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Capítulo 3

Author: Cece Sartori
last update publish date: 2026-10-01 04:07:31

PONTO DE VISTA DE DANTE

Acordei sozinho.

Por alguns segundos, ainda meio sonolento, estendi a mão para o outro lado da cama.

Vazio.

Abri os olhos.

Emma não estava ali.

Olhei ao redor do quarto.

Sentei na cama, passei a mão pelo rosto e tentei lembrar em que momento ela tinha saído.

Levantei.

O apartamento estava silencioso.

Andei pela casa toda.

Nada.

Voltei para o quarto e olhei novamente para a cama, como se ela pudesse simplesmente ter aparecido enquanto eu estava procurando.

Não havia nenhum traço deixado por ela. Nenhum bilhete. Nada.

Peguei o celular.

Nenhuma mensagem.

Ótimo.

Aquela era, provavelmente, a primeira vez que uma mulher saía da minha casa antes de eu acordar sem sequer deixar o número de telefone.

E o mais irritante era que eu não fazia ideia de por que aquilo estava me incomodando tanto.

A noite acabou sendo melhor do que eu esperava.

Emma não tentou me impressionar.

Passamos um bom tempo entre provocações e uma tensão que parecia crescer cada vez que um de nós chegava perto demais.

E eu tinha gostado disso.

Muito mais do que deveria.

Passei a mão pelos cabelos e soltei o ar devagar.

Que porra aconteceu? O que deu errado?

Ela simplesmente decidiu que eu não valia uma despedida?

Foi então que encontrei um brinco no chão, ao lado da cama, e me lembrei de como aquela noite tinha começado.

Principalmente, de que Emma não fazia parte dos meus planos.

Eu nem deveria ter conhecido aquela mulher.

Eu já estava no bar havia algum tempo quando percebi que tinha levado um bolo.

Checava o celular de tempos em tempos.

Nenhuma mensagem.

Um encontro às cegas.

Era isso que eu tinha conseguido arrumar para a noite de sexta-feira.

Nem passou pela minha cabeça que ela pudesse não aparecer.

Olhei em volta, procurando alguma coisa que me distraísse.

Foi quando uma mesa com algumas garotas chamou minha atenção.

Uma delas estava praticamente debruçada sobre a mesa, rindo alto e gesticulando. As outras ouviam e riam muito.

Balancei a cabeça, divertido, mas com a certeza de que provavelmente aquele tipo de energia seria insuportável para mim depois de cinco minutos de conversa.

Entre elas, outra garota chamou minha atenção.

Estava sorrindo enquanto assistia à cena, mas não parecia tão à vontade.

Na verdade, tinha alguma coisa nela que não combinava muito com aquele lugar.

Era bonita. Muito bonita. E parecia um pouco mais velha que as demais.

Era diferente das garotas que eu costumava encontrar por ali.

Talvez fosse de fora.

Talvez estivesse visitando a cidade e, pelo semblante, já estivesse arrependida.

Desviei o olhar quando o celular vibrou sobre o balcão.

Peguei o aparelho, conferi a tela e confirmei o que já sabia:

“Desculpa, não vou conseguir ir. Peguei um plantão de última hora.”

Larguei o aparelho sobre o balcão.

Era isso.

Realmente tinha levado um bolo.

Dizem que acontece.

Só comigo que nunca tinha acontecido antes.

Pedi outra bebida e fiquei ali, pensando se ia embora ou tentava recuperar parte do meu ego ferido.

Pouco tempo depois, vi a garota da mesa andando em direção ao bar.

Quando parou ao meu lado, tive uma visão melhor.

Porra.

Ela era ainda mais bonita de perto.

Os olhos azuis chamavam atenção de um jeito quase absurdo.

O contraste com o cabelo escuro e a pele clara só piorava a situação.

O vestido deixava as pernas à mostra, e o decote também não ajudava muito na minha tentativa de manter os olhos no rosto dela.

Desviei o olhar para o balcão.

Ela pediu uma bebida e pareceu estar aborrecida.

Aproveitei a oportunidade para me aproximar.

A conversa seguiu sem esforço.

Para a minha surpresa, ela era inteligente e tinha um humor afiado.

Era um alívio conversar com alguém assim.

Nas últimas semanas, eu tinha saído com mulheres que pareciam ter ensaiado cada frase antes de abrir a boca.

Era sempre a mesma coisa: perguntas previsíveis, risadas exageradas e uma necessidade irritante de preencher qualquer silêncio.

Com ela, não.

Só sei que, quando percebi, já fazia um tempo que estávamos ali.

Emma tinha pedido um Moscow Mule. Eu já tinha terminado minha bebida e estava prestes a pedir outra quando reparei que ela estava sorrindo para alguma coisa que eu tinha acabado de dizer.

O sorriso dela era bonito.

Era espontâneo.

E eu gostava de saber que tinha sido eu quem o provocara.

— Eu acho que as pessoas ficam muito mais interessantes quando estão bêbadas.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Eu tô prestes a ficar muito interessante, então.

— Eu não vejo a hora.

