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O brilho da seda e o veneno da cobra

작가: Lu Carvalho
last update 게시일: 2023-02-03 22:21:26

O silêncio do quarto na ala leste parecia denso, carregado com o peso magnético da caligrafia de Thomas Price impressa no pequeno cartão.

Grace permaneceu estática por longos segundos, com o papel entre os dedos trêmulos, sentindo o peito descompassado.

Ela respirou fundo, tentando afastar a lufada de orgulho ferido que ameaçava surgir.

Ele havia comprado um vestido para ela. Sem consultá-la, sem perguntar seu gosto, sem sequer lhe dar o direito de recusar.

Por um instante, pensou em ignorar a caixa, colocar seu tailleur preto de sempre e descer para o hall de entrada apenas para provar um ponto. Mas o olhar severo que Thomas havia lançado a ela no restaurante — e a lembrança de que aquele emprego era a única tábua de salvamento que impedira sua queda no abismo — fizeram com que a sensatez prevalecesse.

Com os dedos ainda meio incertos, Grace desatou a fita de cetim prateado e levantou a tampa rígida da caixa de veludo cinza.

O ar sumiu de seus pulmões.

Deitada sobre o papel de seda branco estava uma verdadeira obra de alta-costura.

Era um vestido longo de um ombro só, confeccionado em um tecido fluido na cor azul-noite profundo — um tom que lembrava o céu estrelado da meia-noite, cravejado com micro cristais discretos que brilhavam como constelações sutis a cada mínimo movimento. O corte era impecável: ajustava-se com perfeição cirúrgica à cintura fina de Grace, drapeando suavemente pelo quadril antes de cair em uma cauda leve com uma fenda lateral elegante e profunda. Debaixo da caixa, repousava um par de sapatos de salto agulha em prata envelhecida e uma pequena pulseira de safiras azuis.

— Ele... ele não tem o menor limite — sussurrou Grace, levando uma das mãos à boca em um misto de incredulidade, choque e um incômodo formigamento de excitação que percorreu sua espinha.

Não havia mais tempo para hesitações. Faltavam pouco mais de quarenta minutos para as 21h.

Grace tirou o vestido da caixa com todo o cuidado do mundo, vestiu-se e calçou os sapatos, que pareciam ter sido feitos sob medida para os seus pés. Quando se virou para o espelho de corpo inteiro, o reflexo quase a fez recuar de susto.

A fenda lateral revelava perfeitamente o contorno elegante de suas pernas ao caminhar, o decote assimétrico valorizava seus ombros, e os micro cristais refletiam a luz quente do quarto, transformando-a em uma visão magnética. Seus cabelos, presos em um coque alto com soltos fios ondulados emoldurando o rosto, davam o toque final de uma realeza moderna.

Às 20h58, Grace respirou fundo pela última vez, ajeitou a fenda do vestido e caminhou para fora da suíte, sentindo o som abafado de seus saltos contra o piso de madeira da ala leste.

Quando chegou ao hall particular da cobertura, Thomas já a esperava.

Ele estava de costas, ajeitando os punhos da camisa social branca sob o terno de gala que ela mesma escolhera dias antes. Ao ouvir o sussurro leve do tecido de seda se movendo, Thomas virou-se lentamente. Mas o movimento cessou no mesmo instante.

O CEO bilionário, o homem de gelo que parecia imune a qualquer surpresa do mundo corporativo ou social, simplesmente travou.

Seus olhos escuros percorreram Grace de cima a baixo com uma lentidão devastadora. A mandíbula dele tencionou, os lábios entreabriram-se imperceptivelmente, e a respiração pesada de Thomas foi a única trilha sonora em meio ao silêncio absoluto da cobertura.

O azul-noite do vestido parecia iluminar a pele de Grace, fazendo-a parecer uma deusa intocável. A elegância natural dela, antes sufocada pelas roupas simples e pelo peso das preocupações, irrompia agora com um fulgor avassalador.

Por alguns segundos intermináveis, Thomas esqueceu onde estava, quem era e para onde iriam. O cérebro do homem mais poderoso da sala apagou diante daquela visão.

