登入O vestido era branco.
Claro que era.
Nem marfim, nem pérola, nem qualquer mentira elegante inventada para suavizar a crueldade. Branco. Liso. Escandalosamente simples. O tipo de vestido que parece inocente até tocar a pele errada.
— Não vou usar isso — digo, segurando o tecido entre dois dedos, como se ele pudesse me contaminar.
Luka, encostado na porta da suíte como se tivesse sido esculpido ali, ergue uma sobrancelha.
— Vai, sim.
— Vai me arrastar pelo corredor de novo?
— Se for preciso.
A resposta vem calma demais. É isso que me irrita. Zion explode. Elias cala. Luka tem o péssimo hábito de parecer razoável quando está sendo insuportável.
Eu lanço o vestido na cama.
— Vocês enlouqueceram de vez. Acham mesmo que eu vou descer para jantar com vocês como se isso aqui não fosse um sequestro com lustre e champanhe?
— Não precisa fingir por nós — Elias diz, da poltrona perto da janela. — Só precisa não fazer Matthew pagar pelo seu pânico.
O golpe acerta limpo.
Viro o rosto para ele tão rápido que o brinco que ainda nem estou usando roça meu pescoço como uma lâmina imaginária.
— Não usa meu filho.
Elias sustenta meu olhar sem alterar a voz.
— Então não me obriga a usar.
O silêncio pesa. Zion, sentado na beira da cama, os cotovelos nos joelhos, observa tudo com aquela quietude tensa que sempre anuncia desastre. Ele trocou a provocação dos últimos dias por uma atenção mais perigosa. Parece um homem tentando se controlar na frente de uma coisa que já decidiu ser sua.
Eu odeio o quanto isso mexe comigo.
O navio balança de leve sob nossos pés. Lá fora, o mar deve estar absurdamente bonito. Aqui dentro, o ar tem gosto de fio desencapado.
— Quem vai estar lá? — pergunto, por fim.
Luka descruza os braços.
— Evie. Declan. Os pais dela. Algumas pessoas da equipe do Zion. Dois investidores do evento beneficente de amanhã. Gente que não merece espetáculo.
— Ah, claro. O importante é a etiqueta.
— O importante — Zion fala pela primeira vez — é você parar de transformar toda sala em campo de batalha antes mesmo de entrar.
Eu rio. Um som seco, sem humor.
— Engraçado ouvir isso do homem que me amarrou numa cama.
Os olhos dele escurecem, mas não desvia.
— E, ainda assim, você está viva, segura e aqui.
A frase entra em mim como um espinho. Porque eu conheço o que ele quer dizer sem dizer. Viva. Segura. Aqui. Ao alcance deles. Longe do resto. Longe dele.
Meu pai.
Pego o vestido de novo. Não porque cedi. Porque estou cansada de discutir cercada por três homens que confundem cuidado com cerco.
— Se eu descer, você não encosta em mim — digo a Zion.
— Não prometo.
— Então eu não desço.
Luka solta um suspiro pelo nariz. Elias se levanta. Zion fica de pé devagar, aproximando-se até parar a um passo de mim.
— Você desce — ele diz, baixo. — E eu não encosto em você sem necessidade.
— Sem necessidade?
— Se você vacilar, fugir ou me olhar como se fosse desmaiar, eu encosto.
Meu ódio quase me sustenta.
— Que generoso.
Ele inclina a cabeça, os olhos presos no meu rosto, não no vestido, não no meu corpo.
— Você não faz ideia do quanto estou sendo.
Desço quinze minutos depois com a sensação exata de estar indo para uma execução bem iluminada.
O restaurante privativo do navio foi montado como se a noite precisasse provar alguma coisa. Toalhas alvíssimas. Talheres brilhando. Arranjos discretos de lírios pálidos. Velas protegidas por cúpulas de vidro, para que nem o vento do mar ousasse tocar o que foi cuidadosamente posto em ordem.
Eu devia ter imaginado.
Branco por toda parte.
