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Capítulo 7: Assunto Proibido

last update Veröffentlichungsdatum: 28.10.2026 19:12:25

Soltei o pedaço de algodão na cuba e terminei de preencher a ficha de pré-natal com a mão firme.

"O velho que sumiu."

Fazia oito meses que eu subia aquela ladeira todos os dias esperando uma pista do Seu Anselmo.

Esperei Dona Rosilene levantar da cadeira, guardei a caneta no jaleco e tirei as luvas com um puxão rápido.

— Onde foi que você viu ele, Rosilene? — perguntei baixo, acompanhando a mulher até a saída.

— Perto da padaria do Seu Zé — ela sussurrou, olhando para os lados do corredor. — Ele tava mancando, dobrando o beco da fiação com uma sacola de pão.

Saí do posto sem bater ponto e sem avisar ninguém na recepção.

Assim que pisei na calçada, o Nescau levantou as orelhas do chão e veio trotando colado na minha calça jeans. Tentei mandar o vira-lata voltar para a sombra, mas ele só abanou o rabo fino e continuou no meu calcanhar.

Caminhei rápido pelas vielas estreitas que cortavam o miolo da comunidade. O sol já tinha sumido atrás do morro, deixando os becos tomados por uma penumbra cinzenta e pelo cheiro de cebola fritando nas cozinhas.

Cinquenta metros depois da curva da padaria, percebi o barulho de passos desajeitados atrás de nós.

Olhei de rabo de olho fingindo arrumar o cabelo.

Tomé vinha me seguindo com toda a sutileza de um caminhão de lixo. Ele segurava o rádio junto ao peito e tentava se esconder atrás de um poste de concreto que não tinha a largura de uma perna dele.

— E a marcação segue cerrada na ponta direita, torcida — a voz dele veio num sussurro abafado de locutor. — Cobertura individual perfeita do zagueiro, sem dar espaço pro adversário criar jogada.

Parei no meio do beco, cruzei os braços e me virei de frente para o poste.

— Tomé, se você tá tentando ser invisível, pede o dinheiro da simpatia de volta — falei, em bom som. — Dá pra ver metade da sua barriga e a antena desse rádio do outro lado da rua.

O rapaz deu um salto para fora do esconderijo, limpando a garganta e ajeitando a bermuda jeans.

— Ronda de rotina da segurança comunitária, doutora! — ele justificou, com a cara mais lavada do mundo. — Tô só checando a pressão atmosférica das vielas, nada demais.

Balancei a cabeça e continuei andando antes que ele inventasse outra desculpa esfarrapada.

Entrei no beco da fiação, onde os cabos de luz desciam quase até a cabeça formando um teto preto. Segui as instruções de Rosilene até o final da ruela, onde a passagem morria num muro alto de chapas de zinco enferrujadas.

Era um beco sem saída.

Olhei em volta procurando qualquer movimento, mas só havia duas portas de madeira com cadeados pesados e um varal vazio balançando com o vento.

Cheguei mais perto do último barraco e vi o objeto encostado na soleira de concreto.

Era uma bengala de madeira escura, com o apoio de mão desgastado pelo uso e uma ponta de borracha gasta na base. Ninguém largava uma bengala daquelas no sereno a menos que tivesse entrado às pressas em algum lugar.

Ele estava perto. Muito mais perto do que eu imaginava.

Dei meia-volta devagar. Ele estava por ali, e eu ia descobrir onde.

Eram quase sete da noite quando alcancei a escadaria principal para voltar à laje. O movimento da volta do trabalho estava no auge, com dezenas de moradores subindo os degraus cansados, mas o fluxo travou de repente.

Uma roda de vizinhos em silêncio se formou em volta do terceiro patamar da escada.

Dona Neide estava encolhida contra a mureta de blocos, com o braço direito ainda preso na tipoia que fiz mais cedo. Na frente dela, com a camisa suja aberta no peito e uma garrafa de cachaça pela metade na mão, estava Genildo.

O homem tinha quarenta e dois anos, o corpo magro e a voz embolada de quem bebia desde cedo.

— Você não manda em nada nessa casa! — Genildo berrava, gesticulando com a garrafa e cuspindo no chão. — Passou a tarde inteira inventando história de queda no posto, sua vagabunda!

