ANMELDENQuando terminei a narrativa, percebi que precisaria de uma coletânea diferente para anexá-lo, era muito “gutural” para ser colocado juntamente com alguns contos açucarados de romance. Criei uma nova página, intitulando de “Histórias para ler no escuro”, e o coloquei, reservando o espaço para alguns contos um pouco mais violentos.
Fechei o notebook, e esfreguei os olhos, sentindo-os cansados. Pensei no trabalho videográfico que precisaria fazer em algumas horas e bocejei sonolenta, estava feliz por ter concluído o conto, mas cansada por quase não ter dormido aquela noite.
Peguei meu celular, notando as mensagens do grupo e observei a previsão do tempo, percebendo que o clima iria ficar um pouco mais ameno. Sabendo disso, caminhei em direção ao guarda-roupas e escolhi uma calça jeans clara, combinando-a com uma camiseta branca, um conjunto casual que não chamaria muita atenção.
Peguei minha bicicleta, pedalando pela via destinada aos ciclistas e respirei fundo o ar fresco do início de primavera, pensando em como era um excelente momento para iniciar uma nova etapa em minha vida. Não iria para o mesmo estúdio de costume, aparentemente, este era um pouco mais barato, porém, eu não sabia exatamente onde ficava, então, levei algum tempo até encontra-lo, mesmo tendo o endereço.
“Devia ter pedido um ponto de referência...” Refleti comigo mesma enquanto pedalava pelas ruas, procurando por um estúdio de paredes rosadas.
Quando finalmente encontrei o local, alguns dos nossos colegas já haviam chegado, e começavam a organizar seus trabalhos, não podendo esperar os outros membros que estavam atrasados. Sorri, sentindo-me desconcertada, e acenei enquanto procurava por algo que pudesse fazer para ajuda-los.
Mesmo antes de iniciar a graduação nas artes, ao que parecia, eles e Mari já eram amigos, acolhendo-me gentilmente no grupo que era composto por quatro membros, cada um dominante em áreas específicas. O primeiro deles com quem tive contato foi Noah, um rapaz de descendência coreana, seu rosto era bonito e tinha bolsinhas charmosas sob os olhos. Ele era o músico do grupo, voltado para os instrumentos clássicos, em especial o violoncelo.
Era sempre impressionante vê-lo praticando.
Alisson era nossa fotografa, conhecia muito de tecnologia e geralmente fazia os retoques digitais nos trabalhos, seu temperamento altivo às vezes, fazia com que tomasse as decisões por conta própria, precisando retrucar com a Mari.
E falando nela, Mari é uma excelente pintora, seu foco era voltado ao estilo renascentista e por vezes, havia até mesmo, sido mencionada em algumas palestras dadas pelos professores. Era minha melhor amiga, sincera e confiável.
Desde que havia me mudado, estava um tanto fechada para o mundo, conseguindo me aproximar apenas dela, sendo que praticamente fui “capturada” por sua energia contagiante. Em Abilene, eu havia deixado alguns bons e antigos amigos, que havia feito na igreja, pessoas boas e gentis, mas que se encontravam em estado tão “sugestionável” quanto o meu.
Sai dos meus devaneios quando vi as portas de vidro se abrindo, chamando a minha atenção, olhei naquela direção e arregalei os olhos, quase sem acreditar na pessoa que entrava no estúdio ao lado de Mari. Era o mesmo rapaz que havia visto na noite de natal, sua fotografia ainda estava anexada em meu mural, e eu tinha certeza de que era a mesma pessoa.
Nunca me enganaria com aquele rosto.
– Lindinhos... – Mari comentou com um sorriso enorme, apoiando as mãos nos ombros magros do recém-chegado. – Este é o Michel, calouro da nossa faculdade.
– Cuidem bem de mim... – Ele pediu com um sorriso tímido, e observou ao redor com seus grandes olhos azuis. – Espero que a gente se dê muito bem.
A parte “língua solta” do meu cérebro queria loucamente conversar com ele, questionar o porquê de estar com tanta pressa naquela noite. Porém, me detive ao perceber os sinais de ansiedade que seu corpo estava apresentando, as mãos apertando uma à outra, e os leves tremores, que quase passavam despercebidos.
Michel tinha um rosto jovial, deveria ter no máximo dezoito anos, parecia um pouco desconcertado com aquele grupo – eu inclusive, ainda não sabia o motivo da inclusão dele –, estava sentado no cantinho, quase escondido e a todo momento, seus olhos voltavam-se ao celular, como se estivesse esperando uma ligação importante.
Fui tirada dos meus devaneios quando notei minha melhor amiga, totalmente alheia à minha curiosidade, caminhando pelo estúdio, e parando em frente a uma mesa desmontável, sobre ela, abriu seu grande estojo de maquiagem artística, voltando-se a mim com um sorriso cheio de dentes.
