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Capítulo 7

Author: Pink Whisky
Maia, sentada na cadeira de rodas, apertou com força os apoios laterais. A expressão dela congelou por um instante antes que ela erguesse a cabeça, dura, para olhar o homem parado à sua frente.

— Fabiano, eu não sabia que a pessoa que o Gabriel mandou bater era a Ivi. — Disse ela.

Fabiano não levantou os olhos. Ele apenas girou levemente o relógio no pulso. Em algum momento, a música da festa tinha sido desligada. Só restavam alguns fachos de luz colorida cortando o salão. Ele estava exatamente no cruzamento daquelas luzes, mas o rosto dele permanecia numa sombra indecifrável, impossível de ler.

Maia respirou fundo e fez um gesto com a mão para a cuidadora que estava atrás dela. A mulher começou a empurrar a cadeira em direção a Gabriel e Ivone. Quanto mais se aproximava, mais forte se tornava o cheiro ácido de sangue misturado com álcool, um odor pesado, quase pantanoso, que dava enjoo.

Maia ergueu a mão instintivamente e cobriu o nariz e a boca. Ao ver Gabriel estendido no chão, quase apagado, ela franziu as sobrancelhas.

— Levem ele pro hospital. Agora. — Ordenou Maia.

Mas, mesmo depois da ordem, Ivone não soltou a gola da camisa de Gabriel. Ela continuava ali, com o punho fechado no tecido, sem a menor intenção de entregá‑lo.

— Ivi. — A voz de Maia tremeu levemente. — Sou eu.

Ivone não se mexeu, tampouco respondeu. A única coisa que mudou foi a força dos dedos dela, que se apertaram ainda mais ao redor da gola de Gabriel.

O pedido de desculpas de Maia veio em seguida:

— Me perdoa. Eu não sabia que era você. Se eu soubesse, eu teria dado uma lição no Gabriel antes. Mas agora você já bateu nele, já descontou a raiva. Se continuar, ele não vai sobreviver.

"Não vai sobreviver?"

Ivone, ainda por cima dele, levantou os olhos devagar e fitou Maia.

— E quanto vale a vida dele? — Perguntou ela. — Cinco milhões dão conta?

Aquela olhada fez Maia sentir, de forma estranha, um peso enorme, misto de pressão e ironia. Ela entendeu na hora: Ivone estava cutucando o fato de que, por ordem dela, o pai tinha mandado oferecer exatamente cinco milhões como "compensação" à vítima.

— A culpa foi minha, por não ter perguntado melhor o que tinha acontecido antes. Eu deixei você passar por isso. Pensa assim: faz pelo menos esse favor pra mim. Solta o Gabriel, vai? — Pediu Maia.

Ivone deixou um meio sorriso escapar. Ela encarou Maia, tão composta e delicada, sentada na cadeira de rodas. Três anos tinham passado, e Maia quase não tinha mudado. Se alguma coisa estava diferente, era a sombra de amargura que antes a envolvia, agora substituída por uma serenidade estranha, uma doçura quase natural em cada gesto.

Parecia que, finalmente, ela tinha feito as pazes com as próprias pernas paralisadas.

Um dia, Maia tinha sido a grande estrela de Cidade Uíge, a primeira‑dama da alta sociedade, a mulher perfeita. Agora, ela estava presa a uma cadeira de rodas, condenada a nunca mais andar. Ela era, sim, uma mulher digna de pena.

Mas Ivone nunca achou que tinha "roubado" Fabiano de Maia. Mesmo se Ivone não existisse, as pernas de Maia, destruídas, nunca permitiriam que ela se casasse com ele. E, se Maia não podia, por que não poderia ser Ivone?

O problema era outro: aquelas pernas tinham ficado assim para salvar o próprio Fabiano.

Ivone sempre tinha guardado um misto de gratidão e culpa com relação a Maia. Ela amava Fabiano, e Maia tinha salvo a vida de Fabiano. Isso, para Ivone, era o mesmo que tê‑la salvado também. Mas gratidão e culpa não significavam dívida eterna.

