LOGINDe manhã cedo, a luz do sol inundava a varanda e atravessava a cortina, espalhando claridade por todo o quarto.Carolina despertou devagar, ainda sonolenta, e estendeu a mão para o lado na cama grande.Estava frio.Vazio.Ela abriu os olhos, olhou em volta e se sentou, abraçando o lençol contra o corpo. Só então percebeu que Henrique já não estava mais no quarto.O celular estava sobre a mesa de cabeceira. Ela o pegou e viu as horas.10h08.Henrique já devia estar no trabalho.Quanto a ela, não precisava bater ponto nem tinha horário fixo. Se não houvesse nada urgente, podia muito bem dormir até acordar sozinha e só depois ir ao escritório.Carolina afastou o lençol e saiu da cama. Reparou que as roupas espalhadas pelo chão já tinham sido recolhidas. Depois, foi até o banheiro se arrumar.Parada diante do espelho, viu o próprio reflexo.Sobre a pele clara, havia marcas de beijo por toda parte.Bastava um olhar para entender o quanto Henrique tinha sido intenso na noite anterior.Com a
Claro.Como aquilo poderia ter sido coincidência?Se ele a tinha pego logo de primeira, era porque já estava de tocaia havia muito tempo, esperando o momento certo para agir.— Você não disse que andava muito ocupado ultimamente? Que estava fazendo hora extra?Carolina se achegou mais, roçando de leve no braço dele, como se quisesse diminuir ainda mais a distância entre os dois.Henrique curvou os lábios num sorriso discreto e abaixou a cabeça para olhá-la.Desde o começo, quando ela se recusava a lhe dar a mão e praticamente era arrastada por ele, até agora, caminhando ao seu lado, aceitando os dedos entrelaçados e até tomando a iniciativa de se aproximar...Henrique percebeu cada mudança, por menor que fosse.O sorriso em seus lábios se abriu aos poucos e, no fundo dos olhos, brilhava um calor intenso, profundo, cheio de afeto.— Eu realmente estou ocupado. Mas isso diz respeito à sua segurança. Não dá para deixar para depois.— Obrigada, Henrique.— Você não precisa ser formal comig
— Você consegue mesmo resolver isso?Henrique segurou a mão dela e esfregou de leve as pontas de seus dedos gelados.Em pleno verão, as mãos de Carolina estavam frias daquele jeito. Era óbvio que o susto tinha sido grande.Com o peito apertado, ele fitou o rosto claro dela.— Consigo.Carolina assentiu.Tentou puxar a mão de volta, mas percebeu que ele a segurava com firmeza, sem a menor intenção de soltá-la.Ela baixou os olhos. O olhar pousou sobre a mão dele envolvendo a sua. A palma era quente, os dedos, longos e fortes. Sob a pele, veias azuladas se desenhavam em traços discretos, com a solidez serena de uma cadeia de montanhas.Aquele gesto simples, aquele calor silencioso envolvendo sua mão, bastou para que uma sensação de segurança se espalhasse da ponta dos dedos até o fundo do peito, fincando raízes devagar dentro dela.— De quanto é a indenização?— Oitocentos e poucos mil. — Carolina ergueu o rosto para Henrique e sustentou o olhar quente e profundo dele. — Daquele um milhã
Ela seguia pela passagem de pedestres, estreita e deserta, que levava de volta ao condomínio, quando aquela sensação estranha, desaparecida havia tanto tempo, voltou a assombrá-la.No meio dos arbustos escuros, parecia haver um par de olhos cruéis cravados nela, como se a observassem sem piscar. Uma presença sombria e opressiva avançava na sua direção.Carolina parou de repente e olhou em volta.Não viu ninguém atrás dela.Será que estava sensível demais?Mesmo assim, sentiu o couro cabeludo se arrepiar por inteiro, e as pernas pareceram amolecer. Respirou fundo e continuou andando.Mas, a cada passo, a sensação daquele olhar grudado às suas costas ficava mais nítida.Um vento frio, quase sinistro, soprou ao redor.De repente, um estalo seco rasgou o silêncio.— Pá.O som veio dos arbustos.Carolina quase morreu de susto e disparou para a frente, correndo sem olhar por onde ia.Corria e, ao mesmo tempo, virava a cabeça para trás, tentando entender o que estava acontecendo.Foi então qu
