ANMELDENMABEL - CAPÍTULO 02
Não respondi meu chefe , fingi que não vi sua mensagem , e se ele perguntar negarei até a morte.
Contudo o dia amanheceu com um tom cinzento e pesado, refletindo exatamente o estado da minha alma.
Minha noite foi péssima, mal consegui dormir direito. Cada vez que fechava as pálpebras, a cena grotesca da traição do Patrick se projetava na minha mente como um filme de horror em looping infinito.
A imagem das roupas espalhadas pelo chão, os sons que destruíram meu coração e a visão do homem que jurou me amar entregue a outra pessoa haviam drenado qualquer resto de vitalidade que me sobrava.
Minha cabeça latejava em uma dor constante, e o espelho do banheiro me devolveu o reflexo de um fantasma, com direito a pele pálida, lábios ressecados e olheiras profundas e arroxeadas que nem a camada mais generosa de corretivo conseguiu disfarçar.
Eu precisava trabalhar.
A vida não parava só porque o meu mundo tinha desmoronado em pedaços.
As contas do tratamento da minha mãe continuavam chegando, implacáveis, e o teto daquela empresa era a única coisa que me mantinha de pé financeiramente.
Engoli um gole de café preto e amargo, que queimou minha garganta sem trazer alento algum, e me forcei a colocar o terno de trabalho. Eu me vesti como se estivesse vestindo uma armadura, preparando-me para fingir normalidade diante de dezenas de pessoas.
O trajeto até a sede da corporação foi um borrão anestesiado.
Cheguei cedo, me escondi atrás do monitor da minha mesa e tentei mergulhar nos relatórios para sufocar o nó garganta que me impedia de respirar direito. No entanto, o verdadeiro pesadelo do dia começou às dez da manhã, quando a grande reunião semanal de diretoria foi convocada.
A sala de reuniões principal era um monumento ao luxo moderno, dominada por uma imensa mesa de jacarandá, cadeiras de couro e janelas do chão ao teto que mostravam a imensidão da cidade.
E na cabeceira daquela mesa estava Apolo Buarque.
Apolo exalava um poder quase palpável.
Impecável em seu terno feito sob medida, e aquele olhar afiado de predador que parecia calcular o valor de cada pessoa no recinto, onde ele conduzia a reunião com uma autoridade fria e cirúrgica.
Eu tentei a todo custo me manter invisível.
Mantive a cabeça baixa, fingindo anotações frenéticas no meu bloco de papel, evitando a todo custo que meus olhos cruzassem com os dele.
Quando Apolo deu a reunião por encerrada, o som das cadeiras se arrastando e das conversas paralelas começou a preencher o ambiente.
Respirei fundo, sentindo um alívio momentâneo, e comecei a recolher minhas pastas rapidamente para sair dali junto com os outros funcionários.
— Mabel — a voz grave e ressonante de Apolo cortou o ruído da sala, fazendo minha espinha congelar instantaneamente.
Parei no lugar, com as mãos travadas sobre os papéis.
Olhei de relance e vi que ele continuava sentado na cabeceira, ajeitando as abotoaduras de prata de suas mangas sem pressa, logo se levantou vindo até mim.
— Porque não respondeu a mensagem que te enviei ontem á noite ?
Engoli seco
— Mensagem ? eu não recebi mensagem alguma senhor.
Ele nada disse , apenas estudou meu rosto com atenção me deixando ainda mais nervosa.
— Preciso que vá até o meu escritório. Agora — completou ele, com os olhos cravados em mim, usando um tom que não admitia contestação.
Tão logo se virou em seus pés saindo porta a fora.
Senti o sangue fugir completamente do meu rosto.
Fiquei sozinha por alguns segundos naquele espaço imenso, ouvindo apenas o batimento desordenado do meu próprio coração ecoando nos meus ouvidos.
Um nervosismo avassalador, misturado a um pressentimento sombrio, tomou conta de cada célula do meu corpo.
Caminhei a passos lentos e incertos em direção à sala da presidência, tendo a certeza de que ele vai me colocar para fora a ponta pés, por ter visto o que não deveria.
Cada metro percorrido naqueles corredores acarpetados parecia uma marcha em direção ao meu próprio julgamento.
Quando cheguei à porta de madeira maciça do escritório de Apolo, minhas mãos tremiam tanto que quase não consegui girar a maçaneta.
Entrei e fechei a porta atrás de mim.
A sala dele era vasta, elegante e assustadoramente silenciosa.
Apolo já estava lá, de pé atrás de sua imensa escrivaninha de vidro, de costas para mim, observando a vista da cidade através do vidro temperado.
O silêncio do ambiente era tão denso que dava para ouvir o som da minha respiração curta e desregulada.
— Feche a porta direito e aproxime-se, Mabel — disse ele, girando devagar sobre os calcanhares.
