Share

Capítulo 6

Author: Pêra
Mal a voz da enfermeira silenciou, um clamor caótico explodiu no fim do corredor, rompendo a tensão do ambiente.

— Abram caminho! A paciente está perdendo muito sangue, a hemorragia não para! — Gritou um dos socorristas, empurrando a maca com urgência.

Susana sentiu o coração falhar uma batida e, movida por um instinto incontrolável, precipitou-se para fora do quarto. O que viu fez um calafrio percorrer sua espinha, pois a maca deslizava veloz pelo piso de linóleo, deixando para trás um rastro macabro de gotas de sangue que feria a vista. Nathan corria ao lado, colado à estrutura metálica, despido de toda a sua habitual frieza e compostura. Seu rosto estava transtornado, e a voz saía trêmula, carregada de pavor:

— Bianca, aguenta firme! Por favor, olhe para mim, não feche os olhos! — Implorava ele, segurando a mão inerte dela. — Prometo que vou te ouvir daqui para frente, faço tudo o que você quiser... Só não me assuste desse jeito, pelo amor de Deus!

As portas da sala de reanimação se fecharam com um estrondo seco, isolando Bianca do mundo e deixando Nathan do lado de fora. Ele estacou, como se sua alma tivesse sido arrancada do corpo, o peito subindo e descendo em uma respiração irregular e sôfrega. Segundos depois, tomado por um desespero violento, ele bateu a cabeça contra a parede com força, o som surdo do impacto ecoando pelo corredor vazio.

— Se algo acontecer com a Bianca, eu nunca vou me perdoar! — Rugiu ele, ignorando o inchaço que começava a surgir em sua testa.

Sem perder tempo, sacou o celular com as mãos trêmulas e começou a disparar ordens aos gritos:

— Quero os melhores cirurgiões do país aqui agora! Acordem o chefe da anestesiologia, preparem o banco de sangue, quero tudo à disposição dela. Tudo!

Em seguida, discou outro número. A tela iluminada exibia o nome de Thiago.

Thiago Freitas era a maior autoridade em cirurgia de trauma do país, um homem cuja agenda vivia lotada entre cirurgias complexas e conferências internacionais; para um paciente comum, a fila de espera chegava a três anos. Antes mesmo que a chamada fosse completada, Nathan atropelou a saudação:

— Doutor Thiago, aqui é o Nathan. A Bianca sofreu um acidente grave, preciso que venha operá-la agora. Diga o seu preço, eu pago qualquer coisa.

Houve um breve silêncio do outro lado da linha antes da resposta ponderada:

— Estou em Oeiras realizando uma cirurgia demonstrativa. Não tenho como voltar esta noite.

Os olhos de Nathan avermelharam instantaneamente, uma mistura de fúria e súplica:

— O "Sistema de Modelagem Neural Invisível C193"... É seu! — Ofereceu ele, com a voz embargada. — Dou o sistema para você, mas venha agora.

Susana, que observava tudo de longe, sentiu um nó na garganta. Aquele sistema era a joia da coroa do Grupo Ribeiro, uma tecnologia que custara quinhentos milhões em pesquisa e desenvolvimento. Nathan estava entregando, sem hesitar, uma inovação que a medicina internacional mataria para possuir.

A oferta surtiu efeito imediato.

— Estou saindo agora mesmo. — Concordou Thiago.

Nathan murmurou um agradecimento rouco e desligou. A luz fria e estéril do hospital banhava seu rosto, realçando a devastação em seus traços. Susana permaneceu estática, atônita. Jamais havia visto Nathan daquele jeito. Aquele homem desesperado, capaz de trocar um império pela vida de uma mulher, era um completo estranho para ela.

Naquele momento, o chefe administrativo do hospital surgiu correndo, ofegante, limpando o suor da testa com um lenço.

— Senhor Nathan, localizamos câmeras de segurança próximas ao local do incidente. — Informou o funcionário, recuperando o fôlego. — Já resgatamos as imagens, mas precisamos que o senhor venha fazer a confirmação visual.

Nathan nem sequer ergueu a cabeça.

— Não vou. A Bianca está na sala de cirurgia e não saio daqui até ela estar bem.

— Compreendo, senhor, mas a cirurgia vai demorar e sua ausência por alguns minutos não mudará o quadro da senhorita Bianca. O acidente ocorreu nas dependências do hospital e precisamos apurar responsabilidades...

— Eu disse que não vou! — Explodiu Nathan, a voz reverberando pelas paredes. A angústia reprimida se transformou em fúria. — A Bianca está lutando pela vida! O resto do mundo que espere até ela estar salva!

