Se connecterA carta dobrada já ostentava vincos gastos de tanto ser manuseada.
Dante a relera dezenas de vezes durante o trajeto. “Doña Leolina reside na propriedade rural de Doña Inés de Salvatierra.” Apenas isso. Nenhuma nota explicativa. Nenhum detalhe adicional.
O destino parecia uma contradição satírica. Não era meramente o interior de Castela; era o isolamento absoluto. A estrada de terra batida estreitava-se a cada légua, ladeada por oliveiras seculares, campos de trigo ondulando sob o vento forte e lugarejos onde o tempo parecia haver estagnado.
Dante apoiou o cotovelo no caixilho da janela da carruagem, a testa crispada.
— Ainda falta muito?
A dama de companhia sorriu, ajeitando as mantas no assento.
— Meu senhor... a pequena Beatriz faz exatamente essa mesma pergunta a cada dez minutos.
Beatriz projetou metade do corpo para fora da cortina de veludo, os olhos arregalados de expectativa.
— Porque eu preciso saber se a fada ainda mora aqui!
Dante soltou uma risada baixa, desarmado.
— Nós sequer sabemos se ela se parece com uma fada, Beatriz.
— O senhor disse que parecia — rebateu a garotinha, cruzando os braços com irrefutável autoridade infantil. — Logo, é a mesma coisa.
Ele desviou o olhar para o horizonte poeirento.
Na verdade, outra descoberta das suas investigações o perturbava com muito mais força. Leolina jamais se casara. Não havia marido, dote registrado ou herdeiros. Por uma lógica que ele não conseguia decifrar, essa informação o deixava terrivelmente inquieto.
E se ela tiver apagado minha existência da memória? E se guardar rancor? Ou, pior... e se eu for apenas uma reminiscência insípida da infância?
Quando a carruagem finalmente adentrou o vilarejo, Dante sentiu-se absurdamente desposicionado. As ruelas eram trefegadas por camponeses, as fachadas caiadas de branco refletiam o sol inclemente, e crianças descalças perseguiam aves sem o menor sobressalto diante de brasões nobres.
Ao caminhar de mãos dadas com Beatriz, seu olhar varria cada esquina. Cada figura feminina trajando xales avermelhados fazia seu pulso acelerar por um segundo. Nenhuma era ela.
Até que estancaram diante da residência indicada na missiva.
Não se tratava de uma choupana humilde, mas de uma villa de pedra clara imponente e sóbria. Tinha janelas em arco românico, roseiras bravas subindo pelas cornijas e um jardim de traçado geométrico impecável.
Beatriz puxou-lhe a manga.
— É aqui, papai?
Dante respirou fundo, ajustando a gola de veludo do casaco.
— É.
Bateu com o aldravão de bronze. Pouco depois, uma senhora de cabeleira completamente prateada e porte distinto abriu a pesada porta de carvalho. O refinamento de seu vestido de seda deixava claro tratar-se da proprietária.
Ela esboçou um acolhimento caloroso:
— Ah! Os nobres viajantes. Vieram apreciar a propriedade e o ar das colinas?
Dante vacilou por uma fração de segundo, aceitando de bom grado a premissa oferecida para não soar intrusivo.
— Precisamente, senhora.
— Entrem, por favor — disse ela, dando passagem imediata. — Mandei que preparassem o chá no salão de estar.
Dante trocou um olhar cúmplice com a filha. Beatriz parecia fascinada com a iluminação do recinto.
O salão era banhado pela luz dourada da tarde. Tapeçarias castelhanas cobriam as paredes, móveis de nogueira polida reluziam no ambiente e vasos transbordavam com flores recém-cortadas. Doña Inés acomodou-os com a vivacidade de quem raramente recebia visitas da corte.
— E quem é esta joia em miniatura?
Beatriz executou uma mesura ensaiada com gravidade cômica.
— Sou Beatriz de Valdeolmos.
A anciã riu, encantada.
— Pois Beatriz de Valdeolmos merece os melhores doces de figo da região.
Como por passe de mágica, uma bandeja de confeitos foi servida. A menina esqueceu instantaneamente o cansaço da viagem enquanto ponderava sua escolha. Dante, contudo, mal registrava a conversa. Seus olhos percorriam a penumbra dos corredores. À espera.
