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Capitulo 3

Auteur: Mary Bela
last update Date de publication: 2026-10-14 09:29:15

Na manhã seguinte, Dante articulou uma justificativa vaga para prolongar sua estadia na vila.

Alegou a Beatriz e à dama de companhia que pendências urgentes do marquesado exigiam sua presença na praça central. A garotinha, sem interromper o gesto de pentear sua boneca de pano, apenas retrucou com serenidade:

— O senhor vai atrás da fada ruiva.

Ele não se deu ao trabalho de formular uma negação lógica.

O mercado da vila já fervilhava de vida quando o marquês alcançou a praça de pedra. Vendedores gritavam os preços de pescados e hortaliças, camponesas barganhavam tecidos e crianças perseguiam cães entre os cavalos. Pela primeira vez em anos, o título de Dante era uma irrelevância invisível no meio da multidão.

Então, seus olhos a localizaram.

Leolina sustentava uma cesta de vime no antebraço, mantendo um embate acalorado sobre o preço das maçãs com um velho mercador de túnica gasta.

— O senhor está tentando me extorquir com a maior desfaçatez de Castela — cravou ela, a voz firme e cortante.

— Estou cobrando o valor justo pela safra, senhora!

— Justo para quem? Para o seu bolso ou para a sua consciência?

O velho bufou, cruzando os braços sobre o avental manchado:

— Justo para uma governanta terrivelmente teimosa que quer preço de atacado para meia dúzia de frutos.

Um sorriso rápido e vitorioso escapou pelos lábios dela ao ver o homem ceder um punhado a mais. Dante registrou o detalhe com um nó na garganta. Ali, no meio do povo simples, sem brasões ou falsas reverências, Leolina parecia terrivelmente viva. E dona de si.

Ele respirou fundo, enchendo os pulmões de coragem:

— Leolina.

A voz dele fez o sorriso dela evaporar instantaneamente. Ela fechou os olhos por um segundo longo, como quem roga por paciência divina.

— Santa Mãe de Deus...

Dante aproximou-se dois passos.

— Ainda me considera um presságio de azar?

— Estou começando a achar que a Inquisição deveria investigar a sua capacidade de aparecer nos momentos mais inconvenientes da minha vida.

Ela girou sobre os calcanhares, disposta a desaparecer entre as barracas de grãos. Dante apressou o passo, emparelhando-se a ela.

— Você se tornou governanta?

A indagação escapou por entre seus dentes com uma rigidez que ele não conseguiu disfarçar.

Leolina estancou. Virou-se devagar, cada movimento calculado para exalar uma superioridade gelada.

— Sim.

— Depois de tudo o que a sua família representava...

— Depois de tudo — cortou ela, o queixo erguido.

Dante baixou os olhos para a cesta de vime humilde em seus braços.

— Você reduzida a administrar os afazeres de outra casa...

— Eu administro uma propriedade inteira, meu senhor — desferiu ela, a voz fria como lâmina de aço. — Doña Inés confia-me a contabilidade, a supervisão da servidão, a gestão das colheitas e as finanças da casa.

— Leo—

— É um trabalho digno. Honestamente remunerado e conquistado pela minha capacidade intelectual, não por um dote ou por um sobrenome pomposo — completou, os olhos castanhos queimando em desafio.

— Não foi minha intenção diminuir seu esforço.

— Ah, não? — Ela cruzou os braços sobre o peito, a cesta balançando no cotovelo. — E qual era a intenção, então? Lamentar a minha sorte? Esperava me encontrar em um convento definhando de desgosto? Ou talvez na rua?

Dante empalideceu, o rosto rígido.

— Jamais desejaria algo assim.

— Então qual é exatamente o seu problema com o meu ganha-pão, Marquês?

Ele passou a mão pesada pelo rosto, a postura analítica ruindo diante do fogo dela.

— Você deveria ter me procurado. Deveria ter pedido ajuda.

