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CAPÍTULO 3: As Regras do Cativeiro

Author: Dália
last update publish date: 2026-10-05 08:19:26

A palavra pertence reverberou pelas paredes do quarto como um golpe físico, ecoando no silêncio pesado daquela manhã. Pressionei minhas costas ainda mais contra a madeira fria da porta, sentindo o ar fugir completamente dos meus pulmões enquanto encarava a tela do tablet nas mãos de Dominic Vance. O parágrafo destacado em tom vermelho-sangue não deixava margem para dúvidas, metáforas ou interpretações equivocadas: eu não era uma visitante contratada, tampouco uma acompanhante de luxo que retornaria para casa após o nascer do sol. Para todos os efeitos legais sob o contrato rígido do maldito aplicativo, eu havia me tornado uma propriedade civil estipulada, uma custódia transferida de forma irreversível.

— Isso é ilegal! — respondi, tentando manter a voz firme e límpida, embora minhas mãos tremessem tanto que precisei ocultá-las atrás do corpo, cravando as unhas na palma da mão para focar na dor física.

— Nenhum contrato no mundo pode cancelar meus direitos fundamentais ou a minha liberdade. A lei...

— A lei responde e se curva a quem a financia, Maya — Dominic interrompeu-me com uma tranquilidade fria e cirúrgica, dando um passo lento em minha direção e pousando o tablet sobre a mesa lateral de madeira nobre.

— O sistema do Velvet não opera sob as regras ordinárias dos tribunais comuns; ele funciona sob jurisdição internacional privada, protegido por corporações blindadas e paraísos fiscais. A partir do momento em que a sua assinatura digital foi confirmada com seus dados biométricos e sua íris foi escaneada, os papéis foram homologados instantaneamente. Perante o mundo lá fora, você assinou um termo de tutela, moradia e residência exclusiva sob a minha inteira responsabilidade.

Ele se aproximou até que não houvesse mais de um palmo de distância entre nós dois. O aroma marcante do seu perfume amadeirado — uma mistura densa de couro, sândalo e um toque sutil de tabaco — preencheu todo o meu espaço pessoal, misturando-se ao pânico sufocante que subia feito uma maré alta pela minha garganta.

— Você não é uma prisioneira jogada em uma cela de ferro escura — ele continuou, erguendo a mão direita para tocar suavemente uma mecha de cabelo castanho que caía sobre meu rosto, prendendo-a devagar atrás da minha orelha. O toque de seus dedos quentes era calmo, quase carinhoso, mas carregava uma promessa implícita e aterrorizante de controle absoluto.

— Mas este é o seu novo mundo a partir de hoje. Você terá o melhor que o dinheiro e o meu sobrenome podem comprar: roupas de alta-costura, segurança patrimonial inquebrável, conforto absoluto e, acima de tudo, o acesso ilimitado aos melhores oncologistas da América Latina para o seu irmão. Léo continuará recebendo o tratamento no hospital privado sem que você precise se preocupar com um único centavo. Essa é a minha parte do acordo, a qual cumpri integralmente no segundo em que depositei dois milhões de dólares na sua conta.

— E qual é a minha parte nessa aberração? — perguntei, erguendo o queixo e sustentando seu olhar azul-acinzentado, recusando-me a fraquejar diante da sua estatura e da sua aura intimidadora.

— A sua parte é me obedecer sem questionar — respondeu ele, a voz baixando para um sussurro aveludado, denso e inflexível que fez todos os pelos do meu corpo se arrepiarem.

— Existem regras inegociáveis nesta casa, Maya, e é bom que você as memorize agora para evitar consequências desagradáveis. A primeira delas: você não sai dos limites desta propriedade sem a minha permissão expressa ou sem a companhia ostensiva dos meus seguranças. A segunda: você não tenta contatar a polícia, imprensa ou advogados; qualquer tentativa de quebrar o sigilo do nosso contrato resultará no cancelamento imediato e definitivo do financiamento médico de Léo. E a terceira... quando eu estiver nesta casa, você estará inteiramente disponível para mim.

Senti um nó cego e doloroso se apertar no fundo do meu peito. A barganha desenhada por Dominic Vance era cruel, mas de uma precisão cirúrgica. Ele não precisava de correntes físicas ou de uma cela trancada para me manter preso; ele sabia exatamente onde me atingir. A vida do meu irmão de sete anos, a única família que me restava no mundo, dependia inteiramente da minha submissão às suas vontades.

— Eu quero ver o Léo — pedi, engolindo em seco e engolindo as lágrimas de raiva que queimavam nos meus olhos.

— Preciso ir ao hospital. Preciso saber se ele acordou bem da cirurgia esta manhã e se os remédios novos já fizeram efeito.

