LOGINPego minha agenda, a garrafa de água e me levanto, deixando o drama amoroso de lado para me concentrar nos problemas profissionais.
Pelo menos esses costumam vir com prazo e, na maioria das vezes, uma solução.
Quando me aproximo da sala de reuniões, olho discretamente pela parede de vidro e vejo Maia, Silas e Lewis conversando lá dentro.
Maia é uma das advogadas mais antigas do escritório. Gosto dela, de verdade, mas costumo manter certa distância porque a curiosidade dela não tem limites. Ela não tem a menor vergonha de perguntar o que quer saber, mesmo quando a pergunta não é da conta dela. E o pior é que sempre consegue fazer isso com um sorriso tão simpático que você se sente até constrangida de não responder.
Silas, por outro lado, é mais reservado. Embora eu suspeite que seja tão curioso quanto Maia, ele tem o bom senso de guardar as perguntas para si mesmo. Ou, pelo menos, de esperar uma oportunidade melhor.
E então tem Lewis.
Ah, Lewis.
O homem cujos olhos castanhos conseguem me irritar antes mesmo de ele abrir a boca. Aquele cuja expressão parece se fechar automaticamente quando entro no mesmo ambiente. E que, pelo movimento quase imperceptível dos lábios, parece ter acabado de se arrepender de alguma coisa no exato momento em que me vê pela janela.
Lewis é bonito. Notei isso na primeira vez que o vi, infelizmente. É o tipo de beleza que chama atenção sem precisar fazer muito esforço. Tem um sorriso bonito e uma maldita covinha que, sinceramente, deveria ser considerada um crime.
Mas é o meu maldito inferno astral.
Não que a gente tenha uma daquelas relações em que duas pessoas se odeiam. Não. Seria até mais fácil se fosse assim.
Não conversamos a menos que seja necessário. Não procuramos a companhia um do outro, não puxamos assunto e, se existe outra pessoa no escritório com quem podemos falar, escolhemos essa pessoa. Sempre.
É quase impressionante como conseguimos manter uma convivência perfeitamente civilizada sem trocar mais de três frases por dia.
Entro na sala.
— Boa tarde.
Maia e Silas, que estavam entretidos na conversa, viram o rosto na minha direção e respondem ao cumprimento antes de voltarem ao assunto. Escolho uma cadeira e me acomodo, organizando a agenda e a garrafa de água à minha frente.
Lewis não responde.
Claro que não.
Ele nunca responde quando sou eu quem fala. Mas sempre olha. E, quando olha, tensiona o maxilar como se a minha presença fosse uma inconveniência que precisa suportar por obrigação.
Isso me irrita mais do que deveria.
Sei que não posso agradar a todo mundo, e não faço questão disso. Mas, sinceramente, nem sei por que ele não gosta de mim. Nunca fiz nada contra ele. Pelo menos, não que eu me lembre.
Ele não me trata mal, não é grosseiro na frente dos outros, não faz comentários desagradáveis. Só me ignora.
Talvez eu devesse agradecer. Poderia ser bem pior.
Aos poucos, o restante da equipe chega, e a reunião começa.
Passamos pela revisão das atividades da semana, discutimos os casos em andamento e levantamos os problemas que precisam de atenção nos próximos dias.
É uma rotina que conheço bem.
— Temos uma audiência se aproximando, e ainda precisamos definir como vamos apresentar a questão dos documentos — explica um dos colegas, projetando algumas informações na tela. — A outra parte está insistindo que não teve acesso ao material dentro do prazo.
Folheio minhas anotações.
— Podemos demonstrar que a comunicação foi feita e que houve tempo suficiente para a análise. Mas eu não usaria isso como argumento principal. Acho melhor organizar a cronologia dos acontecimentos e deixar claro em que momento a outra parte recebeu cada documento.
— E se alegarem que o material estava incompleto? — Lewis pergunta.
— Podemos anexar os comprovantes de envio e confrontar as datas com as manifestações apresentadas depois — respondo. — Se eles utilizaram informações daquele material em uma petição posterior, fica mais difícil sustentar que não tiveram acesso a ele.
Lewis apoia os braços sobre a mesa.
— Isso demonstra que receberam alguma coisa. Não necessariamente que receberam tudo.
Pisco.
— Eu sei.
— Então precisamos ter cuidado para não tratar uma coisa como se fosse a outra.
Respiro fundo.
— Foi exatamente por isso que eu sugeri organizar a cronologia e conferir os documentos individualmente.
Ele olha para minhas anotações.
— Você já verificou todos?
A pergunta é perfeitamente razoável.
O problema é o tom. Ou talvez seja a expressão. Ou o fato de que ele parece sempre esperar que eu tenha deixado passar alguma coisa.
— Não, Lewis. Resolvi apresentar uma estratégia para um processo sem verificar nada antes. Achei que seria divertido improvisar diante de uma equipe inteira de advogados.
