LOGINALGUM TEMPO ANTES…
Desde que desci do táxi, meu coração batia tão alto que parecia que qualquer pessoa que passasse por mim poderia ouvi-lo. Respirei fundo. Era só ansiedade. Ou, pelo menos, era o que eu repetia para mim mesma. Eu nunca tinha viajado de avião. Nunca tinha sequer saído de Ohio. E agora estava ali. Preston City, Nova York. A cidade se estendia diante de mim entre prédios antigos de pedra, árvores enormes e ruas impecavelmente cuidadas. Era bonita. Bonita de um jeito que me fazia sentir deslocada. Estudantes se misturavam aos moradores como se a universidade fizesse parte da própria identidade da cidade. Talvez fizesse. Preston City parecia respirar em torno da Hamilton University. Segurei minha mala com mais força. O mapa que eu tinha impresso com as orientações da universidade não ajudava muito. Àquela altura, até me entender com uma folha de papel era difícil. Mesmo sem querer pedir ajuda a ninguém, finalmente encontrei o prédio do meu dormitório. Minha companheira de quarto já tinha chegado. Vi algumas caixas e malas espalhadas pelo quarto, mas ela não estava ali. Eu ainda tentava imaginar como seria dividir aquele quarto com uma desconhecida quando a porta se abriu de repente. Dei um pequeno solavanco. E então ela entrou. Cabelos loiros com algumas mechas rosas. Olhos verdes. Jaqueta de couro, vários acessórios e uma presença que parecia ocupar o quarto antes mesmo de ela dizer qualquer coisa. — Oi! Você chegou! Parei por um segundo. Liz era linda. O tipo de garota que eu já tinha visto várias vezes pelo campus. As que pareciam pertencer àquele lugar. As que caminhavam pelos corredores como se soubessem que o mundo abriria espaço para elas. Mas havia alguma coisa diferente nela. Talvez fosse o jeito como entrou no quarto, como se já me conhecesse. — Sou Liz Miller — ela disse, sorrindo. — Sua colega de quarto. — Emma. — Eu sei. Ela riu. — Está escrito na sua caixa. Olhei para as caixas que meus pais tinham enviado. EMMA HAYES — HAMILTON UNIVERSITY. Ela apontou para uma das camas. — Posso ficar com essa? — Claro. — Ótimo. Eu odeio a outra. Olhei para a cama que ela tinha acabado de escolher. — Por quê? — O sol b**e nela cedo demais. Eu ri. Liz começou a desfazer as próprias malas enquanto falava. E falava muito. Mas falava pouco sobre si. Descobri apenas que fazia História da Arte e que tinha passado o ensino médio em Paris. — Foi a melhor decisão que tomei. E olha que eu tomo decisões questionáveis. Ela voltou a mexer nas malas. Liz não parecia querer me impressionar. Ela só parecia gostar de conversar. Em algum momento, ela encontrou um dos meus livros. — Você leu A Idade da Inocência? Ergueu o exemplar. — Li. — O que achou? — Como não amar um livro sobre pessoas inteligentes tomando decisões completamente idiotas? Liz sorriu. Colocou o livro sobre a minha cama. — Acho que vamos nos dar bem. Talvez eu estivesse errada sobre aquele lugar. Quando percebi, já estava sentada no chão do dormitório, cercada por roupas e sapatos, conversando com Liz. — Então você veio de Ohio? — Wooster. Ela parou o que estava fazendo e me olhou, erguendo uma sobrancelha. — Você acabou de inventar esse nome? — Juro que não. Nós rimos. — E o que você faz em Wooster numa sexta à noite? — Não tinha muita coisa para fazer, eu quase não saía. Ela me encarou por alguns segundos. — Vamos resolver isso hoje. Liz se levantou e olhou para fora. Depois olhou para mim. — Quer conhecer a cidade? — Agora? Olhei pela janela. À noite, o campus parecia outra coisa. Mais bonito. Mais silencioso. E, de algum jeito, mais perigoso. — Vamos — respondi. Liz começou a revirar o próprio lado do quarto como se estivesse procurando alguma coisa muito importante. Eu ainda tentava entender como alguém conseguia ter tanta coisa em tão pouco espaço quando ela finalmente puxou uma peça de roupa de dentro do armário. Um vestido preto. Curto. Decotado. Ela simplesmente jogou a peça em cima da minha cama. — Pronto. Você vai ficar gostosíssima com isso. Olhei para o vestido. Depois para ela. — Cadê o resto? Liz