Evie me vê primeiro. Seu rosto muda num instante tão pequeno que quase ninguém notaria. Eu noto. Ela me conhece desde antes de eu aprender a mentir direito. Declan, ao lado dela, acompanha meu caminho até a mesa com aquele olhar atento de quem entende que algo está errado, mas ainda não sabe o tamanho.
Matthew não está ali. Um alívio. Ou uma nova forma de medo.
— Maeve — Evie diz quando me aproximo. Não pergunta se estou bem. Graças a Deus, não pergunta. — Você está linda.
— Você sempre foi péssima mentindo.
A boca dela quase sorri.
— Aprendi com você.
Luka puxa minha cadeira. Eu me sento porque recusar seria infantil demais até para mim. Zion ocupa o lugar à minha direita. Elias, à esquerda. Claro. Como se meu corpo precisasse de moldura.
A conversa ao redor da mesa começa sem mim. Datas, agenda, o leilão beneficente, uma apresentação acústica amanhã ao pôr do sol, o menu assinado pelo chef. Tudo muito limpo. Muito polido. Muito longe da verdade.
Eu pego a taça de água, mas minha mão para antes de alcançar a boca.
No reflexo do vidro, por um segundo, vejo outro jantar. Outra mesa. Outra toalha impecável. Minha mãe dizendo para eu sorrir. Meu pai cortando a carne com calma demais. A casa silenciosa do jeito que só casas doentes sabem ficar.
Meu pulso falha.
Elias percebe antes que eu consiga disfarçar.
Sua mão toca meu joelho por baixo da mesa. Firme. Sem carinho. Sem posse. Só um aviso bruto de presença.
Volta.
Eu empurro a mão dele com força, mas o gesto me salva do mergulho.
— Está tudo bem? — uma das mulheres da equipe pergunta, educada demais.
Zion responde antes de mim.
— Enjoo leve. Ela não dormiu bem.
Eu viro o rosto na direção dele, pronta para arrancar a jugular com os dentes.
— Não fala por mim.
— Então fala você.
A mesa cala.
É isso que eles fazem comigo. Empurram. Esperam. Cercam o ponto exato em que minha compostura racha e me deixam escolher entre o silêncio e a exposição.
Evie pousa o garfo devagar.
— Claire fez um escândalo porque queria sobremesa antes do jantar — ela comenta, como se nada tivesse acontecido. — Matthew disse que isso era geneticamente irresponsável.
O ar muda. Pequeno milagre.
Eu solto uma respiração que nem sabia estar prendendo.
— Ele disse isso?
— Com a maior cara séria do mundo — Declan confirma. — Como se tivesse oitenta anos e pagasse impostos.
Apesar de tudo, eu rio. É curto, mas real. O suficiente para que Zion me olhe de lado com uma expressão tão crua que preciso baixar os olhos para o prato.
Não faça isso, penso. Não agora. Não na frente de todo mundo.
O jantar segue. Eu quase consigo me convencer de que posso atravessar aquilo inteira. Então uma das convidadas comenta, sorrindo para Zion:
— Você sempre teve talento para escolher mulheres inesquecíveis.
A frase é leve. Social. Burra.
Mas sinto Zion enrijecer ao meu lado. Luka ergue o copo. Elias fica imóvel. E eu percebo, com uma clareza miserável, que não sou a única atuando ali.
Eles também estão fingindo.
Fingindo normalidade. Controle. Paciência. Como se não tivessem passado anos me perdendo e me procurando. Como se eu não fosse a rachadura de cada um deles sentada à mesa em um vestido branco.
Levanto antes da sobremesa.
— Com licença.
Ninguém tenta me impedir de imediato, o que é pior. Caminho até a saída do restaurante com as costas rígidas, recusando-me a correr. Só quando empurro a porta e sinto o ar frio do corredor tocar meu rosto é que percebo o estrago.
Estou tremendo.
Passos atrás de mim.
Não preciso me virar para saber quem é.
— Maeve.
Elias.
Fecho os olhos por um segundo.
— Se veio me levar de volta, poupa o esforço.
— Não vim.
Eu me viro. Ele para a uma distância respeitosa, as mãos vazias, o rosto ilegível.
— Então por que está aqui?
Elias demora um pouco para responder. Quando responde, a voz sai baixa, quase cansada.