Dominic observou-me em silêncio por alguns segundos prolongados, seus olhos perspicazes avaliando a sinceridade e o desespero estampado em meu rosto. Em seguida, alcançou um pequeno dispositivo de controle no bolso interno do seu terno e pressionou um botão discreto. O som metálico da trava eletrônica da porta ecoou pelo quarto, indicando que o bloqueio havia sido liberado.

— O meu motorista a levará ao hospital para uma visita supervisionada de exatamente duas horas — disse ele, caminhando até a escrivaninha de mogno e pegando sua pasta de couro escuro.

— Um dos meus homens mais confiáveis, Gabriel, acompanhará você a cada passo do caminho. Não tente nenhuma tolice, Maya. Não tente passar bilhetes, não tente pedir socorro. Lembre-se do que está em jogo: o coração do seu irmão ainda é fraco demais para suportar a interrupção das medicações. Faça isso pelo bem dele.

Sem dizer mais uma única palavra, Dominic passou por mim com passos firmes e manteve sua postura impecável enquanto cruzava o batente e saía do quarto, deixando a porta escancarada atrás de si. Assim que fiquei sozinha, encostei a cabeça na madeira da porta e soltei o ar que parecia retido nos meus pulmões há minutos, sentindo minhas pernas fraquejarem por um breve momento antes de me recompor. Ajustei minhas roupas surradas, passei as mãos no rosto para disfarçar o cansaço e desci a imensa escadaria de mármore do saguão monumental, onde a governanta e um homem alto, de terno escuro, corte de cabelo militar e olhar vigilante, já me aguardavam em silêncio.

O trajeto de volta ao hospital foi realizado sob o mesmo silêncio opressor e denso que marcara minha viagem de ida na madrugada anterior. Gabriel, o segurança designado por Dominic para ser a minha sombra, permaneceu ao meu lado desde o momento em que pisei no estacionamento subterrâneo até o corredor do setor de oncologia pediátrica. Embora mantivesse uma distância formal e discreta de alguns passos, a presença daquele homem alto e armado era um lembrete constante da rédea curta sob a qual eu agora vivia. Eu era uma prisioneira escoltada em uma gaiola invisível.

No entanto, no momento em que empurrei a porta de vidro do quarto 304 e pisei no recinto, todo o peso sufocante do mundo pareceu evaporar por alguns instantes. Léo estava acordado. Deitado sobre os travesseiros brancos, seu rosto franzino ostentava uma fisionomia visivelmente mais corada e saudável do que nas últimas semanas, embora ainda estivesse enfraquecido pelos efeitos colaterais dos procedimentos.

— Maya... — ele murmurou, a voz rouca e fraca por causa da sedação, abrindo um sorriso pequeno e sincero assim que seus olhos encontraram os meus.

— Oi, meu amor — aproximei-me rapidamente da cama, desfazendo a postura rígida e me ajoelhando ao seu lado. Segurei sua mãozinha magra com um cuidado extremo, levando-a aos meus lábios e depositando um beijo demorado em sua testa quente.

— Como você está se sentindo, meu campeão? Sente alguma dor?

— A médica disse que a cirurgia de descompressão foi um sucesso absoluto — respondeu ele, piscando os olhos devagar enquanto tentava se manter desperto.

— Ela esteve aqui mais cedo com uma equipe enorme de enfermeiros. Disse que um doador anônimo e um benfeitor quitaram todas as contas da clínica e garantiram os melhores remédios do país para mim. Maya... de onde veio todo esse dinheiro tão rápido? Você não fez nada perigoso ou errado, fez?

Olhei de relance para a porta do quarto pelo vidro transparente, vendo a silhueta alta e imóvel de Gabriel postada no corredor como uma sentinela impecável. Senti uma lágrima quente e involuntária escorrer pela minha bochecha, mas apressei-me em limpá-la com as costas da mão antes que Léo percebesse o pavor que habitava meu peito.

— Claro que não, meu amor — menti, forçando o sorriso mais caloroso, suave e convincente que consegui moldar em meu rosto.

— Lembra daquela grande empresa de investimentos que eu fiz entrevista no mês passado? Eles finalmente me chamaram! Consegui um contrato importante de trabalho com eles. Vou precisar morar no complexo da empresa por um tempo enquanto gerencio um projeto novo, mas em troca eles aceitaram cobrir todos os seus custos médicos até você ficar cem por cento curado. Tudo vai ficar bem agora, Léo. Eu prometo a você.

Ele pareceu genuinamente aliviado com a minha explicação, dando um suspiro tranquilo e fechando os olhos devagar conforme o efeito dos analgésicos potentes o levava de volta a um sono reparador. Fiquei ao lado dele durante cada minuto das duas horas rigorosamente concedidas por Dominic. Segurei sua mão, acariciei seus cabelos castanhos e repeti em silêncio uma promessa para mim mesma: eu suportaria qualquer humilhação, qualquer exigência e qualquer sombra na mansão Vance para garantir que meu irmãozinho continuasse respirando.

