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Capítulo 4

Author: Lykke
last update publish date: 2026-10-03 05:08:39

Na manhã seguinte, Vincenzo acordou antes do despertador.

O quarto estava escuro.

Ainda era cedo.

Ele ficou alguns segundos olhando para o teto antes de se levantar.

A rotina não mudava.

Banho.

Terno.

Relógio.

Telefone.

Café.

Carro.

Trabalho.

Nada diferente.

Até que, durante o café da manhã, seu celular vibrou.

Era Matteo.

“Encontramos Alberto”.

Vincenzo deixou a xícara sobre a mesa.

“Onde?”

A resposta veio poucos segundos depois.

“Em um bar. Bebendo desde ontem.”

Vincenzo fechou os olhos por um instante.

É claro.

“Traga-o.”

Depois de alguns segundos, outra mensagem apareceu.

“Tem mais uma coisa”.

Vincenzo esperou.

“Descobrimos que ele está praticamente sem dinheiro. A dívida não foi usada para manter a casa ou pagar contas. Quase tudo foi para bebida e apostas”.

Vincenzo olhou para a tela.

Aquilo não o surpreendia.

Mas havia outra informação no relatório que chamou sua atenção.

“A filha ainda mora com ele”.

Lucia.

Ele deixou o celular sobre a mesa.

Por algum motivo, a imagem dela na cafeteria apareceu imediatamente em sua cabeça.

Sentada perto da janela.

Com os fones.

O notebook antigo à sua frente.

Concentrada no trabalho.

Sozinha.

Vincenzo apertou a mandíbula.

Não era problema dele.

A dívida era de Alberto.

Lucia não tinha culpa.

E ele não pretendia misturar as duas coisas.

Levantou-se.

— Senhor?

Um dos funcionários que aguardava próximo à porta chamou sua atenção.

Vincenzo pegou o paletó.

— Vou sair.

— Para onde?

— Resolver uma dívida.

Ი︵𐑼

Alberto estava exatamente como o encontraram.

Sentado em uma mesa no fundo de um bar, com a camisa amarrotada, o rosto inchado e um copo quase vazio diante de si.

Dois homens estavam com ele.

Vincenzo entrou.

Alberto ergueu os olhos.

O pouco de cor que ainda havia em seu rosto desapareceu.

— Moretti...

Vincenzo puxou uma cadeira e sentou-se à frente dele.

— Quatro semanas.

Alberto desviou o olhar.

— Eu vou pagar.

— Quando?

— Preciso de tempo.

— Você já teve.

Alberto passou a mão pelo rosto.

— Eu consigo.

Vincenzo permaneceu calado.

O homem parecia menor do que no relatório.

Cansado.

Destruído.

Mas não o suficiente para despertar pena.

— Você tem uma filha.

Alberto ficou imóvel.

— O quê?

— Lucia.

A expressão dele mudou.

— Não envolva minha filha.

Vincenzo o observou.

— Eu não pretendo.

— Então não vá até minha casa.

A resposta fez Vincenzo estreitar os olhos.

— Eu já fui.

Alberto baixou a cabeça.

— Ela não tem nada a ver com isso.

— Eu sei.

Foi a primeira vez que sua voz mudou um pouco.

Não de raiva.

De certeza.

— A dívida é sua.

Alberto permaneceu em silêncio.

Vincenzo apoiou os braços sobre a mesa.

— Vou lhe dar mais alguns dias.

O homem ergueu os olhos, surpreso.

— Sério?

— Não confunda prazo com perdão.

Alberto assentiu rapidamente.

— Eu vou conseguir.

Vincenzo se levantou.

— Espero que sim.

Quando estava prestes a sair, Alberto falou novamente:

— Moretti.

Vincenzo parou.

— Minha filha não enxerga.

Ele virou o rosto.

— Eu sei.

Alberto pareceu surpreso.

Vincenzo não explicou como sabia.

Apenas saiu.

Do lado de fora, entrou no carro e fechou a porta.

Matteo o observou pelo retrovisor.

— Algum problema?

Vincenzo olhou pela janela.

— Nenhum.

O carro começou a andar.

Mas, dessa vez, ele não conseguiu convencer a si mesmo.

Porque agora havia uma informação que antes não tinha.

Lucia não era apenas a filha de um homem que lhe devia dinheiro.

Ela estava sozinha.

Vivendo com um pai que passava os dias bêbado.

Usando um notebook velho para trabalhar.

E frequentando uma cafeteria apenas para ter algumas horas de paz.

Vincenzo ficou em silêncio.

— Para a empresa? — perguntou o motorista.

Ele demorou alguns segundos para responder.

— Não.

Matteo ergueu os olhos.

— Para onde?

Vincenzo olhou para a rua.

Depois respondeu:

— A cafeteria.

O motorista não fez nenhuma pergunta. Apenas assentiu e voltou a colocar o carro em movimento, enquanto Vincenzo recostava-se no banco traseiro e observava a cidade passar pela janela. Ele poderia ter ido diretamente para casa. Tinha trabalho suficiente esperando por ele, mensagens que ainda precisava responder e uma reunião marcada para mais tarde. A cafeteria não fazia parte de nenhum compromisso. Não havia motivo para estar indo até lá.

Ainda assim, foi.

O som de xícaras sendo colocadas sobre os pires misturava-se às conversas baixas dos clientes e ao ruído constante da máquina de café. Vincenzo parou por alguns segundos perto da entrada, deixando os olhos percorrerem o salão até encontrá-la.

Lucia estava no mesmo lugar.

Sentada perto da janela, com os cabelos castanhos caindo pelas costas, ela mantinha os fones de ouvido sobre as orelhas enquanto trabalhava no notebook. Uma das mãos repousava sobre o teclado, e a outra segurava uma pequena caneca que ela levou aos lábios depois de terminar de digitar alguma coisa. Havia uma tranquilidade quase estranha na maneira como ela ocupava aquele espaço. Como se aquela mesa tivesse se tornado uma pequena extensão da própria casa.

Vincenzo caminhou até uma mesa algumas cadeiras de distância.

Não queria admitir que havia ido até ali para vê-la.

Pediu um espresso e abriu o celular, fingindo interesse nas mensagens que apareciam na tela. Por alguns minutos, conseguiu se concentrar no trabalho. Então ouviu uma sequência rápida de toques no teclado e, logo depois, a voz eletrônica do leitor de tela escapando discretamente de um dos fones que Lucia havia afastado de uma orelha. Ela franziu a testa. O computador demorou alguns segundos para responder.

— Vamos... — murmurou ela.

Vincenzo levantou os olhos.

Lucia tocou novamente algumas teclas. O notebook travou outra vez.

Ela soltou um suspiro, mas não parecia desesperada. Apenas cansada. Fechou os olhos por um instante, respirou fundo e esperou.

— Eu sabia que um dia você ia me abandonar — disse ao computador, em tom baixo. — Só não achei que seria durante o trabalho.

Um sorriso discreto apareceu no rosto de Vincenzo antes que ele pudesse impedir.

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