— Porque você entrou naquela sala parecendo alguém prestes a se partir no meio. E eu queria ter certeza de que, desta vez, ninguém ia assistir de braços cruzados.
Alguma coisa dentro de mim vacila.
Só um pouco.
O bastante para ser perigoso.
O corpo de Elara ainda está quente contra o meu quando o sol começa a subir de verdade.Eu não dormi direito. Passei a maior parte da noite acordado, ouvindo a respiração dela, sentindo cada pequeno movimento, como se a qualquer momento alguém fosse bater na porta e tentar levá-la embora. A mão continua espalmada na barriga dela, os dedos levemente curvados, possessivos mesmo no cansaço.Ela acorda devagar. Primeiro um suspiro. Depois o corpo tensiona por um segundo, como sempre faz, antes de lembrar onde está. Quando os olhos verdes se abrem e me encontram, há algo diferente ali. Não é só o desejo residual da noite. É peso.— Você ficou acordado de novo — ela murmura.— Fiquei.— Por causa deles.— Por causa de você.Elara desvia o olhar por um momento. Eu seguro o queixo dela e a faço voltar.— Fala o que está pensando.Ela demora. A garganta se move quando engole.— Ontem, quando eu fui com a Maeve para a cozinha… ela me perguntou se eu realmente conseguia imaginar uma vida longe d
O café da manhã termina em silêncio pesado.Maeve recolhe as xícaras com movimentos calmos demais. Luka permanece sentado, os braços cruzados, observando cada vez que minha mão se move em direção a Elara. Eu não disfarço. Mantenho os dedos na coxa dela por baixo da mesa, o polegar desenhando círculos lentos por cima do tecido da calça de moletom. Ela não se afasta. Só aperta um pouco mais a mandíbula.Quando finalmente nos levantamos, Maeve fala sem olhar diretamente para mim:— Vocês dois vão ficar na sala hoje. Sem sumir para o quarto. Sem se trancar. Eu quero vocês à vista.Eu quase respondo algo afiado, mas me contenho. Apenas aceno uma vez, rígido.Levo Elara até o sofá grande da sala de estar. Sento primeiro e a puxo para ficar colada ao meu lado. Meu braço passa por trás das costas dela, a mão terminando no ombro oposto, mantendo-a presa contra mim. Ela demora um segundo, depois cede, o corpo se acomodando no meu. O cheiro do cabelo dela sobe e me acalma de um jeito que eu odei
Eu acordo antes do sol atravessar completamente as cortinas.A luz ainda é fraca, acinzentada, do tipo que não aquece. Elara está deitada de lado, de frente para mim, o rosto relaxado pelo sono profundo. Uma das minhas mãos está espalmada na cintura dela, os dedos levemente cravados na carne macia. A outra está enfiada por baixo do travesseiro, perto demais do lugar onde eu costumo deixar a arma quando o nervosismo aperta demais. O lençol está baixo na cintura dela. Eu consigo ver as marcas que deixei no pescoço, no ombro, na curva do seio. Ontem eu gozei dentro dela de novo. O cheiro de sexo e de posse ainda gruda na pele dos dois.Eu gostaria de poder trancar o mundo do lado de fora e ficar só com isso.Mas o mundo está no quarto de hóspedes.Eu escuto movimento no andar de baixo. Passos leves, cuidadosos. O barulho de uma xícara sendo colocada sobre a bancada de pedra. O chiado baixo da cafeteira. Maeve já está acordada. Provavelmente há algum tempo.Elara se mexe. Um pequeno gemid
A conversa acaba, mas o peso dela não.Maeve se levanta primeiro. O movimento é lento, controlado, como se ela estivesse segurando algo que ameaça explodir. Luka a acompanha com o olhar antes de se erguer também. Eu continuo sentado, a mão de Elara ainda presa na minha. Eu não solto. Não agora. Talvez não nunca.— Eu quero um copo d’água — Maeve diz, a voz mais baixa. — E quero que ela venha comigo até a cozinha.Eu abro a boca para recusar, mas Elara aperta meus dedos antes que eu consiga falar.— Eu vou — ela diz, surpreendendo os três. A voz dela sai rouca, mas firme. — Só… um minuto.Eu viro o rosto para ela. O olhar que trocamos é carregado. Eu não gosto. Cada fibra do meu corpo grita contra a ideia de deixá-la sair do meu campo de visão com a minha mãe. Mas há algo no jeito que Elara me olha — uma decisão silenciosa — que me faz soltar a mão dela devagar.— Cinco minutos — eu aviso, a voz baixa e dura. — Depois eu vou atrás.Maeve não responde. Só acena uma vez e sai na frente.
