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CAPÍTULO 4

Author: Ara Pereira
last update publish date: 2026-09-09 08:10:05

LAIKA

*

Finalmente eu tinha chegado ao fim da minha vida universitária, e, sinceramente, ainda parecia estranho pensar que depois de tantos trabalhos, provas, noites maldormidas, professores que pareciam acreditar que nós não tínhamos absolutamente mais nada para fazer além de estudar e aquela quantidade absurda de coisas que eu precisava decorar para depois esquecer assim que saísse da sala, eu finalmente estava prestes a concluir aquela etapa da minha vida, mas, se existia uma coisa que eu estava esperando com muito mais ansiedade do que a própria formatura, era a tão famosa festa sigilosa de máscaras.

Era praticamente um evento obrigatório para quem estava chegando ao fim da universidade, embora ninguém dissesse isso oficialmente, é claro, porque oficialmente aquela festa sequer existia, e talvez fosse justamente esse o motivo de todo mundo ficar tão interessado nela, afinal, tudo aquilo que é proibido, escondido ou simplesmente não deveria acontecer costuma despertar uma curiosidade muito maior do que qualquer coisa permitida e anunciada em um calendário acadêmico.

Eu tinha ouvido falar daquela festa muito antes de chegar ao último período, histórias surgiam pelos corredores, comentários eram feitos entre grupos de amigos e sempre existia alguém que conhecia alguém que tinha participado no ano anterior, embora ninguém nunca soubesse explicar direito quem organizava, como conseguiam preparar tudo dentro da própria universidade sem que o reitor descobrisse ou como era possível que uma festa daquele tamanho acontecesse repetidamente, todos os anos, sem que ninguém fosse capaz de acabar com aquilo de uma vez por todas.

E, sinceramente, eu não queria saber, não era problema meu.

Se alguém tinha descoberto uma maneira de organizar uma festa clandestina dentro da universidade sem ser pego, parabéns para essa pessoa, eu só queria aproveitar a parte boa da história sem precisar descobrir a parte complicada.

Eu achava isso muito engraçado, porque aparentemente estávamos todos participando de uma festa organizada por uma pessoa que ninguém conhecia, em um lugar onde ninguém deveria estar fazendo festa alguma, usando máscaras justamente para que ninguém descobrisse quem era quem.

Era praticamente uma receita perfeita para o caos, e eu adorava caos.

Talvez fosse justamente por isso que aquela noite tivesse despertado tanto a minha curiosidade desde o primeiro instante, porque havia alguma coisa naquela sensação de anonimato que me fazia sentir mais livre, como se, atrás de uma máscara, eu pudesse simplesmente esquecer por algumas horas quem eu era, o que deveria fazer depois da universidade e todas aquelas expectativas que as pessoas insistiam em colocar sobre alguém que estava prestes a se formar.

Eu queria apenas me divertir, queria dançar, queria rir.

Queria aproveitar aquela última fase antes que a vida adulta viesse bater na minha porta com uma lista enorme de responsabilidades que eu provavelmente não estava nem um pouco preparada para receber.

E talvez eu também quisesse experimentar um pouco daquela liberdade que todo mundo dizia existir quando ninguém sabia quem estava por trás da máscara.

Eu nunca fui exatamente a pessoa mais romântica do mundo, e talvez isso explicasse muito da minha vida amorosa durante aqueles anos de universidade, porque, apesar de ter conhecido alguns caras interessantes, flertado com alguns deles e me envolvido com outros, relacionamentos nunca foram exatamente uma prioridade para mim.

Eu nunca namorei.

Nunca tive aquela história bonita de conhecer alguém, me apaixonar perdidamente e passar meses acreditando que finalmente havia encontrado a pessoa certa, até porque, para ser sincera, eu nem sabia se acreditava muito nessa história de pessoa certa, e talvez tivesse sido melhor assim, porque nunca precisei lidar com coração partido, mensagens ignoradas ou aquelas discussões intermináveis que pareciam fazer parte da rotina de quase todos os casais que eu conhecia.

Eu ficava, conhecia, conversava, flertava, transava, e quando percebia que aquilo não tinha mais graça, simplesmente seguia em frente.

Era simples, pelo menos para mim.

Eu gostava de conhecer pessoas, gostava de provocar, gostava de brincar com os limites das conversas e, principalmente, gostava de não precisar dar explicações sobre as minhas escolhas, porque nunca achei que uma mulher precisasse abaixar a cabeça ou mudar sua maneira de ser apenas para caber na expectativa de alguém.

Eu sempre fui assim.

Se alguém gostava, ótimo, se não gostava, paciência.

Não era exatamente um problema que eu pretendesse resolver.

Por isso, quando cheguei àquela festa, não esperava que alguma coisa realmente pudesse me surpreender, muito menos que um homem pudesse chamar minha atenção de uma maneira diferente de tudo que eu já havia experimentado durante a universidade.

Eu já tinha visto homens bonitos, muitos na verdade.

Já tinha recebido olhares, tantos que perdi as contas. Já tinha sido abordada por caras confiantes, caras tímidos, caras que achavam que eram irresistíveis e outros que precisavam desesperadamente descobrir que confiança demais podia ser apenas outra forma de falta de noção.

Eu sabia lidar com todos eles.

O problema era que eu não esperava encontrar alguém que conseguisse me deixar curiosa sem sequer mostrar o rosto.

Foi justamente isso que aconteceu naquela noite.

Eu não sabia quem ele era, não sabia o nome dele, não sabia sequer se já tinha cruzado com ele pelos corredores da universidade em algum outro momento.

Tudo o que eu sabia era que havia alguma coisa na presença daquele homem que chamava minha atenção, uma espécie de autoridade silenciosa que fazia com que ele parecesse diferente dos outros homens espalhados pela festa, e aquilo me incomodava um pouco, porque eu não estava acostumada a ficar tentando entender alguém que sequer tinha mostrado o próprio rosto.

Talvez fosse a maneira como ele me olhava, talvez fosse a postura.

Talvez fosse apenas a máscara tornando tudo mais interessante.

Eu não sabia, e como eu não sabia, obviamente fiquei curiosa.

Só que curiosidade nunca foi exatamente uma coisa perigosa para mim.

Eu sempre fui boa em brincar com situações que outras pessoas preferiam evitar, talvez porque tivesse confiança demais na minha capacidade de sair delas quando quisesse, e naquela noite não seria diferente.

Eu estava ali para aproveitar, ninguém sabia quem era ninguém, e eu não tinha motivo algum para imaginar que justamente naquela noite eu acabaria sendo impactada pela presença de um único homem entre tantas pessoas.

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