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A lama fria colava-se aos meus tornozelos como mãos invisíveis, tentando puxar-me de volta para o inferno de onde eu havia escapado. A chuva caía em lâminas densas, cortando a pele do meu rosto, abafando o som dos meus próprios soluços e o eco implacável do meu nome não dito. Meus pulmões queimavam com o ar gelado, e cada passo parecia o último. Eu não podia parar. Se eu parasse, o silêncio que se seguiria seria o do meu fim.
Há menos de duas semanas, minha vida era medida em quilates, contratos bilionários e jantares de gala na alta sociedade da capital. Eu era Helena Valadares, herdeira de uma das maiores construtoras do país, cercada de segurança, privilégios e certezas. Mas certezas são frágeis quando a ganância humana decide destruir o tabuleiro. Lembro-me daquela noite com uma clareza que me embrulha o estômago: o escritório do meu pai mergulhado em uma penumbra sufuscante, o cheiro metálico de sangue impregnando o carpete persa e o corpo dele desabado sobre a mesa de mogno. O relatório que ele segurava nas mãos rígidas detalhava o desvio de milhões e a assinatura do seu sócio mais antigo, o homem que agora liderava a caçada para garantir que eu nunca abrisse a boca.
Fugir foi um ato cego. Deixei para trás os cartões de crédito, o apartamento de vidro, as roupas de grife e a minha própria identidade. Adotei o nome de Míriam, pintei o cabelo com uma tinta barata comprada em uma farmácia de província e enfiei-me em ônibus lotados até onde o asfalto acabou e as estradas de terra vermelha começaram. Mas o dinheiro deles compra braços em qualquer lugar. Eles sabiam que eu não conseguiria sumir para sempre.
O ronco estridente de um motor cortou a sinfonia da tempestade segundos antes de eu ver os faróis.
Duas fachadas de luz brutal rasgaram a escuridão daquela estrada isolada, cortando a neblina com uma violência cega. Era uma caminhonete imensa, uma verdadeira fortaleza sobre rodas, o tipo de veículo pesado que pertence apenas aos donos destas terras implacáveis do agronegócio. As rodas graúdas giravam levantando ondas de lama, avançando na minha direção como um monstro de aço indomável.
Sem pensar, guiada puramente pelo instinto de sobrevivência e pelo pavor que me gelava as veias, lancei-me diretamente no meio do caminho.
— Para! Por favor, para! — gritei, embora minha voz tenha sido imediatamente engolida pelo estrondo de um trovão e pelo chiado ensurdecedor da água.
Os pneus protestaram contra a lama com um guincho metálico agudo. A massa de ferro colosso derrapou perigosamente, fazendo o veículo rodopiar ligeiramente antes de parar a centímetros dos meus joelhos trêmulos. O impacto do vento gerado pela freada abrupta quase me derrubou, mas permaneci de pé, cega pela claridade implacável dos faróis altos que batiam contra o meu corpo encharcado.
Por um segundo, pensei que ele passaria por cima de mim. Pensei que ali terminaria a linhagem dos Valadares.
A porta do motorista abriu-se com um estalo seco. De dentro dela emergiu uma figura que parecia ter sido esculpida na própria tormenta. Alto, com ombros largos que preenchiam um casaco de couro escuro e a mandíbula terrivelmente travada em uma expressão de fúria pura, o homem deu dois passos largos em minha direção. Seus olhos escuros faiscavam sob a aba do chapéu encharcado, perigosos, dominantes e cortantes como vidro.
— Ficou louca, garota?! — a voz dele cortou o ar como um chicote, profunda e carregada de uma irritação violenta que fez o sangue congelar nas minhas veias. — Quer morrer debaixo das minhas rodas? Acabou de escapar de um hospício ou tem tendências suicidas?!
Abri a boca para responder, para implorar por abrigo, para inventar qualquer desculpa esfarrapada que me mantivesse viva por mais uma hora. Queria dizer que eu estava perdida, que precisava de um lugar para me esconder, que minha vida valia por um triz. Mas o meu corpo já havia consumido a última gota de adrenalina. A exaustão acumulada de dias sem dormir, o frio penetrante, o terror de saber que os assassinos estavam na minha cola e o peso insuportável de ter perdido tudo desabaram de uma só vez sobre os meus ombros.
