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Capítulo 3

Author: Lykke
last update publish date: 2026-10-03 04:29:08

Do lado de fora da cafeteria, Vincenzo parou por alguns segundos antes de entrar no carro.

A reunião.

O trabalho.

Alberto.

Tudo deveria ocupar seus pensamentos.

Mas, contra sua vontade, a conversa continuava voltando.

"Sua voz é familiar."

Ele abriu a porta do carro.

Antes de entrar, olhou através da vitrine.

Lucia continuava sentada.

Ela havia aberto um pequeno caderno sobre a mesa.

Passou os dedos pelas páginas, procurando alguma coisa, e então começou a escrever.

Vincenzo observou por alguns segundos.

Não sabia o que ela estava escrevendo.

Não deveria se importar.

Entrou no carro.

— Para a reunião — disse ao motorista.

O carro começou a se afastar.

Vincenzo olhou para a cafeteria pelo retrovisor até que ela desaparecesse atrás dos outros veículos.

Só então percebeu uma coisa.

Naquela manhã, ele havia ido até a cafeteria apenas porque precisava de um café.

Mas saiu de lá lembrando de uma mulher que, provavelmente, sequer saberia descrever seu rosto.

E isso era...

Inesperadamente perturbador.

O carro avançou pelas ruas movimentadas, misturando-se ao trânsito do fim da manhã.

Vincenzo permaneceu em silêncio no banco traseiro.

O celular estava apoiado sobre sua coxa, a tela acesa com algumas mensagens que ainda não havia respondido. Havia uma sequência de números para conferir, dois nomes que precisavam ser investigados e uma confirmação sobre o carregamento que chegaria naquela tarde.

Nada daquilo era particularmente difícil.

Nada que exigisse sua atenção completa.

Ainda assim, ele continuava olhando para a tela sem realmente ler.

Sua mente insistia em voltar para a cafeteria.

Para a voz dela.

Para aquela pergunta simples.

"Sua voz é familiar."

Vincenzo soltou um suspiro discreto e apagou a tela do celular.

Aquilo estava começando a ser irritante.

Ele não conhecia aquela mulher.

Havia falado com ela por alguns minutos na noite anterior e outros poucos naquela manhã. Não sabia quase nada sobre Lucia Bellini além do nome, da relação com Alberto e do fato de ser cega.

Não havia motivo para pensar nela.

Muito menos durante uma reunião.

— Chegamos, senhor.

Vincenzo ergueu os olhos.

O carro havia parado diante de um prédio comercial de fachada envidraçada.

— Certo.

Ele guardou o telefone no bolso e saiu.

A mudança de ambiente foi suficiente para fazê-lo voltar ao estado habitual.

Os ombros se endireitaram.

O rosto perdeu qualquer vestígio da distração que havia demonstrado no carro.

Assim que entrou no prédio, dois homens que o aguardavam se aproximaram.

— Senhor Moretti.

— Vamos.

Não precisou dizer mais nada.

Ი︵𐑼

A reunião durou pouco mais de uma hora.

Quando saiu da sala, Vincenzo tinha três novos problemas para resolver e nenhuma vontade de lidar com qualquer um deles.

Matteo o esperava no corredor.

— O carregamento chegou.

— Algum problema?

— Não.

— E Alberto?

Matteo balançou a cabeça.

— Ainda nada.

Vincenzo parou.

— Quero saber onde ele está até o fim do dia.

— Já estou cuidando disso.

— Não me diga que está cuidando. Me diga quando encontrar.

Matteo assentiu.

— Sim.

Vincenzo continuou andando.

Chegando ao elevador, verificou o relógio.

Pouco depois do meio-dia.

— Vou almoçar.

Matteo arqueou uma sobrancelha.

— Você?

Vincenzo lançou um olhar para ele.

— Algum problema?

— Nenhum.

— Ótimo.

As portas do elevador se abriram.

Antes que entrasse, Matteo perguntou:

— Vai voltar para a empresa depois?

— Provavelmente.

As portas começaram a se fechar.

— Provavelmente?

Vincenzo não respondeu.

Ი︵𐑼

Ele acabou voltando.

Como sempre.

O restante da tarde foi consumido por documentos, ligações e uma visita rápida ao depósito.

Quando o relógio se aproximou das sete, Vincenzo finalmente deixou a empresa.

Dessa vez, não havia reunião.

Não havia compromisso.

Poderia ir direto para casa.

E foi exatamente o que fez.

Ou pelo menos pretendia.

No caminho, porém, o carro passou pela rua da cafeteria.

Vincenzo não pediu para parar.

Não olhou diretamente para o estabelecimento.

Apenas percebeu a fachada pelo canto dos olhos.

As luzes estavam acesas.

Algumas pessoas ocupavam as mesas próximas às janelas.

Por um instante, pensou se Lucia ainda estaria lá.

A pergunta apareceu tão naturalmente que ele só percebeu depois.

Ela costuma ficar até essa hora?

Vincenzo franziu levemente a testa.

— Continue.

O motorista olhou pelo retrovisor.

— Senhor?

— Nada.

O carro seguiu.

Ele apoiou a cabeça no banco.

Aquilo estava ficando ridículo.

Mas Lucia, naquele mesmo momento, estava em casa.

O notebook antigo repousava sobre a mesa da sala.

Ela havia voltado da cafeteria pouco antes das seis e meia e, depois de preparar algo simples para comer, decidiu terminar o trabalho que havia deixado pela metade.

Colocou os fones.

A voz sintetizada do leitor de tela começou a reproduzir o texto.

Lucia digitou algumas palavras, apagou duas frases e voltou ao início do parágrafo.

O computador demorou alguns segundos para responder.

Ela fechou os olhos por hábito.

— Vamos...

O notebook finalmente reagiu.

— Obrigada.

Ela riu sozinha.

Não havia ninguém ali para ouvir.

Ou quase ninguém.

Do quarto ao fundo da casa, o som abafado de uma televisão podia ser ouvido.

Seu pai havia aparecido cerca de uma hora antes.

Bêbado.

Como de costume.

Não havia perguntado onde ela estava.

Não havia perguntado se ela precisava de alguma coisa.

Apenas entrou, deixou os sapatos perto da porta e foi para o quarto.

Lucia estava acostumada.

Essa talvez fosse a parte mais triste.

Ela já não esperava muito dele.

Por isso, a cafeteria era tão importante.

Não pelo café.

Nem pelo notebook.

Nem sequer pelas pessoas.

Era o som.

As conversas ao redor.

As xícaras batendo nos pires.

O barulho da máquina de café.

As portas abrindo.

Os carros passando do lado de fora.

Tudo aquilo fazia a casa parecer ainda mais silenciosa quando ela voltava.

Lucia tirou um dos fones por alguns segundos.

Ouviu a televisão ao longe.

Depois colocou novamente.

O leitor de tela continuou.

Ela voltou ao trabalho.

Mas, sem perceber, sua atenção se desviou.

Uma voz.

Aquela voz.

Ela não conseguia lembrar exatamente onde havia escutado pela primeira vez.

Talvez na casa.

Talvez na cafeteria.

Ou talvez em algum outro lugar.

Lucia apoiou o queixo na mão.

— Vincenzo...

O nome escapou baixinho.

Ela não sabia por que estava tentando lembrar.

Era apenas uma voz.

Nada mais.

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