou de uma voz.
Uma voz feminina.
Calma.
Um pouco rouca, talvez por ter acabado de acordar ou simplesmente por aquele ser o jeito natural dela falar.
"Diga para ele voltar para casa."
Vincenzo parou a caneta sobre o papel.
Olhou para a assinatura inacabada.
Aquilo não significava nada.
Ele conhecia centenas de pessoas.
Já havia conversado com milhares.
Não havia motivo algum para continuar pensando na filha de um homem que lhe devia dinheiro.
Lucia Bellini não tinha qualquer relação com aquilo.
Pelo menos, não enquanto o pai dela continuasse sendo o único responsável pela dívida.
Vincenzo terminou a assinatura.
Empurrou o documento para o lado.
— Patético.
Disse para si mesmo.
E voltou ao trabalho.
Ი︵𐑼
Pouco depois das dez e meia, Vincenzo deixou a empresa.
A reunião havia sido transferida para outro endereço, em uma região mais movimentada da cidade.
Não seria uma reunião longa.
Era apenas uma conversa sobre um contrato que precisava ser revisto antes de receber sua assinatura.
Ainda assim, Vincenzo preferia chegar alguns minutos antes.
Gostava de observar o ambiente.
Gostava de saber quem estava por perto.
Era um hábito antigo.
Um dos muitos que havia adquirido por necessidade.
Depois de alguns minutos no trânsito, pediu ao motorista que parasse diante de uma pequena cafeteria.
— Cinco minutos.
— Senhor?
— Preciso de café.
O motorista assentiu.
Vincenzo desceu.
A cafeteria não era luxuosa.
Era pequena, aconchegante e bastante movimentada naquela hora da manhã. Algumas mesas estavam ocupadas por pessoas trabalhando em notebooks, outras por funcionários de escritórios próximos.
O cheiro de café recém-passado era forte assim que ele entrou.
Vincenzo retirou o celular do bolso enquanto caminhava até o balcão.
— Um espresso.
— Certo.
Ele se afastou para esperar.
Foi então que ouviu uma voz atrás dele.
— Desculpe...
Vincenzo virou o rosto.
Uma mulher estava alguns passos atrás.
Cabelos castanhos longos caíam pelas costas, chegando até a cintura. Algumas ondas suaves se espalhavam pelas pontas, provavelmente resultado de um cabelo que não precisava de muito esforço para parecer bonito.
Ela segurava a alça da própria bolsa com uma das mãos.
Na outra, havia uma bengala dobrável.
Vincenzo reconheceu imediatamente.
Lucia.
Ela não parecia ter percebido ainda que ele estava ali.
O funcionário do balcão chamou:
— Lucia?
— Sim?
— Seu pedido está pronto.
Ela se aproximou cuidadosamente.
Vincenzo observou em silêncio enquanto ela localizava o copo sobre o balcão com a ajuda da voz do funcionário.
— Obrigada.
Ela segurou o copo.
Por um instante, pareceu procurar a direção certa.
Vincenzo deu um passo para o lado, liberando espaço.
Lucia caminhou.
Passou por ele.
E parou.
Não imediatamente.
Foram apenas dois passos.
Então ela inclinou levemente a cabeça.
Vincenzo percebeu.
— O que foi? — perguntou o funcionário.
— Nada.
Ela continuou andando.
Chegou até uma mesa vazia próxima à janela.
Sentou-se.
Vincenzo recebeu seu café.
O funcionário colocou a pequena xícara sobre o balcão.
— Aqui.
— Obrigado.
Ele pegou a xícara.
Deveria ir embora.
Era exatamente o que havia planejado.
Mas seus olhos voltaram para Lucia.
Ela havia colocado o copo sobre a mesa e agora mexia lentamente a bebida com uma colher.
Vincenzo não sabia por que continuava ali.
Talvez fosse apenas coincidência.
Talvez curiosidade.
Ou talvez estivesse simplesmente demorando mais do que deveria para tomar uma decisão que normalmente seria automática.
Ele se sentou em uma mesa algumas cadeiras distante.
Lucia permaneceu em silêncio por alguns minutos.
Então, sem olhar diretamente para ele, perguntou:
— Sua voz é familiar.
Vincenzo ergueu os olhos.
Ela franziu levemente a testa.
— Você já veio aqui antes?
Ele poderia responder que sim.
Poderia dizer que não.
Poderia simplesmente ignorar.
Mas havia alguma coisa curiosamente sincera naquela pergunta.
— Talvez.
Lucia virou um pouco o rosto em sua direção.