Fiz o que mandou e dei alguns passos hesitantes para a frente, parando a uma distância segura da mesa dele.
Mantive as mãos cruzadas à frente do corpo, tentando dissimular o tremor incontrolável dos meus dedos.
— O senhor queria falar comigo, Sr. Buarque? — perguntei, esforçando-me para manter a voz firme, embora ela tenha saído um oitavo mais aguda do que o normal.
Apolo caminhou devagar ao redor da mesa, contornando o móvel com a graciosidade ameaçadora de um felino. Ele parou a poucos passos de mim, cruzando os braços sobre o peito amplo. Seus olhos castanhos claros e penetrantes varreram pelo meu rosto. Ele parecia ler através de mim, desnudando cada uma das minhas inseguranças.
— Quero saber o que você viu na noite anterior — disparou ele, sem rodeios, a voz mantendo uma calma perturbadora.
O impacto da pergunta me fez dar um leve sobressalto.
O ar trancou na minha garganta.
Senti pavor de ter minhas emoções expostas e por isso recorri ao único mecanismo de defesa que me restava: a negação absoluta.
— Eu... eu não vi nada, Sr. Buarque — respondi em um sobressalto, engolindo em seco enquanto meus olhos desviavam dos dele, incapazes de sustentar a intensidade daquele olhar. — Não aconteceu nada. Eu só recolhi meus documentos e fui para casa. O senhor deve estar enganado.
Um sorriso lento, frio e terrivelmente arrogante começou a se desenhar nos lábios de Apolo.
Ele deu mais um passo em minha direção, diminuindo o espaço entre nós a um ponto em que eu podia sentir o calor emanando de seu corpo e o aroma sutil e caríssimo de seu perfume amadeirado.
— Não tente mentir para mim, Mabel. Você é uma péssima mentirosa — disse ele, inclinando a cabeça levemente, sem desviar o olhar do meu por um segundo sequer. — Eu sei muito bem que não é verdade. Eu vi claramente a expressão indisfarçável de prazer explicita em seu rosto enquanto observava a cena.
Minha mente congelou.
Um frio correu pelas minhas veias, seguido por uma onda avassaladora de calor que subiu direto para o meu rosto, queimando minhas bochechas.
Meus lábios se entreabriram, incapazes de soltar qualquer som. Sentia minha pulsação martelando alto nos meus ouvidos e no ponto fraco da minha garganta.
Como ele podia ter certeza absoluta? Como podia falar daquele momento com tanta precisão e de forma crua?
E então, como um golpe doloroso de iluminação, a verdade me atingiu em cheio.
Meus olhos se arregalaram involuntariamente e se voltaram para o canto superior do escritório, bem acima da porta de entrada. Havia câmeras de última geração espalhadas por cada milímetro daquele andar, incluindo o corredor e a área externa do escritório.
Ele tinha checado as gravações.
A vergonha que me abateu foi tão devastadora que senti meus joelhos fraquejarem.
Eu me senti completamente exposta, vulnerável e desarmada diante dele.
Não havia máscara ou desculpa que pudesse me salvar agora.
Apolo percebeu a exata fração de segundo em que a ficha caiu para mim.
Ele deu mais um passo, reduzindo o espaço a uma proximidade sufocante, me encurralando cada vez mais.
Sentir o olhar dele descendo devagar do meu rosto para os meus lábios fez meu estômago dar uma reviravolta estranha, um arrepio quente que percorreu toda a minha espinha e me deixou sem ar.
— Agora você entendeu, não é? — murmurou ele, a voz baixando para um tom íntimo e perigoso.
Ele deu mais um passo, ficando tão perto que sua presença me sufocava.
— Não adianta tentar se esconder atrás dessa fachada de funcionária exemplar e dedicada.
Engoli em seco, incapaz de formular uma única palavra.
Pressionei os lábios com força, cravando as unhas nas palmas das minhas mãos para me reancorar na realidade. A umidade calorosa do hálito dele roçava a pele da minha testa, e o contraste entre aquela atração física visceral e a humilhação do momento criava um curto-circuito no meu cérebro.
Apolo se aproximou um pouco mais.
O olhar dele caiu para os meus lábios mais uma vez , antes de voltar a encontrar os meus olhos.
— Vamos facilitar as coisas — disse ele, com uma sinceridade fria e desconcertante. — Se você quiser ficar comigo, basta me ligar. A decisão é sua. Se me quiser, você sabe onde me encontrar e como me contatar.
Antes que eu pudesse sequer processar a proposta absurda, a expressão dele se endureceu, assumindo uma rigidez fria e distante.
A postura de homem de negócios voltou com força total.
