LOGINLilian sempre tinha sido boa em virar o jogo. Assumir o controle da conversa, inverter quem estava por cima e por baixo, já era um vício profissional que ela tinha lapidado em anos de tribunal.Mas Cauã sabia disso fazia tempo.Lá atrás, quando os dois namoravam, isso já aparecia. Ela sempre foi ótima em segurar as rédeas: avançar ou recuar tinha que ser do jeito dela, na hora em que ela quisesse.Do mesmo jeito que, para eles ficarem juntos, tinha sido ela quem deu o primeiro passo e partiu pra cima dele. E, quando terminou, tinha sido ela também que largou uma frase seca e sumiu da vida dele.Naquele momento, Cauã não demonstrou nem um pouco de constrangimento por ter ouvido a conversa dela no celular. A voz dele saiu fria:— Eu tô na porta da minha própria casa. Que tipo de “ouvir escondido” é esse? Você é que não me viu.Na última frase, Lilian não soube dizer se era impressão dela, mas ela jurou ter escutado um fiapo de mágoa ali no meio.Ela decidiu que só podia ser imaginação.U
Lilian estava saindo quando Samuel a acompanhou até lá embaixo.Antes que ele dissesse qualquer coisa, ela já apontou para o próprio carro:— Sobe logo.— Espera um pouco. — Samuel a chamou de repente. Ele deu mais alguns passos na direção dela, pensou nas palavras e só então falou, num tom baixo. — Sobre o que a minha mãe falou agora há pouco…— A gente é amigo. — Lilian curvou levemente os lábios, sorrindo como se nada fosse. — Tem coisa que a sua mãe fala mais pra brincar. Eu não vou levar isso a sério, muito menos deixar que isso atrapalhe essa parceria de guerra de tantos anos que a gente tem.Ela tinha falado sem deixar brecha.Mas, justamente por isso, não tinha sobrado uma única fresta para Samuel se segurar.O subtexto era claro.Se fosse só a Helena falando, ela engolia como piada e seguia em frente, continuando amiga de sempre. Agora, se ele repetisse o assunto, aí, sim, nem amizade ia sobrar.Enquanto ele ouvia, a boca de Samuel foi se esticando até virar uma linha reta. De
Cauã mal levantou a ponta do olho, num movimento quase imperceptível, e fingiu que não tinha visto nada. Ele recolheu o olhar, pegou os papéis e estava prestes a assinar quando, ali perto, soou uma voz masculina clara e muito familiar:— Lilian, desculpa. De novo eu te fiz perder tempo vindo com a minha mãe pro retorno.Cauã nem precisou olhar para saber que era Samuel.Do nada, a caneta escapou nos dedos dele e deixou um risco comprido de tinta bem em cima da linha de assinatura.O estagiário, sem entender absolutamente nada, só percebeu que o ar em volta de Cauã tinha ficado bem mais frio, distante daquela postura tranquila e bem‑humorada de sempre.— Doutor Cauã, aconteceu alguma coisa com o documento?— Desculpa. Não, tá tudo certo.A expressão de Cauã não mudou. Ele encostou de novo a ponta da caneta no papel, rabiscou a assinatura em poucos segundos, devolveu o formulário ao estagiário e, em seguida, enfiou as mãos nos bolsos e voltou para a sala.O estagiário recebeu os papéis e
Gustavo desligou o celular, virou-se e voltou para o escritório. Quando ele ia fechar a porta de vidro da varanda, levantou os olhos e viu Luiza ali dentro, sem que ele soubesse ao certo quando ela tinha entrado.Mesmo assim, ele não chegou a se surpreender muito.Mimada por toda a família como se fosse um tesouro, Luiza tinha travado meio mundo em casa só para conseguir, a duras penas, roubar de Leonardo a tarefa de trazer café para ele. Enquanto ela colocava a xícara sobre a escrivaninha, ela perguntou, intrigada:— O que aconteceu? Que conversa é essa de “sem peso na consciência”?Ela tinha entrado bem no meio da ligação e só tinha pegado meia dúzia de palavras soltas.Mas ela tinha percebido, com facilidade, que o tom de Gustavo não estava nada bom; pelo contrário, ainda tinha um quê de raiva contida.Quando Gustavo olhou para ela, o aperto incômodo que ele sentia no peito se dissolveu um pouco. Em compensação, a dor que ele sentia por ela só aumentou.Ele se aproximou em poucos pa
