LOGINAnne Scarlate
Olhei para mim mesma no espelho. Meu peito parecia estar sendo esmagado por uma mão invisível. O vermelho Scarlate tomou meus olhos por alguns segundos... Engoli em seco. A vontade de quebrar tudo era enorme. Minha fera não suportou ver minha mãe fazendo com minha filha o que sempre fez comigo. As lágrimas escorreram. “Mamãe, vovó não gosta de mim?” A voz da minha filha ecoou em minha mente. Mordi o lábio inferior com força. O sangue escorreu por entre meus dentes. Olhei para a porta se abrindo e vi Conan entrar. Respirei pesadamente. O problema me persegue. — Você não pode entrar no banheiro feminino! — falei. Uma das portas se abriu, e uma mulher parou, olhando para nós dois. Ela parecia assombrada. No minuto seguinte, saiu quase correndo. — Você sempre corre quando está prestes a quebrar? — ele perguntou em voz baixa. Cerrei os punhos. — Quebrar? Não vou perguntar o significado disso ao homem que dormiu com a irmã da própria companheira! — cuspi. Minhas mãos tremiam. Tentei passar por ele, mas sua maldita mão segurou a minha mais uma vez. Toque desgraçado! Eu ainda sentia um arrepio, mesmo que fraco. Parei ao lado dele e o encarei. Sua outra mão deslizou suavemente, e um de seus dedos roçou meu queixo. Me afastei, olhando para a ponta do dedo dele, suja de sangue. Era o meu sangue... — Você não merece sofrer mais, Anne — sussurrou. Franzi as sobrancelhas quando seus olhos ficaram pretos e sua respiração se tornou quase imperceptível. Era sua fera no comando. Eu sabia, mas, ainda assim, ri. Aquilo não importava mais. — Me perdoa por aquele erro! — Sua voz saiu mais grave do que o normal. Pisquei. Puxei minha mão do aperto dele. Minha respiração ficou tão pesada que, por um segundo, pensei que fosse sufocar. Sua mão se moveu em direção ao meu decote. Olhei para os lados. Meu corpo travou. Tentei pensar em uma reação, mas nenhuma veio tão rápido quanto o movimento dele. Era sua fera... Ele não estava agindo racionalmente. Eu tinha certeza disso. Aquela maldita fera ainda sentia meu cheiro. Engoli em seco e... eu também ainda sentia o dele. Afastei o máximo que consegui, mas minhas costas tocaram a parede fria. Fria como o que eu sentia por ele. Seus dedos quentes roçaram minha pele, puxando a alça do meu vestido para o lado. Seus olhos prendiam os meus... como se ele me quisesse ali. Mas, então, desceram devagar... Seu olhar parou no local onde costumava estar sua marca. Ela já não estava mais ali. Engoli em seco, sentindo como se houvesse pregos cravados na minha garganta. As lágrimas invadiram meus olhos. — Você fez isso! — murmurei. Seus olhos alternaram entre as duas cores. Quando seus dedos se afastaram, uma expressão de derrota tomou conta de seu rosto. Ele me olhou. Parecia querer dizer algo, mas não precisava. Eu via seu semblante, sua postura derrotada, seu olhar arrependido. Meu rosto se contraiu. Mas aquilo não mudava nada. Ele transou com a minha irmã, sabe-se lá quantas vezes, enquanto eu estudava para me tornar uma luna perfeita. — Eu me arrependo — sussurrou. — Eu era um moleque. Abri a mão. Eu desejava fazer aquilo desde aquele dia. Fechei os olhos e senti minha fera arranhando minha carne de dentro para fora. A dor queimava meu peito. Esquentava meu sangue. Uma lágrima escorreu dos meus olhos quando ouvi o estalo. Minha palma queimou. Olhei para ele, parado à minha frente, com o rosto virado para o lado e o cabelo desalinhado. A marca da minha mão estava estampada em sua bochecha. Sua mandíbula se tensionou, e seu corpo ficou rígido. Mas ele escolheu não revidar. — Você foi um moleque? — perguntei entre dentes. — Você não tinha tempo de brincar de ser vagabundo, Conan. Eu saí para estudar e me tornar uma luna melhor, enquanto você já exercia seu papel de alfa ao lado do seu pai... — Cerrei os punhos. — Para todo o resto, você não teve tempo de ser moleque. — As lágrimas escorriam pelo meu