Leolina soltou uma risada curta, seca e desprovida de qualquer vestígio de humor. A gargalhada cortou a distância entre os dois com a violência de uma esbofeteada.

— Ajuda de quem, Dante?

— Minha! De Valdeolmos!

Ela aproximou-se um passo. A compostura aristocrática de governanta deu lugar à garota do pomar, feroz e ferida.

— Onde ela estava? — perguntou ela, a voz descendo a um sussurro perigoso.

Dante franziu o cenho, desconcertado pela pergunta.

— A minha ajuda? Eu teria...

— Não. Onde você estava?

A azáfama do mercado pareceu silenciar. O grito dos mercadores e o estalar dos cascos na pedra transformaram-se em um zumbido distante. Dante estancou, incapaz de articular uma palavra.

— Sete anos, Dante — disse ela, cravando o indicador no peito dele, onde o tecido nobre cobria o coração. — Sete anos inteiros.

A cesta de vime tremeu levemente em seu braço.

— Você herdou o título.

— Sim...

— Você contratou o matrimônio com uma dama perfeita da corte.

— Sim.

— Você viveu sua vida, teve uma filha e ficou viúvo.

Ele assentiu devagar, o peito apertado por uma culpa que não sabia como calcular.

— E, durante todo esse tempo — continuou Leolina, as palavras atingindo-o com a precisão de adagas —, nenhuma carta cruzou a província. Nenhum mensageiro bateu à minha porta. Você jamais se deu ao trabalho de enviar uma linha para saber se eu estava viva ou se havia morrido de peste.

— Eu presumi que você... — Dante tentou formular uma explicação racional, mas a voz falhou.

— Presumiu o quê? — Ela deu mais um passo à frente, encurralando-o com a força do seu olhar. — Presumiu que eu ficaria petrificada no pomar de laranjeiras, chorando e esperando que o grande marquês de Valdeolmos se lembrasse de que a garota ruiva existia?

Dante abriu a boca, mas nenhuma equação ou argumento lógico foi capaz de cobrir o abismo daquele abandono. Pela primeira vez na vida, sua mente pragmática estava totalmente em falência.

Leolina colocou a mão livre na cintura — a exata postura defensiva de quando tinham dez anos e ele a irritava com suas prudências cobardes.

— Olhe para mim, Dante.

Ele obedeceu, engolindo em seco.

— O que você veio fazer aqui afinal? O que você realmente quer de mim?

A pergunta o desmantelou por completo. Porque até aquela manhã, a lógica dele dizia que viera resolver uma equação pendente do passado. Agora, encarando a mulher à sua frente, percebia que não tinha a menor ideia de como consertar o estrago.

Leolina esperou cinco segundos em silêncio. Diante do mutismo desconcertado do marquês, ela ajeitou a alça da cesta no ombro.

— Quando sua mente brilhante conseguir formular uma resposta honesta, talvez possa voltar a me procurar.

Ela deu dois passos, afastando-se com a elegância impecável de quem não precisava de brasões para ser soberana. Então, deteve-se e olhou por cima do ombro.

O sorriso que brotou em seus lábios era perigosamente afiado e nostalgicamente familiar.

— Ah... E um conselho, meu caro Marquês: da próxima vez que olhar para mim, guarde a sua piedade. Não sirvo para o papel de sua tragédia pessoal.

Ela retomou a caminhada, mesclando-se à multidão do mercado até desaparecer por completo.

Dante permaneceu paralisado no meio da praça, as mãos enterradas nos bolsos do casaco, enquanto o velho vendedor de maçãs o observava com uma mistura de pena e divertimento:

— Vai levar alguma coisa, meu nobre senhor? Ou vai continuar aí parado com cara de quem levou um coice de mula?

Dante nem ouviu o camponês. Seus olhos permaneciam fixos no ponto exato onde a tempestade ruiva havia sumido.

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