Ela, Ivone, não devia nada a Maia. Não devia nada a ninguém.

— E por que eu deveria soltar ele? — Retrucou Ivone. — Quando ele mandou me espancar quase até a morte, ele pensou na minha vida por um segundo?

Se não fosse por aqueles desconhecidos que apareceram e gritaram que iam chamar a polícia, o que teria acontecido com ela?

Ao ouvir aquilo, Maia baixou os olhos para o irmão, que mal conseguia respirar no chão. O coração dela se dividiu entre a dor e a urgência.

Mas o recado de Ivone tinha sido claro. E Maia conhecia bem o jeito dela: se Ivone tinha decidido não perdoar, não voltaria atrás.

— Se você tirar a vida do Gabriel, vai ter o prazer de se vingar, eu não discuto isso. Mas você pensou no que vem depois? E o seu trabalho? Pelo que eu sei, é a coisa que você mais ama fazer. Vale o risco? — Perguntou Maia.

Como era de se esperar, ao ouvir falar do trabalho, a expressão de Ivone oscilou por um breve instante.

Maia sabia, melhor do que qualquer um, do que Ivone gostava. Ela conhecia cada detalhe. Afinal, um dia, as duas tinham sido melhores amigas.

Mas Ivone mal mexeu um músculo. Ela continuou agarrando a gola de Gabriel, sem soltá‑lo, observando com indiferença o sangue dele se espalhar pelo chão.

O coração de Maia apertou.

— O Gabriel já levou o castigo que merecia. Você já descontou uma parte da raiva. Deixa isso pra lá. Além do mais, você tá bem agora, não tá? — Disse ela.

— Eu tô bem? — Ivone lançou um olhar de puro desprezo na direção dela. — Eu só tô viva agora porque uns desconhecidos tiveram a decência de me ajudar. Não foi porque o seu "bom irmão" teve pena de mim. Se você quiser saber como ele planejou terminar aquela noite, apenas pergunta pra ele.

Maia olhou para os dois homens que continuavam no chão, agarrados às próprias pernas, gritando de dor. Ela sabia que tinham sido eles que tinham espancado Ivone naquela noite. Quando os dois cruzaram o olhar com o dela, eles viraram o rosto, cheios de culpa.

Maia não precisava ouvir mais nada para entender que a ordem de Gabriel ia muito além de "dar um susto".

Enquanto o sangue escorria pela testa de Gabriel sem parar, o rosto de Maia foi ficando cada vez mais rígido. Ela não podia simplesmente ficar olhando.

Ela apertou com força o apoio da cadeira de rodas, tentando erguer o corpo desajeitadamente, rangendo os dentes a cada movimento.

— Se eu me ajoelhar e pedir… — Começou Maia.

Uma mão pesada pousou sobre o ombro dela, interrompendo o gesto. Maia congelou.

— Chega. — A voz de Fabiano cortou o ar.

O timbre grave e frio dele entrou pelos ouvidos de Ivone como um estalo. Ela sentiu algo desabar por dentro, como uma avalanche. Por um momento, a mente dela ficou completamente vazia.

Maia levantou o rosto na direção de Fabiano, que tinha se aproximado sem que ela percebesse. Os olhos dela, úmidos e vermelhos, brilharam por um instante. Orgulhosa, ela desviou o olhar de novo e disse:

— Se isso for o que você precisa pra se acalmar, tudo bem. Ivi, eu peço desculpas em nome do Gabriel.

As mãos de Maia ainda tremiam de esforço. Fabiano lançou um olhar rápido para a babá que estava atrás da cadeira.

A mulher entendeu na hora e segurou o corpo de Maia.

— Srta. Maia, a sua saúde não permite que a senhora se ajoelhe. — Disse a babá.

— Mas o Gabriel… — Maia insistiu, teimosa. Ela voltou os olhos para Ivone. — Ivi, pelo que a gente já viveu juntas, solta o Gabriel. Eu prometo que eu o trago pra pedir desculpa pra você depois.

A única resposta de Ivone foi uma risada seca, sem humor:

— Um sujeito desses, vivo, é um risco pra todo mundo.