– Cobaia um e dois, aproximem-se, por favor... – Mari chamou rindo de sua própria piadinha, e sinalizou com a mão para Michel e eu.
Arqueei uma sobrancelha indagadora, tentando entender seus planos, e acabei fazendo uma negativa com a cabeça enquanto obedecia a seu pedido, notando que o loirinho fazia o mesmo, sentando-se ao meu lado. Não tive tempo para questionamentos, pois, assim que me sentei numa das cadeiras, ela começou a maquiagem, praticamente enchendo meu rosto de base e corretivos.
O roteiro da apresentação, desde o rascunho, contaria com uma modelo, eu sabia que alguém faria esse trabalho, mas em momento nenhum, foi acordado que seria eu a fazer isso. Era a cara dela manter segredo sobre coisas como aquela, então, nem fiquei tão surpresa assim.
Aproveitando a proximidade, observei o jovem loiro de soslaio, sorrindo ao vê-lo tingir seus próprios cabelos com uma tinta verde não permanente. Ele parecia tão entretido em seu trabalho que sequer notou que estava sendo observado, então fiquei tentada a continuar, e teria o feito, se não fosse por Mari puxando meu rosto para cima, reclamando da postura “torta”.
Quando a maquiagem finalmente ficou pronta, olhei meu rosto no espelho e fiquei um pouco surpresa pois, estava irreconhecível. Franzi as sobrancelhas enquanto analisava minha pele que estranhamente parecia não ter poros e a única coisa que conseguia pensar era no quanto minha aparência parecia insólita.
Meus olhos também estavam “diferentes” do que poderia ser considerado normal, a ideia de representar um ser não-humano estava sendo levada realmente a sério, então colocamos um par de grandes lentes de contato de cor cinzenta, quase branca.
“Estou mais para espirito maligno dos filmes coreanos.” Refleti comigo mesma, rindo dos meus próprios pensamentos enquanto ainda fitava o espelho.
Parei de devanear – não tínhamos muito tempo para isso –, e levantei-me, começando a vestir meu figurino, um vestido forrado de tecidos de cor branca e transparente, muito semelhante as roupas usadas pelos romanos na antiguidade. E ao terminar, sentei-me próximo à fonte que havíamos criado no dia anterior, quase totalmente montada a mão e preenchida com água e algas esverdeadas.
Poderíamos usar uma tela verde como croma, e fazer as edições com computação gráfica, porém, optamos pelos efeitos práticos que, apesar de ser um processo muito complicado e cansativo, era mais eficiente levando em consideração nosso orçamento modesto de estudantes.
Sentei-me com dificuldade sobre as pedras, temendo que meu peso não fosse suportado pela construção já que havíamos testado apenas quando a “piscina” estava vazia, e depois de alguns minutos de suspense, percebi que estava em uma posição aparentemente perfeita para evitar qualquer desastre. Deitei os braços sobre as pedras, apoiando o rosto na parte seca e voltei meus olhos ao rapaz que se aproximava pronto para seguir meus passos.
Afastei-me um pouco, dando espaço para que se acomodasse ao meu lado e sorri ao vê-lo contornar com os braços magros um dos jarros que pintamos de branco, ficando com o rosto colado ao material frio e áspero. Aparentemente, estava tímido e corava, mas mantinha-se disposto a fazer o que lhe era pedido.
- Aliás, porque exatamente somos os modelos? Questionei arqueando uma sobrancelha, fitando-a com meus olhos agora, um tanto assustadores.
– Pareceu perfeito aos meus olhos técnicos! Mari exclamou animada, sem nenhuma vergonha na cara e pouco se importando com minha tentativa de assustá-la. – Seus cabelos verdes me deram a ideia, ele aceitou tingir também...
Fiz uma negativa com a cabeça, mas ri baixo concordando, não tinha como disputar com Mari pois, ela tinha os melhores e mais sinceros argumentos.
– Você tem vergonha? Questionou de repente, franzindo as sobrancelhas e parecendo ter percebido isso apenas naquele momento. – É sempre tão espontânea...
– Sim... – Respondi o que para mim era obveio, e percebendo que não era a primeira vez que ouvia aquela frase, o que me fez começar a questionar como eu passava aquela imagem sem querer.
– Você devia ter me dito antes se não queria... – Mari comentou, o sorriso sumindo um pouco de seu rosto, e coçou a nuca parecendo desconcertada.
– Esqueça isso... – Murmurei ajeitando a postura, e voltei meus olhos ao loirinho, sorrindo de canto para não o deixar desconfortável. – E já estamos arrumando de qualquer forma....
Michel me fitou também, seu rosto corou novamente, mas sorriu fechando os olhos e me mostrando seu aparelho ortodôntico tão branco quanto seus dentinhos alinhados já quase perfeitamente.
