LOGINAnne Scarlate
— Acha que, voltando com uma bastarda, você vai tomá-lo de mim? Ri, olhando bem no fundo dos olhos da minha irmã. A irmã que deveria me proteger, aquela mais velha com quem as mais novas sempre sonharam. Ridícula. Uma sobrancelha dela se arqueou. Por um segundo, quis bater a cabeça dela contra a parede, mas encontrei uma forma melhor de lidar com aquilo. — Lianna, você tem um filho com ele e, mesmo assim, conseguiu o amor dele? Ela se afastou da parede e veio para cima de mim. Segurei seus dois braços, encarando aquela maldita. — Eu não quero seu macho, não me importo com ele... — Ela tentou se soltar com um grunhido, mas a segurei com firmeza. — Por mim, quero que você e ele pulem dentro de um vulcão e que ele entre em erupção no minuto seguinte. Seu olhar se assustou, e ela olhou por cima do meu ombro. — Tudo bem, Anne. Sei que você me odeia — murmurou, olhando para baixo. — Perdão, irmã. Mas Nicolay também é seu sobrinho, e eu ainda sou sua irmã. — O quê? — Ergui uma sobrancelha. Soltei ela, e ela acariciou os próprios pulsos. Eu nem a havia segurado com tanta força. — Mamãe! Olhei para trás e vi Conan e Luna parados atrás de mim. Ri, olhando para minha irmã. — Sério? — murmurei. — Você é a vítima agora? Eu nunca fui vítima, muito menos você. Víbora! — cuspi. — Papai, o que é víbora? — É um nome dado às cobras! — ele respondeu. Fechei os olhos e respirei fundo. Ignorei completamente minha irmã e me virei para ele. — Vou ver onde passarei a noite. Você poderá contar uma história para Luna, talvez por ligação. Luna fez beicinho. Conan olhou para Lianna, depois para mim e, por fim, para Luna. Parecia estar pensando em algo. — Vocês podem ficar na minha casa. — O quê? — perguntamos juntas. Pela primeira vez, senti a mesma surpresa que minha irmã. Luna sorriu amplamente. — Ela não pode ir para sua casa. Por que ela vai para sua casa? — Lianna passou por mim e parou diante dele. Sua casa? Ué! Eles não moram juntos? Fui até Conan e peguei minha filha no colo. — Mamãe, vamos para a casa do papai? Sorri diante da pergunta de Luna, mas decidi não responder na frente deles. Respirei fundo e me afastei do casal. Nunca esperei tanto que uma reunião terminasse. Mesmo sem ter permissão, decidi sair antes. Informei que Luna estava cansada e que eu também precisava me deitar um pouco. A viagem tinha sido longa. — Pai, passarei esta noite aqui, mas preciso voltar à capital. Quando tiver meu período de folga, virei visitá-lo. Abracei ele com força. Luna estava no meu colo e também o abraçou. Recebemos um beijo dele e saímos, acompanhadas pelos guerreiros e por Salen. — Mamãe, vamos para a casa do papai? Engoli em seco ao ver Salen entrando no outro lado do carro. — Não, meu amor. — Sentei. — Salen já preparou um quarto para nós nesta matilha. Veremos seu papai outro dia. — Toquei a ponta do seu nariz. — Mas e a minha história? — perguntou, fazendo bico. Olhei pela janela, observando o carro se afastar. — A mamãe liga, e ele conta por vídeo. Como eu faria isso, ainda não sabia, mas Luna precisava ficar em paz. E eu também não ia me enfiar na casa dele. Minha filha nunca seria apontada como motivo para que eu pudesse ficar perto dele... Aquela matilha já não era mais a mesma. Parecia mais fria, escura e quase sem alegria. Os metamorfos andavam pelas ruas com olhares vagos. Por quê? Aquelas ruas costumavam estar cheias de gente correndo e brincando. Crianças nas ruas... Mesmo sendo quase meia-noite, com a lua brilhando no céu, era como se fosse dia para nós ali. Quantas vezes eu já havia