MasukEmpurrei a xícara de café para o lado sem beber.
— Eu ando onde quiser, Caim — respondi, com os cotovelos na mesa. — O nosso contrato não diz que você manda em mim. Ele continuou com a mão apoiada na madeira. — Eu não mandei — disse, calmo. — Eu avisei. Olhei para ele, tentando adivinhar quanto Tomé tinha falado depois que me perdeu no beco. — Fui fazer visita domiciliar perto da fiação — menti, sustentando o olhar. — Algum problema? Caim me encarou em silêncio por dois segundos. Ele sabia que era mentira e eu sabia que ele sabia, mas ninguém recuou. Ele levantou, deixou uma nota de dez reais para pagar o café e virou as costas para a saída. Levantei do tamborete e fui atrás dele, enquanto o Nescau saía de debaixo da mesa colado nos meus calcanhares. Subimos a escadaria do morro em silêncio. A noite estava abafada e a luz dos postes desenhava as nossas sombras nos degraus de concreto. No meio da subida, parei dois degraus abaixo dele e segurei o corrimão. — Já que o contrato é seu e foi você quem ditou as ordens, agora tem uma regra minha — falei, esperando ele virar. Caim parou no degrau de cima e olhou para trás. — Fala. — Ninguém encosta em ninguém sem o outro deixar — disparei, de queixo erguido. — Nem a mão, nem o ombro, nada. Cada um no seu canto até o fim desses seis meses. Ele olhou para a aliança fina de ouro no meu anelar e depois para o meu rosto. — Fechado. Voltamos a subir sem trocar palavra. A casa na laje continuava na penumbra de quando saí pela manhã. Enquanto Caim tirava os coturnos e deitava no colchão no chão da sala, fui para o quarto. O Nescau entrou atrás de mim e deitou no piso frio perto da cama de casal, soltando um suspiro pesado com a cabeça nas patas. Deitei de roupa e tudo, puxando o lençol até o peito. Peguei um livro para tentar ler, mas passei vinte minutos com a mesma página aberta, escutando a respiração dele na sala. Era uma rotina esquisita. Nós dois dividindo o mesmo teto, casados no papel diante de todo mundo, separados por um muro de silêncio. O celular no meu bolso vibrou. Era a Lia: "E aí, casadinha? O marido já comprou os móveis ou vocês ainda tão brincando de acampamento?" Digitei de volta, seca: "Vai dormir, Lia. O seu remédio da manhã é às sete." Bloqueei a tela e olhei para o teto. Dia quatro de sessenta. Fazia só quatro dias que a contagem do transplante da Lia tinha começado, e parecia que a minha vida inteira tinha virado do avesso. À uma da manhã, ouvi o colchão estalar na sala. Caim se levantou em silêncio. Sem acender a luz, pegou a chave e saiu para a noite, trancando a porta por fora. Virei para a parede e finalmente peguei no sono. Acordei no susto com a chave girando na fechadura. Olhei no visor do celular: três e trinta e cinco da madrugada de sábado. Sentei na cama quando o trinco estalou. O Nescau levantou as orelhas no escuro, atento. Fui até a sala e bati a mão no interruptor. A lâmpada acendeu com um estalo rápido. Caim estava encostado na porta, com a respiração pesada e curta. A camisa preta dele estava rasgada e empapada de sangue no peito esquerdo. A sala ficou com cheiro de sangue. — O que aconteceu com você? — perguntei, indo até ele. — Nada — ele respondeu, com a voz baixa. — Nada uma ova! — agarrei a manga boa da camisa e apontei para a cadeira. — Senta aí antes de cair no chão. Ele tentou recuar com o ombro rígido, mas puxei a cadeira para trás dele. — Eu não preciso de... — Cala a boca e senta, Caim — comandei, com a minha voz de plantão. — Aqui você é só um homem sangrando e eu sou a enfermeira. Senta logo. Ele me encarou por dois segundos e acabou sentando. Puxei a malha preta rasgada para os lados, abrindo o tecido ensopado. Dois dos quatro pontos de náilon da clavícula tinham arrebentado, abrindo a carne de novo. Ao lado havia um corte novo de uns cinco centímetros, fundo e reto, sangrando sem parar. Fui ao banheiro, peguei a caixa de primeiros socorros e voltei para a mesa. Calcei as luvas de látex e abri o frasco de antisséptico. Pressionei a primeira compressa de gaze na ferida aberta para limpar o excesso. Caim puxou o ar entre os dentes, mas não soltou um gemido. A musculatura do peito dele ficou rígida sob a minha mão. Para limpar o corte e alinhar a agulha, apoiei a palma da mão esquerda bem no centro do peito dele, sobre o osso do esterno. A pele dele estava quente contra a borracha fina da luva. A nossa regra