Minhas pernas simplesmente cederam, traindo-me no pior momento possível.
Antes que eu pudesse atingir o chão lamacento e duro, braços fortes e firmes como o aço me agarraram pela cintura, puxando-me com força contra um peito largo e duro como rocha. O choque daquele calor humano bruto fez meus sentidos girarem ainda mais.
— Ei... o que... ugh... — a voz dele vacilou pela primeira vez, perdendo parte da aspereza ao notar que eu desabava por completo em seu alcance, pesando como uma boneca de pano sem forças.
Olhei para cima, tonta, conseguindo apenas enxergar o maxilar tenso e os lábios severos daquele homem que parecia tão implacável quanto a tempestade ao nosso redor. Ele me segurava com uma firmeza possessiva, como se estivesse irritado por ter que me salvar, mas incapaz de me soltar.
— Você está congelando... — murmurou ele, quase para si mesmo, franzindo o cenho enquanto tentava me firmar contra seu corpo.
Foi nesse exato segundo, enquanto o calor daquele corpo estranho tentava inutilmente me ancorar ao mundo, que os faróis gêmeos de um segundo veículo em alta velocidade despontaram na curva fechada da estrada, cortando a cortina de chuva com uma precisão mortal.
Uma caminhonete preta, sem placas, cujos faróis altos fuzilaram a escuridão diretamente para nós.
Eles nos tinham alcançado. O tempo parou. O som da chuva pareceu sumir, substituído pelo latejar frenético do meu próprio coração. Meus olhos se arregalaram em puro horror enquanto a silhueta dos meus perseguidores emergia na neblina, bloqueando a saída da estrada.
Abri a boca para avisá-lo, para gritar para ele fugir, para dizer que ele estava metendo-se na cova dos leões por minha causa. Mas nenhuma palavra saiu. A última centelha de energia evaporou do meu cérebro.
A escuridão total, pesada e fria, engoliu a minha consciência, e apaguei completamente nos braços daquele homem severo, bem no exato segundo em que o perigo nos cercava por completo.
A claridade da manhã seguinte invadiu as frestas do teto quebrado do celeiro com uma crueldade silenciosa, dissipando a penumbra febril onde, poucas horas antes, o mundo inteiro parecia ter se resumido ao calor dos nossos corpos e ao gosto desesperado daquele beijo.Abri os olhos devagar, sentindo o corpo inteiro dolorido, pesado, como se tivesse sido atropelado por uma manada de cavalos selvagens. O vestido de seda esmeralda, antes deslumbrante, agora não passava de um trapo úmido, amassado e manchado de lama seca, colado à minha pele. A lona e a jaqueta de couro de Vicente cobriam os meus ombros trêmulos, oferecendo uma proteção térmica tardia contra a umidade que ainda pairava no ar após a passagem da tempestade.Bento dormia profundamente a poucos metros de nós, encolhido no feno, com o rostinho relaxado e o cavalo de madeira firmemente abraçado ao peito. A calmaria matinal contrastava de forma violenta com o furacão de emoções que havia nos consumido na noite anterior.Mas o que
O som da tempestade lá fora já não parecia pertencer ao mundo real; era como se a própria terra estivesse desabando em um rugido contínuo, engolindo qualquer resquício de sanidade que ainda pudesse restar naquele celeiro abandonado. Mas dentro de mim, no epicentro exato onde o meu corpo colava-se ao de Vicente, havia um incêndio muito mais voraz e destrutivo do que qualquer temporal que caísse sobre os campos de Alvorada.A boca dele exercia sobre a minha um fascínio magnético, quase doloroso. Cada movimento dos seus lábios, cada centímetro de pele que roçava na minha, feria e curava ao mesmo tempo. A respiração de Vicente misturava-se à minha, quente, irregular e desesperada, formando uma névoa invisível de pura combustão na penumbra daquele canto escuro.Quando ele aprofundou o beijo, deslizando a mão firme da minha cintura para a base da minha nuca, os meus dedos cravaram-se instintivamente nos ombros largos da sua camisa de linho encharcada, puxando-o para mais perto, como se o ox