— Olivia — ele diz, com aquela calma irritante —, estou perguntando porque precisamos ter certeza.
— E eu estou respondendo porque sei disso.
O silêncio que se segue é curto, mas suficiente para me fazer perceber que a conversa deixou de ser apenas sobre o processo.
Parabéns, Olivia. Mais uma reunião perfeitamente normal.
O coordenador da equipe intervém antes que eu encontre outra resposta atravessada.
— Certo. Vamos conferir os comprovantes e cruzar as datas. Se houver alguma inconsistência, ajustamos a estratégia antes da audiência.
Assinto e volto às minhas anotações.
A discussão prossegue. Lewis apresenta uma observação sobre o prazo, eu acrescento uma alternativa, e, em poucos minutos, estamos novamente construindo a estratégia juntos.
É quase ridículo.
Porque ele é bom. Muito bom.
Analisa os problemas com rapidez, identifica riscos que outras pessoas não percebem e consegue antecipar os argumentos da parte contrária. Quando estamos discutindo um caso, minha cabeça acompanha o raciocínio dele com uma facilidade que chega a ser irritante.
— Se incluirmos os comprovantes de recebimento, podemos separar o que foi efetivamente entregue do que ainda precisa ser esclarecido — digo, apontando para a tela.
Lewis observa a sequência de datas.
— E solicitar que a outra parte especifique quais documentos afirma não ter recebido.
— Exatamente.
Ele faz uma anotação.
— Assim evitamos discutir uma alegação genérica.
— Finalmente estamos falando a mesma língua.
O canto da boca dele se move.
Quase um sorriso.
Quase.
***
No corredor, alcanço Maia, que caminha na mesma direção.
— Você e Lewis trabalham muito bem juntos — ela comenta.
Olho para ela.
— Desculpa?
— Você ouviu.
— Ouvi. Só estou tentando entender se você assistiu à mesma reunião que eu.
Maia ri.
— Vocês discordaram, discutiram a estratégia e terminaram com uma solução melhor do que a proposta inicial. Isso é trabalhar bem juntos.
— É o trabalho dele. E o meu. Não significa que sejamos amigos.
— Eu não disse que vocês eram amigos.
Ela sorri daquele jeito simpático que sempre me deixa desconfiada.
— Só acho curioso.
— O quê?
— Vocês quase não conversam fora das reuniões, mas, quando começam a discutir um caso, parece que já sabem o que o outro está pensando.
Paro diante da minha sala.
— Isso se chama competência profissional, Maia.
— Claro.
Ela continua sorrindo.
— Não comece. Você está com a mesma cara que faz quando descobre alguma fofoca e está tentando decidir se deve contar para alguém.
Maia leva a mão ao peito, fingindo indignação.
— Eu jamais faria isso.
— Você fez isso ontem.
— Aquilo era uma informação importante.
— Era sobre o divórcio da vizinha do Silas.
— E daí? Ela é cliente do escritório?
— Não!
— Então não vejo o problema.
Eu a encaro por alguns segundos antes de cair na risada.
Maia aproveita para se despedir, provavelmente satisfeita por ter conseguido me distrair da minha própria irritação.
Entro na sala e fecho a porta, tenho coisas mais importantes para fazer. Como, por exemplo, descobrir quem será o homem que vai fingir ser meu namorado no casamento da minha irmã. Porque, considerando a minha sorte, tenho quase certeza de que essa vai ser a parte fácil.
O elevador começou a descer e, antes que as portas se abrissem no estacionamento, meu celular vibrou dentro da bolsa com uma mensagem da minha mãe.“Pode me ligar quando estiver livre?”Suspirei ao ler a notificação.Minha mãe tinha uma relação bastante particular com a palavra livre. Na cabeça dela, “livre” significava qualquer momento em que eu não estivesse segurando alguma coisa com as duas mãos. E, mesmo nesses casos, ela provavelmente consideraria que eu poderia usar o ombro para apoiar o telefone.— Tudo bem se eu ligar para minha mãe enquanto vamos ao restaurante? — perguntei a Lewis, segurando o celular na palma da mão. — Ela é um pouco insistente.Ele olhou para mim de lado.— Claro. Desde que não se importe comigo ouvindo a conversa.— Ah, não. Provavelmente é alguma besteira.Apertei o botão para ligar antes que pudesse mudar de ideia. Minha mãe atendeu no segundo toque.— Olha só quem está viva!Fechei os olhos por um instante.— Oi, mãe.— Você ainda está trabalhando?—