Foi então que a voz ressoou por trás da cortina de veludo que dava acesso ao bufet:
— O chá de hortelã e flor de laranjeira, senhora.
O tempo pareceu desacelerar seu curso.
A mulher adentrou a sala sustentando uma pesada bandeja de prata com o bule de porcelana.
Os cabelos... não eram a massa castanha que ele guardava na memória de infância. Sob a incidência direta do sol da janela, os fios acobreados fulguravam como metal fundido. Os olhos continuavam os mesmos: perspicazes, altivos, denotando uma maturidade afiada.
Leolina ergueu o rosto. Seus olhos castanhos colidiram frontalmente com os dele.
Ela paralisou. A bandeja vacilou um milímetro em suas mãos.
Dante esqueceu como se puxava o ar para os pulmões. Por sete longos anos formulara mentalmente aquele reencontro, testando equações de palavras e cumprimentos corteses. Nenhuma projeção chegava perto da realidade. Ela não era mais a menina de joelhos esfolados. Era uma mulher dona de uma presença avassaladora.
E havia algo dolorosamente injusto no fato de o mundo ter continuado a girar para ela enquanto ele permanecera petrificado em seu luto.
Leolina foi a primeira a reaver o controle. Piscou devagar, recuperando a postura com uma rigidez aristocrática que beirava a insolência.
— Meu... senhor Marquês? — murmurou, a voz gélida banhada por um cinismo contido.
Dante sorriu sem conseguir conter o impulso. Pela primeira vez em anos, o gesto não carregava o peso da obrigação.
— Faz muito tempo, Leo.
Ela cerrou os dedos ao redor das pegas da bandeja. Leo. Apenas um homem ousava usar aquele diminutivo. E esse homem evaporara de sua vida no momento em que assumira os deveres de seu título e seu casamento.
Leolina o observou. Vistoriou o corte impecável de suas vestes, a gravidade do seu rosto e o brasão da Casa de Valdeolmos bordado no peito.
A expressão dela transmutou-se. Não para surpresa nostálgica. Não para alegria. Mas para um escárnio dramaticamente ensaiado.
— Cruzes... — soprou ela, em tom audível.
Dante piscou, desconcertado. Álvaro sugerira que ela poderia ter esquecido seu rosto; jamais considerara a hipótese de ser recepcionado como uma praga agrícola.
— Disse algo, querida? — interveio Doña Inés, alheia à tensão.
Leolina recompôs a espinha dorsal com elegância impecável, ajeitando a louça com movimentos frios.
— Uma abelha, minha senhora.
Dante arqueou as sobrancelhas, encarando-a diretamente.
— Uma abelha?
— Sim — respondeu Leolina, sustentando o olhar dele com uma altivez desafiadora. — Uma abelha particularmente incômoda e fora de época.
Dante varreu o recinto com o olhar. Não havia inseto algum a cem metros dali.
— Terríveis — murmurou Doña Inés. — Parecem aparecer nos momentos mais inconvenientes.
— Inconvenientes é um termo brando, senhora — completou Leolina, o tom gotejando ironia.
Dante precisou pressionar a língua contra o céu da boca para não rir. A inteligência afiada e a capacidade de inventar álibis absurdos para manter o orgulho intacto continuavam rigorosamente as mesmas.
Ela aproximou-se da mesa. Serviu a senhora da casa com precisão cirúrgica. Em seguida, a dama de companhia. Por fim, depositou a xícara diante de Dante. Quando os dedos de ambos ameaçaram se tocar na alça de porcelana, Leolina recolheu a mão com uma rapidez quase ofensiva.
Dante ergueu uma sobrancelha, encarando-a de baixo para cima.
— Grato.
Leolina limitou-se a uma inclinação de cabeça imperceptível, os lábios selados em uma linha rígida.
Foi nesse instante de silêncio denso que Beatriz, contemplando a cena como quem acompanha um duelo de esgrima, declarou em alto e bom som:
— Você é muito bonita.
Leolina estancou. Olhou para a garotinha. A máscara de frieza e arrogância que ostentava diante de Dante fraquejou por uma fração de segundo, suavizando seus traços.
