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Capítulo 2

作者: Pink Whisky
Quando Ivone encarou o acordo de divórcio dentro da gaveta, ela ficou completamente imóvel, como se tivesse sido congelada. Vários pensamentos passaram rapidamente pela cabeça dela, e um frio repentino tomou conta do peito.

Três anos antes, Ivone só tinha conseguido se casar com Fabiano porque contava com o carinho de Paula Moraes.

Ivone sabia que Fabiano não a amava. Ele tinha concordado em casar com ela apenas para consolidar a própria posição dentro da família Moraes. Com o voto de Paula a seu favor, ficava muito mais fácil levar adiante as ambições dele.

Aquele casamento tinha sido, de certa forma, roubado por Ivone. Ela tinha se jogado, por vontade própria, dentro de um amor de mão única, se iludindo com a possibilidade de que um dia Fabiano acabasse se apaixonando por ela.

Ivone tinha superestimado a si mesma. Antes do casamento, Fabiano já não suportava muito a presença dela, depois, os dois passaram a viver como completos estranhos. O divórcio sempre tinha pairado sobre aquela união como uma bomba‑relógio silenciosa.

Em três anos, Fabiano nunca tinha mencionado a palavra "divórcio". Por isso, ser pega de surpresa daquele jeito deixou Ivone sem chão.

Quanto ao motivo de ser justamente agora, ela já sabia a resposta:

Era porque Maia tinha voltado.

As palavras em destaque no topo do documento "Acordo de Divórcio" pareciam pregos batidos direto no coração dela. Ivone simplesmente não criou coragem para pegar o papel e ler o que estava escrito.

Se não fosse por ela ter esbarrado naquele acordo por acaso, quando Fabiano pretendia entregar aquilo?

Ivone não fazia ideia de quanto tempo tinha ficado ali parada. Só quando o barulho de um motor subiu da garagem, acompanhado da voz respeitosa de Dulce dizendo "oi, senhor", era que ela despertou do próprio torpor.

Quando Ivone desceu as escadas, Fabiano já tinha entrado em casa.

Do lado de fora, ainda nevava. Fabiano tirou o sobretudo preto e comprido e entregou, sem olhar, para o Rui. O terno preto, feito sob medida, deixava o ar dele ainda mais austero, realçando a postura ereta e a frieza contida.

A presença do chefe da família Moraes era quase sufocante.

Talvez por causa do som dos passos, ele ergueu o rosto na direção da escada. Os óculos sem armação apoiados no nariz deixavam aquele homem ainda mais refinado e distante. Os olhos, da cor de safira, tinham parte do brilho escondida atrás das lentes, mas ainda assim era impossível disfarçar o fascínio que emanava dali, uma espécie de calma enfeitiçante que prendia quem olhasse tempo demais.

Ivone se viu caminhando na direção dele sem nem perceber. Só que, como os dois já estavam há treze dias sem se ver e, desde o aborto forçado do filho, um ano antes, o contato entre eles tinha ficado cada vez mais raro, ela sentiu aquele homem à sua frente estranhamente distante.

Ivone parou a alguns passos. A imagem do acordo de divórcio na gaveta cruzou a mente dela, e ela abriu a boca para perguntar.

O olhar frio de Fabiano varreu o rosto dela, e as sobrancelhas dele se uniram num leve vinco:

— A vovó está doente. Volta comigo pra Mansão Grande Venice.

A voz grave de Fabiano veio coberta por uma camada de gelo. Depois de dizer isso, ele simplesmente virou as costas e saiu de novo para a área externa.

A avó estava doente? O coração de Ivone apertou, e ela esqueceu, por um momento, o assunto do acordo de divórcio. Ela correu até o quarto, pegou um casaco e um par de luvas, cobrindo os machucados no dorso das mãos.

Quando ela chegou, quase correndo, até a porta, Fabiano estava de costas, parado sob a marquise da entrada. Ele abaixou a cabeça para acender um cigarro. Ao ouvir a aproximação dos passos, ele virou levemente o rosto. A chama tremeluzente iluminou os olhos dele por um instante, para logo em seguida virar escuridão profunda.

Ele era Fabiano, o filho prodígio mais inalcançável de Cidade Uíge. Na época do colégio, ele já estampava sites e matérias como "o homem mais bonito do país, com um QI superior ao de Einstein".

O assunto rendeu tanta conversa que chegou a virar trending topic. Mas, logo depois, a família Moraes deu um jeito de apagar tudo.

Mesmo durante os dois anos em que ficou cego, Fabiano continuou sendo o objeto de fantasia de metade das mulheres da cidade.

O peito de Ivone ardeu de amargura. Ela respirou fundo e foi em direção ao carro.

Quando passou ao lado de Fabiano, os passos dela aceleraram sem que ela percebesse. De repente, a mão dele segurou com firmeza o braço dela.

Ivone se sobressaltou e, num impulso, levantou o olhar, dando de cara com aqueles olhos que pareciam enxergar direto o que havia dentro dela. Os dedos quentes dele subiram até o queixo dela.

Por reflexo, Ivone tentou recuar, mas a mão que segurava o queixo pareceu prever o movimento. Fabiano apertou um pouco mais e deixou o polegar deslizar de leve pelo contorno dos lábios dela:

— O que aconteceu com o seu rosto?

Ivone, sem saída, teve que erguer um pouco mais a cabeça para se alinhar com o olhar dele.

Ela não fazia ideia de que pomada Dulce tinha passado, mas, quando Ivone acordou naquela manhã, os hematomas do rosto já estavam bem mais claros.

Com a maquiagem e um pouco de corretivo, os machucados tinham praticamente desaparecido. A própria Dulce tinha comentado, surpresa, que ninguém conseguiria imaginar o estado em que Ivone chegou em casa na noite anterior.

