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Capítulo 4 — A última noite na Lua de Ferro

Author: Eva Belmont
last update publish date: 2026-10-09 23:14:44

Elara descobriu que fugir de um lugar onde vivera durante vinte e quatro anos era muito mais difícil do que imaginava.

Não por causa da floresta escura, dos caminhos desconhecidos ou dos soldados que poderiam estar procurando por ela.

O mais difícil era continuar caminhando enquanto uma parte de seu coração ainda desejava voltar.

A cada passo, lembrava-se de Darius.

O Alfa que a rejeitara diante de toda a matilha também era o homem que conhecia seus medos, suas inseguranças e seus sonhos. Durante sete anos, Elara havia imaginado que envelheceria ao lado dele.

Agora carregava algumas roupas, uma pequena quantidade de dinheiro e documentos que comprovavam que a própria família Blackthorn havia planejado sua perseguição.

A dor do vínculo incompleto continuava intensa.

Elara apoiou uma das mãos no tronco de uma árvore e tentou recuperar o fôlego.

O céu começava a clarear entre as copas.

Precisava encontrar a estrada dos antigos caçadores antes que as patrulhas chegassem àquela região.

Retirou da bolsa o pequeno frasco entregue por Agatha e tomou a dose recomendada.

O líquido amargo provocou uma sensação de calor em sua garganta.

Depois de alguns minutos, os espasmos diminuíram.

Elara conseguiu continuar.

Não sabia exatamente para onde iria depois de alcançar o rio.

Conhecia apenas as histórias que ouvira sobre o Vale de Aethra, um território abandonado entre os reinos dos lobos e dos dragões.

Agatha havia recomendado que evitasse aquela região.

Mas os caminhos para as matilhas vizinhas estavam controlados pelo Conselho Lunar. Se tentasse pedir abrigo a outro Alfa, poderia ser entregue aos Blackthorn antes mesmo de conseguir explicar sua situação.

A floresta oriental era perigosa.

Entretanto, naquele momento, parecia oferecer uma chance maior de sobrevivência.

Elara caminhou durante quase uma hora até ouvir água corrente.

O rio estava próximo.

Aproximou-se da margem e ajoelhou-se para lavar o rosto.

Quando viu seu reflexo, mal reconheceu a mulher que a observava.

Os olhos estavam inchados.

Havia marcas avermelhadas em seu pescoço, provocadas pela tensão do vínculo.

Os cabelos, antes cuidadosamente arrumados para a cerimônia, estavam presos em uma trança desfeita.

Ela tocou o medalhão de prata escondido sob a blusa.

— Mãe, espero que você tenha razão — murmurou.

A carta de Morgana dizia que sua força não dependia da aprovação de ninguém.

Elara desejava acreditar naquelas palavras.

Mas ainda se sentia como uma mulher abandonada, incapaz de compreender por que não havia sido suficiente para o homem que amava.

O som de cavalos interrompeu seus pensamentos.

Ela ergueu a cabeça.

Vozes masculinas ecoavam entre as árvores.

— O capitão disse que ela seguiu pela passagem dos depósitos.

— Então deve estar perto do rio.

Elara sentiu o sangue gelar.

Guardou rapidamente o frasco e procurou um lugar para se esconder.

Havia uma formação de pedras próxima à margem, parcialmente coberta por raízes.

Ela se abaixou atrás delas no instante em que três cavaleiros surgiram entre as árvores.

Reconheceu os uniformes da Lua de Ferro.

O homem à frente era o tenente Garrick, um dos oficiais da guarda pessoal de Selene.

Elara o conhecia desde a infância.

Quando era pequena, ele costumava levar soldados feridos à enfermaria e agradecer pelos cuidados de Agatha.

Agora carregava uma ordem para capturá-la.

— Encontramos pegadas perto da trilha — disse um dos soldados.

Garrick desmontou.

— Ela não pode ter ido longe. A rejeição deve ter enfraquecido seu corpo.

Elara apertou os dedos contra a terra úmida.

— A senhora Selene quer que seja levada diretamente à torre? — perguntou outro homem.

— Sim. O Conselho determinou custódia preventiva.

— E o Alfa?

Garrick hesitou.

— Recebemos ordens do gabinete da senhora Selene. Não cabe a nós discutir decisões políticas.

O segundo soldado pareceu desconfortável.

— Conheço Elara. Ela nunca atacou ninguém. Não entendo por que precisamos tratá-la como uma criminosa.

