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Capítulo 6 — O Jantar Branco

Penulis: Ella D’Ravyn
last update Tanggal publikasi: 2026-05-11 23:59:44

Capítulo 6 — O Jantar Branco

O vestido era branco.

Claro que era.

Nem marfim, nem pérola, nem qualquer mentira elegante inventada para suavizar a crueldade. Branco. Liso. Escandalosamente simples. O tipo de vestido que parece inocente até tocar a pele errada.

— Não vou usar isso — digo, segurando o tecido entre dois dedos, como se ele pudesse me contaminar.

Luka, encostado na porta da suíte como se tivesse sido esculpido ali, ergue uma sobrancelha.

— Vai, sim.

— Vai me arrastar pelo corredor de novo?

— Se for preciso.

A resposta vem calma demais. É isso que me irrita. Zion explode. Elias cala. Luka tem o péssimo hábito de parecer razoável quando está sendo insuportável.

Eu lanço o vestido na cama.

— Vocês enlouqueceram de vez. Acham mesmo que eu vou descer para jantar com vocês como se isso aqui não fosse um sequestro com lustre e champanhe?

— Não precisa fingir por nós — Elias diz, da poltrona perto da janela. — Só precisa não fazer Matthew pagar pelo seu pânico.

O golpe acerta limpo.

Viro o rosto para ele tão rápido que o brinco que ainda nem estou usando roça meu pescoço como uma lâmina imaginária.

— Não usa meu filho.

Elias sustenta meu olhar sem alterar a voz.

— Então não me obriga a usar.

O silêncio pesa. Zion, sentado na beira da cama, os cotovelos nos joelhos, observa tudo com aquela quietude tensa que sempre anuncia desastre. Ele trocou a provocação dos últimos dias por uma atenção mais perigosa. Parece um homem tentando se controlar na frente de uma coisa que já decidiu ser sua.

Eu odeio o quanto isso mexe comigo.

O navio balança de leve sob nossos pés. Lá fora, o mar deve estar absurdamente bonito. Aqui dentro, o ar tem gosto de fio desencapado.

— Quem vai estar lá? — pergunto, por fim.

Luka descruza os braços.

— Evie. Declan. Os pais dela. Algumas pessoas da equipe do Zion. Dois investidores do evento beneficente de amanhã. Gente que não merece espetáculo.

— Ah, claro. O importante é a etiqueta.

— O importante — Zion fala pela primeira vez — é você parar de transformar toda sala em campo de batalha antes mesmo de entrar.

Eu rio. Um som seco, sem humor.

— Engraçado ouvir isso do homem que me amarrou numa cama.

Os olhos dele escurecem, mas não desvia.

— E, ainda assim, você está viva, segura e aqui.

A frase entra em mim como um espinho. Porque eu conheço o que ele quer dizer sem dizer. Viva. Segura. Aqui. Ao alcance deles. Longe do resto. Longe dele.

Meu pai.

Pego o vestido de novo. Não porque cedi. Porque estou cansada de discutir cercada por três homens que confundem cuidado com cerco.

— Se eu descer, você não encosta em mim — digo a Zion.

— Não prometo.

— Então eu não desço.

Luka solta um suspiro pelo nariz. Elias se levanta. Zion fica de pé devagar, aproximando-se até parar a um passo de mim.

— Você desce — ele diz, baixo. — E eu não encosto em você sem necessidade.

— Sem necessidade?

— Se você vacilar, fugir ou me olhar como se fosse desmaiar, eu encosto.

Meu ódio quase me sustenta.

— Que generoso.

Ele inclina a cabeça, os olhos presos no meu rosto, não no vestido, não no meu corpo.

— Você não faz ideia do quanto estou sendo.


Desço quinze minutos depois com a sensação exata de estar indo para uma execução bem iluminada.

O restaurante privativo do navio foi montado como se a noite precisasse provar alguma coisa. Toalhas alvíssimas. Talheres brilhando. Arranjos discretos de lírios pálidos. Velas protegidas por cúpulas de vidro, para que nem o vento do mar ousasse tocar o que foi cuidadosamente posto em ordem.

Eu devia ter imaginado.

Branco por toda parte.

Evie me vê primeiro. Seu rosto muda num instante tão pequeno que quase ninguém notaria. Eu noto. Ela me conhece desde antes de eu aprender a mentir direito. Declan, ao lado dela, acompanha meu caminho até a mesa com aquele olhar atento de quem entende que algo está errado, mas ainda não sabe o tamanho.

