Se connecterNa manhã seguinte, Dante articulou uma justificativa vaga para prolongar sua estadia na vila.
Alegou a Beatriz e à dama de companhia que pendências urgentes do marquesado exigiam sua presença na praça central. A garotinha, sem interromper o gesto de pentear sua boneca de pano, apenas retrucou com serenidade:
— O senhor vai atrás da fada ruiva.
Ele não se deu ao trabalho de formular uma negação lógica.
O mercado da vila já fervilhava de vida quando o marquês alcançou a praça de pedra. Vendedores gritavam os preços de pescados e hortaliças, camponesas barganhavam tecidos e crianças perseguiam cães entre os cavalos. Pela primeira vez em anos, o título de Dante era uma irrelevância invisível no meio da multidão.
Então, seus olhos a localizaram.
Leolina sustentava uma cesta de vime no antebraço, mantendo um embate acalorado sobre o preço das maçãs com um velho mercador de túnica gasta.
— O senhor está tentando me extorquir com a maior desfaçatez de Castela — cravou ela, a voz firme e cortante.
— Estou cobrando o valor justo pela safra, senhora!
— Justo para quem? Para o seu bolso ou para a sua consciência?
O velho bufou, cruzando os braços sobre o avental manchado:
— Justo para uma governanta terrivelmente teimosa que quer preço de atacado para meia dúzia de frutos.
Um sorriso rápido e vitorioso escapou pelos lábios dela ao ver o homem ceder um punhado a mais. Dante registrou o detalhe com um nó na garganta. Ali, no meio do povo simples, sem brasões ou falsas reverências, Leolina parecia terrivelmente viva. E dona de si.
Ele respirou fundo, enchendo os pulmões de coragem:
— Leolina.
A voz dele fez o sorriso dela evaporar instantaneamente. Ela fechou os olhos por um segundo longo, como quem roga por paciência divina.
— Santa Mãe de Deus...
Dante aproximou-se dois passos.
— Ainda me considera um presságio de azar?
— Estou começando a achar que a Inquisição deveria investigar a sua capacidade de aparecer nos momentos mais inconvenientes da minha vida.
Ela girou sobre os calcanhares, disposta a desaparecer entre as barracas de grãos. Dante apressou o passo, emparelhando-se a ela.
— Você se tornou governanta?
A indagação escapou por entre seus dentes com uma rigidez que ele não conseguiu disfarçar.
Leolina estancou. Virou-se devagar, cada movimento calculado para exalar uma superioridade gelada.
— Sim.
— Depois de tudo o que a sua família representava...
— Depois de tudo — cortou ela, o queixo erguido.
Dante baixou os olhos para a cesta de vime humilde em seus braços.
— Você reduzida a administrar os afazeres de outra casa...
— Eu administro uma propriedade inteira, meu senhor — desferiu ela, a voz fria como lâmina de aço. — Doña Inés confia-me a contabilidade, a supervisão da servidão, a gestão das colheitas e as finanças da casa.
— Leo—
— É um trabalho digno. Honestamente remunerado e conquistado pela minha capacidade intelectual, não por um dote ou por um sobrenome pomposo — completou, os olhos castanhos queimando em desafio.
— Não foi minha intenção diminuir seu esforço.
— Ah, não? — Ela cruzou os braços sobre o peito, a cesta balançando no cotovelo. — E qual era a intenção, então? Lamentar a minha sorte? Esperava me encontrar em um convento definhando de desgosto? Ou talvez na rua?
Dante empalideceu, o rosto rígido.
— Jamais desejaria algo assim.
— Então qual é exatamente o seu problema com o meu ganha-pão, Marquês?
Ele passou a mão pesada pelo rosto, a postura analítica ruindo diante do fogo dela.
— Você deveria ter me procurado. Deveria ter pedido ajuda.
Leolina soltou uma risada curta, seca e desprovida de qualquer vestígio de humor. A gargalhada cortou a distância entre os dois com a violência de uma esbofeteada.
— Ajuda de quem, Dante?
— Minha! De Valdeolmos!
Ela aproximou-se um passo. A compostura aristocrática de governanta deu lugar à garota do pomar, feroz e ferida.
— Onde ela estava? — perguntou ela, a voz descendo a um sussurro perigoso.
Dante franziu o cenho, desconcertado pela pergunta.
