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O vento frio do Mar do Norte fustigava as janelas de chumbo do casarão de madeira e pedra na costa de Larvik. No interior do escritório, cercado por mapas de navegação amarelados e cheiro de carvalho úmido, o jovem Conde Henrik permanecia de pé diante da escrivaninha de mogno que fora de seu pai.
Sobre a mesa, a realidade de sua ambição estava desenhada em cartas de cobrança e contratos de frete fracassados. Ele tentara ser o grande homem que o falecido conde fora o senhor das frotas de madeira, mas a ambição o empurrou para investimentos imprudentes no comércio do Báltico.
— Você precisa assinar, Henrik — disse a Condessa-Mãe, com a voz tão fria quanto a geada nas vidraças. — O dote da jovem da família Moller cobrirá suas dívidas e garantirá os navios que seu pai deixou. É a única forma de salvar este condado.
Henrik fechou os olhos. A imagem de uma pequena casa de pescadores em uma ilha remota do arquipélago voltou para assombrá-lo. Lembrava-se do cheiro de sal e urze, dos olhos castanhos e doces de Astrid e da promessa que fizera a ela apenas duas semanas atrás. “Eu voltarei quando acertar meus negócios. Nós nos casaremos.”
— Eu dei minha palavra a outra pessoa, mãe — murmurou ele, a voz embargada.
— Palavras ditas em uma ilha de pescadores não sustentam um título nem pagam estaleiros — retrucou a matriarca, sem mover um único músculo do rosto. — A garota da ilha é um erro de juventude. Esta aliança com os Moller é a sua sobrevivência. Aceite o dinheiro, quite os credores e cumpra o seu dever.
Henrik encarou a pena de ganso embebida em tinta preta. Ele pensou em Astrid esperando por ele na praia sob a névoa, mas olhou para o retrato do pai pendurado na parede o homem que nunca havia falhado.
Pressionou o metal contra o papel, firmando o contrato de casamento por conveniência. Ele dizia a si mesmo que seria apenas uma transação, uma troca fria de ouro por um sobrenome respeitável, e que um dia encontraria uma forma de reparar o que estava abandonando no mar.
Ele não sabia, no entanto, que o mar nunca esquece o que lhe é devido, e que aquela assinatura traçaria o destino de dores e segredos que cobrariam seu preço seis anos mais tarde.
6 anos
A condessa-mãe observava do topo da mesa, a taça de cristal suspensa a meio caminho dos lábios, o olhar afiado pesando sobre cada gesto. Ela orquestrara a presença de Astrid e do garoto com uma precisão quase militar, alegando a necessidade de trazer "sangue novo e parente distante da costa" para auxiliar nos negócios da casa após a tragédia da perda do último bebê. Mas o silêncio que se instalara entre o casal principal era um abismo que nem mesmo o requinte do banquete dinamarquês podia disfarçar.
— O pequeno Christian tem a mesma inclinação do pai para o mar — disparou a matriarca, a voz cortando o murmúrio dos talheres de prata. — Já sabe reconhecer as velas das embarcações de Larvik antes mesmo que dobrem o cabo.
Nora, que até então mantinha as mãos rigidamente cruzadas sobre o colo rendado, sentiu o nome do menino ecoar no peito como uma sentença. Christian. Um nome forte. Um nome de herdeiro.
Henrik não negou. Apenas pousou a mão grande e calejada sobre o ombro do menino, num gesto de proteção imediato e instintivo que nunca, em seis anos de matrimônio, dedicara a Nora. Quando a tocar na esposa, seus dedos eram sempre cautelosos, quase temerosos, como se ela fosse um vaso de porcelana fina prestes a se despedaçar uma fragilidade que os sucessivos abortos só haviam piorado aos olhos dele.
— Ele tem o olhar dos homens da costa, mãe — respondeu Henrik, a voz grave ressoando no salão. Pela primeira vez na noite, seus olhos cruzaram com os de Nora. Havia um pedido implícito de desculpa ali, mas também uma firmeza inabalável. Ele não recuaria.
Astrid, sentada do outro lado da mesa, ajustou o xale de lã escura sobre os ombros. Ela não vestia seda nem ostentava joias como Nora; sua beleza era crua, lapidada pelo sal e pelo vento dos fiordes. Ela olhou para a jovem condessa não com triunfo, mas com uma compaixão tranquila que doeu ainda mais em Nora do que o desprezo teria doído.
— A senhora está pálida, Condessa — disse Astrid, a voz suave carregando o sotaque carregado do Norte. — O ar desta sala está pesado. O mar traz uma brisa melhor lá fora.
— Eu estou perfeitamente bem — ouviu-se dizer, a própria voz soando distante, automática.
Nora ergueu-se da mesa. O farfalhar de sua saia de veludo pesado foi o único som a quebrar o transe da sala. Henrik ensaiou um movimento para se levantar e acompanhá-la, mas o pequeno Christian puxou sua manga novamente, mostrando-lhe uma concha polida que tirara do bolso. Henrik hesitou. E nessa fração de segundo de dúvida, Nora deu o primeiro passo para longe da mesa.