O administrador recuou, intimidado pelo grito, e lançou um olhar de socorro na direção de Susana. Após dois segundos de um silêncio pesado, ela se pronunciou, com a voz suave, mas firme:

— Vou com você ver as gravações.

Na sala de monitoramento, a tela exibia a cena fatídica. A imagem granulada mostrava Bianca com o rosto banhado em lágrimas, atuando com uma fragilidade comovente.

— Sei que não deveria ter voltado... sou apenas um estorvo aqui. — Dizia ela para Nathan no vídeo. — Vá cuidar da Susana. É dela que você deve cuidar, não de mim.

No instante seguinte, num movimento brusco, ela sacou uma lâmina. O metal brilhou sob a luz do sol antes de descer impiedoso sobre o próprio pulso. O sangue jorrou no mesmo segundo em que Nathan do vídeo perdia o controle e se lançava para segurá-la.

Susana desviou o olhar.

Quando retornou para a frente do centro cirúrgico, encontrou Nathan de joelhos no chão frio. Ele mantinha as mãos entrelaçadas com força, os olhos fechados, murmurando uma prece fervorosa:

— Meu Deus, proteja a Bianca. Por favor, guie as mãos dos médicos e a ajude a superar isso.

O homem que sempre fora sinônimo de arrogância e ceticismo agora era a imagem da súplica e do desespero.

Susana sentiu o peso daquela cena esmagar o resto de esperança que ainda nutria. Lembrou-se de quando começaram a namorar; ela o levara a um templo nas montanhas e se ajoelhara até os joelhos doerem, pedindo apenas que ficassem juntos para sempre. Na época, Nathan lançava um olhar de desprezo e, pouco depois, jogava o amuleto da sorte sobre a mesa.

"Superstição. Eu não preciso disso", disse ele com indiferença.

Agora, vendo-o clamar aos céus por outra mulher, Susana compreendeu a verdade amarga que o "para sempre" que ela tanto desejava não passava de uma fantasia solitária. A devoção de Nathan existia, sim, mas nunca era destinada a ela.
Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Quando a Névoa Cede, Nasce o Amanhecer   Capítulo 24

    Dois anos depois, numa tarde suave de primavera.Susana permanecia na varanda de sua nova casa, aquecendo as mãos na xícara de chá de flores que segurava. Embora o apartamento não fosse muito grande, a iluminação era perfeita; naquele instante, o pôr do sol atravessava as portas de vidro, banhando a sala com um tom dourado e acolhedor, quase cor de laranja. No jardim do térreo, as cerejeiras recém-plantadas exibiam suas flores ainda esparsas e, sempre que o vento soprava, um perfume delicado subia até ali.Eduardo se aproximou em silêncio e a abraçou por trás, apoiando o queixo no topo da cabeça dela com ternura.— O que você está olhando com tanta atenção? — Perguntou ele, num tom baixo.— Nada de mais. — Susana se recostou levemente no peito dele, absorvendo aquele calor humano que tanto a tranquilizava. — Só estava pensando que, finalmente, a primavera chegou de verdade.A voz de Susana soava calma, carregando uma suavidade que antes parecia impossível. Contudo, Eduardo sabia que e

  • Quando a Névoa Cede, Nasce o Amanhecer   Capítulo 23

    A maca deslizava pelos corredores do hospital em velocidade vertiginosa rumo à sala de emergência.A bala havia perfurado o tórax esquerdo de Nathan, rasgando tecidos vitais e artérias principais com uma precisão cruel. Apesar dos esforços coordenados da equipe médica, que gritava ordens e injetava drogas vasoativas, os números no monitor cardíaco despencavam em queda livre.Pouco antes de ser engolido pelas portas duplas do centro cirúrgico, no limiar onde a consciência começa a se desfazer na escuridão eterna, a visão de Nathan, turva e fragmentada, conseguiu um último feito milagroso, que foi focar-se.Ele viu Susana. Ela estava logo ali, amparada pelo abraço protetor de Eduardo. O rosto dela não tinha cor, as lágrimas lavavam a fuligem e o sangue em suas bochechas, e seu corpo tremia sem parar. No entanto, os olhos dela estavam cravados nele. Aqueles olhos, que ele conhecia tão bem e que agora transbordavam uma dor dilacerante, tornaram-se o último ponto de luz em seu mundo que se