Eu os levo para a sala de estar sem soltar a mão de Elara por um segundo sequer.Meus dedos estão firmes em volta dos dela, quase dolorosos de tão apertados. Eu sinto o tremor fino que percorre o braço dela, mas ela não tenta se afastar. Quando chegamos ao sofá maior, eu a puxo para sentar colada ao meu lado. Minha coxa pressiona a dela. Meu braço passa por trás das costas dela de forma clara, possessiva, quase desafiadora. O corpo dela está rígido, mas ela se deixa ser puxada.Maeve e Luka se sentam no sofá oposto. O espaço entre os dois sofás parece uma fronteira. O ar está pesado demais para o tamanho da sala.Ninguém fala por um tempo longo demais.Eu sinto o olhar de Maeve queimar em mim e depois deslizar para Elara. Ela observa as marcas no pescoço dela, a forma como nossos dedos estão entrelaçados, a proximidade forçada dos nossos corpos. Luka permanece em silêncio, os cotovelos apoiados nos joelhos, o olhar sério e calculista que eu conheço desde criança.Maeve é a primeira a
O relógio marca 19:47.Eu estou de pé na sala de estar, perto da janela que dá para a entrada da mansão. Elara está sentada no sofá atrás de mim, as mãos apertadas uma na outra sobre o colo. O vestido preto que eu escolhi para ela marca o corpo de um jeito discreto, mas as marcas no pescoço ainda aparecem por cima da gola. Eu não pedi para ela esconder. Não quero que esconda.O silêncio entre nós é denso.Eu sinto a presença dela como se fosse uma segunda pele. Cada respiração. Cada pequeno movimento. Desde mais cedo, quando a fodi devagar na cama e depois a lavei com as minhas próprias mãos, algo mudou no ar. Não ficou mais leve. Ficou mais pesado. Mais real.— Você está nervoso — ela diz baixo, a voz rouca.— Estou preparado — corrijo.— É a mesma coisa.Eu me viro e olho para ela. Elara levanta o rosto. Os olhos verdes estão mais calmos do que eu já vi, mas ainda carregam aquele fundo de medo e desafio. Eu caminho até o sofá e me agacho na frente dela, as mãos grandes cobrindo os j
Capítulo 1 – Despertar AmarradaMeus olhos se abrem devagar, pesados, como se o mundo inteiro estivesse submerso em melado escuro. A primeira coisa que sinto é o balanço suave — não o de um carro, nem de uma cama comum. É o movimento constante e profundo de algo grande cortando o mar. O cheiro de s
Capítulo 5 – Tempestade no ConvésO sol do Caribe bate forte no meu rosto enquanto caminhamos pelo convés principal. O robe de seda preta que Zion me deu mal esconde o que aconteceu nas últimas horas. Meus pulsos ainda estão marcados, vermelhos sob as mangas largas. Cada passo me lembra que estou a
Capítulo 4 – Migalhas de LuxoZion continua deslizando o morango gelado pelo meu mamilo, circulando lentamente, provocando. Elias mantém dois dedos pressionados contra minha entrada encharcada, abrindo-me, mas sem penetrar, apenas sentindo o quanto estou molhada e desesperada.— Diga — repete Elias
Capítulo 3 – A Espera que QueimaO tempo dentro dessa suíte se transforma em algo viscoso e cruel.Minutos se esticam como horas. Não sei mais se passaram trinta minutos ou três horas desde que a porta se fechou com aquele clique definitivo. O relógio digital na mesinha marca 23:47, mas o mar negro