— Obrigada, pequena.
Beatriz deu uma mordida no doce de figo e sorriu:
— Meu pai disse que você se parecia com uma fada.
Dante quase engasgou com o próprio ar.
— Beatriz!
— O quê? — A menina piscou, a imagem da pureza sem culpa. — O senhor falou sim!
Leolina lentamente voltou os olhos para o marquês. E, pela primeira vez na tarde, Dante viu a chama da antiga Leolina acender-se naqueles olhos castanhos — uma faísca perigosa, zombeteira e afiada.
— Seu pai continua nutrir um hábito lamentável de falar demais — desferiu ela, com um sorriso venenoso e elegante.
Ajustou o xale sobre os ombros, fez uma reverência impecável para Doña Inés e virou as costas:
— Com sua licença.
Desapareceu pelo corredor com a altivez de uma rainha.
Dante permaneceu estático, o olhar fixo no portal por onde ela saíra.
Doña Inés sorveu um gole de seu chá com absoluta serenidade:
— Leolina é uma governanta formidável. Administra esta propriedade com pulso de ferro.
A palavra caiu como um golpe seco na mente lógica de Dante.
Governanta.
Ele virou o rosto devagar para a senhora.
— Governanta?
— Sim. Gerencia as contas, os criados, as provisões e a organização interna há quatro anos.
O silêncio caiu sobre o marquês. A indignação começou a arder em seu peito.
Leolina fora educada ao lado da alta nobreza. Lera os clássicos em latim, dominava a história da Espanha, dominava a arte da diplomacia e possuía uma mente estratégica superior à de metade dos conselheiros do rei. O que diabos acontecera para que uma mulher daquele calibre estivesse servindo chá e administrando os afazeres domésticos de uma casa de campo?
Sua mente cartesiana buscava uma explicação, mas o orgulho de Leolina tornava a equação ainda mais complexa.
— Ela... nunca cogitou o matrimônio? — perguntou Dante, tentando soar puramente analítico.
Doña Inés observou-o por cima da xícara, um sorriso enigmático surgindo em seus lábios experientes.
— Jamais. Recusou todas as investidas dos fidalgos locais com uma frieza assustadora. A língua dela afasta homens fracos a quilômetros de distância.
— Imagino — murmurou ele, a mandíbula contraída.
— Por que o interesse, meu senhor? — provocou a senhora.
— Mera constatação histórica — respondeu ele, falhando miseravelmente em parecer indiferente.
Doña Inés deu um pequeno riso acolhedor, o mesmo tipo de riso que sua mãe usava quando já antecipava o xeque-mate.
Beatriz puxou a borda do casaco de Dante.
— Papai?
— Sim, minha filha?
— Nós viemos para levar a fada de volta para o nosso castelo?
Dante encarou a porta por onde Leolina havia saído. Um sorriso lento, calculado e cheio de determinação começou a se desenhar em seus lábios.
— Talvez, Beatriz. Talvez.
Para sua mente lógica, a solução para a exigência de sua mãe e para a necessidade de sua filha acabara de se desenhar com clareza cristalina. Havia apenas uma variável altamente imprevisível e perigosa naquela equação: Leolina o odiava com todas as forças.
