Se connecterA viagem de regresso a Valdeolmos pareceu significativamente mais longa do que o trajeto de ida.
No interior da carruagem, o ranger ritmado das rodas de madeira contra a estrada de pedra servia de metrônomo para o silêncio de Dante. Com a fonte apoiada contra a janela fria, ele observava o relevo prateado das montanhas castelhanas sob a luz da lua.
Onde estará Leolina?
A indagação insistia em retornar, desafiando qualquer esforço de sua mente pragmática para catalogá-la como uma irrelevância do passado. Não se recordava da última vez em que pronunciara aquele nome. Sete anos. Talvez mais. Talvez o tivesse enterrado no mesmo dia em que jurou fidelidade a Manuela perante o altar.
No entanto, bastara a menção irrefletida de Álvaro no baile para que as memórias irrompessem sem pedir licença.
Uma garota de cabelos cor de cobre, invariavelmente desalinhados pelo vento. Maçãs colhidas antes do tempo. Joelhos ralados e vestidos manchados de terra. Uma gargalhada audaciosa ecoando entre as laranjeiras de Valdeolmos.
Quando os cavalos finalmente transpuseram os pesados portões de ferro do castelo, Dante desembarcou antes mesmo que o lacaio ajustasse o estribo. Precisava do isolamento do seu gabinete. Precisava do peso dos livros de contabilidade e dos mapas do feudo para restaurar a ordem na própria cabeça.
Atravessava o corredor principal, sob as sombras longas projetadas pelas arandelas de ferro, quando o eco de passos apressados e descalços rompeu a quietudine da madrugada.
— Papai!
Dante deteve-se e olhou para trás.
Beatriz corria ao seu encontro, segurando a barra da camisola de linho branco. Os cabelos loiros e rebeldes revelavam que havia acabado de acordar, mas os olhos claros — espelhos exatos e dolorosos dos olhos de Manuela — brilhavam com uma vivacidade pura.
— Onde o senhor vai a esta hora?
Dante suavizou a rigidez dos ombros. Ajoelhou-se para ficar na altura da pequena, esboçando um sorriso contido.
— Iria ao escritório. Mas parece que fui interceptado por uma pequena invasora.
A menina inclinou a cabeça, estudando o rosto do pai com atenção minuciosa.
— O senhor estava pensando em algo... Parecia longe.
A resposta veio antes que o rigor da prudência pudesse travá-la:
— Estava pensando em uma antiga amiga.
Beatriz arregalou os olhos, curiosa.
— Uma amiga? Como ela se chama?
— Leolina — murmurou ele.
A pronúncia daquele nome nos corredores de sua casa ancestral soou quase sacrílega. Como uma janela escancarada em um quarto mantido fechado por anos.
Beatriz experimentou a palavra na ponta da língua, pausada e analítica:
— Le-o-li-na... — A menina sorriu, apreciando o ritmo da métrica. — Ela é bonita?
Dante soltou um riso curto, pego desprevenido pela franqueza infantil.
— É. De um jeito muito particular.
— Ela parecia uma fada? Igual à mamãe no quadro do salão?
O riso de Dante extinguiu-se no mesmo instante. O ar no corredor pareceu subitamente mais rarefeito.
Manuela.
O peito do marquês contraiu-se com a precisão de uma dor antiga e conhecida. Olhou para a filha. O mesmo formato de rosto, o tom dourado dos fios à luz das velas... a lembrança de sua falecida esposa era uma constante tangível.
Entretanto, ao tentar comparar as duas em sua mente, a lógica simplesmente falhava.
Manuela fora moldada como a mais delicada porcelana: serena, de gestos contidos, palavras pausadas e uma elegância que parecia imune ao caos do mundo. Era a perfeição da nobreza.
Leolina... Leolina era a tempestade.
Subia nas galhos mais altos sem qualquer consideração pelas convenções da etiqueta. Retornava para casa com folhas presas nas tranças ruivas e fuligem no nariz. Tinha uma língua afiada como uma adaga e uma gargalhada tão escandalosa que fazia até os criados mais rígidos disfarçarem o riso. Era impossível enclausurá-la em uma norma social.