— E só pra deixar as coisas bem claras entre nós. Tire da cabeça qualquer ideia de romance — continuou ele com um tom cortante. — Eu não quero uma namorada. No entanto se você aceitar o meu convite, vai ter que ser do meu jeito. Sem rótulos e sem cobranças. Eu sou livre para fazer o que eu quiser e você também, isso quer dizer que não te impede de sair com outros homens, por mim tudo bem. Meu acordo é esse. Agora... só depende de você.
A frieza analítica com que ele falava de um envolvimento, a forma como me reduzia a uma mera opção de entretenimento descartável sem qualquer compromisso, foi o estopim para que algo dentro de mim finalmente despertasse da anestesia.
Toda a dor, a vergonha e a humilhação que venho acumulando desde a noite anterior se transformaram em uma faísca pura de raiva e indignação.
Meus ombros tencionaram e a postura ereta que eu vinha tentando manter se fortaleceu, alimentada por um orgulho feroz que despertou da dor.
A fraqueza e o tremor nas minhas mãos desapareceram, substituídos por uma firmeza que eu nem sabia que ainda possuía.
— O senhor está terrivelmente enganado a meu respeito, Sr. Buarque — respondi, com a voz clara, firme e vibrante de desprezo. — Eu jamais ligaria para você. Nem hoje, nem nunca. A sua proposta é ultrajante e o seu dinheiro ou poder não me impressionam.
Dei meia-volta decisiva, segurando a maçaneta para abrir a porta e sair daquele pesadelo.
Mas antes que eu desse o primeiro passo para o corredor, a voz de Apolo me alcançou, carregada de uma serenidade perturbadora e cheia de paciência predatória.
— É mesmo? — disse ele, a voz num sussurro provocante, fazendo com que os pelos dos meus braços eriçassem. — Não tenha pressa, Mabel. E a propósito , não vai levar a sua agenda?
Seu tom era pura zombaria
Fechei os olhos e praguejei, girando nos meus pés me voltei em sua direção engolindo em seco quando toquei na agenda que estava em suas mãos , tentei puxar , mas ele intensificou o aperto me encarando dentro dos olhos de modo letal.
— Pense com calma e depois me dê uma resposta. Afinal... não há nada de vergonhoso em ter desejos
Minha pele arrepiou , uma resposta traidora antes de puxar a agenda de suas mãos e apressar meus passos saindo porta a fora batendo a mesma com força atrás de mim.
Avancei pelo corredor a passos largos.
Assim que entrei no elevador e as portas metálicas se fecharam, meu corpo inteiro colapsou contra a parede espelhada.
Pressionei a mão contra o peito, tentando desesperadamente puxar o ar para os meus pulmões.
Eu estava ferida, quebrada, sangrando por dentro.
E, no entanto...por que diante de Apolo Buarque meu corpo reagia de forma tão traiçoeira?
Por mais que eu tentasse expulsar a imagem da minha mente, a lembrança de vê-lo despido na noite anterior retornava com força; da aura perigosa e do magnetismo cru que ele exalava.
Pressionei as mãos contra o rosto quente, tentando sufocar o desejo proibidíssimo e assustador que continuava a pulsar no meu sangue, enquanto jurava a mim mesma que preservaria a minha dignidade acima de qualquer tentação.
E Apolo Buarque não era uma excessão!
MABEL - CAPÍTULO 10Fingir estar ocupada ajeitando a fivela do salto agulha foi a única forma que encontrei de permanecer na antessala com os ouvidos bem atentos justamente por conta das câmeras de segurança, captando cada palavra que vinha de dentro da sala de Apolo. Dona Carlota raramente aparecia por ali, e quando dava o ar da graça, parecia carregar o peso do mundo — ou melhor, o peso de toda a sua conta bancária — nos ombros.Aquela mulher era simplesmente intimidadora.Ela olhava para todos nós, funcionários, de cima para baixo, como se fôssemos seres de uma espécie inferior, desprovidos de qualquer gota de humildade. E tudo bem, quer dizer, eles eram milionários, herdeiros de um império, então a arrogância parecia vir embutida no DNA da família Buarque.No entanto, o segundo em que escutei a voz cristalina de Carlota anunciar com entusiasmo que havia encontrado a "noiva perfeita" para o filho, senti um nó físico, doloroso e gélido se formar no meu estômago.Engoli seco, a garga