  • Quando a Névoa Cede, Nasce o Amanhecer   Capítulo 22

    O interior do Galpão 3, na antiga zona de mineração, era um cenário de desolação e penumbra. No centro daquele espaço vasto e opressivo, Susana estava amarrada a uma cadeira de metal fria, enquanto Bianca, com uma pistola antiga e desgastada tremendo em punho, aguardava com uma ansiedade febril a chegada de Nathan e Eduardo. Num canto afastado, dois capangas trocavam olhares nervosos, esfregando as mãos suadas nas calças jeans encardidas.Eles mantinham as cabeças baixas, hipnotizados pela luz dos celulares, na esperança vã de contatar alguém lá fora antes que a situação explodisse. Contudo, quando Nathan e Eduardo surgiram quase simultaneamente na entrada inferior do armazém, qualquer tentativa de fuga ou comunicação congelou.— Droga, a casa caiu... — Murmurou um dos bandidos, a voz trêmula denunciando o medo. — A gente só queria uma grana fácil, não assinar um B.O. desse tamanho.O outro homem, movido pelo instinto de sobrevivência, levou a mão à cintura para pegar o telefone e ped

  • Quando a Névoa Cede, Nasce o Amanhecer   Capítulo 21

    — Por que o Nathan, que eu nem fazia questão, agora rasteja atrás de você? — Continuou Bianca, a voz cortando o ar como vidro quebrado. — Por sua culpa, ele cancelou a parceria da família Ribeiro com a minha. Você roubou tudo o que eu tinha! Se não fosse por você, o Nathan nunca teria mudado. Eu ainda seria a herdeira dos Santos, a invejada Bianca! É tudo culpa sua! Você é uma praga na minha vida!— Você enlouqueceu! — Retrucou Susana, sentindo o terror gelar seus pés diante daquela expressão distorcida. — As escolhas do Nathan são dele. O que eu tenho a ver com os negócios da sua família? Foi você quem...— Cala a boca! — Berrou Bianca, num acesso de fúria, agarrando um objeto pesado que estava sobre uma mesa lateral.O coração de Susana falhou uma batida. Era uma pistola antiga, o metal escuro e oleoso reluzindo sob a luz fraca. Embora Bianca não apontasse a arma diretamente para sua cabeça, a simples presença daquele objeto letal foi suficiente para congelar o sangue nas veias de Su

  • Quando a Névoa Cede, Nasce o Amanhecer   Capítulo 20

    Era o fim de uma tarde que prometia ser comum, não fosse pela urgência de um pedido de casamento que chegou à floricultura em cima da hora, exigindo arranjos com flores específicas que estavam em falta no estoque. Como Eduardo estava preso na livraria, ocupado com o balanço mensal que não poderia ser adiado, Susana verificou o trajeto no aplicativo de mapas e decidiu ir sozinha de bicicleta elétrica até o mercado atacadista de flores, localizado na periferia da cidade.O depósito era mais distante do que ela imaginava e, quando iniciou o trajeto de volta, o céu já havia sido engolido por um crepúsculo cinzento e pesado. Com o cesto da bicicleta carregado de caixas de flores, Susana pedalava por um trecho isolado da estrada quando notou, pelo retrovisor, um furgão cinza e desgastado se aproximando em alta velocidade. O veículo colou na traseira de sua bicicleta de forma agressiva, fazendo o coração dela disparar. Num reflexo de autoproteção, ela tentou desviar para a direita, buscando

  • Quando a Névoa Cede, Nasce o Amanhecer   Capítulo 19

    O crepúsculo caía sobre a cidade e as luzes das ruas começavam a acender, pintando o cenário urbano com tons alaranjados. Susana e Eduardo saíram da livraria, cada um carregando sacolas com novas aquisições, e caminhavam em direção a um restaurante de comida caseira, famoso e escondido no final de uma rua tranquila.Porém, antes que pudessem dobrar a esquina para a travessa do restaurante, um vulto emergiu da sombra de uma grande árvore, bloqueando o caminho.Era Nathan.Ele havia recebido alta recentemente. Sob a luz amarelada do poste, sua palidez era evidente e o corpo parecia mais magro dentro das roupas largas. Seus olhos se cravaram no rosto de Susana com uma intensidade perturbadora, varreram Eduardo brevemente e pararam na proximidade natural e íntima entre o casal. Ele exalava uma tensão rígida que destoava daquela noite agradável.— Susana. — Chamou ele, com a voz áspera. — Precisamos conversar.Susana interrompeu o passo. O sorriso leve que trazia nos lábios desapareceu, dan

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status