— A minha ajuda? Eu teria...
— Não. Onde você estava?
A azáfama do mercado pareceu silenciar. O grito dos mercadores e o estalar dos cascos na pedra transformaram-se em um zumbido distante. Dante estancou, incapaz de articular uma palavra.
— Sete anos, Dante — disse ela, cravando o indicador no peito dele, onde o tecido nobre cobria o coração. — Sete anos inteiros.
A cesta de vime tremeu levemente em seu braço.
— Você herdou o título.
— Sim...
— Você contratou o matrimônio com uma dama perfeita da corte.
— Sim.
— Você viveu sua vida, teve uma filha e ficou viúvo.
Ele assentiu devagar, o peito apertado por uma culpa que não sabia como calcular.
— E, durante todo esse tempo — continuou Leolina, as palavras atingindo-o com a precisão de adagas —, nenhuma carta cruzou a província. Nenhum mensageiro bateu à minha porta. Você jamais se deu ao trabalho de enviar uma linha para saber se eu estava viva ou se havia morrido de peste.
— Eu presumi que você... — Dante tentou formular uma explicação racional, mas a voz falhou.
— Presumiu o quê? — Ela deu mais um passo à frente, encurralando-o com a força do seu olhar. — Presumiu que eu ficaria petrificada no pomar de laranjeiras, chorando e esperando que o grande marquês de Valdeolmos se lembrasse de que a garota ruiva existia?
Dante abriu a boca, mas nenhuma equação ou argumento lógico foi capaz de cobrir o abismo daquele abandono. Pela primeira vez na vida, sua mente pragmática estava totalmente em falência.
Leolina colocou a mão livre na cintura — a exata postura defensiva de quando tinham dez anos e ele a irritava com suas prudências cobardes.
— Olhe para mim, Dante.
Ele obedeceu, engolindo em seco.
— O que você veio fazer aqui afinal? O que você realmente quer de mim?
A pergunta o desmantelou por completo. Porque até aquela manhã, a lógica dele dizia que viera resolver uma equação pendente do passado. Agora, encarando a mulher à sua frente, percebia que não tinha a menor ideia de como consertar o estrago.
Leolina esperou cinco segundos em silêncio. Diante do mutismo desconcertado do marquês, ela ajeitou a alça da cesta no ombro.
— Quando sua mente brilhante conseguir formular uma resposta honesta, talvez possa voltar a me procurar.
Ela deu dois passos, afastando-se com a elegância impecável de quem não precisava de brasões para ser soberana. Então, deteve-se e olhou por cima do ombro.
O sorriso que brotou em seus lábios era perigosamente afiado e nostalgicamente familiar.
— Ah... E um conselho, meu caro Marquês: da próxima vez que olhar para mim, guarde a sua piedade. Não sirvo para o papel de sua tragédia pessoal.
Ela retomou a caminhada, mesclando-se à multidão do mercado até desaparecer por completo.
Dante permaneceu paralisado no meio da praça, as mãos enterradas nos bolsos do casaco, enquanto o velho vendedor de maçãs o observava com uma mistura de pena e divertimento:
— Vai levar alguma coisa, meu nobre senhor? Ou vai continuar aí parado com cara de quem levou um coice de mula?
Dante nem ouviu o camponês. Seus olhos permaneciam fixos no ponto exato onde a tempestade ruiva havia sumido.
