MasukNaquela noite, Theron não conseguiu dormir.Ficou no quarto durante uma hora.Depois outra.Leu três páginas do mesmo relatório sem absorver uma palavra.Por fim, levantou.Foi até a janela.A cidade de Valcrest dormia abaixo.Dois anos.Talvez Caleb tivesse razão sobre uma coisa.A vida dele parecia funcional apenas enquanto observada de fora.Ele trabalhava.Governava.Treinava.Comia.Dormia quando o corpo obrigava.Participava de cerimônias.Recebia emissários.Continuava.Era isso que homens faziam.Continuavam.Theron apoiou as mãos no parapeito.Não pensava em Nyra todos os dias.Não mais.Havia períodos inteiros em que o nome não surgia.Horas.Às vezes um dia.Talvez dois.Depois alguma coisa acontecia.Uma mulher ria de determinada forma.Alguém mencionava a cabana.Um prato que Nyra gostava aparecia numa mesa.Uma criança corria pelo corredor.O Conselho dizia Luna.E lá estava ela outra vez.Não como lembrança doce.Nem sempre.Às vezes vinha a cabana.O lençol.O vampiro.
Caleb ergueu discretamente os olhos.O conselheiro percebeu que fora longe demais.Theron não elevou a voz.— Repita.— Não foi uma crítica à sua autoridade, Supremo.— Então escolha palavras melhores.— Sim.Lyssandra falou pela primeira vez desde que a conversa mudara.— O Conselho deveria parar.Theron olhou para ela.Ela estava séria.— O Supremo já respondeu a essa questão diversas vezes. Pressioná-lo em toda reunião não fará com que tome uma decisão diferente. Apenas transformará algo pessoal em disputa pública.Um dos anciãos franziu o cenho.— Isto deixou de ser pessoal há muito tempo.— Talvez para vocês.Lyssandra juntou as mãos diante do corpo.— Não para ele.Theron a observou.Ali estava novamente.A defesa perfeita.Ela não exigia.Ela o protegia da exigência.E, fazendo isso, parecia ainda mais adequada aos olhos de todos.Malrik suspirou.— Ninguém está tentando constranger o Supremo.— Então não o façam — respondeu Lyssandra.Theron quase admirou.Quase.Porque sabia
Dois anos eram tempo suficiente para um território aprender a viver sem alguém.Theron descobrira isso da pior forma.Valcrest não desmoronara.As muralhas continuavam de pé. As patrulhas mudavam de turno ao amanhecer. Os comerciantes atravessavam os portões com carroças carregadas. As Casas ainda brigavam por terras, rotas, casamentos e privilégios como se aquela fosse a coisa mais importante do mundo. Crianças nasciam. Guerreiros morriam. Celebrações eram realizadas. Colheitas vinham boas ou ruins.O domínio seguira.Talvez essa tivesse sido uma das descobertas mais cruéis.O mundo não parava apenas porque o seu tinha parado.— As patrulhas do norte serão dobradas durante as próximas três semanas.A voz de Theron atravessou a sala do Conselho sem necessidade de esforço.Diante dele, o mapa de Valcrest permanecia aberto sobre a grande mesa. Pequenas peças de madeira marcavam postos militares, vilarejos e trechos da fronteira onde os últimos ataques vampíricos haviam aumentado.Caleb
— A mãe dele morreu sem sequer segurá-lo.Armand continuou imóvel.Magnus olhou para a lua acima do rio.— Eu ouvi o primeiro choro dele no mesmo momento em que deixei de sentir minha companheira.Seu lobo se moveu dentro dele.Uma dor antiga respondeu.— Um segundo havia duas vidas naquele quarto. No seguinte, havia apenas uma.A voz do rei quase falhou.Quase.— Passei vinte e quatro anos dizendo a mim mesmo que a Deusa da Lua não tinha tirado tudo. Que havia deixado nosso filho.Ele respirou.— Depois tiraram ele também.Armand não precisava dizer quem.Magnus sabia.Renegados.O relatório.Os rastros.As armas abandonadas.Os sobreviventes.Tudo apontara para eles.Tudo.Seu lobo jamais permitira outra mulher depois da morte da companheira.Magnus tentara uma vez.Anos mais tarde.Não um novo vínculo.Isso seria impossível.Apenas a possibilidade de casamento político.A mulher dera três passos em direção a ele e o lobo quase rasgara sua pele por dentro.Não.Nunca.A companheira
Por um momento, Magnus viu o militar que conhecia havia tantos anos.Disciplinado.Seguro.Talvez excessivamente seguro.— A situação mudou quando perceberam que o grupo pretendia permanecer.Magnus soltou o ar pelo nariz.— E então?— Foram atacados.A expressão do rei mudou.Seu lobo ergueu a cabeça dentro dele.Fraco.Mas presente.— Mortos?— Nenhum.Magnus piscou.— Nenhum?— Feridos.— Quantos?— Vários.— E quantos renegados morreram?Armand não respondeu imediatamente.Magnus percebeu.— General.— Nenhum confirmado.Aquilo o fez encarar o homem por mais tempo.Uma patrulha de Asterion enfrentara um acampamento de rogues.Vários soldados feridos.Nenhuma morte.Dos dois lados.— Então não foi uma carnificina.— Não.— Foram derrotados.A palavra saiu seca.Armand contraiu a mandíbula.— Sim.Magnus afastou-se da janela.O cansaço no corpo pareceu desaparecer por alguns segundos.— Quantos homens você enviou?— Vinte e cinco.Ele parou.— Vinte e cinco soldados de Asterion fora
O rei Magnus Arden conseguia ver as luzes do acampamento da torre mais alta do castelo.Pequenas.Distantes.Pontos alaranjados recortando a escuridão além das muralhas de Asterion, próximos demais do rio para o gosto dele.Magnus mantinha uma das mãos apoiada na pedra fria da janela.Não porque quisesse.Porque precisava.Havia uma época em que subia aqueles degraus de dois em dois.Agora os joelhos reclamavam, o peito parecia pesado demais nas noites frias e até permanecer muito tempo em pé exigia um esforço que ele preferia esconder dos médicos, dos criados e, principalmente, dos homens do Conselho.Um rei doente era uma preocupação.Um rei doente sem herdeiro era uma oportunidade.Magnus conhecia Asterion bem demais para fingir que não sabia disso.Ainda assim, subira até ali.Queria ver com os próprios olhos.E viu.Fogo.Um.Dois.Cinco.Mais.O acampamento se espalhava próximo ao rio como se aquelas pessoas tivessem o direito de permanecer.Renegados.A mandíbula de Magnus se c