rosto. — Mas para mim você teve, seu desgraçado! Eu... eu... parei a minha maldita vida para ser a mulher que merecia você. Ri amargamente, sentindo o fel descer pela minha garganta. Como água de esgoto. — Eu fui tão idiota que acreditei que... — Senti ânsia de vômito. — Transei com você depois de você fazer o mesmo com a minha irmã e, no dia seguinte, você me descartou como se eu fosse um pedaço de lixo. Seu corpo estava tenso. — E agora, depois de anos, você acha que o arrependimento paga pelo inferno que eu vivi e por todas as dores que senti? — gritei. Perdi o controle... Sim, deveria ter perdido o controle diante dele há muito tempo. Eu queria rasgar sua pele... — Mamãe? O susto que levei foi indescritível. Meu coração falhou uma batida... Se fosse possível, minhas lágrimas teriam recuado. Luna estava parada perto da porta, com os olhinhos arregalados e cheios de lágrimas. Era para ela estar com meu pai. Eu não sabia o quanto ela havia ouvido. — Mamãe tá triste? — perguntou. Corri para pegá-la no colo e a abracei, escondendo meu rosto para que ela não o visse. Eu ainda sentia o tremor, a raiva e o ódio deslizando sob minha pele como veneno. — Vamos para casa, meu amor — murmurei, beijando sua bochecha. Virei para passar pela porta. — Mas e o papai? Meus pés travaram. Minhas pernas falharam. Olhei para Conan ainda segurando Luna em meus braços. Ele havia se virado enquanto nos observava. Olhei para ele e depois para ela. Forcei um sorriso. — A gente precisa voltar para casa, amor. Mamãe tem trabalho — murmurei. — Mas... — Os olhos dela se encheram de lágrimas. — Agora eu tenho um papai. Meus lábios tremeram ao ver seus olhos brilhando e as lágrimas escorrendo por seu rosto. — Tenho um papai igual às minhas amigas... Queria que ele contasse histórias — disse ela, me abraçando. — Só hoje, mamãe, por favor. Ela começou a chorar. — Meninas fortes não choram, mamãe — solucei sem querer, ouvindo ela dizer o nosso dilema. — Mas agora tem papai. Olhei para cima, tentando respirar. Foi uma maldita ideia ter vindo aqui. — Meninas fortes choram, sim. — ele murmurou Olhei com ódio para Conan, e ele estava pedindo silenciosamente que eu entregasse ela para ele. — Papai está aqui e vai contar uma história hoje — ele falou vindo na minha direção. Estendeu os braços e assentiu. Respirei fundo entregando ela a ele porque não queria que minha filha me visse chorando. Eu precisava me acalmar um pouco. — Eu te odeio — falei tão baixo que provavelmente ele apenas leu meus lábios. A boca dele se contraiu em uma linha fina enquanto eu me virava para sair... Eu precisava de ar, precisava respirar e me culpar por ter pensado que aquilo seria uma boa ideia. Olhei para minha filha, abraçada ao pescoço do pai, e me virei para sair. Mas, no corredor, minha querida irmã estava parada, encostada na parede do outro lado perto da porta, como se fosse superior ao resto do mundo. Revirei os olhos.Anne Scarlate — Acha que, voltando com uma bastarda, você vai tomá-lo de mim?Ri, olhando bem no fundo dos olhos da minha irmã.A irmã que deveria me proteger, aquela mais velha com quem as mais novas sempre sonharam.Ridícula.Uma sobrancelha dela se arqueou. Por um segundo, quis bater a cabeça dela contra a parede, mas encontrei uma forma melhor de lidar com aquilo.— Lianna, você tem um filho com ele e, mesmo assim, conseguiu o amor dele?Ela se afastou da parede e veio para cima de mim.Segurei seus dois braços, encarando aquela maldita.— Eu não quero seu macho, não me importo com ele... — Ela tentou se soltar com um grunhido, mas a segurei com firmeza. — Por mim, quero que você e ele pulem dentro de um vulcão e que ele entre em erupção no minuto seguinte.Seu olhar se assustou, e ela olhou por cima do meu ombro.— Tudo bem, Anne. Sei que você me odeia — murmurou, olhando para baixo. — Perdão, irmã. Mas Nicolay também é seu sobrinho, e eu ainda sou sua irmã.— O quê?