O olhar de Fabiano pousou na metade do rosto de Ivone, manchada de sangue. Quando ele falou, a voz saiu rouca, carregada de gravidade:

— Ivone, chega.

As pernas de Ivone, ajoelhadas sobre o corpo de Gabriel, já tinham perdido toda a sensibilidade, e aquela dormência parecia ter subido até o peito. Mesmo assim, uma única frase de Fabiano foi suficiente para provocar uma pontada surda no coração que ela vinha tentando anestesiar há tanto tempo.

Ivone cerrou os dentes de repente, depois, como se algo dentro dela tivesse simplesmente quebrado, soltou um sorriso calmo.

Não tinha mais graça nenhuma.

A mão que segurava a camisa de Gabriel largou o tecido de uma vez.

Maia soltou o ar, aliviada, e virou o rosto para os seguranças:

— Levem ele pro hospital, agora.

Gabriel era conhecido em Cidade Uíge como um playboy sem freio, que só pensava em comer, beber e se exibir. Naquela noite, Ivone tinha destruído o orgulho dele na frente de todos e quase tinha acabado com a vida dele. Seria impossível que ele engolisse aquilo.

Sem saber se estava recobrando os sentidos ou apenas se debatendo no limite entre a consciência e o desmaio, ele viu a silhueta de Ivone se afastando por um instante. O ódio queimou mais alto. Ele abriu a boca, e o sangue entrou, tingindo os dentes de vermelho.

— Não… não deixa… ela sair… Eu vou… matar… essa vadia… — Balbuciou ele, a voz arrastada.

Ivone se apoiou na perna esquerda e, cambaleante, conseguiu ficar de pé. Ao ouvir que Gabriel ainda encontrava forças para ameaçá‑la, ela cravou o salto do sapato na mão dele, esmagando os dedos contra o piso. Ela o encarou de cima, o olhar gelado. Os olhos passaram pela mesa ao lado, coberta de garrafas vazias e destroços.

No instante em que ela fez menção de alcançar outra garrafa, o pulso dela foi segurado mais uma vez.

Fabiano segurou o punho dela e, num só movimento, conteve o gesto. Em seguida, ele lançou um olhar rápido para os seguranças da família Dias, que se preparavam para avançar sobre Ivone.

O herdeiro número um da família Moraes, a família mais poderosa de Cidade Uíge, não precisou levantar a voz. O olhar dele, calmo demais, escondia algo que gelava a espinha. Os seguranças da família Dias congelaram no lugar, sem coragem de dar um passo.

Mais uma vez. E de novo. Ivone sentiu o tédio subir como náusea.

— Me solta. — Disse ela, arrancando com força o braço da mão de Fabiano.

Sob as luzes coloridas que piscavam, os olhos dela brilhavam de lágrimas e rancor.

— Fabiano, você é cruel. — Disse ela.

Um cheque caiu girando no chão, aos pés de Gabriel. Era o mesmo cheque de cinco milhões que a família Dias tinha oferecido a Ivone.

Ivone se virou e saiu do clube sem olhar para trás. Rui foi atrás, a alguns passos de distância.

— Senhora… — Chamou Rui.

Mas, antes que ele pudesse completar a frase, Ivone já tinha entrado no próprio carro. Ela bateu a porta com força, ligou o motor e arrancou, sumindo na noite.

Com as portas e janelas fechadas, o cheiro de álcool e sangue impregnado nas roupas tomou conta do interior do carro. A mistura subiu pelo nariz, deixando Ivone enjoada.

De volta ao condomínio Vida Doce, Ivone tirou toda a roupa e jogou tudo direto no lixo. Descalça, ela atravessou o quarto e entrou no banheiro.

A água quente descia pesada sobre a cabeça dela, mas não conseguia tirar o frio do corpo.

De repente, a porta do banheiro se abriu por fora. Aquele era o quarto dela. Ela não tinha o hábito de trancar a porta quando tomava banho. Ali, ninguém se atrevia a entrar sem avisar.

Em meio ao vapor espesso, ela levantou o rosto e deu de cara com o semblante gelado de Fabiano.
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