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PARTE 25: VELHOS TEMPOS

Author: MAGNO NOVAES
last update publish date: 2022-03-01 23:03:31

Adam olhou novamente a foto de Daniel impressa naquela folha de papel e fez um sinal de negação com a cabeça, colocando o papel novamente no bolso. Ele se sentou do lado de Melissa que estava em um banco na praça que havia em frente ao colégio. Ela estava desconectada. Seus pensamentos estavam em algum lugar escuro, como um quarto e um barulho. Adam fez o mesmo barulho de seu pensamento ao arrastar o pé no chão, despertando-a do pensamento. Ela o observou.

— O que está rolando entre você e o Bill? — Adam perguntou, colocando as mãos no bolso e encostando as costas no banco. Ele só queria puxar assunto, mas também, se era para estar com o grupo dos bobões do colégio Doctor John Dalton, que pelo menos ele o conhecesse bem, assim pensou.

— Que raio de pergunta… — Melissa se acomodou no banco, tornando a olhar para o colégio —, ele é meu melhor amigo.

— Amigos também transam, está bem? — sorriu, retirando um isqueiro de dentro do bolso das calças e acendendo mais um cigarro. Ele fizera só para impressioná-la.

— Está falando da sua relação com o John? — Melissa arqueou uma das sobrancelhas, rebatendo o discurso desagradável.

— Não! Nossa. Claro que não!

Os lábios de Melissa desenharam um sorrisinho. Ela voltou a olhar o colégio. Não havia mais ninguém ao redor da instituição. A garota estava começando a se preocupar com o Bill, mas sabia que ele era esperto demais e que logo ela viria ele pulando um dos muros, com seu cabelo esvoaçante, o foco de sua atenção então se voltaria para suas perninhas finas e como elas fazem um movimento estranho enquanto ele anda.

— O que você recebeu na carta? — Perguntou Melissa, quebrando o silêncio depois do assunto constrangedor. Aquela pergunta era tão incômoda quanto a insinuação de que ele transava com o John.

— Estou em dúvida… — disse —, eu não me lembro muito bem.

— Você falou sobre o que aconteceu com o John, e que isso poderia ter relação com a carta — Melissa falou, claramente transtornada. Ela estava com medo, mas Adam não conseguia entender o porquê da mudança repentina de temperamento. Era difícil manter o equilíbrio emocional quando havia ameaças reais e desconhecidas envolvidas.

— É que na carta havia uma espécie de charada. Talvez isso tenha ligação, mas como? — indagou, tão confuso quanto ela.

Melissa ficou em silêncio. Ela retirou outro envelope de dentro de sua jaqueta. Ela olhava para aquilo como uma sensação de medo e aflição, como alguém que recebe cartas de cobrança do banco. Mas era tão pior quando cartas de cobrança abusivas, ou notificações de despejo. Era uma sentença de morte.

Adam observou os olhos de Melissa ficarem miúdos antes de afundarem dentro de sua cabeça, arrastados pelo pensamento padrão de que aquele envelope amarelo cor de açafrão, se fosse aberto, traria em suas palavras, mais desgraças.

— Esse é um novo… — Adam começou a perguntar devagar, mas Melissa concordou antes mesmo dele terminar. Era um novo envelope. Ela recebera mais cedo naquele dia.

1

Colégio Doctor John Dalton, outubro de 1977

A maioria dos garotos do Doctor John Dalton acreditavam que o sino que havia no topo de uma das torres centrais, era dourado, mas a verdade era que o objeto tinha uma cor esverdeada, e essa contradição levaria os moleques a fazerem uma aposta peculiar.

— Se você subir lá e provar que ele é realmente esverdeado, eu ando pelado pelo corredor do colégio — disse Frederick. Era um dos jovens pertencentes ao grupo de atletas da instituição e apesar de ser de grande porte, não conseguia erguer nem seu próprio traseiro — Mas já aviso que, se você estiver errado, você terá que nadar pelado no rio Wax.

— Nem fodendo…

— Sobe lá, Daniel — Frederick o empurrou, rindo. Daniel o segurou pelo casaco, interrompendo a brincadeira. O atleta viu Smith olhando para Samara Morris, com o tipo de olhar que demonstra um pingo de sentimento. Talvez paixão ou ódio. Os dois sempre começavam no mesmo ponto. A garota estava sentada em um banco, isolada dos outros alunos, tão quieta que parecia apenas uma sombra, procurando por um corpo —, mudei de ideia — continuou ele, — se você subir lá, eu dou um jeito de você ficar com a esquisitinha ali.

Daniel ficou em silêncio enquanto a encarava. Ele desviou o olhar para o rosto sádico de Frederick, trazendo para a mente a imagem deles rolando pelo chão como dois cães selvagens. Poderia xingá-lo, batê-lo, mas falar mal da Samara era algo extremamente difícil para ele. Claro. Era amor, só Daniel que não via.

— Se você chamá-la assim de novo… — disse ele, voltando a olhar para ela e tornando a encará-lo. — Eu quebro seus dedos.

— Espera! Somos amigos, não é mesmo? Acho que amigos não quebram os dedos dos outros. Ela parece que está na sua, basta uma oportunidade e… — ele fez um sinal obsceno com os braços insinuando uma cena de sexo. Daniel sabia que ele só estava querendo ganhar a confiança dele para que ele subisse na torre central e acabasse com o delírio coletivo de que o sino era dourado. — Olha lá aquele sino dourado, zé ruela. Agora sobe e confirma. Sua namoradinha… — ele pensou na melhor palavra —, doce, bela namorada, ficará excitada quando ver você nadando pelado no rio.