Ele levantou a mão aberta para acertar o rosto de Neide.

Nenhum vizinho deu um passo à frente. Ninguém gritou e ninguém se meteu, porque confusão que envolvia cachaça e covardia sempre sobrava para quem tentava apartar.

Antes que a mão dele descesse, passos firmes ecoaram pelos degraus de cima.

Caim desceu a escada sem pressa.

Ele vestia camiseta preta e calça jeans escura, mantendo o braço esquerdo colado ao corpo para não forçar os quatro pontos abaixo da clavícula. Tomé vinha logo atrás. Tinha sumido do meu pé no beco, e agora eu entendia por quê. Estava de cabeça baixa, com o rádio desligado e sem piada nenhuma.

Caim parou dois degraus acima de Genildo.

Não gritou. Não puxou arma da cintura e não encostou um único dedo no homem.

— Genildo — a voz dele saiu baixa e calma, cortando a escadaria inteira.

O homem bêbado travou no mesmo instante, com a mão suspensa no ar. O efeito da cachaça pareceu sumir no segundo em que ele encarou os olhos de Caim.

A cor fugiu do rosto de Genildo com tanta rapidez que ele parecia um defunto de pé.

— Pega tua mochila — Caim continuou, no mesmo tom seco. — Pede desculpa pra ela. E não volta.

O agressor não discutiu, não gaguejou e não tentou se justificar.

Ele caiu de joelhos no degrau de cimento na frente de Dona Neide, baixou a cabeça e murmurou duas palavras que quase ninguém conseguiu ouvir:

— Desculpa... Me perdoa.

Genildo levantou cambaleando, pegou uma mochila velha perto da mureta e desceu a escada correndo, sem olhar para trás nem uma vez.

O morro continuou em silêncio absoluto.

Olhei para Caim parado no degrau. Nenhuma gota de sangue tinha sido derramada e nenhum osso quebrado. Minha terceira condição de casamento — a de que eu iria embora se ele machucasse inocentes — continuava de pé, intacta.

Dona Neide limpou as lágrimas com a ponta da tipoia e murmurou um agradecimento fraco na direção das botas dele, sem conseguir erguer os olhos.

Às oito da noite, entrei no botequim de Dona Cida para comer alguma coisa antes de subir.

O bar estava vazio depois da confusão na escada. Sentei no tamborete do canto. O Nescau deitou debaixo da mesa, nos meus pés. Fiquei girando a aliança fina no dedo.

Dona Cida colocou um prato com arroz, feijão e frango desfiado na minha frente, mas a cara dela não tinha o deboche de sempre.

A velha se apoiou na beirada da mesa, olhou para os lados e falou bem baixo:

— Onde foi que você se meteu até essa hora, garota? Me disseram que você tava rondando o beco da fiação.

— Fui fazer uma visita domiciliar — desconversei, mexendo na comida com o garfo. — A senhora conhece o Seu Anselmo?

A mulher parou no mesmo instante, com o pano de prato congelado na mão.

A Dona Cida ficou pálida. Eu nunca tinha visto aquilo nela.

— Esse velho aí é assunto proibido, minha filha — ela sussurrou, inclinando o corpo sobre a mesa. — O Doutor mandou esquecer esse nome faz muito tempo.

— O Doutor? — perguntei.

— Doutor Ramiro — ela cortou, com os olhos na porta. — Quem manda no morro é ele. O Caim só resolve o que o Doutor decide. Não mexe nisso, Nara.

Antes que eu pudesse insistir na conversa, ela puxou a garrafa de café e correu para atender um cliente que encostava no balcão da entrada.

Fiquei olhando para o prato. Então o Seu Anselmo não era só um velho sumido. Alguém tinha mandado ele ficar assim.

Virei o corpo para pegar a bolsa e quase bati o ombro na mesa.

Caim já estava sentado na cadeira em frente à minha.

Ele tinha chegado sem fazer ruído nenhum no piso de cimento. Empurrou uma xícara fumegante de café preto sem açúcar na minha direção, com a mão da aliança apoiada na madeira.

— Você não devia andar sozinha por aqui.

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