APOLO BUARQUE - CAPÍTULO 09ALGUNS ANOS ATRÁS...O trânsito daquela manhã na Avenida Principal parecia um pesadelo, daquelas em que parece conspirar para esmagar qualquer resquício de sanidade que nos resta. Eu estava preso em um engarrafamento interminável, buzinas ecoando, quando a minha atenção foi tragada para a calçada ao lado.Onde se fazia um tumulto repentino.Um garoto de capuz passou correndo, desabalado, puxando com força a bolsa de uma senhora que cambaleou e quase foi ao chão.Sem pensar duas vezes, empurrei a porta do carro, ignorei o terno apertado e disparei atrás do moleque. O alcancei a poucos metros, agarrando-o pelo colarinho com tanta força que o garoto quase perdeu o equilíbrio.Fitei-o de cima a baixo, o sangue fervendo nas minhas veias, descarreguei toda a minha fúria em um esporro seco e cortante.— Você perdeu o juízo, seu moleque insolente?! Ficar roubando os outros na rua, achando que vai ficar por isso mesmo? Devolva essa bolsa imediatamente antes que eu
APOLO BUARQUE - CAPÍTULO 08 DIAS ANTES... Ao abrir os olhos devagar, sentindo a claridade suave da manhã invadir o quarto. Por um segundo, estendi o braço para o lado em busca do corpo quente que preencheu a minha cama durante toda a noite, mas encontrei apenas os lençóis de seda frios e levemente desalinhados. Mabel já tinha ido embora. Um sorriso contido surgiu no canto dos meus lábios. Ela realmente tinha fugido na ponta dos pés, como uma ladra na calada da noite — ou, no caso dela, no alvorecer do dia. Levantei-me da cama, deslizei um short de tecido leve, permanecendo sem camisa e descalço, e caminhei em direção à sala. O silêncio do apartamento era quebrado apenas pelo aroma fresco de café recém passado que vinha da cozinha. Ao dobrar o corredor, dei de cara com Dona Bete ajeitando a mesa do café da manhã. Bete era muito mais do que uma governanta; ela cuidava de mim desde que eu me entendia por gente. Foi minha babá, presenciou meus primeiros passos e viu cada fase
MABEL - CAPÍTULO 07 A luz suave do amanhecer começava a atravessar a parede de vidro do quarto quando abri os olhos. Por alguns segundos, a sensação de conforto e o calor de um corpo ao meu lado me mantiveram em um estado de torpor agradável. No entanto, assim que a realidade caiu sobre mim, dei um pulo por dentro. Olhei para o lado. Apolo dormia profundamente de bruços, com metade do cobertor cobrindo seu quadril. A visão das suas costas largas, da musculatura definida e da postura relaxada me fez engolir seco. Ele era absurdamente lindo, não havia como negar. Mas a admiração durou exatos dois segundos antes que o pânico absoluto tomasse conta da minha mente. Meu Deus, o que foi que eu fiz? O arrependimento veio como uma onda avassaladora. A lembrança da noite anterior passou pela minha cabeça em câmera lenta: a humilhação no bar, a minha provocação impulsiva e a forma como me entreguei sem pensar duas vezes. Ele era meu chefe. Meu chefe! Eu tinha, na prática, tr
MABEL - CAPÍTULO 06 Assim que cruzamos as portas do bar e entramos no carro luxuoso de Apolo, um silêncio denso tomou conta do veículo. Olhei fixamente pela janela, mantendo minhas mãos unidas sobre o colo, apertando-as com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram pálidos. Minha mente era um caos de dúvidas. Eu estava mesmo fazendo a coisa certa? Aceitando ter um caso as escondidas com meu chefe? A verdade é que dar para trás agora parecia impossível. Sentindo a minha tensão, Apolo deslizou uma das mãos do volante até a minha, cobrindo meus dedos num toque firme, quente e reconfortante. — Não precisa ter medo de nada, Mabel — ele disse baixinho, sem tirar os olhos da estrada. — A noite é toda sua. Olhei para ele, sentindo o ar preso finalmente escapar dos meus pulmões. Um pequeno sorriso surgiu nos meus lábios enquanto eu assentia levemente, deixando-me levar por aquele caminho sem volta — sem imaginar que ele faria de tudo para que eu me viciasse nele. ***** O apartame
MABEL - CAPÍTULO 05 MOMENTOS ANTES... — Achei que você estivesse fazendo horas extras no escritório, Mabel. Ah, esqueci... você não tem mais ninguém para enganar com essa historinha de garota dedicada. O homem que eu amei por anos agora me encarava com um desprezo frio que rasgava minha alma. — Deixa ela, Lívia. A coitadinha deve estar tentando entender onde errou — disse Patrick, dando um passo à frente e inclinando-se ligeiramente, encarando-me nos olhos com uma crueldade calculada. — Quer saber a verdade, Mabel? Você é sem graça. Sem sal. Eu só aturava esse seu teatrinho porque você pagava a comida e me dava abrigo. Acho que nenhum homem no mundo seria capaz de querer uma mulher como você. Aquelas palavras soaram como um soco direto no meu estômago. Senti todo o ar ser arrancado dos meus pulmões de uma só vez. A tontura veio imediata, fazendo o bar todo girar ao meu redor. Um zumbido agudo e ensurdecedor passou a martelar meus ouvidos, abafando o som do ambiente. L