Nos olhos da assistente, passou um lampejo de repulsa, quase imperceptível. Ainda assim, ela sustentou no rosto um sorriso profissional, claramente forçado.— Já entreguei tudo para a doutora Carolina.André entrou no escritório de cara fechada, visivelmente irritado.Pouco depois, reapareceu com uma xícara de café na mão. Ao passar pela sala de Carolina, parou de repente à porta e lançou um olhar discreto para dentro.Agachada no chão, Carolina digitava a senha do cofre. Abriu a porta, guardou todas as provas lá dentro e, em seguida, tornou a fechá-la.Quando se levantou e se virou, deu de cara com André parado na entrada, numa postura no mínimo suspeita.— Dr. André, aconteceu alguma coisa?André curvou os lábios num sorriso frio e ergueu de leve a xícara que tinha na mão.— Carolina, quer café?— Não, obrigada.A resposta saiu fria, enquanto ela se sentava à mesa.Um sorriso sombrio se espalhou pelo rosto de André. Ele tomou um gole do café, passou em frente à sala dela e voltou par
Henrique assentiu, acompanhando o raciocínio dela.— É... Típico filhinho da mamãe.Carolina virou o rosto para encará-lo.— Se fosse você, o que faria?Henrique respondeu sem hesitar:— Eu contrataria alguém para cuidar da minha mãe e manteria minha esposa e meu filho ao meu lado. Ou então levaria todo mundo comigo. Não deixaria ninguém para trás.— Exatamente. É assim que um homem de verdade pensa.Quanto mais Carolina refletia, mais estranha aquela história lhe parecia. Em voz baixa, murmurou:— O Leandro com certeza está escondendo alguma coisa.Pelo resto do caminho, ela continuou de mau humor.Quando o carro parou em frente ao escritório, Carolina soltou o cinto.— Obrigada.Desceu, fechou a porta e contornou a frente do carro, seguindo em direção ao prédio.— Carolina.Henrique a chamou.Ela se virou, estranhando vê-lo ainda ali, no banco do motorista.Com o cotovelo apoiado na janela e o corpo levemente inclinado para fora, ele ergueu a mão num aceno.— Tchau. Te vejo mais tard
Aquilo era simplesmente… Morte social.Vergonha absoluta.O calor que emanava do corpo de Henrique a envolvia por completo.Contra a própria vontade, Carolina, que tentava manter a mente limpa, acabou sendo traída pela memória do corpo dele.As pernas ficaram fracas. O corpo reagiu antes da razão.E
Carolina não sabia se, ao longo daqueles anos, Henrique tinha tido alguma namorada.E se ele estivesse como ela, cinco anos sem ninguém.Um homem jovem, cheio de vigor. Quanto isso devia apertar por dentro?Ao voltarem para o andar de baixo, os dois entraram no elevador, um atrás do outro.Carolina
— Carolina, você é corajosa… Mas espera só.O rosto de Lílian ficou esverdeado de raiva. Ela apontou o dedo para Carolina, de cima a baixo, e rosnou, palavra por palavra, entre os dentes:— Vou contar para os pais do Rick que você está morando com ele. Eles não vão ficar de braços cruzados.Diante d
A polícia nunca foi muito entusiasmada em lidar com casos de violência doméstica, ainda mais quando se tratava de mãe e filha.Afinal, Carolina apresentava apenas hematomas superficiais. Não era considerado ferimento grave.A intenção inicial era simples. Uma advertência verbal, algumas palavras de