do toque evaporou no mesmo instante. Eu sentia a batida pesada do peito dele sob a minha mão, e ele percebia a minha palma firme segurando o corpo dele contra a cadeira. Ficamos os dois parados por um segundo longo demais, com a sala silenciosa ao redor. Desviei a atenção para a ferida antes de perder a concentração. Lembrei da Lia e da conta de sessenta dias correndo enquanto pegava o porta-agulha. Infiltrei o anestésico com a seringa, segurei a agulha curva e fechei o corte novo com quatro nós firmes de náilon. Em seguida, refiz os dois pontos arrebentados do ombro, estancando o sangramento de vez. Minha mão hesitou quando cortei a ponta do último fio preto. Eu estava muito perto do rosto dele, tão perto que conseguia ver a poeira na barba por fazer e os olhos dele atentos em mim. Deixei a tesoura na bandeja e passei uma gaze seca no curativo. Minha mão esquerda continuava encostada no peito dele, sem que nenhum de nós quebrasse o contato. Caim ergueu a mão direita devagar. Ele não puxou meu braço. Apenas aproximou os dedos grandes da minha mão que descansava sobre a pele dele, parando a um milímetro de distância. — Posso? — ele perguntou, com a voz tão baixa que quase sumiu. Olhei para os dedos dele e depois para a boca dele, a poucos centímetros da minha. — Pode — murmurei. A mão dele cobriu a minha com firmeza, quente e pesada. O espaço entre nós sumiu de repente. Caim se inclinou um pouco para a frente, fechando os olhos devagar, enquanto a respiração dele tocava a ponta do meu nariz. Meu corpo inteiro travou esperando o toque da boca dele. Para não fazer besteira, soltei um deboche:: — Isso aí é anestesia ou você já tava assim? Caim abriu os olhos. Quase sorriu, mas não deu tempo. Antes que ele pudesse responder, um ruído estridente cortou a sala. O rádio comunicador preso ao cinto dele começou a chiar. Uma voz de homem, seca e apressada, falou do outro lado em português: — O carro do Gilmar chegou na entrada. Caim levantou da cadeira de uma vez só, como se não tivesse pontos repuxando a carne. OO rosto dele mudou na minha frente. O homem que quase me beijou sumiu. Em dois segundos, sobrou alguém que eu não conhecia. Ele não olhou para mim. Arrancou a jaqueta preta de couro do cabide da parede sem dizer uma palavra. O peso do anel de ouro no bolso direito balançou contra o tecido enquanto ele vestia a jaqueta com pressa. Caim abriu a porta da frente e saiu para a madrugada sem dar explicação, batendo a tranca. Fiquei parada na sala, com a luva manchada de sangue na mão e a camisa preta rasgada dele amassada no meu colo. Gilmar. Fiquei repetindo o nome. Gilmar. Eu não conhecia nenhum Gilmar no Cedro. Podia ser alguém da Associação, um fornecedor, um entregador no pé do morro. Mas o jeito como o Caim saiu me dizia que aquele carro não trazia nada de bom.Fiquei olhando para a porta da frente depois que o Seu Jair saiu.A pergunta do velho não saía da minha cabeça. Passei o resto da manhã medindo barriga de grávida e aplicando vacina no automático, repassando mentalmente cada linha do contrato que assinei na quarta-feira.O documento trazia o meu nome completo, RG, CPF e até o endereço do posto de saúde. Do lado da assinatura dele, havia apenas quatro letras impressas: Caim.Sem sobrenome, sem filiação e sem qualquer registro de cartório.No intervalo do almoço, encontrei Tomé encostado na mureta da rua comendo um joelho de queijo e presunto.— Tomé, uma pergunta rápida — falei, parando bem na frente dele. — Qual é o sobrenome do seu patrão?Ele mastigou afobado, olhou para os dois lados da rua e levou a mão livre ao rádio no cinto.— O árbitro apita, a bola sai pela lateral e é arremesso pro time adversário, assunto encerrado! — ele narrou aos atropelos, engolindo o salgado de uma vez e dando no pé em direção ao ponto de van.— Covard
Subimos a ladeira lado a lado, sem que nenhum dos dois dissesse uma única palavra até o portão da laje.O Nescau vinha atrás de nós, trotando sem pressa no piso de cimento. Quando entramos na casa, Caim tirou as botas na porta, pendurou a chave no prego da parede e foi direto para a cozinha sem me pedir ajuda.Fui atrás dele para conferir o curativo.— Você trocou a gaze do peito antes de descer? — perguntei, cruzando os braços no batente da pia.— Troquei — ele respondeu seco, já acendendo o fogo.Fiquei observando enquanto ele colocava uma panela velha com água no fogão e cortava rodelas tortas de linguiça com uma faca de serra. O homem que movimentava quarenta milhões falando em inglês estava ali, sem desconfiar que eu entendia cada palavra do idioma, cozinhando macarrão com ovo e linguiça na maior calma.Minutos depois, um cheiro forte de comida meio queimada tomou conta da cozinha.Caim não pareceu se importar. Ele raspou o fundo da frigideira com uma colher de pau, despejou o ma