Anne ScarlateOlhei para mim mesma no espelho.Meu peito parecia estar sendo esmagado por uma mão invisível.O vermelho Scarlate tomou meus olhos por alguns segundos... Engoli em seco. A vontade de quebrar tudo era enorme.Minha fera não suportou ver minha mãe fazendo com minha filha o que sempre fez comigo.As lágrimas escorreram. “Mamãe, vovó não gosta de mim?” A voz da minha filha ecoou em minha mente.Mordi o lábio inferior com força. O sangue escorreu por entre meus dentes.Olhei para a porta se abrindo e vi Conan entrar.Respirei pesadamente.O problema me persegue.— Você não pode entrar no banheiro feminino! — falei.Uma das portas se abriu, e uma mulher parou, olhando para nós dois. Ela parecia assombrada. No minuto seguinte, saiu quase correndo.— Você sempre corre quando está prestes a quebrar? — ele perguntou em voz baixa.Cerrei os punhos.— Quebrar? Não vou perguntar o significado disso ao homem que dormiu com a irmã da própria companheira! — cuspi.Minhas
Anne Scarlate — Isso não é justo! Devemos nos unir e acabar com eles. — outro falou.Respirei devagar.Eu deveria pedir demissão. Toda vez havia aqueles que apoiavam e aqueles que criticavam, desejando sempre o extremo.— A capital condena qualquer ato de violência contra os Ferais. — falei, e eles me olharam com desdém.Essa matilha era difícil. Sempre foi. E, depois de tudo que aconteceu, depois de terem me visto ser humilhada aqui anos atrás e agora me verem retornando, parecia que os olhares pesavam ainda mais. Não apenas os da Lua de Sangue, mas também os da Lua Escarlate.Eu conhecia cada membro daquela matilha. Os cabelos avermelhados denunciavam os Escarlates, enquanto a postura ereta e os traços mais rígidos identificavam os da Lua de Sangue entre os presentes.— O monitoramento mostra que eles são extremamente territoriais. As invasões que acontecem geralmente são em época de acasalamento. As fêmeas partem em busca de novos machos, e os grupos deles partem em busca de
Anne ScarlateFoi tão rápido que eu não vi como Salen foi parar dentro daquela parede.Arregalei os olhos, olhando dele para Conan. Sua respiração estava pesada, e seus olhos ainda se mantinham foscos.— Você ficou maluco?! — falei alto.Fui correr para ajudar Salen a sair, mas uma mão agarrou meu pulso.Girei, lançando minha mão contra seu peito. Conan deu alguns passos para trás.Sua cabeça se abaixou devagar para olhar onde eu havia tocado.Eu ainda sou uma alfa.Consigo lutar contra ele, mas parecia que ele não queria isso. Começou a caminhar, olhando fixamente para Salen.Segurei sua camisa, olhando em seus olhos.O olhar fosco deu lugar ao olhar humano.— Para! — falei entre dentes, segurando-o com todas as minhas forças.Seus olhos percorreram meu rosto devagar. Engoli em seco quando um frio começou na minha barriga e subiu pelo meu corpo.Seus olhos voltaram a ficar foscos assim que ele olhou por cima dos meus ombros, soltando um sorriso ralo.— Conan! — gritei.
Anne Scarlate.— Minha filha? — Conan murmurou.Sua voz parecia confusa.Eu nunca vi esse homem confuso, era até engraçado.Ele olhava de mim para Luna várias vezes, parecia procurar semelhança.Por um segundo, senti que o cérebro dele iria explodir.— Não é o meu papai, mamãe?Olhei para Luna e os olhinhos dela brilhavam.Meu peito se apertou e eu forcei um sorriso.Porque eu senti o desespero da minha irmã e o nojo da minha mãe.— Salen — chamei ele e voltei minha atenção à minha pequena. — É, filha, mas vai com o tio Salen para a mamãe conversar com ele um pouquinho.Ela assentiu com seus olhinhos ainda mais alegres e brilhantes.— Tá, mãe. — Ela abriu os braços para o Salen, enquanto olhava para o Conan.— Isso não é possível, Conan. Ela está mentindo.Respirei fundo, olhando para Lianna.Eu quis socar ela por um segundo.— O que você ainda está fazendo aqui? — Conan falou tão baixo que até mesmo eu dei um passo, me afastando dele.Sua fera estava tão perto que seu
Anne Scarlate.Salen levou Luna para beber água.Eu tinha que entrar. Odiava entradas triunfais e já estava atrasada.Os guerreiros dessa matilha abriram as portas. Ajeitei meu vestido e olhei para os dois guerreiros enviados conosco pelo clã dos Anciões.Foi quando o cheiro dele chegou ao meu faro… ferro aquecido.Só assim para nos reconhecermos, perto o suficiente depois de tudo o que ele…Limpei a garganta. Levantei a cabeça e entrei.Me certifiquei de não olhar para o lado direito. Era de onde o cheiro vinha.Como eu iria dizer à minha filha que ele era seu pai, eu ainda não sabia. Mas meu estômago embrulhou ao entrar naquele lugar.Antes, quando saí, os olhares eram de pena. Hoje eram de surpresa absoluta, enquanto os guerreiros do clã dos Anciões caminhavam ao meu lado.Meu pai.Meus pés quase falharam. Sorri ao vê-lo. O único que nunca me fez mal. Era por ele que eu estava ali hoje.Ao seu lado, minha mãe soltou o copo, completamente chocada por eu ainda existir. Tal







