ANMELDEN— O Sr. Bruno pediu o dia de folga? Está passando mal?A pergunta escapou antes que Rebeca decidisse se devia fazê-la.O assistente, porém, apenas balançou a cabeça. Também não sabia de nada.Sem Bruno para autorizar as etapas seguintes, alguns processos precisaram ficar suspensos.De volta à sua mesa, Rebeca abriu a conversa com ele. Escreveu uma mensagem perguntando se estava bem, releu duas vezes e apagou tudo antes de enviar.Por mais que começassem a se tratar como amigos, entre os dois ainda existia uma hierarquia. Bruno era seu superior. Ela trabalhava para ele.Além disso, Rebeca já traçou um limite claro, mas a noite anterior mostrou que os sentimentos dele não desapareceram.Naquela situação, o silêncio era a única delicadeza possível. Quem não pretendia corresponder não tinha o direito de alimentar esperança apenas para aliviar a própria consciência.Ao sair do trabalho, Rebeca passou em uma loja de conveniência e comprou alguns espetinhos, além de cerveja.Em noites ruins,
Rebeca atravessou a noite em intervalos curtos de sono. Quando a claridade da manhã alcançou o quarto, desistiu de tentar descansar e se levantou.Ao abrir a porta, não encontrou nenhuma surpresa.Sandro já foi embora.A manta estava dobrada sobre o sofá, as almofadas alinhadas. Nem a caixa do bolo continuava ali. Ele recolheu tudo e levou o lixo consigo.Sandro era como o vento. Chegava sem ruído, mudava todo o ar ao redor e, quando partia, não deixava nada que as mãos de Rebeca pudessem reter.Rebeca se sentou onde ele dormiu poucas horas antes. O estofado já não guardava qualquer vestígio de sua presença.Afinal, o que o sentimento queria das pessoas?Por que, mesmo quando parecia recíproco, era tão difícil chegar ao mesmo lugar?E por que justamente o homem que ela queria por perto era aquele que melhor sabia ir embora?O cansaço pesou durante toda a manhã. Pela primeira vez em muito tempo, Rebeca chegou ao Grupo Fonseca com uma hora de atraso.Mal passou pela recepção, ouviu uma v
A sala estava vazia quando os dois voltaram da cozinha. Bruno não estava mais ali.— O Sr. Bruno não parecia nada feliz hoje.Ao dizer isso, Sandro percebeu que o bolo mudou de lugar. A caixa, antes esquecida sobre a mesa de centro, agora ocupava o meio da mesa de jantar.— Ele é assim. Implica com tudo e depois se irrita sozinho. Não liga.Rebeca falou com desdém, mas seus olhos demoraram um pouco mais sobre a caixa.O motivo daquela irritação não era nenhum mistério. Bruno ainda sentia alguma coisa por ela, apesar de Rebeca já deixar claro que não poderia corresponder. De vez em quando, porém, a arrogância dele abria uma fresta e deixava aparecer alguém de quem era difícil não sentir pena.— Eu não ligo — Sandro respondeu. — Mas o Sr. Bruno é seu amigo e trabalha com você. Não quero que minha presença crie problemas entre vocês.Fez uma breve pausa antes de acrescentar:— Até porque eu só estou de passagem. Não vale a pena se afastar de quem faz parte da sua vida por causa de alguém
Bruno não suportou continuar sendo tratado como uma cadeira vazia. Soltou uma risada curta, carregada de ironia.— Sandro, o que trouxe você de volta assim, de repente? Ouvi dizer que a Ordo Nihilis caiu. Você não devia estar escondido em algum lugar, esperando a poeira baixar?O garfo de Sandro parou a meio caminho.Rebeca fulminou Bruno com os olhos. Ele sabia exatamente onde ferir e, pior, fazia aquilo de propósito.Ela abriu um sorriso rígido, se esforçando para não transformar o jantar em uma briga.— Sr. Presidente, se está tão difícil comer, não precisa se sacrificar. Pode deixar o prato.Bruno apoiou o cotovelo na mesa e se inclinou um pouco na direção de Sandro, como se ainda não tivesse ido longe o bastante.— Que isso. Não é todo dia que se tem a honra de jantar com um mercenário procurado no mundo inteiro.— Bruno!A palma de Rebeca bateu na mesa. A louça estremeceu, e a última leveza abandonou o ambiente.— Rebeca.Sandro não elevou a voz. Mesmo assim, bastou pronunciar o
Rebeca deixou o bolo sobre a mesa e voltou direto para a cozinha. Não lhe ofereceu água, muito menos perguntou se queria se sentar.Bruno entendeu a recepção. Ainda assim, acomodou-se no sofá como se nada estivesse fora do lugar.Da sala, enxergava a cozinha aberta. Rebeca e Sandro trabalhavam tão próximos diante da bancada que os ombros quase se tocavam. Entre uma tarefa e outra, ela dizia alguma coisa, ele respondia, e os dois riam num tom baixo que não chegava inteiro até Bruno.Rebeca entregou a Sandro a bebida que acabara de preparar. Ele provou uma colher, avaliou o sabor e assentiu.— Ficou bom.Em seguida, serviu um copo e veio até a sala.— Receita da Rebeca. Está muito gostoso.Os lábios de Bruno esboçaram um movimento curto, sem chegar a formar um sorriso. Ele aceitou o copo e o deixou intacto sobre a mesa de centro.— Obrigado.Sandro não voltou imediatamente para a cozinha.— E você, como está? Os ferimentos já melhoraram?O tom continuava casual, mas a atenção com que o o
Rebeca nem precisou pedir o azeite. Sandro completou o gesto dela, e a garrafa chegou às suas mãos. Entre os dois, as palavras pareciam vir depois do entendimento. As vozes e os carrinhos continuavam disputando espaço nos corredores, mas aquela agitação já não a cansava. Havia alguém ao seu lado que entendia sem exigir explicações, e as compras no carrinho eram para um jantar que ela não comeria sozinha.No caixa, ela se adiantou para pagar. Sandro não disputou a conta. Quando recebeu as compras, porém, ficou com as duas sacolas mais pesadas.— Vamos?O apartamento que Rebeca alugava ficava a pouco mais de quinze minutos dali, a pé. Sob os postes, as sombras dos dois se alongavam pelo chão e, às vezes, se tocavam. O ar fresco do início do outono desfez o calor abafado do supermercado.— E desta vez... quantos dias você acha que fica?Rebeca virou o rosto para ele. A pergunta a acompanhava desde o reencontro. Com Sandro, nunca sabia quanto tempo ainda podia contar antes que ele partisse