O parque da cidade repousava em um silêncio quase solene àquela hora do fim de tarde. O vento brando agitava a folhagem alaranjada das velhas árvores, fazendo com que as sombras no chão de pedra se movessem ritmicamente. Os ruídos do tráfego urbano e do burburinho mercantil chegavam até ali abafados, como se o tempo tivesse desacelerado para ambos.Dante caminhava ao lado de Leolina havia longos e densos minutos. O silêncio que os envolvia não era confortável; era pesado, carregado de uma expectativa palpável. Ele parecia procurar as palavras exatas, recalculando cada frase em sua mente. Leolina, observando a rigidez do maxilar dele, já começava a suspeitar de que o marquês perdera a coragem no último segundo.Até que ele estancou a caminhada.— Preciso que case comigo.Leolina também parou, sob a sombra de um frondoso carvalho. Piscou
Dante não estava gostando do rumo que as coisas tomavam.Absolutamente nada saía conforme o planejado. Ele viajara até aquela província com um plano traçado de forma simples e pragmática: encontrar Leolina, conversar com a calma que os anos exigiam e avaliar se ainda existia qualquer possibilidade de um casamento entre eles. No entanto, o verdadeiro obstáculo atendia pelo nome de Leolina que parecia pessoalmente empenhada em transformar cada uma dessas etapas em um suplício.Primeiro, ela o acolhera com o entusiasmo reservado a um mau agouro. Depois, fizera questão de jogar sobre a mesa o incômodo fato de que ele simplesmente desaparecera durante sete longos anos. E agora? Agora fugia dele com a agilidade de um felino no instante em que ele apontava no horizonte.Dante começava a suspeitar de que negociar um tratado de paz com a corte francesa seria uma tarefa consideravelmente menos des
Na manhã seguinte, Dante articulou uma justificativa vaga para prolongar sua estadia na vila.Alegou a Beatriz e à dama de companhia que pendências urgentes do marquesado exigiam sua presença na praça central. A garotinha, sem interromper o gesto de pentear sua boneca de pano, apenas retrucou com serenidade:— O senhor vai atrás da fada ruiva.Ele não se deu ao trabalho de formular uma negação lógica.O mercado da vila já fervilhava de vida quando o marquês alcançou a praça de pedra. Vendedores gritavam os preços de pescados e hortaliças, camponesas barganhavam tecidos e crianças perseguiam cães entre os cavalos. Pela primeira vez em anos, o título de Dante era uma irrelevância invisível no meio da multidão.Então, seus olhos a localizaram.Leolina sustentava uma cesta de vime no
A carta dobrada já ostentava vincos gastos de tanto ser manuseada.Dante a relera dezenas de vezes durante o trajeto. “Doña Leolina reside na propriedade rural de Doña Inés de Salvatierra.” Apenas isso. Nenhuma nota explicativa. Nenhum detalhe adicional.O destino parecia uma contradição satírica. Não era meramente o interior de Castela; era o isolamento absoluto. A estrada de terra batida estreitava-se a cada légua, ladeada por oliveiras seculares, campos de trigo ondulando sob o vento forte e lugarejos onde o tempo parecia haver estagnado.Dante apoiou o cotovelo no caixilho da janela da carruagem, a testa crispada.— Ainda falta muito?A dama de companhia sorriu, ajeitando as mantas no assento.— Meu senhor... a pequena Beatriz faz exatamente essa mesma pergunta a cada dez minutos.Beatriz projetou metade do corpo para fora da cortina de
A viagem de regresso a Valdeolmos pareceu significativamente mais longa do que o trajeto de ida.No interior da carruagem, o ranger ritmado das rodas de madeira contra a estrada de pedra servia de metrônomo para o silêncio de Dante. Com a fonte apoiada contra a janela fria, ele observava o relevo prateado das montanhas castelhanas sob a luz da lua.Onde estará Leolina?A indagação insistia em retornar, desafiando qualquer esforço de sua mente pragmática para catalogá-la como uma irrelevância do passado. Não se recordava da última vez em que pronunciara aquele nome. Sete anos. Talvez mais. Talvez o tivesse enterrado no mesmo dia em que jurou fidelidade a Manuela perante o altar.No entanto, bastara a menção irrefletida de Álvaro no baile para que as memórias irrompessem sem pedir licença.Uma garota de cabelos cor de cobre, invariave
Castela, Reino da Espanha — Ano de 1507.O salão do Palácio dos Aranda reluzia como uma gaiola de ouro e opulência.Centenas de velas de cera de abelha tremeluziam nos candelabros de ferro forjado, projetando sombras dinâmicas sobre o chão de pedra encerado. O aroma espesso de perfume de rosas misturava-se ao cheiro acre do suor contido sob corpetes e veludos pesados. A melodia cadenciada das vihuelas conduzia os casais em passos milimetricamente calculados, enquanto o murmúrio das conversas polidas ecoava pelas paredes tapeçadas.Dante observava a cena com a distância de quem examina uma equação que já decorou.Fórmula simples, pensou, girando o vinho no cálice. Sorrisos ensaiados somados a interesses políticos resultam em alianças convenientes.Havia sete anos frequentava as mesmas festas da nobreza, escut