Passei o dia sem encontrar com Lewis, e se alguém me perguntar se eu o estava evitando, vou negar até a morte.O encontrei na copa com Mason, e troquei de rota. Depois o vi entrar na sala da Maia, bem quando eu ia falar com ela, e desisti na hora. E tenho quase certeza que ele tentou falar comigo na hora do lanche da tarde, mas eu saí de fininho como a grande covarde que sou.Às cinco e quarenta da tarde, eu já tinha lido o mesmo parágrafo de uma petição quatro vezes sem entender uma palavra.Não era culpa do texto. O texto estava ótimo. Claro, objetivo e sem qualquer referência a namoros falsos, ex-noivos infiéis ou beijos impulsivos em restaurantes.Uma obra-prima da literatura jurídica.Meu celular vibrou ao lado do teclado.Lewis: Sala de reuniões. Cinco minutos.Olhei para a mensagem, depois para o relógio.Eu: Você sempre dá ordens assim ou isso faz parte do pacote de namorado?A resposta chegou antes que eu pudesse guardar o celular.Lewis: Quatro minutos.Revirei os olhos.O h
À meia-noite, mandei uma mensagem para Julie dizendo que precisava conversar com ela pessoalmente. O quanto antes.Às seis da manhã, ela apareceu na minha porta com café, donuts e a expressão de quem estava prestes a descobrir o maior escândalo da semana.Minha casa nem fica no caminho do trabalho dela, mas Julie nunca economizou esforços quando o assunto era se meter na minha vida.Eu a amo por isso.Na maioria das vezes.— Certo. Deixa eu ver se entendi. — Ela se senta no sofá, ainda mastigando um donut. — Você surtou na frente do Josh, beijou Lewis, que, vale lembrar, é alguém de quem você não gosta e que também não parece gostar de você… e agora vocês estão namorando de mentira?Fico olhando para o cappuccino entre minhas mãos.Quando ela coloca dessa forma, parece ainda pior.— Resumindo, sim.Julie mastiga devagar, como se estivesse tentando decidir se ri ou se chama uma ambulância.— Meu Deus, Liv.— Eu sei.— Não, você não sabe. Se soubesse, não teria feito isso.— Obrigada pe
O primeiro encontro foi horrível, odiei cada minuto. Mas imaginei que o segundo seria melhor... Acontece que o segundo também é um desastre.O restaurante é aconchegante demais para uma noite tão ruim. Luz âmbar, velas baixas nas mesas, um violão suave tocando em algum canto, cheiro de pão quente e alho. Um cenário que pede conversas longas e olhares demorados. Em vez disso, estou presa há quarenta minutos a um monólogo sobre placas de vídeo.Evan tem trinta anos e é bonito, não dá para negar. Cabelo escuro bem cortado, camisa azul-marinho de bom caimento, um relógio discreto no pulso. O problema é que, em menos de dez minutos, descobri que a paixão dele por computadores e jogos não desperta em mim absolutamente nada além de vontade de conferir as horas.Ele gesticula enquanto fala, os dedos desenhando no ar algo que imagino ser uma arquitetura de processador. Eu apoio o queixo na mão e assinto no que espero ser os momentos certos.— ...e aí a atualização quebrou tudo, porque eles mex
Entrei no escritório naquela manhã com a sensação de que havia cometido um pequeno delito.A culpa era de um batom vermelho e de um encontro depois do expediente que revirava meu estômago desde a noite anterior.O batom era daqueles que não passam despercebidos. Exigem confiança e, principalmente, coragem para não acabar removido com um guardanapo antes do almoço. Só o passei porque a Jullie insistiu até eu ceder. Combinava com a blusa preta de gola alta, a saia off white de alfaiataria que marcava minha cintura e os saltos que eu reservava para dias em que precisava parecer mais confiante do que realmente me sentia.Aquele dia tinha um motivo. E, se tudo desse certo, ninguém ali precisaria saber qual.— Meu Deus.Mal havia pousado a bolsa na cadeira quando a voz de Maia soou às minhas costas.— O quê? — perguntei, virando-me.Ela estava parada na entrada, com uma caneca de café na mão e a expressão de quem acabara de encontrar uma fofoca e decidia por onde começar.— Você está vestid
Assim que consigo sair dessa espiral depreciativa, pego o celular e mando uma mensagem para Julie.Olivia: adivinha quem acabou de receber um convite de casamento da irmã com direito a acompanhante que não tem? uhuu!Ela responde quase imediatamente.Julie: NÃO BRINCA.Julie: Você não pode aparecer lá sozinha. O que você falou pra sua irmã?Olivia: Eu disse que estava saindo com alguém. NÃO PRECISA FALAR NADA, EU SEI. ENTREI EM PÂNICO.Largo o telefone na mesa antes que ela tenha tempo de responder. Conhecendo Julie, isso pode levar a uma conversa bastante longa, e tenho documentos da conciliação de divórcio que vou conduzir no fim da tarde para analisar.Eu odeio divórcios. São o tipo de processo em que prefiro não me envolver, embora nem sempre tenha esse luxo. De vez em quando, especialmente quando o volume de demandas aumenta, acabo tendo que assumir alguns. E, bom, não dá para escolher só os casos agradáveis da profissão.Estou tentando me concentrar nos documentos quando a tela