Puxei a Lia para dentro de casa antes que algum vizinho curioso esticasse o pescoço na calçada.Esquentei o resto do almoço em silêncio na cozinha, ouvindo a minha irmã tagarelar sem parar sobre a laje do Caim e garantir que ele era muito mais paciente do que eu.— Ele ficou te olhando o tempo todo enquanto você varria a sala, mana — ela soltou, rindo com a boca cheia de arroz. — Tá na cara que ele gosta de você.— Ele tava vigiando pra ver se eu não ia quebrar os pratos dele, Lia — retruquei, pondo a jarra de água na mesa. — Agora come calada antes que eu te mande pra escola no sábado.Depois do almoço, esperei ela se distrair com uma série no celular para avisar que ia cobrir um plantão extra no posto de saúde.Saí pelos fundos, cortando caminho por um corredor estreito de terra batida entre as casas. Parei na esquina da rua principal e olhei na direção do poste de concreto onde Tomé tinha tentado se esconder na véspera.Pela primeira vez, o poste estava só poste.O Nescau apareceu
Joguei a camisa rasgada na pia e tirei as luvas pelo avesso.Lavei as mãos com sabão até a pele arder, tirando o sangue na torneira fria. A água desceu pelo ralo, mas a sensação da mão dele sobre a minha não saía."Posso?"Eu ainda ouvia a pergunta dele.Fui para o quarto e deitei na cama de casal. O Nescau estava encolhido no chão perto dos meus pés, com o focinho nas patas e as orelhas atentas.Fiquei encarando o teto, com raiva de mim mesma por ter vacilado. Eu tinha criado a regra do toque para não abrir brecha, e em poucas horas já estava com a mão no peito dele, esperando a boca dele encostar na minha.Não preguei o olho.Eram vinte depois das seis da manhã quando a maçaneta da entrada girou.Levantei da cama num salto e fui até a sala. Caim entrava de calça jeans e camiseta cinza limpa, com os cabelos úmidos e sem a jaqueta de couro.O curativo no peito esquerdo estava intacto, bem preso pelo esparadrapo que colei na madrugada.Nenhum de nós dois tocou no quase-beijo na cadeira
Empurrei a xícara de café para o lado sem beber.— Eu ando onde quiser, Caim — respondi, com os cotovelos na mesa. — O nosso contrato não diz que você manda em mim.Ele continuou com a mão apoiada na madeira.— Eu não mandei — disse, calmo. — Eu avisei.Olhei para ele, tentando adivinhar quanto Tomé tinha falado depois que me perdeu no beco.— Fui fazer visita domiciliar perto da fiação — menti, sustentando o olhar. — Algum problema?Caim me encarou em silêncio por dois segundos. Ele sabia que era mentira e eu sabia que ele sabia, mas ninguém recuou.Ele levantou, deixou uma nota de dez reais para pagar o café e virou as costas para a saída.Levantei do tamborete e fui atrás dele, enquanto o Nescau saía de debaixo da mesa colado nos meus calcanhares.Subimos a escadaria do morro em silêncio. A noite estava abafada e a luz dos postes desenhava as nossas sombras nos degraus de concreto.No meio da subida, parei dois degraus abaixo dele e segurei o corrimão.— Já que o contrato é seu e f
Soltei o pedaço de algodão na cuba e terminei de preencher a ficha de pré-natal com a mão firme."O velho que sumiu."Fazia oito meses que eu subia aquela ladeira todos os dias esperando uma pista do Seu Anselmo.Esperei Dona Rosilene levantar da cadeira, guardei a caneta no jaleco e tirei as luvas com um puxão rápido.— Onde foi que você viu ele, Rosilene? — perguntei baixo, acompanhando a mulher até a saída.— Perto da padaria do Seu Zé — ela sussurrou, olhando para os lados do corredor. — Ele tava mancando, dobrando o beco da fiação com uma sacola de pão.Saí do posto sem bater ponto e sem avisar ninguém na recepção.Assim que pisei na calçada, o Nescau levantou as orelhas do chão e veio trotando colado na minha calça jeans. Tentei mandar o vira-lata voltar para a sombra, mas ele só abanou o rabo fino e continuou no meu calcanhar.Caminhei rápido pelas vielas estreitas que cortavam o miolo da comunidade. O sol já tinha sumido atrás do morro, deixando os becos tomados por uma penumb







