LOGINDaniel parecia não ouvir Ayla tentando detê-lo.Era a primeira vez que ele falava sem pensar no que aquilo faria com ela.Então Ayla se lembrou.Uma vez, Daniel perguntou o que ela faria se ele a enganasse.— E daí?Sem resistir mais, Ayla apenas devolveu a pergunta em voz baixa.Não havia muita emoção no tom dela.Era uma calma funda, pesada, como o céu antes da tempestade.— E daí... — Daniel fez uma pausa. A voz já não tinha a suavidade de sempre. Saiu fria, estranha, quase como a de outro homem. — Se você se arrependeu agora, então podemos parar por aqui.Pelo canto dos olhos, ele olhou para ela.Ayla estava de cabeça baixa. A mão ferida balançou de leve.Daniel não ousava pensar no que teria acontecido se, naquele instante, ele não tivesse despertado.Será que Ayla ainda estaria sentada diante dele, inteira, ilesa?Nesses últimos dias, ele se permitiu acreditar.Agarrou-se à sorte, viveu uma felicidade tão plena que parecia impossível.Mas agora, talvez, fosse hora de acordar.Por
Agora que Daniel finalmente tinha se aquietado nos braços dela, o que ele mais precisava era de um pouco de silêncio.Giovanna fez sinal para que a funcionária se aproximasse em silêncio, cuidasse da mão de Ayla e enrolasse o ferimento. Depois, mandou limpar rapidamente o sangue no chão.Letícia não disse nada. Miguel amparou Giovanna, e os três ainda lançaram alguns olhares preocupados para o casal antes de sair.Quando todos se retiraram em silêncio, o ambiente inteiro ficou mergulhado apenas na respiração dos dois e no compasso desencontrado dos seus corações.Ayla não afrouxou o abraço. Ao contrário. Encostou de leve o queixo no alto da cabeça dele e, com a mão que não estava ferida, passou a acariciar suas costas tensas, devagar, uma vez após a outra.Sentiu o corpo de Daniel ainda tremer. Sentiu também aquela tensão ir cedendo aos poucos.— Pronto, pronto... já passou. Todo mundo foi embora. Está tudo bem. Um homem desse tamanho e ainda faz uma coisa dessas, impulsivo igual menin
— Lalá!— Ayla...Letícia quase chorou. Giovanna também levou um susto tão grande que mal conseguiu se manter de pé.Miguel foi o primeiro a voltar a si. Repreendeu Daniel, sem entender o que estava acontecendo com ele.Mas o olhar de Daniel ainda estava disperso.Ele encarava a cena diante de si com a testa cerrada, como se estivesse preso num nevoeiro.No instante em que segurou a lâmina, a palma de Ayla se abriu. O sangue desceu devagar por seu pulso fino e pingou no chão, gota após gota.Mesmo assim, Daniel não soltou a faca.A força em sua mão não cedeu. A ponta da lâmina ainda avançava, lenta, para a frente.Em meio às exclamações sufocadas ao redor, Ayla reuniu forças para conter o braço dele.A dor tornou sua respiração mais pesada.— Daniel, o que está acontecendo com você?Ela sentiu com clareza que Daniel parecia ausente, como se tivesse perdido a consciência do que fazia.Só então a família Cardoso correu para ajudar. Ao verem a mão de Ayla ferida daquele jeito, e Daniel ai
Daniel se levantou de repente. O movimento foi tão brusco que derrubou a cadeira, arrancando um ruído áspero pelo chão.Ao perceber que algo estava errado com ele, Letícia se apressou em intervir:— Cassian! Vamos embora.Ao ver que foi Ayla quem recebeu o golpe, Cassian também ficou constrangido por um instante.A palma da mão ainda ardia. A pancada foi pesada demais. Ele só agiu assim porque a raiva lhe subiu à cabeça.Dessa vez, Cassian não afastou Letícia.Giovanna estava fora de si, mas só lançou um olhar furioso para Cassian antes de correr para amparar Ayla.Ayla realmente ficou atordoada com o tapa. Só conseguiu se levantar com a ajuda de Giovanna e da funcionária.— Daniel...Assim que recobrou um pouco os sentidos, chamou por ele.Ela estava preocupada.Desde o momento em que Cassian entrou, o estado de Daniel já estava errado.Ela sentia isso.O olhar dele só se desviou para Ayla por um instante. Quando tornou a erguer os olhos, havia ali um vermelho sombrio, fundo, assustad