Ela caminhou em direção às portas de carvalho que davam para o terraço de pedra. O ar gelado da noite norueguesa atingiu seu rosto como um choque necessário, limpando o cheiro de assados e vinho. Abaixo, nas águas escuras do fiorde, as luzes dos navios atracados oscilavam ao ritmo da maré.
Aquele era o mar de Henrik. O mar onde ele guardara sua verdadeira vida, seu verdadeiro amor e seu filho, enquanto retornava para ela apenas para cumprir o dever de um casamento comprado.
A porta do terraço rangeria atrás dela em instantes ela sabia que ele viria, mas a mulher que esperava à beira do abismo já não era a mesma que entrara naquele salão.
E não demoro de fato.
A porta do terraço rangeu suavemente. Os passos de Henrik no piso de pedra eram pesados, pausados, carregados do mesmo controle cego com que ele governava a casa e o condado. O vento gelado que vinha da baía de Larvik uivava entre as colunas, mas Nora permanecia imóvel, as mãos apoiadas na balaustrada fria, os olhos fixos na escuridão do fiorde.
— Nora — ele disse, a voz abafada pelo som das ondas contra os rochedos abaixo. — O ar aqui fora está cortante. Você ainda não recuperou as forças do último mês. Não deveria estar ao relento.
Ela não se virou. O tom dele era exatamente o mesmo de quando os médicos diziam que ela precisava de repouso absoluto; o mesmo tom com que ele ordenava que limpassem o quarto de bebê pela terceira vez. Um tom de zelosa, impecável e insuportável responsabilidade.
— Ele se parece com você — ela disse, a voz baixa, quase levada pelo vento.
Henrik deu mais um passo, parando a uma distância respeitável, sem, contudo, tocá-la.
— O garoto é forte — respondeu ele, e por um segundo, uma nota inadvertida de orgulho escapou no tremor de sua voz. — Astrid o criou entre os pescadores. Ele não conhece a vida da corte, nem a etiqueta de um castelo. Minha mãe achou prudente trazê-los para cá antes que a saúde dele fosse comprometida pelo inverno do norte.
Minha mãe achou prudente. Nora quase riu, mas o som se prendeu na garganta como um caco de vidro. A sogra não trouxera uma mulher e uma criança por caridade. A matriarca trouxera um substituto. Trouxera a prova de que a linhagem do conde continuaria, mesmo que a esposa legítima estivesse se desfazendo em sangue e luto a cada poucos meses.
— E a mãe dele? — Nora finalmente se virou para encará-lo. A névoa da noite cobria seus cabelos claros, mas os olhos brilhavam com uma lucidez fria que Henrik nunca vira nela. — Que papel a mãe dele desempenha nesta casa?
— Astrid é do mar, Nora. Ela sabe qual é o seu lugar — disse ele, a testa franzindo levemente em sinal de contrariedade. — Ela veio para garantir que o menino tenha a educação necessária. Nada muda para você. Esta casa é sua. O título é seu.
— O título… — ela repetiu a palavra como se tentasse se lembrar de seu significado. — Seis anos, Henrik. Seis anos em que eu achei que o seu silêncio era dor. Que a sua distância era o peso da responsabilidade sobre este condado. Eu passei seis anos tentando alcançar um homem que simplesmente nunca esteve aqui.
— Eu nunca lhe faltei com o respeito — a voz dele endureceu, o orgulho aristocrático vindo à tona. — Eu honrei cada cláusula do nosso acordo. Provi tudo o que sua família exigiu, e continuo provendo. Cuidei de você em cada doença, em cada… perda.
— Você cuidou do seu investimento — ela o interrompeu, sem alterar o tom, a verdade nua e crua cortando o espaço entre eles. — Você comprou o dinheiro do meu pai com o seu sobrenome. E quando percebeu que o meu corpo não podia lhe dar o herdeiro que o seu dinheiro pagou, a sua mãe trouxe o produto do seu verdadeiro amor para ocupar a mesa.
— Não fale do que você não entende! — Henrik deu um passo agressivo à frente, as mãos cerradas ao lado do corpo, a máscara de calma finalmente trincando. — Você acha que foi fácil para mim? Ver as finanças do meu pai ruírem? Ter que abandonar tudo o que eu queria para me casar com uma desconhecida e salvar este lugar? Eu fiz o que precisei fazer!
— Eu sei — respondeu ela, suavemente, recuando meio passo para longe do toque dele. — Você fez o seu dever. O problema, Henrik… é que eu pensei que, em algum momento, eu tinha deixado de ser apenas um dever para me tornar sua esposa.
A porta do terraço abriu-se novamente. A condessa-mãe surgiu à soleira, o xale de pele cobrindo os ombros, a figura ereta e implacável contra a luz dourada do salão.
— Henrik — chamou a matriarca, a voz sem qualquer vestígio de dúvida. — O capitão do navio de suprimentos acabou de chegar de Bergen. Ele precisa das suas ordens para o desembarque de amanhã. E o pequeno Christian adormeceu na sala de estar; Astrid precisa saber em qual ala da casa eles ficarão instalados.