Ao retornar à propriedade no final da tarde, a luz alaranjada do pôr do sol dourava os portões de ferro e as imensas janelas de vidro da fachada. Fui conduzida por Gabriel não para a suíte principal onde passara a noite, mas para um quarto espaçoso localizado no mesmo corredor do segundo andar.

O cômodo era simplesmente deslumbrante, decorado em tons sutis de creme, cinza e madeira clara, contando com uma varanda privativa de mármore voltada para os jardins impecáveis dos fundos da propriedade. Sobre a imensa cama de casal, havia dezenas de sacolas elegantes com logotipos de marcas de luxo internacionais: vestidos de corte impecável, conjuntos de seda, sapatos de salto, joias discretas e itens de higiene pessoal — tudo providenciado sob medida e em tempo recorde por ordens diretas de Dominic Vance.

Caminhei até a varanda, apoiei as mãos no parapeito de pedra fria e observei o horizonte. A mansão era cercada por muros de mais de quatro metros de altura, cercas elétricas discretas, câmeras de alta resolução e patrulhas constantes de homens armados. Era, sem sombra de dúvida, uma fortaleza impenetrável; uma gaiola de ouro reluzente, mas ainda assim uma gaiola sob a qual eu não tinha controle algum.

A porta do quarto se abriu sem qualquer aviso prévio ou batida cortês. Virei-me assustada, ajeitando a postura ao ver Dominic cruzar o batente.

Ele havia se livrado do paletó formal e dobrado as mangas da sua camisa social preta até a altura dos cotovelos, revelando antebraços fortes e delineados. Seu olhar azul e analítico percorreu o ambiente antes de se fixar inteiramente sobre mim.

— O quarto é do seu agrado? — perguntou ele com sua voz grave, fechando a porta atrás de si com um clique suave.

— É um quarto muito bonito e espaçoso — respondi com uma honestidade contida, mantendo uma distância segura entre nós.

— E obrigada por honrar sua palavra e permitir que eu visse o Léo hoje. Ele está reagindo muito bem aos novos medicamentos.

— Eu sempre cumpro as minhas promessas, Maya — disse ele, dando passos lentos e medidos em minha direção, o som dos seus sapatos no piso de madeira ecoando no silêncio do cômodo.

— Agora que você presenciou com os próprios olhos que o seu irmão está absolutamente seguro e bem cuidado, espero que compreenda de uma vez por todas que a sua vida anterior acabou. Não há mais espaço para hesitações, rebeldias ou nostalgia do seu passado miserável.

Ele parou a poucos centímetros de mim, estendendo a mão grande e firme para tocar a linha da minha cintura. O contato quente da sua palmada contra o tecido da minha blusa fez minha pele arder instantaneamente, despertando novamente aquela mistura confusa e perigosa de medo instintivo com uma atração avassaladora que eu odiava sentir, mas não conseguia controlar.

— Hoje à noite haverá um jantar executivo de altíssimo nível aqui na propriedade — informou ele, a voz baixando para um tom intimista e dominador contra a curva do meu pescoço, fazendo minha respiração trancar.

— Investidores internacionais, senadores e figuras influentes do submundo e do mercado financeiro estarão presentes neste salão. Você escolherá um dos vestidos elegantes que mandei entregar, arrumará seus cabelos e estará ao meu lado durante cada segundo do evento.

— Estar ao seu lado como o quê exatamente? — perguntei, erguendo o queixo para encará-lo, recusando-me a me encolher sob seu toque.

— Como sua acompanhante comprada em um aplicativo? Como um troféu de exibição?

Dominic deu um sorriso frio e enigmático, o polegar deslizando devagar pela linha do meu queixo antes de pressionar suavemente o meu lábio inferior, mantendo-me presa ao seu olhar magnético.

— Como minha noiva — corrigiu ele de forma pausada e categórica, fazendo meu coração dar um salto violento e desordenado no peito.

— Para o mundo lá fora, Maya, para a imprensa e para os meus parceiros de negócios, você é a mulher de família nobre e discreta que conseguiu domar o herdeiro inacessível dos Vance. E você desempenhará esse papel com absoluta perfeição. Se alguém desconfiar da verdade por trás da nossa união, o nosso acordo comercial é cancelado na mesma hora e o tratamento do seu irmão é suspenso.

Ele se afastou um passo, ajeitou os punhos da camisa com uma calma gélida e olhou para o relógio de ouro no pulso.

— O jantar começa às vinte horas. Não me faça esperar, Maya.

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