Nada mais foi dito, e em seguida, Alisson começou a tirar algumas fotografias de ângulos diferentes, pedindo que nos movêssemos um pouco para que ela pudesse capturar fremes diferentes pois, faria algo semelhante a um “gif” com efeito prático. Ao seu lado, Noah iniciava a melodia de uma música clássica familiar, mas que não consegui lembrar o nome, ele parecia estar gravando para anexar no nosso trabalho.
Quando terminou as fotografias, Alisson começou a fazer pequenos vídeos, tanto do rapaz sentado tocando o violoncelo com seus olhos fechados, totalmente imerso em sua música, quando de Mari enquanto fazia a nossa pintura. Essa última parte, seria exposta como sendo os “bastidores” do nosso curta metragem.
Éramos um grupo diverso, de fato, porém, cada membro do grupo desempenhava uma função importante. Tínhamos uma maquiadora especializada em efeitos práticos, um músico, uma fotografa, uma aspirante a escritora, e a partir daquele momento teríamos mais um fotografo, o Michel.
Uma coincidência e tanto, juntamente a pessoa que fotografei as escondidas, era amante de fotografia. Além disso, eu não sabia mais nada sobre ele, e por ser tão misterioso, atiçava ainda mais minha curiosidade.
Quando a sessão terminou, começamos a arrumar o estúdio antes de sair, para não levar bronca do dono já que havíamos alugado apenas por algumas horas por dia. Mari apressou-se em sair para comprar lanches para nós, dizendo que como a líder, via-se na obrigação de nos alimentar e sumiu, deixando-me tentando tirar o figurino e a maquiagem.
Ergui o vestido, tirando-o com cuidado para não o danificar já que também era alugado e quando olhei ao redor, tentando arrumar meus cabelos que ficaram parecendo um ninho de pássaros, foi que percebi o que estava fazendo.
Havia dois rapazes na sala, e esqueci completamente deles.
Eles continuavam seus afazeres, não se importando muito com a cena que eu estava fazendo, sendo Noah o único que sorriu de canto, parecendo não ver problema algum naquela situação.
– Não se preocupe, estamos no mesmo time! Ele explicou piscando apenas com um dos olhos, apontando o loirinho e a si mesmo.
– É comigo que você tem que se preocupar, gata! Alisson comentou em tom de brincadeira enquanto me mandava “beijinhos voadores”.
Inclinei a cabeça para o lado, arregalando os olhos e franzindo a testa, sem perceber a expressão engraçada que estava fazendo, então ambas rimos, era impressionante perceber que fazia parte de um grupo lgbtq+ e nem havia percebido.
Contudo, não demorei muito tempo para perceber o pequeno drama que estava fazendo sem querer com meu silencio. Cocei a nunca, sorrindo sem graça e me apressei em explicar antes que deixasse a situação mais desconfortável.
– Desculpe-me, só fiquei um pouco surpresa... – Murmurei procurando as palavras corretas para não acabar sendo grosseira. – A vida é de vocês, e eu não tenho que achar nada com relação a isso.
E me calei, já havia me complicado o suficiente.
Alisson desatou a rir quando ouviu minhas palavras, fazendo um gesto com a mão que indicava que me acalmasse enquanto secava as lágrimas que umedeciam suas bochechas, mas felizmente não eram de tristeza.
– Como não conseguiu perceber? Questionou-me depois de recuperar o folego perdido e fez uma expressão de curiosidade. – Você foi bem lenta hein...
– Eu vivo errando... – Reclamei lembrando-me de um professor que poderia jurar que era gay e na verdade, era hetero e tinha uma namorada. – Os conceitos pré-estabelecidos me confundem muito.
Ela riu novamente, mas concordou.
Nesse momento, Mari irrompeu pelas portas de vidro trazendo consigo algumas sacolas de um café que ficava em algumas quadras.
– O que eu perdi?