Ele retornou tarde ao quarto.A casa urbana já repousava sob a quietude da madrugada, os corredores com as luzes apagadas e os passos abafados pelo espesso dos tapetes.Ao cruzar a porta dos aposentos, encontrou-a deitada. Encolhida na vastidão da cama de casal. Pálida. Absolutamente imóvel.Por alguns instantes, Henrik limitou-se a observá-la na penumbra. Em seguida, deu início aos preparativos para se recolher, produzindo mais ruído do que o necessário o solavancar das gavetas do armário, o peso das botas caindo sobre o assoalho, o atrito do casaco despido com impaciência.Movimentos calculados para despertar-lhe a atenção.Nora moveu-se com lentidão. Os olhos abriram-se a custo.— Aquilo que você insinuou durante o almoço… — começou ele, ainda de pé, a voz revestida de uma austeridade controlada. —
O médico fora categórico: nada de espartilhos, nenhum tipo de esforço e repouso absoluto.Ainda assim, ela se colocou de pé.As criadas recuaram, hesitantes.— Senhora… talvez fosse melhor…— Está tudo bem — murmurou Nora, sem forças para discutir, mas com uma firmeza silenciosa que não dava margem a contestações.O vestir deu-se em etapas cautelosas. Camadas leves de linho primeiro. Depois, a estrutura rígida do espartilho.A compressão veio gradativa. Familiar. Cruel.Nora fechou os olhos enquanto as tiras de fita eram puxadas contra o abdômen. A respiração, já fragilizada pela tosse, encurtou-se de imediato. O peito sensível protestou ao mínimo movimento de expansão, mas ela não pediu para que afrouxassem. Nunca pedia.Quando terminaram, sua palidez era absoluta.
Nora não tinha melhorado ainda naquela manha, mesmo Henrik não querendo admitir algo parecia abranja aquela casa em que moravam.O quarto permanecia mergulhado em silêncio quando o médico voltou a examiná-la.Ela não deixara a cama durante todo o dia. Nem tentara. O corpo parecia pesado demais para qualquer movimento que exigisse mais do que o esforço básico de respirar. As mãos repousavam frias sobre o lençol e os olhos mantinham-se semicerrados, acompanhando a movimentação à distância como se ela estivesse ali apenas pela metade.Henrik permanecia ao lado da cama. De pé, com os braços cruzados, a postura rígida e o maxilar levemente tensionado. Havia ainda um traço de contrariedade nele, um incômodo contido e mal resolvido.— Aquele último aborto mexeu muito com o organismo dela… — comentou ele
O almoço foi servido no jardim.As toalhas de linho foram trocadas, a porcelana reorganizada e as vozes ganharam um dinamismo mais vivo sob o sol quente do meio-dia.Ela, contudo, não desceu.As tonturas haviam se intensificado desde as primeiras horas da manhã. O corpo já não respondia com a firmeza de antes se é que algum dia respondera após tantos meses de desgaste. Cada tentativa de se manter ereta trazia um escurecimento sutil da visão e um vazio gélido no peito que ia além de qualquer fraqueza física.A condessa-mãe subiu aos aposentos. Não demorou a ir direto ao ponto.— Talvez seja melhor você retornar à casa da cidade — disse a matriarca, com o tom medido e impecável que jamais soava acolhedor. — Precisa de repouso absoluto. Não faz sentido se forçar a permanecer aqui… e acabar atrapalhando a
O quarto estava imerso em penumbra quando ela cruzou a soleira.Fechou a porta com extrema cautela, um gesto automático de quem aprendeu que qualquer ruído em falso poderia ser interpretado como um drama desnecessário.Deu apenas dois passos antes de ser forçada a parar. A tontura veio como uma onda súbita, acompanhada por um enjoo violento ainda mais forte do que o anterior. Mal teve tempo de se apoiar no dossel da cama antes de o corpo se curvar em espasmos incontroláveis, expulsando até a última gota da bile amarga que lhe queimava a garganta. Os olhos lacrimejaram com o esforço, mas, mesmo na dor, nenhum gemido audível escapou de seus lábios.Quando os espasmos finalmente cessaram, permaneceu imóvel, o peito subindo e descendo com dificuldade, as mãos trêmulas segurando o tecido pesado das cortinas.Era sempre assim. Cada crise parecia pior e mais desgasta
Ela não conhecia seu próprio marido.A condessa-mãe deu duas batidinhas sutis com a colher de prata na taça de cristal, quebrando a ilusão de espontaneidade da mesa.— Henrik — disse a matriarca, com o olhar firme e sem qualquer desvio —, o pequeno Christian precisa descansar. A viagem da ilha foi longa e o ar da costa sul nesta época do ano é pesado para quem não está acostumado com a casa grande.— Claro — ele respondeu imediatamente. A prontidão na voz dele foi um golpe físico no peito de Nora. Ele nunca respondia à mãe com tanta presteza quando o assunto dizia respeito aos repousos forçados de Nora após suas perdas.Astrid se levantou com uma graça simples, sem o ruído excessivo de armações de seda ou anáguas engomadas. Ela tocou suavemente o ombro do menino, que se despediu do pai co







