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CAPÍTULO 2: Na Toca do Leão

Author: Dália
last update publish date: 2026-10-02 20:40:18

O Maybach deslizava suavemente pelas ruas iluminadas da cidade, mas, dentro do veículo, o silêncio era esmagador. O motorista não pronunciou uma única palavra durante todo o percurso. Olhei pelo vidro fumê enquanto o cenário urbano dava lugar a uma estrada íngreme e arborizada, cercada por muros altos e câmeras de segurança a cada metros. Estávamos subindo para a área mais nobre da metrópole, onde apenas a elite intocável tinha propriedade.

O carro reduziu a velocidade ao se aproximar de um portão monumental de ferro fundido. Duas luzes vermelhas escanearam a placa do veículo antes que os portões se abrissem lentamente em um rangido abafado. Entramos em uma propriedade vasta, cercada por um jardim perfeitamente desenhado e iluminado por focos amarelados. No centro, erguia-se uma mansão moderna de arquitetura imponente, feita de concreto, vidro e aço escuro.

O motorista estacionou em frente à entrada principal, desceu e abriu a porta para mim.

— Por aqui, senhorita — disse ele, a voz grave e sem emoção, na primeira vez que se dirigia a mim.

Minhas pernas pareciam pesadas como chumbo. Ajustei o casaco ao redor do corpo para me proteger do vento frio da noite e caminhei em direção às portas duplas de madeira nobre. Assim que me aproximei, a porta foi aberta por uma governanta de meia-idade, vestida de forma impecável, que me saudou com um aceno contido.

— Seja bem-vinda, Maya. O senhor Vance está à sua espera no segundo andar, na suíte principal — informou a mulher, indicando a imensa escadaria de mármore que subia do saguão monumental.

Vance. O nome ressoou na minha mente. Dominic Vance. Eu já tinha ouvido aquele sobrenome em jornais de economia e colunas sociais. A família Vance controlava um império de navegação, segurança privada e investimentos, mas rumores nos bastidores da cidade diziam que seu verdadeiro poder vinha do submundo, onde nenhuma lei se aplicava.

Subi os degraus de mármore sentindo o coração martelar dolorosamente contra as ribas. O corredor do segundo andar era longo, atapetado por um carpete denso em tom vinho, com obras de arte abstratas dispostas pelas paredes. No final do corredor, uma porta dupla de madeira escura estava entreaberta, deixando escapar uma luz suave e o som discreto de um piano tocando em segundo plano.

Parei diante da porta. Respirei fundo, fechei os olhos por um segundo e pensei em Léo. Lembrei do seu rosto calmo no hospital, do tratamento que já começara graças ao dinheiro daquele homem. Por Léo, eu enfrentaria qualquer coisa.

Empurrei a porta suavemente e entrei.

O quarto era gigantesco, combinando o luxo moderno com tons sóbrios de cinza, preto e madeira. Uma parede inteira de vidro oferecia uma vista panorâmica arrebatadora de toda a cidade iluminada. No centro do cômodo, uma cama king-size arrumada com lençóis de seda escura ocupava lugar de destaque.

E, em pé perto da janela, segurando um copo de cristal com uísque, estava o homem que arrematara a minha vida por dois milhões de dólares.

Ele se virou devagar quando me ouviu entrar.

Dominic Vance era ainda mais intimidador pessoalmente do que eu poderia ter imaginado. Alto, de ombros largos e uma postura ereta que exalava autoridade natural, ele aparentava ter cerca de trinta anos. Vestia uma camisa social preta com os primeiros botões abertos, revelando a linha forte do peito, e calças sob medida. Seu rosto parecia ter sido esculpido em pedra: maxilar marcado, lábios firmes e traços marcantes.

Mas foram os olhos dele que me fizeram dar um passo involuntário para trás. Eram de um azul-acinzentado tão frio e penetrante que pareciam capazes de ler até meus pensamentos mais ocultos.