— Porque seu pai era um dragão — respondeu Garrick. — Se o sangue dela despertar, poderá se tornar perigosa.

— Mas ela não consegue sequer se transformar.

— Justamente por isso precisamos descobrir o que está escondendo.

Elara sentiu uma onda de indignação.

Durante toda a vida, haviam utilizado sua incapacidade de transformação para chamá-la de fraca.

Agora a mesma condição era apresentada como prova de que escondia uma ameaça.

Os soldados começaram a examinar a margem.

Garrick se aproximou das pedras.

Elara conteve a respiração.

O homem estava a poucos passos de seu esconderijo quando um dos cavalos relinchou.

— Tenente! — chamou um soldado. — Encontramos marcas seguindo para o norte!

Garrick se afastou.

— Vamos verificar.

Os homens montaram novamente.

Elara permaneceu imóvel até que o som dos cascos desaparecesse.

Só então permitiu-se respirar.

As marcas provavelmente pertenciam a algum caçador.

Mas a distração lhe dera tempo para escapar.

Levantou-se lentamente e seguiu pela margem oposta, usando as pedras para evitar deixar pegadas visíveis.

Se os soldados procuravam uma jovem indefesa, precisaria demonstrar que conhecia aquelas florestas melhor do que imaginavam.


Na fortaleza, Darius encontrou Selene diante de uma mesa coberta por mapas.

O Alfa entrou sem anunciar sua presença.

— Quero saber por que o Conselho abriu uma investigação contra Elara sem me informar.

A mãe ergueu os olhos.

— Bom dia para você também, Darius.

— Não estou interessado em gentilezas. Quero respostas.

Selene fechou o documento que examinava.

— A linhagem de Elara representa um possível risco para a matilha. Os anciãos possuem autoridade para determinar uma investigação.

— Isso não explica por que ela deveria ser levada à torre oriental.

— A torre possui instalações isoladas. É o local indicado para examinar indivíduos cuja energia possa representar perigo.

Darius aproximou-se da mesa.

— Elara nunca demonstrou qualquer poder ofensivo.

— Porque talvez ainda não tenha despertado.

— Então estão punindo uma mulher pelo que imaginam que ela poderá fazer?

Selene endureceu.

— Estou protegendo seu governo.

Darius soltou uma risada sem humor.

— Meu governo?

— Você finalmente tomou a decisão correta ao escolher Seraphine. Não permitirei que Elara utilize a ligação entre vocês para provocar uma crise política.

— O vínculo ainda não terminou completamente.

— Porque ela se recusou a aceitar a rejeição.

— Ela tinha esse direito.

Selene encarou o filho.

— Darius, não comece a demonstrar fraqueza agora. Você passou anos permitindo que aquela jovem interferisse em suas decisões.

O Alfa apertou as mãos.

— Elara nunca interferiu em minhas decisões.

— Não? Quantas vezes você deixou de apoiar propostas do Conselho porque ela discordava? Quantas vezes mudou sua posição depois de conversar com aquela mulher?

Darius recordou as reuniões em que Elara o ajudara a compreender as necessidades das famílias mais pobres da matilha.

Ela questionava decisões que poderiam prejudicar crianças, idosos e trabalhadores.

Nunca exigira privilégios para si.

— Ela me ajudou a governar — respondeu.

Selene permaneceu em silêncio.

Darius sentiu um aperto no peito.

A frase revelava algo que ele havia tentado ignorar durante toda a noite.

Elara não era apenas a companheira que amara.

Era a pessoa com quem compartilhara preocupações, decisões e dificuldades.

Seraphine poderia oferecer uma aliança política poderosa.

Mas não conhecia a matilha da maneira como Elara conhecia.

— Quero ver a denúncia — exigiu.

Selene abriu uma pasta.

— Está aqui.

Ele começou a ler.

Reconheceu o nome de Aurelian Veyr.

Também reconheceu a referência à linhagem dracônica.

A mãe havia lhe mostrado parte daquelas informações anos antes.

Na época, Darius acreditara que eram apenas registros incompletos de uma família destruída pela guerra.

Agora encontrava uma recomendação de custódia e transferência para uma região isolada.

— Quem autorizou o uso de força letal?

Selene respondeu com tranquilidade:

— O Conselho aprovou medidas de segurança caso ela ofereça resistência perigosa.

Darius levantou os olhos.

— Elara acabou de sofrer uma rejeição. Está ferida, sozinha e provavelmente assustada. Como espera que reaja quando soldados armados aparecerem diante dela?