— Talvez?
— Talvez você esteja confundindo minha voz com a de outra pessoa.
Ela sorriu discretamente.
— É possível.
Tomou um pequeno gole.
— Eu tenho dificuldade para reconhecer algumas pessoas pela voz quando não converso muito tempo com elas.
Vincenzo observou seu rosto.
Os olhos dela eram claros, mas opacos. Não acompanhavam seus movimentos. Ainda assim, havia uma expressão curiosamente viva em seu rosto.
— Mas tenho quase certeza de que já ouvi você.
Vincenzo tomou um gole do café.
— A cidade é menor do que parece.
— Isso não explica muita coisa.
— Não precisa explicar.
Ela soltou uma pequena risada.
— Você sempre responde desse jeito?
— Desse jeito como?
— Como se estivesse tentando encerrar a conversa.
Vincenzo ficou em silêncio.
Lucia sorriu novamente.
— Tudo bem.
Ela voltou a atenção para a própria bebida.
Por algum motivo, aquilo o fez relaxar um pouco.
Ela não insistiu.
Não perguntou seu nome.
Não perguntou por que ele estava ali.
Não tentou descobrir quem era.
E talvez fosse exatamente isso que tornava a presença dela tão estranha.
As pessoas normalmente queriam alguma coisa de Vincenzo.
Lucia parecia simplesmente ter percebido uma voz familiar e decidido comentar.
Nada mais.
Ele terminou o café.
Levantou-se.
Lucia ouviu o movimento da cadeira.
— Já vai?
Vincenzo olhou para ela.
— Tenho uma reunião.
— Ah.
Ela fez um pequeno gesto com a cabeça.
— Então espero que dê tudo certo.
— Obrigado.
Ele deu dois passos.
— Vincenzo?
Ele parou.
Dessa vez, ela disse o nome sem ter perguntado.
— Como sabe meu nome?
Lucia pareceu surpresa consigo mesma.
— Você falou.
Vincenzo estreitou levemente os olhos.
Então se lembrou.
Na casa.
Ele havia se apresentado.
Ela não havia reconhecido a voz imediatamente, mas havia guardado o nome.
— É verdade.
Lucia sorriu.
— Então eu estava certa.
— Sobre o quê?
— Que já tinha ouvido você antes.
Vincenzo ficou olhando para ela por um instante.
— Talvez.
Ela riu baixinho.
— Você gosta bastante dessa palavra.
Ele quase sorriu.
Quase.
— Talvez eu goste.
E dessa vez foi embora.
Lucia finalmente percebeu.— Está rindo?Ele levantou os olhos do celular.— Não.— Está sim.— Talvez.Ela virou o rosto na direção dele, reconhecendo a voz.— Você de novo.— Eu poderia dizer o mesmo.— Mas eu venho aqui quase todos os dias.Vincenzo ficou em silêncio por um instante.— Então eu sou o intruso.— Ainda não decidi.Ela voltou a atenção para o notebook, passando os dedos pelo teclado para verificar se a máquina havia voltado a funcionar. Vincenzo observou a maneira natural com que ela lidava com aquilo. Não pediu ajuda a ninguém. Não demonstrou constrangimento. Apenas esperou o computador responder e continuou de onde havia parado.— Você trabalha aqui? — ele perguntou.— Não.— Então por que vem todos os dias?Lucia apoiou o queixo na mão.— Porque gosto daqui.— Só isso?— Só isso já é bastante.Ela fez uma pausa antes de continuar:— Em casa é muito silencioso.Vincenzo não respondeu.Lucia passou os dedos pela borda da caneca.— Não que eu não goste de silêncio. Ma
Na manhã seguinte, Vincenzo acordou antes do despertador.O quarto estava escuro.Ainda era cedo.Ele ficou alguns segundos olhando para o teto antes de se levantar.A rotina não mudava.Banho.Terno.Relógio.Telefone.Café.Carro.Trabalho.Nada diferente.Até que, durante o café da manhã, seu celular vibrou.Era Matteo.“Encontramos Alberto”.Vincenzo deixou a xícara sobre a mesa.“Onde?”A resposta veio poucos segundos depois.“Em um bar. Bebendo desde ontem.”Vincenzo fechou os olhos por um instante.É claro.“Traga-o.”Depois de alguns segundos, outra mensagem apareceu.“Tem mais uma coisa”.Vincenzo esperou.“Descobrimos que ele está praticamente sem dinheiro. A dívida não foi usada para manter a casa ou pagar contas. Quase tudo foi para bebida e apostas”.Vincenzo olhou para a tela.Aquilo não o surpreendia.Mas havia outra informação no relatório que chamou sua atenção.“A filha ainda mora com ele”.Lucia.Ele deixou o celular sobre a mesa.Por algum motivo, a imagem dela na