soltou uma gargalhada. — Emma! — O quê? Olhei novamente para o vestido. — Liz… eu não… — Você vai. Ela cruzou os braços. — Você veio para Hamilton para fazer exatamente o quê? A pergunta me pegou desprevenida. — Estudar? — Errado. Ela apontou para o vestido. — Você veio para viver. Olhei para a peça novamente. Talvez ela tivesse razão. Talvez, por uma noite, eu precisasse só me permitir. Peguei o vestido. — Se eu morrer de vergonha, a culpa é sua. — Aceito os riscos. Algum tempo depois, eu estava parada em frente ao espelho do dormitório, encarando a minha própria imagem. O vestido se ajustava ao meu corpo de um jeito que eu definitivamente não estava acostumada. Puxei o tecido para baixo pela terceira vez. Não adiantou. Ele continuava curto. Meu cabelo e minha maquiagem estavam diferentes. Meu rosto parecia outro. Respirei fundo. — Meu Deus. Passei as mãos pelo vestido. — Eu estou parecendo uma vadia. Vovó Mary me mataria. Conseguia imaginar perfeitamente a reação dela. Primeiro, o silêncio. Depois, aquele olhar de reprovação que conseguia ser pior do que qualquer bronca. — Você está linda. Olhei para Liz pelo espelho. Ela já estava pronta para sair, completamente à vontade. Me analisou por alguns segundos. Então assoviou. — Vamos? Peguei minha bolsa. Eu não sabia por que estava fazendo aquilo. Talvez fosse a vontade de provar para mim mesma que conseguiria sobreviver naquele lugar. Já estava quase passando pela porta quando parei. Olhei para Liz. — Liz, eu não uso drogas. Ela ficou imóvel. Piscou. Uma vez. Duas. Então começou a rir. — Que bom, Emma. Eu também não. Fiquei completamente sem reação. Ela passou a mão pelo cabelo colorido, ainda rindo. — Você é meio doida, né? Meu rosto esquentou. Eu a segui pelo corredor, tentando ignorar o constrangimento. Quando chegamos ao térreo, Liz segurou meu braço. — Pronta? Olhei para ela. Depois para as portas abertas. Do outro lado, a cidade brilhava sob as luzes da noite. — Não. Liz sorriu. — Perfeito. E me puxou para fora. Foi a última vez naquela noite em que eu soube exatamente onde estava indo. Eu ainda não sabia, mas meu caminho estava prestes a cruzar com o de alguém que jamais deveria ter me notado. Mas notou.Ponto de Vista de Emma— Quem ele pensa que é?Desci o corredor tentando respirar fundo, mas, quanto mais pensava naquela conversa, mais irritada ficava.Dante tinha conseguido transformar tudo em um problema dele.A carreira dele.A reputação dele.O cargo dele.Como se eu fosse simplesmente uma consequência inconveniente de uma noite que ele preferia esquecer.E o pior?Eu não tinha falado nem metade do que estava pensando.Talvez tivesse sido melhor assim.Se começasse a falar, provavelmente não conseguiria parar.Eu poderia ter dito que ele não era a única pessoa naquela universidade com uma vida para cuidar.Que eu também tinha planos.Que eu também tinha chegado ali depois de trabalhar por aquilo.Que ele não era o único que tinha o esforço de uma vida em risco.E, principalmente, que eu não sairia de uma matéria que precisava fazer só porque o professor resolveu entrar em pânico ao descobrir quem eu era.Quem ele pensa que é para achar que eu largaria uma matéria só porque ele
PONTO DE VISTA DE DANTEEu não soube como reagir quando vi aqueles olhos de novo.Emma não parecia a mesma sem toda aquela produção, mas, ainda assim, consegui reconhecê-la no instante em que bati os olhos nela.Eu tinha passado todos aqueles dias pensando que nunca mais a veria.Mal sabia que veria, sim.Só que na pior situação possível.Como eu fui dar esse mole?“E o que te traz a Preston?”Uma pergunta.Era o que precisava.Uma pergunta que eu poderia ter feito a qualquer outra pessoa.Se tivesse feito, era isso. Nunca teria passado aquela noite com ela.Nada daquilo teria acontecido.E, naquele momento, eu precisava acreditar que isso era o melhor.Definitivamente, Emma tinha sido um erro.Passei a aula disfarçando o nervosismo e tentando assimilar o que estava acontecendo e o que faria a partir dali.Ao final, a sala foi esvaziando aos poucos, até que restamos apenas nós dois.Esperei a última pessoa sair antes de olhar para Emma.— Você pode ficar um minuto?Ela assentiu, mas n