— Grace... — murmurou ele, com a voz completamente esvaziada de toda a formalidade habitual, soando quase como um sopro rouco. Ele deu dois passos automáticos na direção dela, como se fosse atraído por gravidade. — Por Deus... você está...

— Inadequada? Fora do padrão? Ou apenas muito arrumada para o seu gosto, senhor Price? — interrompeu Grace, tentando erguer o queixo com bravura, embora o estômago estivesse dando voltas diante da intensidade daquele olhar.

Thomas parou a centímetros dela. Os olhos dele queimavam com um fogo escuro, quase perigoso, enquanto ele avaliava os micro cristais brilhando no tecido.

— Inadequada é uma palavra que definitivamente não existe no mesmo dicionário que descreve você neste vestido, Grace — sussurrou Thomas, com a voz grave vibrando perigosamente perto dela. Ele ergueu a mão direita, hesitando por um microssegundo antes de tocar de leve uma mecha solta de seu cabelo, recolocando-as atrás da orelha dela com uma suavidade que contradizia toda a sua rigidez. — Se eu soubesse que o resultado seria esse, teria encomendado um exército de vestidos para você.

Grace sentiu a pele queimar onde os dedos dele haviam tocado, mas endireitou os ombros, recuperando a pose profissional.

— Obrigada pelas palavras e pela gentileza, senhor Price. Mas espero que o senhor se lembre de que sou somente sua assistente, e não sua acompanhante de desfile.

Thomas sorriu de canto, um sorriso lento e carregado de um magnetismo arrebatador.

— No salão de gala desta noite, Grace, você será exatamente o que eu quiser que você seja. Agora vamos?

O salão de baile do Grand Hotel estava apinhado de celebridades, bilionários e figuras da alta sociedade quando as portas duplas de mogno e ouro abriram-se para a entrada de Thomas Price.

No exato momento em que ele cruzou o limiar do salão, de braço dado com a deslumbrante e desconhecida mulher vestida em azul-noite, o burburinho constante do evento pareceu minguar.

Dezenas de pares de olhos voltaram-se imediatamente para eles.

Murmúrios curiosos começaram a circular de mesa em mesa.

“Quem é ela?”

“ Quem será ela?”

“A nova namorada do Thomas Price?”

“Ela não é da alta sociedade de San Francisco... de onde ele a tirou?”

“Vejam o vestido... Alta-costura pura. Ela parece uma estrela de cinema.”

As conversas paralelas incomodavam, mas os olhares invejosos de várias socialites — e o choque mal disfarçado dos magnatas corporativos que sabiam que Thomas nunca aparecia acompanhado em eventos públicos — criavam uma aura eletrizante ao redor dos dois.

Grace sentiu o peso de centenas de olhares cravados em suas costas. Ela manteve o queixo erguido, um sorriso polido e impecável nos lábios, e caminhou com tanta elegância ao lado de Thomas que parecia ter nascido naqueles salões dourados.

— Está vendo? — sussurrou Thomas discretamente perto do ouvido dela, mantendo o sorriso protocolar para os fotógrafos que começavam a disparar flashes à distância. — Você está hipnotizando a metade masculina da sala e fazendo a outra metade feminina engasgar com o próprio champanhe. ... Sinta-se em casa.

— Eu estou me sentindo como uma ovelha pisando em um campo minado de tubarões brancos, senhor Price — retrucou Grace, com a voz contida entre os dentes, embora os olhos brilhassem de adrenalina.

Assim que se acomodaram em uma das mesas principais reservadas para a diretoria da Price International, os cumprimentos e as bajulações começaram. Empresários importantes aproximavam-se para bajular Thomas e, inevitavelmente, erguiam as taças para cumprimentar Grace, curiosos sobre quem seria a nova e estonteante figura de confiança do CEO.

Mas a calmaria durou pouco tempo.

Um som estridente de saltos altos batendo contra o mármore polido chamou a atenção na entrada da ala VIP do salão.

— Ora, ora... parece que a cúspide da nossa aristocracia corporativa decidiu abrir espaço para contos de fadas de última hora.