Depois de tudo o que aconteceu, precisei ficar alguns dias internada no hospital para tratar uma inflamação no estomago causada pelos socos, como estava medicada a maior parte do tempo, não sentia dor, mas a angustia em não poder ver Dylan era o pior. Ele havia passado por cirurgias por cauda das facadas, sua parceira de ação, Hanna, havia me visitado, contando sobre seu estado de saúde que era estável, mas não conseguiu me acalmar. Mari passava a maior parte do tempo ao meu lado, tendo que ser praticamente expulsa pelos médicos, quando o horário de visita acabava, o que sempre me fazia rir de suas carinhas de cachorro sem dono dela. Meus pais eram outros que sempre estavam por perto, não queria contar para eles sobre o incidente, inicialmente, para não os preocupar, mas depois de um tempo, percebi que seria pior se descobrissem depois. Tenho feito muito, mesmo estando presa naquele hospital, trabalhei em meu romance, usando como base o manuscrito que fiz na noite de bebedeira, e não
Devo ter desmaiado em algum momento pois, quando acordei estava dentro de um galpão escuro, ouvia choros, havia muitas mulheres que pareciam jovens ao meu redor, o ambiente estava muito quente, e a única luminosidade vinha de uma porta de metal entreaberta. Quando meus olhos finalmente se acostumaram à penumbra, percebi a presença de Sophia, fazendo meu sangue ferver.Gritei me estatelando no chão empoeirado, e a xinguei de todos os nomes que me vieram à cabeça, como meus braços estavam amarrados para trás, a única coisa física que consegui fazer foi chutar as grades que nos prendiam. Estávamos dentro de uma maldita gaiola.As outras moças começaram a chorar ainda mais, fitei seus rostos joviais por sobre a penumbra, percebendo que eram muito novas, e fiquei ainda mais enojada por uma mulher ser capaz de participar de algo tão hediondo.– Não gas
Azárya Depois de três dias, tendo me acertado com meus pais e reencontrado alguns dos meus antigos educandos, percebi que precisava retomar minha vida acadêmica, ou acabaria reprovando, então, depois de uma choradeira e promessas de que passaria o natal com eles, voltei para Nova York, sendo recebida na rodoviária por um abraço caloroso de Mari. – Tenho tanto para te contar... – Murmurei sorrindo enquanto a acompanhava, ajeitei a alça da mochila sobre o ombro e suspirei feliz. – Sinto que tirei um peso das minhas costas depois de conversar com a minha mãe, agora ela e meu pai já sabem de tudo, e resolvi minha situação com Neuza também. Mari ouvia tudo, balançando a cabeça em concordância, e ao ouvir sobre meu desfecho de novela mexicana com a ex-diretora, soltou alguns palavrões, mas ainda assim, continuou ouvindo e rindo com meus comentários. – Cadê minha pipoca? Ela questionou retoricamente, ainda divertindo-se muito com o que ouvia,
DylanO dia estava escaldante naquela manhã de verão, e para piorar a situação, eu ainda precisava ficar a postos no estacionamento perto dos carros, sendo que a lataria quente deixava tudo ainda pior. Olhei ao entorno, sentindo que estava apertando a mandíbula involuntariamente, procurei por um cigarro em meus bolsos, mas não encontrei nenhum, o que apenas me deixou ainda mais ansioso. Gale, há alguns metros de distância, parecia me observar em silencio, o que estava em sua mente era óbvio: ele não confiava em mim.Eu estava ciente disso desde a primeira vez que o vi, porém, dessa vez, ele não estava fazendo o menor esforço para esconder.Fui tirado dos meus devaneios quando uma chave foi jogada em minha direção, voltei meus olhos para Scar que havia acabado de sair de dentro do galpão e esperei suas ordens, já podendo imaginar que tratava-se de
Azarya...Os desmaios não são como nos filmes, durante os quais se fica desacordado por horas, pelo contrário, foi muito mais rápido do que imaginei, e quando voltei a mim, ainda estava na igreja, sendo amparada pelo marido de Neuza, que inclusive não consigo recordar o nome de jeito nenhum, ele me segurava com cuidado, seu rosto lívido de preocupação enquanto a minha irmã – tão apavorada quanto ele –, usando um pano embebido em álcool, tentava me acordar.Senti-me no chão, atordoada e precisei de alguns minutos para enfim, processar o que estava acontecendo à minha volta. Minha estava chorando alto, sendo amparada pela minha mãe que ostentava uma expressão lívida, como se seu cérebro tivesse travado, não sei se por causa do escândalo com a tão “cristã” mãe de família e coordenadora do gr
Estar com a família de Christopher fez com que eu pensasse cada dia mais sobre a minha, quando eu cheguei em casa naquele dia, depois de ir para o trabalho, sentei-me no sofá pensando se Noah dormiria na casa do namorado aquela noite. Não conversamos muito, fazemos as tarefas domésticas que separados para cada um, e organizamos as contas, mas tirando isso, quase nunca temos contato. Fiquei meu celular, tomando coragem para m****r mensagem novamente para o meu irmão, e depois de algum tempo, finalmente mandei uma mensagem para Matteo, perguntando como ele estava, e para a minha surpresa, a resposta foi imediata novamente, dessa vez, fazendo uma ligação. De repente, como uma epifania, percebi o quanto fui imaturo e cruel, tomando coragem para atenção a chamada, afim de me desculpar corretamente, mas antes, desatei em lágrimas como um idiota. – Eu percebi que você apagou as fotos com Thomas, vocês brigaram? Matteo questionou sua voz tomando um tom séri