Eu tinha esperado muito por aquela segunda-feira.Durante meses, imaginei como seria o meu primeiro dia em Hamilton.Como seria finalmente entrar na universidade que eu tinha passado tanto tempo sonhando em conhecer, sentar nas salas de aula e começar, de verdade, aquela fase da minha vida.E agora eu estava ali.Ainda parecia estranho pensar que aquele lugar era meu também.Passei boa parte da manhã tentando absorver tudo.Os prédios, os corredores cheios, os grupos de alunos que pareciam já conhecer cada canto da universidade.Pessoas andando apressadas com livros debaixo do braço, outras sentadas nos bancos conversando como se estudassem ali há anos.Eu queria guardar cada detalhe.Talvez porque tivesse imaginado aquele momento tantas vezes que agora parecia impossível que finalmente tivesse acontecido.Minha primeira aula era Literatura Comparada.De todas as disciplinas que eu teria naquele semestre, era a que eu mais queria cursar.Era o tipo de coisa que eu imaginava quando pen
PONTO DE VISTA DE DANTEAcordei sozinho.Por alguns segundos, ainda meio sonolento, estendi a mão para o outro lado da cama.Vazio.Abri os olhos.Emma não estava ali.Olhei ao redor do quarto.Sentei na cama, passei a mão pelo rosto e tentei lembrar em que momento ela tinha saído.Levantei.O apartamento estava silencioso.Andei pela casa toda.Nada.Voltei para o quarto e olhei novamente para a cama, como se ela pudesse simplesmente ter aparecido enquanto eu estava procurando.Não havia nenhum traço deixado por ela. Nenhum bilhete. Nada.Peguei o celular.Nenhuma mensagem.Ótimo.Aquela era, provavelmente, a primeira vez que uma mulher saía da minha casa antes de eu acordar sem sequer deixar o número de telefone.E o mais irritante era que eu não fazia ideia de por que aquilo estava me incomodando tanto.A noite acabou sendo melhor do que eu esperava.Emma não tentou me impressionar.Passamos um bom tempo entre provocações e uma tensão que parecia crescer cada vez que um de nós cheg
Liz me levou para um bar longe da universidade.— Perfeito! Aqui será nosso reduto de alcoolismo clandestino desta noite. Seguro para duas mentes criminosas menores de vinte e um.Ela anunciou aquilo como se estivesse apresentando nossa nova residência oficial.— Você sabe que também acabou de chegar a Preston, né?Liz abriu os braços, satisfeita consigo mesma.— O mundo é meu quintal, amore!Antes que eu respondesse, segurou meu braço e me puxou pela calçada.— Vem. E não se perde.— Não tenho certeza se quero descobrir que você conhece a cidade inteira.— Tarde demais.Ela entrou e, de alguma forma, realmente passou a conhecer pessoas.Cumprimentou o bartender, acenou para uma garota e elogiou a roupa de outra como se fossem velhas amigas.Começava a suspeitar que Liz tinha passado os primeiros dezoito anos da vida fazendo amizade com qualquer pessoa que cruzasse seu caminho.— O que você quer, Emma? — perguntou quando paramos diante do bar.— Não faço ideia. Só não quero nada muito
ALGUM TEMPO ANTES…Desde que desci do táxi, meu coração batia tão alto que parecia que qualquer pessoa que passasse por mim poderia ouvi-lo.Respirei fundo.Era só ansiedade.Ou, pelo menos, era o que eu repetia para mim mesma.Eu nunca tinha viajado de avião. Nunca tinha sequer saído de Ohio.E agora estava ali.Preston City, Nova York.A cidade se estendia diante de mim entre prédios antigos de pedra, árvores enormes e ruas impecavelmente cuidadas.Era bonita.Bonita de um jeito que me fazia sentir deslocada.Estudantes se misturavam aos moradores como se a universidade fizesse parte da própria identidade da cidade.Talvez fizesse.Preston City parecia respirar em torno da Hamilton University.Segurei minha mala com mais força.O mapa que eu tinha impresso com as orientações da universidade não ajudava muito.Àquela altura, até me entender com uma folha de papel era difícil.Mesmo sem querer pedir ajuda a ninguém, finalmente encontrei o prédio do meu dormitório.Minha companheira de