A voz arrastada, fria e repleta de veneno cortou o ar.

Ravena Wottar aproximou-se da mesa com passos felinos. Ela vestia um vestido vermelho-sangue estruturado em corpete rígido, ostentando um colar de rubis pesado no pescoço.

Mas o que mais chamava a atenção não era apenas o seu visual ostentoso, mas sim a companhia: Ravena caminhava lado a lado com um homem mais jovem, alto, engomado e de sorriso presunçoso — seu novo assistente pessoal e figura de fachada para eventos sociais, contratado estritamente para servir de capacho corporativo.

Thomas fechou o semblante em uma fração de segundo, transformando-se em uma estátua de gelo.

— Ravena — cumprimentou Thomas com uma cortesia fria e glacial, sem se levantar da cadeira. — Vejo que agora encontrou uma maneira de preencher o seu tempo.

Ravena abriu um sorriso cortante, seus olhos azuis e gélidos varrendo o corpo de Grace de cima a baixo com um desdém tão palpável que parecia quase físico.

Ela percebeu imediatamente a alta qualidade do vestido azul-noite, os cristais e a forma como Thomas olhava para a garota. O fogo da possessividade e do ciúme doentio acendeu-se instantaneamente em seu peito.

Ela pensava que Thomas era intocável, que pertencia à esfera dela por direito consuetudinário e social. Ver uma mulher quase dez anos mais nova, vinda do nada, ocupando o lugar de honra dela ao lado dele, foi uma ofensa imperdoável.

— Oh, meu querido Thomas... Você sabe que eu sempre encontro uma maneira de conseguir o que quero — sibilou Ravena, dando um passo à frente e inclinando-se levemente sobre a mesa, ignorando totalmente a presença de Grace por alguns segundos antes de fingir encará-la com falsa inocência. — E pelo visto, você também gosta de colecionar... novidades. Sua assistente pessoal nova, não é? ... Francamente, querido... colocar uma garota inexperiente e deslocada para desfilar em um evento beneficente de alto nível ao seu lado? Que decadência para o grande Thomas Mueller Price. ... Aposto que ela mal sabe segurar uma taça de cristal sem derramar champanhe no próprio vestido de empréstimo.

O veneno pingava de cada palavra de Ravena. A intenção era clara: humilhar Grace publicamente, fazê-la sentir-se pequena, fora de lugar e ridícula diante de toda a elite da cidade.

O assistente pessoal que acompanhava Ravena soltou uma risadinha abafada e arrogante ao lado dela.

Grace sentiu o sangue ferver em suas veias. O estômago apertou-se com força. Ela abriu a boca para rebater à altura com a mesma classe que usara dias antes, mas antes que pudesse pronunciar uma única sílaba, Thomas levantou-se da cadeira. A presença imponente e a fúria fria que emanavam dele fizeram a temperatura ao redor despencar.

— Cuide das suas palavras, Ravena — sibilou Thomas, com uma voz tão baixa, mortal e cortante que fez até a socialite dar um passo involuntário para trás. — A senhorita Butler não está vestindo nada emprestado, e a competência dela em uma única semana superou qualquer coisa que você ou os seus bajuladores conseguiriam fazer em dez anos de vida útil. ... Então se veio até a minha mesa apenas para destilar frustração pessoal, sugiro que dê meia-volta antes que eu decida cancelar todos os contratos comerciais que você ainda mantém com a Price International.

O rosto de Ravena empalideceu instantaneamente. O veneno transformou-se em pânico e ódio profundo.

Ser ameaçada publicamente por causa de uma simples assistente era uma desonra intolerável.

— Você vai se arrepender disso, Thomas... — sussurrou Ravena entre os dentes, com os olhos faiscando de fúria cega. Ela virou-se nos saltos agulha, puxando o assistente consigo, e sumiu em direção ao bar do outro lado do salão.

O silêncio na mesa ficou tenso. Thomas voltou a sentar-se, respirando fundo para conter a raiva. Ele virou-se para Grace, percebendo os nós dos dedos dela brancos de tanto apertarem a pequena clutch de couro.