Matthew não está ali. Um alívio. Ou uma nova forma de medo.

— Maeve — Evie diz quando me aproximo. Não pergunta se estou bem. Graças a Deus, não pergunta. — Você está linda.

— Você sempre foi péssima mentindo.

A boca dela quase sorri.

— Aprendi com você.

Luka puxa minha cadeira. Eu me sento porque recusar seria infantil demais até para mim. Zion ocupa o lugar à minha direita. Elias, à esquerda. Claro. Como se meu corpo precisasse de moldura.

A conversa ao redor da mesa começa sem mim. Datas, agenda, o leilão beneficente, uma apresentação acústica amanhã ao pôr do sol, o menu assinado pelo chef. Tudo muito limpo. Muito polido. Muito longe da verdade.

Eu pego a taça de água, mas minha mão para antes de alcançar a boca.

No reflexo do vidro, por um segundo, vejo outro jantar. Outra mesa. Outra toalha impecável. Minha mãe dizendo para eu sorrir. Meu pai cortando a carne com calma demais. A casa silenciosa do jeito que só casas doentes sabem ficar.

Meu pulso falha.

Elias percebe antes que eu consiga disfarçar.

Sua mão toca meu joelho por baixo da mesa. Firme. Sem carinho. Sem posse. Só um aviso bruto de presença.

Volta.

Eu empurro a mão dele com força, mas o gesto me salva do mergulho.

— Está tudo bem? — uma das mulheres da equipe pergunta, educada demais.

Zion responde antes de mim.

— Enjoo leve. Ela não dormiu bem.

Eu viro o rosto na direção dele, pronta para arrancar a jugular com os dentes.

— Não fala por mim.

— Então fala você.

A mesa cala.

É isso que eles fazem comigo. Empurram. Esperam. Cercam o ponto exato em que minha compostura racha e me deixam escolher entre o silêncio e a exposição.

Evie pousa o garfo devagar.

— Claire fez um escândalo porque queria sobremesa antes do jantar — ela comenta, como se nada tivesse acontecido. — Matthew disse que isso era geneticamente irresponsável.

O ar muda. Pequeno milagre.

Eu solto uma respiração que nem sabia estar prendendo.

— Ele disse isso?

— Com a maior cara séria do mundo — Declan confirma. — Como se tivesse oitenta anos e pagasse impostos.

Apesar de tudo, eu rio. É curto, mas real. O suficiente para que Zion me olhe de lado com uma expressão tão crua que preciso baixar os olhos para o prato.

Não faça isso, penso. Não agora. Não na frente de todo mundo.

O jantar segue. Eu quase consigo me convencer de que posso atravessar aquilo inteira. Então uma das convidadas comenta, sorrindo para Zion:

— Você sempre teve talento para escolher mulheres inesquecíveis.

A frase é leve. Social. Burra.

Mas sinto Zion enrijecer ao meu lado. Luka ergue o copo. Elias fica imóvel. E eu percebo, com uma clareza miserável, que não sou a única atuando ali.

Eles também estão fingindo.

Fingindo normalidade. Controle. Paciência. Como se não tivessem passado anos me perdendo e me procurando. Como se eu não fosse a rachadura de cada um deles sentada à mesa em um vestido branco.

Levanto antes da sobremesa.

— Com licença.

Ninguém tenta me impedir de imediato, o que é pior. Caminho até a saída do restaurante com as costas rígidas, recusando-me a correr. Só quando empurro a porta e sinto o ar frio do corredor tocar meu rosto é que percebo o estrago.

Estou tremendo.

Passos atrás de mim.

Não preciso me virar para saber quem é.

— Maeve.

Elias.

Fecho os olhos por um segundo.

— Se veio me levar de volta, poupa o esforço.

— Não vim.

Eu me viro. Ele para a uma distância respeitosa, as mãos vazias, o rosto ilegível.

— Então por que está aqui?

Elias demora um pouco para responder. Quando responde, a voz sai baixa, quase cansada.

— Porque você entrou naquela sala parecendo alguém prestes a se partir no meio. E eu queria ter certeza de que, desta vez, ninguém ia assistir de braços cruzados.

Alguma coisa dentro de mim vacila.

Só um pouco.

O bastante para ser perigoso.

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