corrido por aquelas ruas, pulado cachoeiras e atravessado as florestas... As imagens vinham à minha mente como se eu estivesse sozinha, mas sempre havia alguém ao meu lado. Alguém do nosso grupo que tinha um laço comigo... — Anne? Dei um pulo ao ouvir a voz de Salen e olhei para ele. Luna estava com os olhinhos fechados, e o vidro nos separava dos guerreiros. Sorri. — Você está mesmo bem? — ele perguntou. Esperei alguns segundos. — Eu não sei — murmurei. — Eu... — Olhei para o chão do automóvel. — Eu não sei o que sinto. Na verdade, sei, sim. — Olhei para ele. — Raiva. Salen sorriu, mas voltei os olhos para Luna. — Mas tem a Luna, que se parece com ele, e eu a amo. — Anne... — Voltei minha atenção para ele. — Só não o perdoe tão facilmente. Você sofreu demais para criá-la sozinha, mesmo rodeada de gente na capital — falou em voz baixa. Olhei para meus pés. Perdoar? Eu queria perdoá-lo? Não. Engoli em seco... Carreguei Luna no colo em direção ao meu quarto. Salen dormiria no quarto ao lado, e os guerreiros ficariam à nossa frente. Salen abriu a porta e me olhou enquanto deixava minha única mala lá dentro. — Vai ficar bem mesmo? — perguntou, com os olhos pretos que pareciam sorrir. Um contraste incrível com o cabelo branco dele. Um fofo no corpo de um guerreiro e mensageiro. — Vou, sim... — Olhei para Luna. — Ela já está dormindo. Vou tomar um banho e fazer o mesmo. Amanhã bem cedo, vamos embora. Ele assentiu. Entrei, e ele fechou a porta. Acionei a trava e deitei Luna sobre a cama. Não iria acordá-la para tomar banho. Quando ela despertasse, daria um banho rápido nela. Enquanto isso, eu tomaria o meu. Peguei um pijama de calça e regata e me preparei para o banho. Fechei os olhos dentro da banheira, escorreguei devagar e afundei na água. O silêncio da água era maravilhoso. — Mamãe! Abri os olhos e emergi da água. — Mamãe! — Já vou, meu amor. Saí da banheira e vesti o roupão. Amarrei ele enquanto olhava para minha filha, sentadinha sobre a cama. Ela sorriu. — Estou com fome! — murmurou. Nossa, eu tinha me esquecido! Nem sequer havia perguntado se ela tinha comido alguma coisa. Uma batida na porta me fez olhar naquela direção. Sorri. — Vou pedir para o tio Salen comprar algo para você comer. — Amarrei o roupão com força terminando de me cobrir. Joguei a toalha sobre os cabelos. Que bom que ele veio falar alguma coisa. Assim, eu não precisava ir atrás dele. Abri a porta, mas meu sorriso desapareceu quando seus olhos deslizaram pelo meu corpo com tanta intensidade que, por um segundo, pensei que estivesse nua... Olhei para mim mesma.Anne Scarlate — Acha que, voltando com uma bastarda, você vai tomá-lo de mim?Ri, olhando bem no fundo dos olhos da minha irmã.A irmã que deveria me proteger, aquela mais velha com quem as mais novas sempre sonharam.Ridícula.Uma sobrancelha dela se arqueou. Por um segundo, quis bater a cabeça dela contra a parede, mas encontrei uma forma melhor de lidar com aquilo.— Lianna, você tem um filho com ele e, mesmo assim, conseguiu o amor dele?Ela se afastou da parede e veio para cima de mim.Segurei seus dois braços, encarando aquela maldita.— Eu não quero seu macho, não me importo com ele... — Ela tentou se soltar com um grunhido, mas a segurei com firmeza. — Por mim, quero que você e ele pulem dentro de um vulcão e que ele entre em erupção no minuto seguinte.Seu olhar se assustou, e ela olhou por cima do meu ombro.— Tudo bem, Anne. Sei que você me odeia — murmurou, olhando para baixo. — Perdão, irmã. Mas Nicolay também é seu sobrinho, e eu ainda sou sua irmã.— O quê?