— Você está bem, Grace? Você não precisava ter ficado calada... você sabe se defender muito bem.

Grace forçou um sorriso trêmulo, desviando o olhar para a mesa.

— Eu estou bem, senhor Price. Apenas... não estou acostumada ainda com o veneno de serpentes da alta sociedade.

Para tentar aliviar a queimação na garganta e o nó sufocante de humilhação e ansiedade que a abalava — afinal, ela havia acabado de conquistar aquele emprego e temia que qualquer escândalo pudesse arruinar tudo —, Grace cometeu um erro fatal.

Quando o garçom passou servindo bebidas, Grace chamou-o com um gesto rápido.

— Por favor... será que teria como trazer-me uma dose forte de qualquer destilado que o senhor tiver? O que for mais forte — pediu ela, com a voz ligeiramente trêmula.

O garçom hesitou, olhando de relance para Thomas. Mas Thomas, ainda consumido pela irritação com Ravena, apenas acenou com a cabeça em sinal de permissão.

Em poucos segundos, um copo com uma dose generosa de uísque envelhecido puro foi colocado diante de Grace.

Sem pensar duas vezes, ela pegou o copo e virou o líquido de uma vez só na garganta.

O álcool desceu rasgando, queimando seu esôfago de forma violenta. Ela tossiu discretamente, fechando os olhos por um segundo. Mas a queimação estomacal logo deu lugar a uma onda de formigamento e torpor que subiu direto para a sua cabeça.

Grace, que mal consumia álcool e estava com o estômago vazio desde o almoço devido à tensão do dia, sentiu o efeito bater com a força de um trem descarrilhado.

— Grace... o que você pensa está fazendo? Uísque puro não é água — advertiu Thomas, franzindo o cenho em sinal de preocupação ao ver os olhos dela começarem a brilhar de um jeito diferente após a segunda dose que ela havia pedido e tomado também em um só gole.

— Eu estou... perfeitamente bem, senhor Price — balbuciou Grace, com um sorriso repentinamente largo demais e um brilho meio aéreo no olhar. Ela já estava ligeiramente tonta. — Apenas... celebrando o meu primeiro grande dia de gales... ou de fraudes corporativas... tanto faz!

Passaram-se mais vinte minutos. E o uísque misturado com o cansaço extremo e a adrenalina da noite transformaram Grace.

Ela, que antes mantinha uma postura rígida e impecável, começou a rir de comentários banais dos empresários ao redor, a gesticular de forma exagerada e a perder totalmente o filtro executivo.

Thomas percebeu imediatamente que a situação havia saído do controle. Quando viu Grace tentar pegar uma taça de champanhe pela terceira vez consecutiva, ele segurou firmemente o pulso dela sobre a mesa.

— Chega, Grace. Nós vamos embora agora mesmo.

— Ir embora? Mas o baile mal começou, chefe! — protestou ela, com a voz arrastada e um bico infantil nos lábios, enquanto tentava puxar o braço de volta. — O senhor é muito chato sabia? Deixa eu festejar um pouquinho... os malucos da Stark & Moore já assinaram os papéis... nós somos ricos... quer dizer, o senhor é rico, eu sou apenas a sua humilde... o que é que eu sou mesmo?

Thomas soltou um suspiro profundo, misturando exasperação e uma ponta de diversão inevitável diante daquela cena inusitada.

Ele levantou-se rapidamente, pediu desculpas aos convidados da mesa alegando mal-estar repentino da assistente, envolveu a cintura de Grace com firmeza e a guiou quase a arrastando para fora do salão de baile em direção à saída privativa.

E enquanto a guiava em direção ao carro, Thomas começou a relembrar o exato momento em que ela havia tentado inventar desculpas para não ir àquele jantar, pensando que talvez ela estivesse mesmo certa naquela hora. Pois, por mais brilhante e implacável que Grace fosse nos negócios, ela ainda não estava totalmente preparada para enfrentar um mundo como aquele, habitado por pessoas tão perversas e mesquinhas.

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