Letícia não queria estragar o clima. Agarrou o braço de Cassian e tentou puxá-lo dali.— Você deve estar cansado da viagem. Está de cabeça quente. Vem, eu levo você para descansar.Ela conhecia Cassian melhor do que ninguém. Naquele estado, ele jamais conseguiria falar com Daniel em paz.Era melhor sair do que transformar o jantar inteiro num campo de guerra.Só que Cassian continuou olhando para Daniel.A família inteira já tinha falado. Só ele seguia imóvel, sentado no mesmo lugar, sereno como se nada ao redor lhe dissesse respeito.Era só um ferimento. E ele já se colocava naquele trono.Cassian também não gostava de se fazer de intruso. Foi até ali só para ver o filho.Não esperava, porém, receber em troca aquela indiferença arrogante, como se Daniel estivesse acima dele.A irritação que entalava no peito enfim explodiu. Ele arrancou o braço das mãos de Letícia, avançou um passo e derrubou, de um golpe, a tigela e os talheres que Daniel segurava.— O quê? Só porque se machucou agor
— Sr. Cassian, o senhor chegou...A voz da funcionária veio da entrada. Letícia já desconfiava que pudesse ser Cassian.Em geral, as empregadas não abriam a porta daquele jeito.Mas, naquele dia, Letícia já sabia que Cassian voltaria a Astério. O voo dele pousaria à noite, e, com medo de que ele chegasse à mansão e não encontrasse ninguém, mandou uma mensagem avisando que todos estavam na casa de Ayla.Desde o acidente de Daniel, Cassian só fez alguns telefonemas para perguntar como ele estava. Em nenhum momento foi vê-lo pessoalmente.Isso não feriu apenas Daniel. Letícia também guardava ressentimento. Na verdade, a família inteira ainda carregava essa mágoa entalada.— O que você veio fazer aqui?Assim que viu Cassian, o sorriso no rosto de Giovanna desapareceu.— A família se reúne para jantar e ninguém me chama?Cassian falou com frieza. Entregou o casaco à funcionária e avançou até a mesa com passos pesados.Ayla mal fez menção de se levantar, mas Daniel segurou seu braço.Com uma
Ao ouvir a voz de Bianca sair do celular, Selina perdeu de vez o controle.— Sua vadia! — Gritou, fora de si. — Mesmo que você tenha se casado com o Gustavo, enquanto eu estiver viva, esqueça entrar na casa da família Siqueira!— Tudo bem. — A voz de Bianca, do outro lado da linha, soou surpreendent
Daniel aprendia rápido. Em tudo o que fazia, mantinha uma concentração absoluta, sem o menor traço de pose ou distância de executivo.— É porque você ensina bem. — Comentou num tom baixo.Depois de hesitar por um instante, perguntou: — Antes... você fazia bolo para outras pessoas?A pausa no fim da
Ela já não sentia o menor traço de sono. Estava desperta demais, mais alerta que uma coruja.O que Daniel queria dizer com aquilo?Dormir juntos... esta noite...Depois de tantos anos com Gustavo, ela nunca passou de certos limites. Será que hoje seria a primeira vez?Só de pensar nisso, Ayla puxou
O rosto de Ayla permanecia sereno. Ela não respondeu, apenas aguardou que ele continuasse.— Antes de você entrar para a família Fonseca, eu até consigo compreender que, por sobrevivência, você tenha tido um passado complicado. Isso não seria um grande problema — Prosseguiu Bruno. — Mas agora é dife







