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As Verdades de Que Somos Feitos
As Verdades de Que Somos Feitos
Auteur: Mary Bela

Prologo

Auteur: Mary Bela
last update Date de publication: 2026-10-05 09:25:56

Castela, Reino da Espanha — Ano de 1507.

O salão do Palácio dos Aranda reluzia como uma gaiola de ouro e opulência.

Centenas de velas de cera de abelha tremeluziam nos candelabros de ferro forjado, projetando sombras dinâmicas sobre o chão de pedra encerado. O aroma espesso de perfume de rosas misturava-se ao cheiro acre do suor contido sob corpetes e veludos pesados. A melodia cadenciada das vihuelas conduzia os casais em passos milimetricamente calculados, enquanto o murmúrio das conversas polidas ecoava pelas paredes tapeçadas.

Dante observava a cena com a distância de quem examina uma equação que já decorou.

Fórmula simples, pensou, girando o vinho no cálice. Sorrisos ensaiados somados a interesses políticos resultam em alianças convenientes.

Havia sete anos frequentava as mesmas festas da nobreza, escutava as mesmas cortesias ocas e identificava, a metros de distância, as manobras dos pretendentes. Sabia exatamente qual fidalgo fingia rir dos gracejos do duque para obter favores e qual dama mantinha o olhar baixo apenas para projetar uma modéstia estrategicamente calculada.

Tudo era previsível. E, por ser previsível, era exaustivo.

— Meu querido Dante.

A voz de Doña Constanza cortou o som das vihuelas antes mesmo que ele pudesse se esquivar entre as pilastras.

Ela avançava com a imponência rígida que o título exigia, arrastando a cauda pesada de seu vestido de brocado negro. Ao seu lado, trazia duas jovens nobres de rostos pálidos e trajes impecáveis. Ambas mantiveram os ombros encolhidos e os olhos fixos no chão  a postura perfeita da submissão treinada.

Dante curvou-se em uma reverência impecável, impecavelmente fria.

— Senhoritas.

— Lembra-se da nossa conversa sobre a necessidade de recompor a casa dos Marquêses? — Constanza não pedia autorização; apenas apresentava fatos. Seu olhar perscrutava o filho com a precisão de um inquisidor.

— Mãe — Dante levou o cálice de prata aos lábios, usando o gesto para ganhar tempo. — Vim cumprir com os deveres da corte. Não para assinar contratos matrimoniais.

O sorriso de Constanza congelou, tornando-se uma linha fina e severa.

— Um marquês não escolhe quando deixa de ser marquês. A linhagem exige estabilidade, Dante. Lógica e dever sobrepõem-se ao gosto pessoal.

— Racionalmente falando, a estabilidade de um feudo depende de sua gestão financeira e da ordem nas terras, não de um banquete de noivado — respondeu ele, usando a própria lógica como um escudo pragmático para se esquivar da dor. — Com sua licença.

Antes que a mãe pudesse retrucar, Dante retirou-se com passos firmes. Sentiu o olhar de censura da matriarca cravado em suas costas, mas apenas respirou fundo. Uma pequena esquiva.

— Pela urgência dos seus passos, imagino que Doña Constanza tentou lhe impor mais uma futura marquesa.

Álvaro de Medina aproximou-se, apoiando-se contra a balaustrada e ostentando um sorriso abertamente divertido.

— Que expressão é essa? Parece que acabou de escapar de um julgamento do Santo Ofício.

Dante soltou uma respiração pesada, quase um riso sem humor.

— Ela insiste na ideia de que preciso de uma esposa.

— E ela está errada? — Álvaro bebeu um gole longo. — Dante, já se passaram sete anos. A Casa precisa de um rumo e a pequena Beatriz precisa de presença materna.

Sete anos.

A menção ao tempo fez a racionalidade de Dante oscilar. Ele podia somar dias, calcular datas e organizar seus domínios com maestria, mas não conseguia formular uma explicação matemática para o vazio do peito. Lembrou-se da pele fria de Manuela naquela noite fatídica, do silêncio ensurdecedor que tomara conta do castelo após os ritos fúnebres e da pequena Beatriz, chorando no berço com os mesmos olhos castanhos da mãe.

Dante aprendera a administrar a dor tratando-a como um fato consumado. Mas nunca aprendera a deixar de ser viúvo.

— Não é uma questão simples de substituição — murmurou ele, afastando-se para a sacada aberta.

O ar frio das montanhas de Castela atingiu seu rosto, purificando seus pulmões do ar carregado do salão. A noite era um manto escuro que cobria os vales.

— Sabe do que sinto falta, Álvaro? — Dante encarou o horizonte.

— Do quê? De um bom vinho que não venha acompanhado de cobranças da nobreza?

— Da infância. De quando as coisas tinham respostas simples.

Álvaro soltou uma gargalhada genuína, quebrando a sobriedade do momento.

— Deus me livre! Eu não sinto a menor falta. Leolina vivia me dando socos e me empurrando nos espinhos.

Dante arqueou uma sobrancelha, o canto dos lábios cedendo a um sorriso involuntário.

— Você roubava as maçãs dela. Era uma reação perfeitamente proporcional.

— Ela era um demônio de cabelos ruivos! — Álvaro esfregou o braço como se ainda sentisse a dor de vinte anos atrás.

Pela primeira vez naquela noite, o olhar de Dante perdeu a rigidez calculada. Lembrou-se da menina descalça correndo pelos pomares de Valdeolmos, com o rosto manchado de terra, os olhos brilhando em desafio e a língua afiada pronta para chamá-lo de covarde sempre que ele usava a prudência como desculpa para não saltar os muros de pedra.

Ela não aceitava suas desculpas lógicas. Ela simplesmente o puxava pelo braço.

— Ainda pensa nela? — perguntou Álvaro, percebendo a mudança na postura do amigo.

Dante demorou a responder. A brisa da noite agitou suas capas escuras.

— Sim — confessou baixo. — Onde quer que esteja, tenho certeza de que continua desafiando qualquer um que tente lhe dizer o que fazer.

O vento levou a frase para a imensidão da noite castelhana. E longe dali, alheia aos dilemas do marquês, a menina dos pomares havia se tornado uma mulher cujas palavras cortavam mais fundo do que qualquer espada  e cujo destino estava prestes a colidir novamente com a lógica imperfeita de Dante.

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