Gustavo também tinha plena consciência disso; assim que contaram a novidade para ele, ele naturalmente já soube que precisava se prevenir.Nina e Íris chegaram à mesma conclusão. As duas mal tinham pegado o celular para ligar para Gustavo quando o aparelho de Nina tocou primeiro.Era Gustavo na tela.O gesto de Nina parou no ar. Ela atendeu e, antes mesmo que pudesse falar, a voz de Gustavo veio do outro lado, fria e cortante:— Nina, essa liberdade provisória da Amanda foi coisa da sua família?Nina quase tinha esquecido que ali era Cidade A, território dos Marques. Era impossível Gustavo receber notícias mais devagar do que eles. Na verdade, ele até costumava ser mais rápido.A diferença era que, provavelmente, ele só tinha ligado depois de entender todo o enredo.Nina olhou para o próprio pai e, sem sequer tentar aliviar para ele, respondeu:— Me desculpa, foi o meu pai que mexeu os pauzinhos. A gente também acabou de saber de tudo.Do outro lado, o silêncio demorou. Só depois de al
Edson falou num tom gelado:— Ela sumiu?— Uhum.Nina respondeu a ele, mas o olhar dela não saiu do rosto de Durval em nenhum momento.Meia hora antes, Amanda tinha sido colocada em liberdade provisória por causa do estado de saúde.Pelo procedimento normal, esse tipo de concessão demorava, tinha um trâmite cheio de etapas. Mas, no caso de Amanda, tudo correu rápido demais.Como era liberdade provisória, e ainda por cima todo mundo sabia que Durval sempre passava pano pra ela, a polícia não teve coragem de destacar alguém pra ficar colado nela vinte e quatro horas.Ninguém queria comprar briga demais. Vai que, no futuro, quando Sr. Callum morresse, quem assumisse tudo fosse justamente Durval. Aí, na hora de decidir sobre promoção, transferência ou até vida ou morte profissional, quem é que iria protegê-los?Ninguém tinha imaginado que, com essa folga mínima, Amanda simplesmente fosse evaporar dentro do hospital.Não eram só Nina e Edson. Até Sr. Callum e Sra. Patrícia olharam para Durv
— Hum. — Ethan hesitou por um momento antes de responder. — Amanhã à tarde tenho uma reunião. Talvez termine um pouco tarde. O coração de Luiza afundou lentamente. — Entendi... — Entendeu o quê? — A voz de Ethan veio firme, porém gentil. — Me deixe terminar. Só não vou conseguir voltar para ca
Dona Joana, no fim, só conseguiu prometer que mandaria Ronaldo para fora do país por seis anos. Mesmo que, depois daquele escândalo, a vida de Luiza tenha se tornado ainda mais difícil, ela nunca se sentiu prejudicada. Afinal, lidar com as dificuldades diárias era muito melhor do que viver sob o m
Luiza abriu a porta do carro e estava prestes a entrar quando ouviu a voz de Gabriela vindo da direção do capô: — Luiza, o que você está fazendo aqui? Não me diga que descobriu que o Ethan ia me dar um carro e veio atrás de nós de propósito? Luiza franziu o cenho e olhou na direção dela. Gabriel
— Eu só posso garantir que não vou contar nada sobre o divórcio para o Ethan. Mas, se ele desconfiar ou ouvir de outra pessoa, isso já não é algo que eu possa controlar. — Se você não disser e eu também não, de onde mais ele poderia descobrir? Rebeca obviamente não estava disposta a modificar a c