— Você não se atrasou — disse ele. Sua voz era grave, aveludada e profunda, preenchendo o silêncio do quarto com uma densidade quase palpável. — Uma virtude rara.

— Eu cumpro meus compromissos — respondi, tentando ao máximo não deixar minha voz tremer, embora minhas mãos estivessem gélidas. — Você pagou o que eu pedi. Aliás... pagou muito mais do que o valor inicial.

Dominic deu um pequeno gole no uísque, sem nunca desviar aqueles olhos gelados do meu rosto. Ele caminhou lentamente em minha direção, o som de seus sapatos de couro no piso de madeira marcando um ritmo lento e ameaçador.

— Dinheiro é apenas um detalhe irrisório quando eu quero algo, Maya — ele murmurou, parando a poucos centímetros de mim. O cheiro do seu perfume, uma mistura marcante de amadeirado, couro e um toque sutil de tabaco envolveu meus sentidos. — E quando vi seu perfil naquele aplicativo, soube imediatamente que você seria minha.

Senti um arrepio percorrer toda a minha espinha. A proximidade dele criava uma tensão magnética e sufocante. Eu conseguia sentir o calor que emanava do seu corpo.

— Eu só fiz isso pelo meu irmão — declarei, sustentando o olhar dele, querendo deixar claro que não estava ali por vaidade ou ambição. — Não sei que tipo de jogos você costuma jogar com as mulheres que compra no Velvet, mas preciso que saiba que isso é apenas uma transação para mim. Oito horas. É o que combinamos.

Um sorriso sombrio e quase imperceptível surgiu nos lábios de Dominic. Ele ergueu a mão livre e, com a ponta dos dedos longos e quentes, tocou suavemente a linha do meu queixo. O contato enviou uma descarga elétrica direto para o meu ventre, fazendo meu fôlego travar.

— Você fala com muita firmeza para alguém que está me encarando com os olhos transbordando pânico — ele provocou, deslizando o polegar devagar pelo meu lábio inferior. — Mas não se preocupe, garota. Eu sei exatamente o que você é. Eu li sua ficha. Sei do seu irmão, sei dos seus dois empregos e sei que você nunca esteve com homem nenhum antes.

Corei violentamente ao ouvi-lo expor minha intimidade de forma tão crua.

— Se já sabe de tudo, então sabe que estou aqui para honrar o meu lado do acordo — disse, engolindo em seco e dando um passo à frente, tentando demonstrar uma coragem que não possuía. — Vamos acabar logo com isso.

Dominic deu uma risada baixa, um som áspero que ressoou no peito dele. Ele caminhou até a mesa lateral, deixou o copo de cristal sobre a madeira e voltou para mim. Suas mãos firmes seguraram minhas cinturas, puxando-me para junto do seu corpo com uma força controlada e dominadora.

— Não temos pressa, Maya — ele sussurrou contra o meu ouvido, sua respiração quente fazendo minha pele arrepiar por inteiro. — Eu paguei por cada segundo. E pretendo aproveitar cada um deles.

O medo que antes me paralisava começou a se transformar em algo perigoso, uma atração avassaladora e desconhecida que queimava por dentro. A forma como Dominic me segurava — firme, possessiva, como se eu já pertencesse a ele — destruiu qualquer defesa que eu tentara construir.

Quando os lábios dele finalmente encontraram os meus, o beijo não foi suave. Foi faminto, profundo e dominante. Dominic tomou minha boca com uma autoridade que me tirou o chão. Minhas mãos, inconscientemente, buscaram apoio em seus ombros largos, os dedos se cravando no tecido fino de sua camisa enquanto eu me entregava àquela tempestade de sensações.

Ele me ergueu em seus braços sem o menor esforço e me levou até a cama imensa. A partir daquele momento, o mundo externo, o hospital e os meus medos desapareceram. Envolta pela penumbra do quarto, pela intensidade dos toques de Dominic e por uma paixão sombria que eu nunca imaginei existir, entreguei a ele tudo o que me restava: minha inocência, meu corpo e cada suspiro daquela noite inesquecível.