Daniel respirou fundo, como se controlasse a erupção de uma raiva que ele costumava mostrar quando estava sob pressão. Talvez um instinto animal que ele pouco conhecia, mas vez ou outra subia à superfície como lava quente e destrutiva. Daniel olhou para os finos e longos dedos de Frederick. Quebrá-los seria fácil.

— Sobe você… — retrucou Daniel, com autoridade. A voz dele quase havia persuadido o gênio, fracote, Frederick. Um tom de voz que só o pai casca dura dele conseguia reproduzir e costumava acionar um gatilho de pressão tão grande, que fazia seu estômago doer de tensão, só de lembrar das surras gratuitas que levava. — Apenas faça você mesmo… se estiver certo, eu vou à droga do rio e nado pelado se desejar — a confiança de Daniel assustou um pouco Frederick, mas ele não quis demonstrar-se medroso. — Mas se eu estiver certo...

— Espera… — Frederick olhou mais uma vez para o sino, mordendo os dedos da mão enquanto tentava confirmar mais uma vez a cor. Os raios de sol bateram no objeto, resplandecendo uma luz dourada e vívida, que iluminou os olhos castanhos de Frederick. Ele sorriu por se sentir quase com a sensação quase de certeza que aquilo era dourado. — Se você estiver certo, eu faço o que você quiser… ou quase…

Daniel riu, olhando em volta. Samara não estava mais no banco. Ela saíra e ele nem se deu conta.

— Há um quarto no fundo da sala da diretoria. É lá onde estão os exaustores e a escada para a caixa d'água e claro, a torre do sino. Ela está sempre fechada, afinal, o diretor não quer que algum aluno doido como você, suba até lá, caia e quebre o pescoço. Mas eu sei onde está a chave daquela porta. Você ficaria surpreso como aquele local é estranho e, ao mesmo tempo, um ótimo esconderijo — disse Daniel, olhando novamente para a torre. — Me diga quando e eu busco a chave.

— Está ficando frio. Que tal ser amanhã? — indagou Frederick, fugindo da missão, como esperado.

— Perfeito! — respondeu Daniel, mas seu principal pensamento foi: sinto cheiro de medo. Medo de menino grande e desengonçado.

O final das tardes nos arredores de John Dalton, era como uma festa de carnaval, onde os alunos se espalharam pelas ruas, apressados para o tão sonhado retorno ao lar. Outros, pareciam pedir que o tempo parasse, era o caso de Samara. A menina escrevia em uma folha de papel, algo. Ela sempre foi boa na escrita. Fazia aquilo para livrar-se da tensão. As coisas em sua casa não estavam nada bem. Seu pai havia voltado a beber e sua mãe só dava atenção à nova criança. Ela estava se sentindo sozinha e perdida, num mundo malvado e perigoso, onde os humanos eram os piores monstros.

— Eu costumava escrever poemas… me faziam bem — disse Daniel, sentando-se ao lado dela no banco da praça em frente ao colégio. Samara não desviou o olhar da folha de papel, mas sabia quem estava ali.

— Você não parece ser sensível — retrucou, dobrando a folha e colocando dentro de um diário. Ela virou o rosto para Daniel, observando o olhar distante do jovem, que pensava na resposta.

— Talvez eu não seja — falou, sorrindo, talvez assim pudesse demonstrar que não se importava com aquela crítica e de fato ele não ligou — você quer uma carona?

— Eu não te conheço.

— Olha, que coincidência… Eu também não te conheço… — rebateu —, mas sei onde você mora, senhorita Morris.

— Sei que seu pai vende leite para minha família e moramos a um quilômetro de distância um do outro, mas isso não quer dizer que somos amigos — Samara se levantou do banco.

— É verdade… Olha, eu sinto muito se aqueles bobões, você sabe, aqueles… eu sei que eles dizem coisas com você…

— Dizem? — Samara fecha os olhos, sentindo a dor da agressão subir pelo seu peito, consumindo-a viva — você não sabe de nada.

— Eu posso andar com eles, mas eu não sou como eles.

— Quer um prêmio? Melhor cara de John Dalton. Excelentíssimo galã de toda Delaware — falou ela, caminhando e deixando-o no banco. Ele se levantou e seguiu seus passos.

— Por que me trata assim? — a pergunta de Daniel levantou a mente de Samara como um tapete velho, cheio de poeira. Ela conseguia ter certeza de que todos os garotos, ou a maioria deles, eram malvados e malcriados. As garotas não eram exceções. Se ela fechasse os olhos, podia sentir os beliscões que levava na fila da merenda, ou as palmadas na bunda quando passava nos corredores. Deus, as risadas dos meninos zombando das piadas que eles mesmos contavam eram como apertar uma mão repleta de cacos de vidro. Por que me trata assim, hein, vadiazinha? Por que você tem que se vestir de forma tão esquisita, Samara? De onde você veio, havia espelho? Você já viu o bilau do reverendo Belmont?

— Samara…— Daniel falou ainda envolvido em seu silêncio, trazendo-a de volta à realidade — porque tá me tratando assim?

— Cala a boca! Me deixe em paz! — exclamou ela, choramingando e saindo dali. Ele não foi atrás dela.

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