O som da chuva batendo contra a lataria da caminhonete era ensurdecedor, parecendo o tambor de uma guerra implacável travada contra o teto de metal. Dentro da cabine, a penumbra era cortada apenas pelos relâmpagos intermitentes que pintavam o painel e os nossos rostos com um tom azulado e fantasmal. O motor havia morrido de vez, sufocado pela argila vermelha que engolira os eixos até a metade. Estávamos ilhados, presos no meio de uma estrada deserta, tragados por uma tempestade de proporções apocalípticas.Virei-me para o banco traseiro, sentindo o coração apertar-se de aflição.Bento havia acordado com o solavanco violento e o barulho do temporal. Ele estava sentado no meio do estofado, encolhido e abraçado ao seu cavalo de madeira, com os olhinhos arregalados de puro pavor na escuridão, soltando pequenos soluços abafados que mal conseguiam ser ouvidos acima do estrondo dos trovões.— Ei, meu amor... shh, está tudo bem... — sussurrei com a voz trêmula, virando o corpo o máximo que o
O eco do baque do corpo do prefeito Otávio Sampaio contra o chão de paralelepípedo ainda parecia vibrar no ar daquela tenda VIP, mas o resto do mundo ao nosso redor havia simplesmente estagnado em um silêncio absoluto e reverente. Ninguém ousou se mover. Ninguém ousou erguer a voz. A aura de perigo letal que irradiava de Vicente Albuquerque era uma força tão palpável e sufocante que afastava até os mais corajosos curiosos como se fossem folhas secas ao vento.Mas eu não tinha tempo para admirar o poder intimidador daquele homem ou a forma absolutamente sumária como ele acabara de esmagar a soberba de um político corrupto. O meu cérebro disparou todos os alarmes de emergência. A cena escandalosa que acabáramos de protagonizar sob os olhares de centenas de pessoas da alta sociedade local era exatamente o oposto de tudo o que eu precisava para continuar escondida. Em poucas horas, fofocas correriam pelas redações dos jornais regionais e, pior, podiam ecoar até a capital, atraindo a atenç
O tecido de seda pura parecia deslizar contra a minha pele como uma água fresca e pesada, moldando-se ao contorno do meu corpo com uma precisão cirúrgica que eu não experimentava desde a noite em que abandonei os salões de gala da capital. Quando terminei de fechar o zíper lateral do vestido verde-esmeralda e olhei para o reflexo no espelho emoldurado de madeira escura do meu quarto, o fôlego fugiu instantaneamente dos meus pulmões.A "Míriam" de calças jeans empoeiradas, blusas largas e cabelos presos em rabo de cavalo despojado havia desaparecido por completo. No lugar dela, encarando-me através do vidro, estava um fantasma perigoso: Helena Valadares. O corte midi do vestido valorizava a esbeltez da minha silhueta, as mangas longas bufantes davam um ar de elegância aristocrática, e a cor esmeralda contrastava de forma dramática com a palidez da minha pele e o tom escuro dos meus cabelos, que agora caíam em ondas suaves e polidas sobre os meus ombros. Nos pés, calcei um par de sapato
A rotina na Fazenda Alvorada tentava restabelecer um compasso de normalidade, mas havia uma eletricidade latente no ar, uma vibração invisível que anunciava que o mundo exterior estava prestes a colidir com a nossa trégua frágil. Os dias que se seguiram à revelação do detetive nas mãos de Lorena e à minha recuperação parcial do ombro ferido foram marcados por um silêncio tenso. Eu podia sentir o olhar de Vicente queimando na minha nuca em vários momentos, uma mistura de carência reprimida, desconfiança persistente e uma atração magnética que nenhum de nós ousava nomear em voz alta.A calmaria, no entanto, foi bruscamente interrompida em uma terça-feira cinzenta, quando os preparativos para o evento mais esperado do ano na região tomaram conta de todos os cantos da propriedade.Tratava-se da tradicional Festa Rural da cidade vizinha — uma feira anual que reunia criadores de gado, produtores de grande porte, autoridades locais e famílias inteiras em um misto de feira agropecuária, leilõ