— Não — respondeu Dante, a voz descendo a um tom quase confidencial. — Ela não se parece em nada com sua mãe. Ela é... diferente.
Procurou no seu vocabulário uma definição exata, um termo preciso. Não encontrou.
Beatriz, porém, não precisava de termos complexos para chegar a uma conclusão.
— Então casa com ela, papai.
Dante permaneceu imóvel, o olhar fixo na filha.
A menina fez a sugestão com a mesma naturalidade de quem propõe apanhar conchas na praia. Uma solução cristalina, desprovida das amarras do luto, das expectativas de Doña Constanza ou das regras rígidas da aristocracia castelhana.
Ele soltou uma respiração entrecortada, balançando a cabeça.
— Beatriz... O mundo dos adultos não funciona por equações tão simples.
— Funciona, sim — rebateu ela, cruzando os braços pequenos sobre o peito com uma determinação adorável. — A vovó Constanza disse que o senhor precisa de uma nova esposa para dar ordem à casa.
O cenho de Dante contraiu-se.
Constanza. Sempre semeando suas exigências, até mesmo na mente de uma criança de cinco anos.
— Sua avó fala demais sobre assuntos que não lhe dizem respeito.
— Ela disse que eu preciso de outra mamãe — completou a garotinha, o tom baixinho revelando uma ponta de incerteza.
Aquela frase atingiu Dante com mais força do que qualquer cobrança social sofrida no baile. Ele avançou um passo e envolveu as mãozinhas frias da filha entre as suas, olhando-a profundamente nos olhos.
— Escute-me bem, Beatriz. Ninguém neste mundo jamais substituirá a sua mãe. O lugar dela é único. Entendeu?
Beatriz fez um pequeno bico, ponderando a declaração, e em seguida deu um passo à frente, jogando os braços ao redor do pescoço do pai.
— Eu sei — sussurrou ela contra o ombro dele. — Mas talvez a fada ruiva possa fazer o senhor sorrir de verdade. Como o senhor sorriu quando falou o nome dela.
Dante congelou por um segundo. A abraçou com força, enterrando o rosto nos cabelos macios da filha enquanto o silêncio do castelo os envolvia.
A criança não sabia, mas acabara de desarmar a última das barreiras lógicas do marquês.
Quando Beatriz adormeceu novamente em seus braços e ele a ajeitou no leito, Dante caminhou até a janela do seu gabinete. A aurora começava a tingir o céu de Castela em tons de cobre e dourado.
Naquela mesma manhã, ele mobilizaria todos os seus mensageiros. Ele descobriria onde Leolina estava.
O parque da cidade repousava em um silêncio quase solene àquela hora do fim de tarde. O vento brando agitava a folhagem alaranjada das velhas árvores, fazendo com que as sombras no chão de pedra se movessem ritmicamente. Os ruídos do tráfego urbano e do burburinho mercantil chegavam até ali abafados, como se o tempo tivesse desacelerado para ambos.Dante caminhava ao lado de Leolina havia longos e densos minutos. O silêncio que os envolvia não era confortável; era pesado, carregado de uma expectativa palpável. Ele parecia procurar as palavras exatas, recalculando cada frase em sua mente. Leolina, observando a rigidez do maxilar dele, já começava a suspeitar de que o marquês perdera a coragem no último segundo.Até que ele estancou a caminhada.— Preciso que case comigo.Leolina também parou, sob a sombra de um frondoso carvalho. Piscou
Dante não estava gostando do rumo que as coisas tomavam.Absolutamente nada saía conforme o planejado. Ele viajara até aquela província com um plano traçado de forma simples e pragmática: encontrar Leolina, conversar com a calma que os anos exigiam e avaliar se ainda existia qualquer possibilidade de um casamento entre eles. No entanto, o verdadeiro obstáculo atendia pelo nome de Leolina que parecia pessoalmente empenhada em transformar cada uma dessas etapas em um suplício.Primeiro, ela o acolhera com o entusiasmo reservado a um mau agouro. Depois, fizera questão de jogar sobre a mesa o incômodo fato de que ele simplesmente desaparecera durante sete longos anos. E agora? Agora fugia dele com a agilidade de um felino no instante em que ele apontava no horizonte.Dante começava a suspeitar de que negociar um tratado de paz com a corte francesa seria uma tarefa consideravelmente menos des