O parque da cidade repousava em um silêncio quase solene àquela hora do fim de tarde. O vento brando agitava a folhagem alaranjada das velhas árvores, fazendo com que as sombras no chão de pedra se movessem ritmicamente. Os ruídos do tráfego urbano e do burburinho mercantil chegavam até ali abafados, como se o tempo tivesse desacelerado para ambos.Dante caminhava ao lado de Leolina havia longos e densos minutos. O silêncio que os envolvia não era confortável; era pesado, carregado de uma expectativa palpável. Ele parecia procurar as palavras exatas, recalculando cada frase em sua mente. Leolina, observando a rigidez do maxilar dele, já começava a suspeitar de que o marquês perdera a coragem no último segundo.Até que ele estancou a caminhada.— Preciso que case comigo.Leolina também parou, sob a sombra de um frondoso carvalho. Piscou
Dante não estava gostando do rumo que as coisas tomavam.Absolutamente nada saía conforme o planejado. Ele viajara até aquela província com um plano traçado de forma simples e pragmática: encontrar Leolina, conversar com a calma que os anos exigiam e avaliar se ainda existia qualquer possibilidade de um casamento entre eles. No entanto, o verdadeiro obstáculo atendia pelo nome de Leolina que parecia pessoalmente empenhada em transformar cada uma dessas etapas em um suplício.Primeiro, ela o acolhera com o entusiasmo reservado a um mau agouro. Depois, fizera questão de jogar sobre a mesa o incômodo fato de que ele simplesmente desaparecera durante sete longos anos. E agora? Agora fugia dele com a agilidade de um felino no instante em que ele apontava no horizonte.Dante começava a suspeitar de que negociar um tratado de paz com a corte francesa seria uma tarefa consideravelmente menos des
Na manhã seguinte, Dante articulou uma justificativa vaga para prolongar sua estadia na vila.Alegou a Beatriz e à dama de companhia que pendências urgentes do marquesado exigiam sua presença na praça central. A garotinha, sem interromper o gesto de pentear sua boneca de pano, apenas retrucou com serenidade:— O senhor vai atrás da fada ruiva.Ele não se deu ao trabalho de formular uma negação lógica.O mercado da vila já fervilhava de vida quando o marquês alcançou a praça de pedra. Vendedores gritavam os preços de pescados e hortaliças, camponesas barganhavam tecidos e crianças perseguiam cães entre os cavalos. Pela primeira vez em anos, o título de Dante era uma irrelevância invisível no meio da multidão.Então, seus olhos a localizaram.Leolina sustentava uma cesta de vime no
A carta dobrada já ostentava vincos gastos de tanto ser manuseada.Dante a relera dezenas de vezes durante o trajeto. “Doña Leolina reside na propriedade rural de Doña Inés de Salvatierra.” Apenas isso. Nenhuma nota explicativa. Nenhum detalhe adicional.O destino parecia uma contradição satírica. Não era meramente o interior de Castela; era o isolamento absoluto. A estrada de terra batida estreitava-se a cada légua, ladeada por oliveiras seculares, campos de trigo ondulando sob o vento forte e lugarejos onde o tempo parecia haver estagnado.Dante apoiou o cotovelo no caixilho da janela da carruagem, a testa crispada.— Ainda falta muito?A dama de companhia sorriu, ajeitando as mantas no assento.— Meu senhor... a pequena Beatriz faz exatamente essa mesma pergunta a cada dez minutos.Beatriz projetou metade do corpo para fora da cortina de
A viagem de regresso a Valdeolmos pareceu significativamente mais longa do que o trajeto de ida.No interior da carruagem, o ranger ritmado das rodas de madeira contra a estrada de pedra servia de metrônomo para o silêncio de Dante. Com a fonte apoiada contra a janela fria, ele observava o relevo prateado das montanhas castelhanas sob a luz da lua.Onde estará Leolina?A indagação insistia em retornar, desafiando qualquer esforço de sua mente pragmática para catalogá-la como uma irrelevância do passado. Não se recordava da última vez em que pronunciara aquele nome. Sete anos. Talvez mais. Talvez o tivesse enterrado no mesmo dia em que jurou fidelidade a Manuela perante o altar.No entanto, bastara a menção irrefletida de Álvaro no baile para que as memórias irrompessem sem pedir licença.Uma garota de cabelos cor de cobre, invariave
Castela, Reino da Espanha — Ano de 1507.O salão do Palácio dos Aranda reluzia como uma gaiola de ouro e opulência.Centenas de velas de cera de abelha tremeluziam nos candelabros de ferro forjado, projetando sombras dinâmicas sobre o chão de pedra encerado. O aroma espesso de perfume de rosas misturava-se ao cheiro acre do suor contido sob corpetes e veludos pesados. A melodia cadenciada das vihuelas conduzia os casais em passos milimetricamente calculados, enquanto o murmúrio das conversas polidas ecoava pelas paredes tapeçadas.Dante observava a cena com a distância de quem examina uma equação que já decorou.Fórmula simples, pensou, girando o vinho no cálice. Sorrisos ensaiados somados a interesses políticos resultam em alianças convenientes.Havia sete anos frequentava as mesmas festas da nobreza, escut