As horas passaram como um borrão de calor, sussurros roucos e uma entrega absoluta. Dominic foi implacável, mas ao mesmo tempo estranhamente cuidadoso no meio de sua bruteza, marcando minha pele com toques e beijos que pareciam selar uma posse invisível.

...

Quando abri os olhos novamente, os primeiros raios fracos do sol da manhã começavam a cortar as persianas de vidro, iluminando a neblina que cobria a cidade lá fora.

O lado esquerdo da cama estava vazio.

Sentei-me devagar, sentindo meu corpo dolorido e a pele ainda quente pelo calor da noite anterior. Puxei o lençol de seda preta contra o peito e olhei ao redor. Minhas roupas estavam dobradas sobre uma poltrona no canto do quarto, ao lado da minha bolsa.

Olhei para o relógio digital na mesa de cabeceira: 07:15 AM.

O prazo de oito horas havia terminado. Meu coração deu um salto ao lembrar de Léo. Eu precisava voltar ao hospital, ver como ele acordara da cirurgia e me certificar de que tudo corria bem.

Levantei-me da cama com cuidado, vesti minhas roupas rapidamente e peguei minha bolsa. Caminhei em direção à porta da suíte, ansiosa para sair daquela mansão e colocar um ponto final naquele capítulo sombrio da minha vida.

Porém, ao segurar a maçaneta de metal e puxá-la, a porta não se moveu.

Franzi a testa e tentei novamente, girando a tranca com mais força. A porta estava trancada por fora.

Um calafrio glacial começou a subir pelas minhas costas.

— Tentando ir embora sem se despedir, Maya? — a voz fria e profunda de Dominic ecoou do canto do quarto, vinda da porta lateral do closet.

Virei-me num baque. Ele estava encostado no batente, vestindo uma calça escura e um terno sem gravata, segurando um tablet iluminado em uma das mãos. Seu rosto não trazia mais o calor da noite anterior; seus olhos azuis estavam tão frios e distantes quanto blocos de gelo.

— A porta está trancada, Dominic — falei, tentando manter o tom neutro e escondendo o pânico que começava a subir no peito. — O sol já nasceu. A noite acabou e eu preciso ir ao hospital ver meu irmão. Por favor, mande seu motorista me levar de volta.

Dominic caminhou lentamente até mim. Ele não parecia com pressa. Parecia um predador observando uma presa que finalmente caíra na armadilha.

— Você não vai a lugar nenhum — ele disse, com uma calma aterrorizante.

— Como assim? — dei um passo para trás, colando as costas contra a porta trancada. — Nós combinamos! Oito horas de encontro privativo por dois milhões de dólares. Eu cumpri minha parte!

— Você realmente não leu nada do que assinou antes de clicar em confirmar, não é, garota ingênua? — Dominic ergueu o tablet e virou a tela na minha direção.

Na tela, destacado em letras vermelhas sobre o contrato do Velvet que eu ignorara no hospital, estava o parágrafo que eu não lera:

CLÁUSULA 12.4 — TRANSAÇÃO DEFINITIVA DE POSSE: Ao selecionar esta modalidade e aceitar o arremate, a Provedora renuncia integralmente à sua custódia civil, transferindo os direitos de posse, residência e exclusividade por tempo indeterminado ao Comprador.

Meus olhos percorreram aquelas palavras repetidas vezes, recusando-se a processar o significado cruel do texto.

— Isso... isso é um engano — minha voz saiu como um sussurro esganado. — Chloe disse que era apenas uma noite...

— Chloe vendeu você para o sistema para quitar as próprias dívidas dela, Maya — Dominic deu mais um passo, encurralando-me contra a porta. Seu polegar ergueu meu queixo com firmeza, forçando-me a olhar em seus olhos implacáveis.

— Você não vendeu oito horas do seu corpo. Você se vendeu inteira. A partir de hoje, seu irmão terá o melhor tratamento do mundo pago por mim, mas você... você pertence a mim. E daqui você só sai quando eu decidir que cansei de você.

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