Na manhã seguinte, Dante articulou uma justificativa vaga para prolongar sua estadia na vila.Alegou a Beatriz e à dama de companhia que pendências urgentes do marquesado exigiam sua presença na praça central. A garotinha, sem interromper o gesto de pentear sua boneca de pano, apenas retrucou com serenidade:— O senhor vai atrás da fada ruiva.Ele não se deu ao trabalho de formular uma negação lógica.O mercado da vila já fervilhava de vida quando o marquês alcançou a praça de pedra. Vendedores gritavam os preços de pescados e hortaliças, camponesas barganhavam tecidos e crianças perseguiam cães entre os cavalos. Pela primeira vez em anos, o título de Dante era uma irrelevância invisível no meio da multidão.Então, seus olhos a localizaram.Leolina sustentava uma cesta de vime no
A carta dobrada já ostentava vincos gastos de tanto ser manuseada.Dante a relera dezenas de vezes durante o trajeto. “Doña Leolina reside na propriedade rural de Doña Inés de Salvatierra.” Apenas isso. Nenhuma nota explicativa. Nenhum detalhe adicional.O destino parecia uma contradição satírica. Não era meramente o interior de Castela; era o isolamento absoluto. A estrada de terra batida estreitava-se a cada légua, ladeada por oliveiras seculares, campos de trigo ondulando sob o vento forte e lugarejos onde o tempo parecia haver estagnado.Dante apoiou o cotovelo no caixilho da janela da carruagem, a testa crispada.— Ainda falta muito?A dama de companhia sorriu, ajeitando as mantas no assento.— Meu senhor... a pequena Beatriz faz exatamente essa mesma pergunta a cada dez minutos.Beatriz projetou metade do corpo para fora da cortina de
A viagem de regresso a Valdeolmos pareceu significativamente mais longa do que o trajeto de ida.No interior da carruagem, o ranger ritmado das rodas de madeira contra a estrada de pedra servia de metrônomo para o silêncio de Dante. Com a fonte apoiada contra a janela fria, ele observava o relevo prateado das montanhas castelhanas sob a luz da lua.Onde estará Leolina?A indagação insistia em retornar, desafiando qualquer esforço de sua mente pragmática para catalogá-la como uma irrelevância do passado. Não se recordava da última vez em que pronunciara aquele nome. Sete anos. Talvez mais. Talvez o tivesse enterrado no mesmo dia em que jurou fidelidade a Manuela perante o altar.No entanto, bastara a menção irrefletida de Álvaro no baile para que as memórias irrompessem sem pedir licença.Uma garota de cabelos cor de cobre, invariave
Castela, Reino da Espanha — Ano de 1507.O salão do Palácio dos Aranda reluzia como uma gaiola de ouro e opulência.Centenas de velas de cera de abelha tremeluziam nos candelabros de ferro forjado, projetando sombras dinâmicas sobre o chão de pedra encerado. O aroma espesso de perfume de rosas misturava-se ao cheiro acre do suor contido sob corpetes e veludos pesados. A melodia cadenciada das vihuelas conduzia os casais em passos milimetricamente calculados, enquanto o murmúrio das conversas polidas ecoava pelas paredes tapeçadas.Dante observava a cena com a distância de quem examina uma equação que já decorou.Fórmula simples, pensou, girando o vinho no cálice. Sorrisos ensaiados somados a interesses políticos resultam em alianças convenientes.Havia sete anos frequentava as mesmas festas da nobreza, escut