— Se não resistir, nada acontecerá.

— Você sabe que ela não confia em nenhum de nós depois de ontem.

Selene cruzou os braços.

— E de quem é a responsabilidade por isso?

Darius ficou imóvel.

A pergunta o atingiu diretamente.

Sua mãe continuou:

— Você poderia ter encerrado esse relacionamento anos atrás. Preferiu alimentá-lo até que Elara acreditasse que realmente seria Luna.

Darius desviou o rosto.

Não podia negar.

Havia prometido um futuro que, nos últimos meses, começara a considerar impossível.

Mesmo assim, continuara procurando Elara.

Continuara aceitando seu carinho.

E, poucos dias antes da cerimônia, ainda dissera que a amava.

A lembrança provocou uma culpa difícil de suportar.

— Vou encontrá-la — declarou.

Selene se levantou.

— Os soldados já estão procurando por ela.

— Então enviarei uma ordem para que ninguém a machuque. Quero a captura suspensa até que eu examine pessoalmente o processo.

— Você não pode interferir em uma decisão dos anciãos apenas porque ainda sente alguma coisa por aquela mulher.

Darius se aproximou da mãe.

— Sou o Alfa desta matilha. Posso exigir que uma ordem militar seja executada dentro da lei e impedir que uma investigação termine em morte por negligência.

Selene permaneceu em silêncio.

Ele recolheu os documentos.

— E, quando Elara for encontrada, conversarei com ela antes de qualquer transferência.

Saiu do escritório sem esperar resposta.

Selene observou a porta fechada.

Pela expressão do filho, compreendeu que havia subestimado as consequências da rejeição.

Darius escolhera Seraphine.

Mas ainda não estava preparado para assistir à destruição de Elara.


Elara alcançou uma antiga cabana de caçadores quando o sol já iluminava as montanhas.

O lugar estava abandonado.

Havia uma mesa quebrada, uma pequena lareira e algumas cobertas deixadas em um armário.

Ela fechou a porta e sentou-se sobre o chão de madeira.

Seu corpo estava exausto.

A caminhada havia agravado a dor do vínculo, e os efeitos da infusão começavam a desaparecer.

Elara retirou os sapatos.

Seus pés estavam feridos.

Passou alguns minutos limpando os machucados com a água que carregava.

Depois abriu a bolsa e retirou a carta de Morgana.

Leu novamente as palavras da mãe.

Seu nascimento jamais deverá ser motivo de vergonha.

Elara passou os dedos sobre a assinatura.

Durante anos, perguntara a si mesma por que havia sido abandonada.

Agora sabia que Morgana tentara protegê-la.

Também sabia que seu pai, Aurelian Veyr, havia pertencido a uma casa dracônica perseguida durante a guerra.

Mas ainda não compreendia por que sua existência preocupava tanto Selene Blackthorn.

Uma menina criada como loba, incapaz de se transformar, não deveria representar ameaça para ninguém.

A menos que existisse alguma coisa em seu sangue que as pessoas ao seu redor conhecessem melhor do que ela própria.

Elara encostou a cabeça na parede.

Pensou em Agatha.

Na enfermaria.

Nas crianças que ajudara a cuidar.

Nos pequenos acontecimentos que haviam formado sua vida.

A Lua de Ferro não era apenas o território de Darius.

Também era sua casa.

Havia pessoas boas ali.

Pessoas que não mereciam ser confundidas com as decisões cruéis do Conselho.

O pensamento fez seus olhos arderem.

Perdera mais do que um companheiro.

Estava deixando para trás a única comunidade que conhecera.

— Não vou esquecer quem fui — murmurou.

Guardou a carta.

Precisava descansar antes de continuar.

Deitou-se sobre uma das cobertas e fechou os olhos.

O sono chegou acompanhado por uma sensação estranha.

O calor que sentira durante a rejeição voltou a se espalhar pelo peito.

Elara levou a mão ao coração.

Sob seus dedos, a pele parecia mais quente.

Então uma imagem surgiu em sua mente.

Uma mulher de cabelos escuros estava diante de um altar iluminado por chamas prateadas.

Carregava uma criança nos braços.

— Você precisa viver, Elara.

A voz era suave, mas desesperada.

Elara tentou se aproximar.

— Mãe?

A mulher virou o rosto.

Seus olhos eram violetas.

Antes que pudesse responder, um estrondo sacudiu o santuário.