Se mal dava para ver os roxos, como foi que ele…

O peito de Ivone doeu de novo.

— Eu caí ontem trabalhando. Me distraí e tropecei. — Ela respondeu.

Nesse ponto, contar que tinha sido espancada já não mudaria nada. Mesmo assim, ela não percebeu que a resposta tinha saído embebida de ressentimento.

O tom dela claramente desagradou Fabiano. O dedo dele apertou mais o contorno dos lábios dela, e ele soltou um riso curto:

— Você continua a mesma menina imatura de sempre.

A porta do carro se fechou, e o ar aquecido envolveu Ivone, dissipando aos poucos o frio que parecia ter se infiltrado até o fundo dos ossos.

O carro saiu do condomínio Vida Doce e pegou o caminho em direção à Mansão Grande Venice. Assim que se acomodou no banco, Fabiano começou a cuidar de assuntos de trabalho.

— Você acabou de ir no meu escritório? — A voz dele, grave e limpa, soou ao lado dela.

O peito de Ivone se apertou. Ela olhou para Fabiano, que continuava com os olhos fixos na tela do notebook. A pergunta parecia ter sido feita no automático, como se ele só quisesse confirmar um detalhe qualquer.

Ele provavelmente tinha reparado, ao sair de casa, que a luz do escritório estava acesa. Por isso, ele tinha perguntado.

O escritório de Fabiano, em geral, era organizado só pelo Rui. Ele nunca deixava Dulce entrar. Naquele horário, a única pessoa que poderia ter estado ali era Ivone.

E Ivone, depois de ter visto o acordo de divórcio, tinha esquecido por completo o motivo original de ter ido ao escritório.

— Fui. Eu queria pegar um livro, mas não encontrei o que eu tava procurando. — Respondeu ela.

Ivone só conseguia pensar na saúde de Paula. Ela encostou a cabeça no vidro, inquieta, com o coração disparado.

O carro seguiu pela cidade em direção à Mansão Grande Venice.

Quando Ivone tinha sete anos, ela tinha perdido os pais. Por causa de uma antiga ligação entre a família Marques e a família Moraes, e porque Paula tinha um coração generoso, Paula resolveu acolher Ivone e criá‑la dentro da família Moraes.

Entre todos os membros da família Moraes, a pessoa que mais amava Ivone era Paula.

Naquele ano, a primeira neve em Cidade Uíge tinha chegado de surpresa, e Paula tinha acabado pegando um resfriado.

Quando Ivone entrou na casa, os membros da família Moraes, o médico, o mordomo e alguns empregados estavam reunidos ao redor de Paula, tentando convencê‑la a tomar o remédio. Paula, no entanto, mantinha os dentes cerrados e se recusava a abrir a boca.

Assim que ela viu Ivone, o rosto de Paula se iluminou como se tivesse visto uma salvadora:

— Ivi! Eles querem me envenenar!

— Vó. — Ivone se aproximou às pressas, segurou a mão da idosa e se sentou na beira da cama, falando num tom doce. — Enquanto eu estiver aqui, ninguém vai encostar um dedo na senhora. Se aparecer algum bandido, eu o derrubo com um soco. Agora seja boazinha, toma o remédio primeiro. Eu dou na sua boca, pode ser?

Os olhos de Paula ficaram vermelhos de pura birra, mas ela acabou cedendo e tomou o remédio como Ivone mandava.

Todos em volta respiraram aliviados. Só Ivone conseguia fazer Paula obedecer sem criar confusão.

Parado a certa distância, Fabiano observava. O olhar dele, escuro e profundo, atravessou o sorriso de Ivone como um poço sem fundo.

— Que remédio mais amargo! — Paula reclamou, franzindo o rosto todo de uma vez.

— Remédio bom é assim mesmo, vó, tem gosto ruim. — Disse Ivone.

Ela pegou o copo e fez Paula beber mais um gole de água.

Ao ver a expressão chorosa da avó, Ivone apertou de leve a mão dela e balançou, em tom de brincadeira:

— Chega, né? A senhora não falou que o remédio tava muito amargo? Antes de subir, eu pedi pro pessoal fazer uma vitamina de banana. Eu vou lá embaixo pegar pra senhora, tá bom?

Em um segundo, Paula já tinha mudado de humor de novo, toda manhosa e satisfeita.

Quando Ivone voltou do andar de baixo com a vitamina de banana na bandeja e estava quase entrando no quarto, ela ouviu a voz de Paula, lá de dentro:

— O noticiário de ontem deu o que falar, hein. Você realmente não desapontou ninguém, meu querido neto. O herdeiro mais brilhante da família! Quando você resolve se mexer, o show é sempre grandioso.

Ivone parou na porta, sem entrar.

O tom de Fabiano soou um pouco desinteressado:

— Vó, não precisa falar comigo desse jeito irônico. A senhora devia se preocupar é com a própria saúde.

— A Ivi é a sua esposa! — Paula rebateu. — Aquela tal de Maia, da família Dias, é uma dívida da família Moraes, não sua. A Ivi não deve nada pra ela, e muito menos pra você. Se você for maltratar a Ivi por causa dela, eu não deixo barato!

Os dedos de Ivone, que seguravam a bandeja, ficaram gelados.

O som dos passos de um empregado subindo as escadas cortou o silêncio e embaralhou os pensamentos dela. Por isso, Ivone não conseguiu ouvir claramente o que Fabiano respondeu. Ela só pegou a frase final de Paula:

— Você e a Ivi deviam ter um filho logo. Tudo o que você quer vai acabar vindo parar nas suas mãos.

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