— Você é um descarado, Dante.

Sorri, satisfeito.

— E você continua aqui.

Ela levou o copo à boca.

Foi quando reparei na espuma que tinha ficado no canto dos lábios dela.

Fiquei olhando por um segundo, pensando se deveria aproveitar a deixa.

Emma percebeu.

— O quê?

Apontei para a boca dela.

— Você tem… aqui. Deixa que eu tiro para você.

Aproximei meu rosto do dela.

Emma ficou imóvel enquanto eu encostava os lábios no canto de sua boca.

Era só um beijo rápido.

Só que, quando me afastei, ela continuou ali, perto demais.

Os olhos azuis estavam fixos nos meus.

Ela não se afastou.

Então beijei sua boca.

No começo, devagar.

Só para sentir a reação dela.

Emma levou a mão aos meus cabelos, e aquilo foi o suficiente para acabar com qualquer intenção de manter o beijo comportado.

Segurei sua cintura e a puxei para mais perto.

Ela correspondeu sem hesitar.

O beijo ficou mais intenso. Minha mão deslizou pelas costas dela, e Emma se aproximou ainda mais, como se não quisesse deixar nenhum espaço entre nós.

Porra.

Eu não esperava aquilo.

Minha mão começou a subir pela lateral de seu corpo.

Foi quando percebi onde eu estava.

Parei.

Afastei o rosto apenas o suficiente para olhar para ela.

Emma estava ofegante.

Passou a mão pelo cabelo, ajeitou o vestido e olhou ao redor, verificando o ambiente.

Eu dei um sorriso e tentei dizer alguma coisa.

— Isso… é…

Ela me interrompeu.

— Uau.

Sorri.

— Exatamente.

Ela balançou a cabeça, ainda tentando recuperar o fôlego.

— A gente precisa sair daqui.

Olhei para ela por um instante.

— Quer conhecer minha casa?

Emma hesitou.

Não foi uma hesitação longa, mas foi o bastante para eu perceber que ela estava pensando.

Não tentei convencê-la.

Não precisava.

Ela olhou para mim novamente.

— Melhor não. Mas vamos.

Aquilo me divertiu.

De repente, ela era uma garota bem diferente do que eu inicialmente tinha imaginado.

A gente foi se beijando pelo caminho, no táxi e no elevador.

Às vezes perdendo a noção de onde estávamos, às vezes rindo do quanto estava difícil se comportar.

— Finalmente — falei quando chegamos à minha porta.

— Você está mesmo com pressa.

Eu comprei a provocação dela e parei, olhando para ela sem me mexer.

— Dante…

— O quê?

— Abre a porta.

Ri enquanto mal consegui destrancar a fechadura.

Emma se aproximou por trás e beijou meu pescoço.

— Porra, Emma.

Ela riu contra minha pele.

Virei de frente para ela e a puxei pela cintura.

Dessa vez, nem tentei fingir que estava com calma.

Assim que entramos, fechei a porta e a beijei de novo.

Emma passou as mãos pelo meu peito, depois pelos meus ombros, enquanto eu a conduzia pelo corredor.

Quando chegamos ao quarto, ela me puxou para mais perto.

Acabei rindo contra sua boca.

— O quê? — Emma perguntou.

— Estou tentando entender como aquela tímida do bar virou isso aqui.

Ela ergueu o queixo.

— Isso aqui o quê?

Passei a mão pela cintura dela.

— Essa mulher que está me deixando maluco.

Emma sorriu.

— Você pensa demais.

Ela me beijou antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa.

E, sinceramente, não fiz questão de continuar falando.

A joguei na cama, e o resto da noite passou depressa.

Rápido demais, na verdade.

Quando finalmente nos cansamos, ela se acomodou ao meu lado.

Fiquei olhando para o teto por alguns segundos, tentando organizar os pensamentos.

Não tinha sido uma noite planejada.

Eu deveria ter tido um encontro às cegas.

Em vez disso, tinha acabado na cama com uma desconhecida que, por algum motivo, eu não estava com vontade de mandar embora.

Emma se aproximou e apoiou a cabeça no meu peito.

Passei o braço ao redor dela.

Fiquei ali, sentindo sua respiração desacelerar.

Eu deveria ter perguntado mais sobre ela.

De onde vinha. O que fazia. Por quanto tempo ficaria na cidade.

Mas não perguntei.

Agora, olhando para a cama vazia e para a ausência de qualquer sinal dela, percebi o tamanho da ironia.

Eu tinha passado a noite inteira sem querer saber nada sobre a vida de Emma.

Não tinha perguntado de onde ela vinha.

Não tinha perguntado onde estava hospedada.

Não tinha pedido seu número.

Não tinha sequer pensado que talvez aquela pudesse ser a única vez que eu a veria.

Agora, sentado sozinho na minha cama, aquilo parecia uma péssima ideia.

Soltei uma risada sem humor.

Parabéns, Dante.

Finalmente encontrou uma mulher que realmente queria conhecer.

E tudo que a sua Cinderela deixou foi um brinco.

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