Anne ScarlateOlhei para mim mesma no espelho.Meu peito parecia estar sendo esmagado por uma mão invisível.O vermelho Scarlate tomou meus olhos por alguns segundos... Engoli em seco. A vontade de quebrar tudo era enorme.Minha fera não suportou ver minha mãe fazendo com minha filha o que sempre fez comigo.As lágrimas escorreram. “Mamãe, vovó não gosta de mim?” A voz da minha filha ecoou em minha mente.Mordi o lábio inferior com força. O sangue escorreu por entre meus dentes.Olhei para a porta se abrindo e vi Conan entrar.Respirei pesadamente.O problema me persegue.— Você não pode entrar no banheiro feminino! — falei.Uma das portas se abriu, e uma mulher parou, olhando para nós dois. Ela parecia assombrada. No minuto seguinte, saiu quase correndo.— Você sempre corre quando está prestes a quebrar? — ele perguntou em voz baixa.Cerrei os punhos.— Quebrar? Não vou perguntar o significado disso ao homem que dormiu com a irmã da própria companheira! — cuspi.Minhas
Anne Scarlate — Isso não é justo! Devemos nos unir e acabar com eles. — outro falou.Respirei devagar.Eu deveria pedir demissão. Toda vez havia aqueles que apoiavam e aqueles que criticavam, desejando sempre o extremo.— A capital condena qualquer ato de violência contra os Ferais. — falei, e eles me olharam com desdém.Essa matilha era difícil. Sempre foi. E, depois de tudo que aconteceu, depois de terem me visto ser humilhada aqui anos atrás e agora me verem retornando, parecia que os olhares pesavam ainda mais. Não apenas os da Lua de Sangue, mas também os da Lua Escarlate.Eu conhecia cada membro daquela matilha. Os cabelos avermelhados denunciavam os Escarlates, enquanto a postura ereta e os traços mais rígidos identificavam os da Lua de Sangue entre os presentes.— O monitoramento mostra que eles são extremamente territoriais. As invasões que acontecem geralmente são em época de acasalamento. As fêmeas partem em busca de novos machos, e os grupos deles partem em busca de
Anne ScarlateFoi tão rápido que eu não vi como Salen foi parar dentro daquela parede.Arregalei os olhos, olhando dele para Conan. Sua respiração estava pesada, e seus olhos ainda se mantinham foscos.— Você ficou maluco?! — falei alto.Fui correr para ajudar Salen a sair, mas uma mão agarrou meu pulso.Girei, lançando minha mão contra seu peito. Conan deu alguns passos para trás.Sua cabeça se abaixou devagar para olhar onde eu havia tocado.Eu ainda sou uma alfa.Consigo lutar contra ele, mas parecia que ele não queria isso. Começou a caminhar, olhando fixamente para Salen.Segurei sua camisa, olhando em seus olhos.O olhar fosco deu lugar ao olhar humano.— Para! — falei entre dentes, segurando-o com todas as minhas forças.Seus olhos percorreram meu rosto devagar. Engoli em seco quando um frio começou na minha barriga e subiu pelo meu corpo.Seus olhos voltaram a ficar foscos assim que ele olhou por cima dos meus ombros, soltando um sorriso ralo.— Conan! — gritei.
Anne Scarlate.— Minha filha? — Conan murmurou.Sua voz parecia confusa.Eu nunca vi esse homem confuso, era até engraçado.Ele olhava de mim para Luna várias vezes, parecia procurar semelhança.Por um segundo, senti que o cérebro dele iria explodir.— Não é o meu papai, mamãe?Olhei para Luna e os olhinhos dela brilhavam.Meu peito se apertou e eu forcei um sorriso.Porque eu senti o desespero da minha irmã e o nojo da minha mãe.— Salen — chamei ele e voltei minha atenção à minha pequena. — É, filha, mas vai com o tio Salen para a mamãe conversar com ele um pouquinho.Ela assentiu com seus olhinhos ainda mais alegres e brilhantes.— Tá, mãe. — Ela abriu os braços para o Salen, enquanto olhava para o Conan.— Isso não é possível, Conan. Ela está mentindo.Respirei fundo, olhando para Lianna.Eu quis socar ela por um segundo.— O que você ainda está fazendo aqui? — Conan falou tão baixo que até mesmo eu dei um passo, me afastando dele.Sua fera estava tão perto que seu
Anne Scarlate.Salen levou Luna para beber água.Eu tinha que entrar. Odiava entradas triunfais e já estava atrasada.Os guerreiros dessa matilha abriram as portas. Ajeitei meu vestido e olhei para os dois guerreiros enviados conosco pelo clã dos Anciões.Foi quando o cheiro dele chegou ao meu faro… ferro aquecido.Só assim para nos reconhecermos, perto o suficiente depois de tudo o que ele…Limpei a garganta. Levantei a cabeça e entrei.Me certifiquei de não olhar para o lado direito. Era de onde o cheiro vinha.Como eu iria dizer à minha filha que ele era seu pai, eu ainda não sabia. Mas meu estômago embrulhou ao entrar naquele lugar.Antes, quando saí, os olhares eram de pena. Hoje eram de surpresa absoluta, enquanto os guerreiros do clã dos Anciões caminhavam ao meu lado.Meu pai.Meus pés quase falharam. Sorri ao vê-lo. O único que nunca me fez mal. Era por ele que eu estava ali hoje.Ao seu lado, minha mãe soltou o copo, completamente chocada por eu ainda existir. Tal