Do lado de fora da cafeteria, Vincenzo parou por alguns segundos antes de entrar no carro.A reunião.O trabalho.Alberto.Tudo deveria ocupar seus pensamentos.Mas, contra sua vontade, a conversa continuava voltando."Sua voz é familiar."Ele abriu a porta do carro.Antes de entrar, olhou através da vitrine.Lucia continuava sentada.Ela havia aberto um pequeno caderno sobre a mesa.Passou os dedos pelas páginas, procurando alguma coisa, e então começou a escrever.Vincenzo observou por alguns segundos.Não sabia o que ela estava escrevendo.Não deveria se importar.Entrou no carro.— Para a reunião — disse ao motorista.O carro começou a se afastar.Vincenzo olhou para a cafeteria pelo retrovisor até que ela desaparecesse atrás dos outros veículos.Só então percebeu uma coisa.Naquela manhã, ele havia ido até a cafeteria apenas porque precisava de um café.Mas saiu de lá lembrando de uma mulher que, provavelmente, sequer saberia descrever seu rosto.E isso era...Inesperadamente per
Naquela noite, Vincenzo não pensou novamente em Lucia Bellini.Pelo menos foi o que disse a si mesmo.Até o dia seguinte.A manhã havia começado como todas as outras.Vincenzo chegou à empresa pouco depois das oito, atravessou o saguão sem diminuir o passo e recebeu os cumprimentos discretos dos funcionários. Alguns desviavam os olhos quando ele passava. Outros faziam um pequeno aceno com a cabeça.Ele não se importava.Já estava acostumado.No elevador, verificou algumas mensagens no celular enquanto subia.Três delas eram de Matteo.A primeira informava que um dos carregamentos chegaria naquela tarde.A segunda dizia que a reunião das onze havia sido antecipada.A terceira era sobre Alberto Bellini.Ainda não encontramos.Vincenzo leu a mensagem uma segunda vez.Guardou o telefone no bolso.As portas do elevador se abriram.— Bom dia, senhor Moretti.Ele apenas assentiu.Seu escritório estava exatamente como havia deixado na noite anterior.A mesma mesa.Os mesmos documentos.A mesm
Vincenzo Moretti não precisava levantar a voz para ser obedecido.Na verdade, quase nunca levantava.Sentado atrás da grande mesa de madeira escura em seu escritório, ele analisava alguns documentos enquanto a cidade começava a despertar do outro lado das janelas.O relógio marcava oito e quarenta e sete.Uma xícara de café permanecia intocada ao lado de sua mão direita. Sobre a mesa havia contratos de importação, relatórios financeiros e uma pasta preta que, apesar de parecer comum, continha informações que jamais seriam encontradas nos arquivos oficiais da empresa.Vincenzo terminou de ler a última página.— Entre.A voz veio depois de duas batidas na porta.Matteo entrou e fechou a porta atrás de si.— Bom dia.Vincenzo ergueu os olhos.— O devedor?— Ainda não apareceu.Ele fechou a pasta.— E o dinheiro?— Também não.Vincenzo permaneceu em silêncio por alguns segundos.Não parecia surpreso.— Quanto tempo?— Quatro semanas desde o último pagamento.— Quatro semanas não são quatr
Vincenzo Moretti não precisava gritar para ser obedecido.Na verdade, quase nunca levantava a voz.Naquela manhã, sentado atrás da grande mesa de madeira escura de seu escritório, ele lia um relatório como se estivesse diante de qualquer outro documento comercial.O relógio na parede marcava oito e quarenta e três.Sobre a mesa havia uma xícara de café que permanecia intocada, alguns contratos, um telefone e uma pasta preta que Vincenzo ainda não havia aberto.Do lado de fora, a cidade começava a despertar.Carros passavam pelas ruas estreitas. Funcionários entravam nos prédios comerciais. Restaurantes começavam a receber suas primeiras entregas.E, para qualquer pessoa que olhasse para aquele edifício, Vincenzo Moretti era apenas o proprietário de uma empresa de importação e distribuição.Era uma explicação conveniente.E suficientemente verdadeira.— Ele chegou.Vincenzo ergueu os olhos.Seu braço direito, Matteo, permanecia junto à porta.— Mande entrar.Poucos segundos depois, um