Homens armados invadiram o corredor.

A mulher apertou a criança contra o peito.

— Não permitirei que a levem!

Elara tentou gritar.

Mas a imagem desapareceu.

Ela despertou com o coração acelerado.

Estava novamente na cabana.

O sol entrava pelas frestas da madeira.

Seu rosto estava molhado de lágrimas.

Durante alguns segundos, permaneceu imóvel.

A imagem fora diferente de um sonho comum.

Havia sentido o cheiro da fumaça.

O frio das pedras.

O medo na voz daquela mulher.

Olhou para o medalhão.

Uma pequena luz dourada percorreu a prata antes de desaparecer.

Elara arregalou os olhos.

Aproximou a joia da janela.

O brilho não voltou.

— O que está acontecendo comigo?

Não recebeu resposta.

Mas compreendeu que precisava encontrar alguém capaz de explicar aquela manifestação.

E talvez as respostas estivessem justamente no lugar que todos a proibiam de alcançar.

Drakhar.

O reino dos dragões.


No início da tarde, Elara ouviu cavalos novamente.

Dessa vez, as vozes estavam muito próximas.

Ela levantou-se rapidamente e apagou os vestígios de sua presença.

Guardou a bolsa e procurou uma saída pelos fundos da cabana.

Antes que alcançasse a porta, ouviu um homem gritar:

— Encontramos fumaça antiga na chaminé! Verifiquem o interior!

Elara sentiu o coração disparar.

Não havia acendido a lareira.

Talvez outros viajantes tivessem passado por ali recentemente.

Mas os soldados já estavam próximos demais para que pudesse descobrir.

A porta principal foi atingida por um golpe.

— Abra em nome do Conselho Lunar!

Elara recuou.

Conhecia aquele procedimento.

Se fosse capturada, seria levada à torre oriental.

E não confiava que conseguiria sair de lá viva.

Abriu a porta dos fundos e correu para a floresta.

Um grito ecoou atrás dela.

— É ela!

Elara correu entre as árvores.

Os galhos arranhavam seus braços.

A dor no peito tornou-se quase insuportável.

Mas continuou.

Ouviu cavalos se aproximando pelo caminho lateral.

A floresta começava a ficar mais fechada, e o terreno subia em direção às montanhas.

Elara conhecia pouco aquela região.

Sabia apenas que, se alcançasse as ruínas antigas, os cavalos teriam dificuldade para acompanhá-la.

Um soldado apareceu entre as árvores à sua direita.

— Pare, Elara!

Ela reconheceu Garrick.

O tenente desmontou e avançou alguns passos.

— Não quero machucar você. Recebi ordens para levá-la de volta.

Elara recuou.

— Não vou para aquela torre.

Garrick ergueu as mãos.

— O Alfa está examinando a situação. Se vier comigo, poderá conversar com ele.

Ela sentiu uma dor diferente atravessar o peito.

Darius.

Até naquele momento, o nome dele ainda provocava uma reação involuntária.

— Ele deveria ter conversado comigo antes de me rejeitar — respondeu.

Garrick pareceu desconfortável.

— Não fui enviado para discutir a cerimônia.

— Então não use o nome dele para tentar me convencer.

O tenente respirou profundamente.

— Elara, o Conselho determinou sua custódia. Se continuar fugindo, sua situação ficará ainda mais complicada.

Ela apertou a alça da bolsa.

— O documento que autoriza minha transferência foi preparado depois de uma denúncia manipulada. Tenho cópias que comprovam isso.

Garrick franziu a testa.

— Que cópias?

— A declaração original de Tomas Everden não recomendava minha prisão. Selene acrescentou a custódia depois que fui rejeitada.

O oficial pareceu surpreso.

— Não fui informado dessas alterações.

— Então deveria investigar antes de me arrastar para uma torre abandonada.

Durante alguns segundos, Garrick permaneceu em silêncio.

Elara percebeu que ele estava dividido.

Conhecia-a desde criança.

Mas havia passado a vida obedecendo à Casa Blackthorn.

— Venha comigo — insistiu finalmente. — Vou garantir que não seja machucada.

Ela balançou a cabeça.

— Não posso confiar nessa promessa.

Um segundo soldado apareceu atrás dela.

Elara percebeu que estava cercada.

O homem avançou com uma corrente de contenção.

— Acabou, senhorita Valemont.

Ela recuou instintivamente.

A corrente possuía pequenos símbolos prateados, usados para bloquear a energia de lobos considerados perigosos.

— Não se aproxime!

O soldado ignorou o aviso.

Elara tentou escapar, mas tropeçou em uma raiz.

Caiu sobre o joelho.

A dor do vínculo atravessou seu peito, provocando uma tontura violenta.

O homem segurou seu braço.

Ela gritou.

— Solte-me!

Ao tentar libertar-se, sentiu novamente o calor que surgira durante a rejeição.

A sensação espalhou-se do peito para os braços.

O medalhão começou a esquentar.

O soldado tentou prender a corrente em seu pulso.

No instante em que o metal tocou sua pele, uma luz prateada brilhou entre seus dedos.

O homem soltou um grito.

A corrente caiu no chão, com uma de suas ligações deformada pelo calor.

Elara recuou, assustada.

O soldado olhou para a própria mão.

Havia uma pequena queimadura em sua palma.

Garrick ficou imóvel.

— Pelos ancestrais...

Elara encarou os dedos.

Não havia fogo visível.

Apenas um brilho que desapareceu lentamente.

— Eu não fiz isso de propósito — murmurou.

O segundo soldado recuou.

— Ela possui magia dracônica!

Garrick sacou a espada.

— Elara, não se mova!

Ela ergueu o rosto.

A expressão do tenente havia mudado.

O homem que momentos antes prometera protegê-la agora a observava como se fosse uma criatura desconhecida.

Elara sentiu um medo profundo.

A denúncia de Selene ganhava força diante de seus olhos.

Se os soldados afirmassem que ela os havia atacado com magia, poderiam justificar sua prisão e até sua morte.

— Não queria machucá-lo — repetiu.

Garrick apontou a espada.

— Afaste-se da corrente.

Elara recuou.

Atrás dela, o terreno terminava em uma encosta coberta por vegetação.

Abaixo, o rio avançava entre pedras.

O tenente deu outro passo.

— Venha conosco.

Ela olhou para o homem.

Depois para a floresta.

Não havia saída segura.

Mas permanecer significava entregar-se a pessoas que já haviam decidido que seu sangue era perigoso.

Elara respirou profundamente.

— Diga a Darius que não vou voltar.

Garrick tentou se aproximar.

— Elara, não faça nenhuma loucura.

Ela deu um passo para trás.

O chão cedeu sob seu peso.

Por um instante, conseguiu segurar-se em uma raiz.

O soldado estendeu a mão.

— Segure meu braço!

Elara tentou alcançá-lo.

Mas a terra continuou desmoronando.

Seus dedos escorregaram.

E ela caiu.

O mundo tornou-se uma sucessão de galhos, pedras e dor.

Elara tentou proteger a cabeça enquanto rolava pela encosta.

Finalmente, seu corpo atingiu uma superfície rochosa próxima ao rio.

O impacto arrancou-lhe o ar dos pulmões.

Permaneceu imóvel.

A visão escureceu por alguns segundos.

Quando conseguiu abrir os olhos, percebeu que havia sangue escorrendo de sua testa.

Acima, os soldados gritavam seu nome.

Ela tentou responder.

Não conseguiu.

A dor no peito era tão intensa que mal conseguia respirar.

Então ouviu um som diferente.

Um rugido distante.

Profundo.

Poderoso.

O chão pareceu vibrar.

Elara ergueu os olhos para o céu.

Entre as nuvens escuras, uma sombra enorme atravessou as montanhas.

Suas asas eram maiores do que qualquer criatura que já vira.

O sol iluminou por um instante as escamas negras.

Elara sentiu o coração acelerar.

Um dragão.

A criatura desapareceu atrás de uma formação rochosa.

Ela fechou os olhos, convencida de que estava delirando.

Mas, naquele mesmo instante, uma chama dourada surgiu sob sua pele.

E, muito além da fronteira, Kael Drakhar interrompeu o voo.

Seu dragão havia sentido alguma coisa.

Uma energia fraca, ferida, quase sufocada.

O chamado vinha das terras próximas ao Vale de Aethra.

Kael abriu as enormes asas negras e mudou de direção.

Ainda não sabia quem estava chamando por ele.

Mas reconhecia aquela magia.

Era a mesma energia que havia despertado as chamas do antigo santuário.

A mesma presença que surgira em seus sonhos.

E estava desaparecendo.

O Rei dos Dragões soltou um rugido que atravessou as montanhas.

Depois mergulhou em direção à fronteira.

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