LOGINPaciente compatível com identificação fornecida pela família.A família. Não, a paciente. Não há exames. Não reconhecimento. A família.— Ele nem sequer confirmou quem ela era — murmuro, e a constatação sai mais amarga do que eu pretendia.— Não precisava.Julian fecha os olhos, e vejo os músculos do rosto se contraírem.— Meu Deus.Olho novamente para Eleanor.— Quando Siobhan acordou, quem estava com ela?— Hayes é o pai de Charlotte.— Meu pai estava lá? — Julian pergunta outra vez, mas agora a voz está diferente, mais rouca.Eleanor assente.— Sim.— Ele falou com ela?— Não sei.— Mas estava lá.— Sim.Julian se afasta da mesa, os passos pesados. A raiva em seu rosto é tão evidente que até eu consigo senti-la.— Então meu pai sabia que a mulher que saiu daquele hospital não era Charlotte.— Sim.— Durante seis anos?— Sim.Ele ri uma única vez, sem humor.— Eu passei seis anos acreditando que amava uma mulher chamada Charlotte.Ninguém responde. Julian olha para mim, e há algo em
RONANPor alguns segundos, ninguém fala.A palavra "acordo" permanece na sala como uma sentença, pesada demais para ser ignorada e vaga demais para satisfazer a pergunta que agora exige uma resposta. Observo Julian, que parece ter envelhecido diante dos meus olhos nos últimos minutos. Ele continua olhando para Eleanor como se esperasse que ela desfizesse tudo o que acabou de dizer, como se bastasse uma explicação diferente para que a mulher que ama volte a ser simplesmente Charlotte Beaumont, sua noiva, e nada mais.Eu conheço aquela expressão. É a mesma que vi no meu próprio rosto quando acordei seis anos atrás e perguntei pela minha esposa. A diferença é que, naquele momento, me deram uma mentira pronta. Agora Julian está começando a enxergar a verdade.— Que acordo? — pergunto, e a voz sai mais baixa do que eu pretendia.Eleanor ergue os olhos para mim. Há cansaço em seu rosto, mas também a expressão de alguém que passou tempo demais guardando um segredo e finalmente percebeu que n
Mais uma pessoa morta. Outra peça desaparecida. Outra vida que foi apagada para que o segredo pudesse ser mantido.— Quando morreu?— Pouco depois do nascimento das meninas.— Naturalmente?Eleanor levanta os olhos, e há algo neles que parece desafio.— Não.O silêncio que segue me incomoda, pesado e carregado de possibilidades.— Então como?— Foi um acidente.Ronan percebe a escolha das palavras imediatamente, os olhos se apertando.— Acidente?— É assim que registraram.Minha atenção se concentra, cada nervo do meu corpo em alerta. É a mesma palavra. A palavra que aparece em toda parte desta história. Acidente. Mas cada vez que alguém a usa, existe alguma coisa escondida por trás.— Ela foi assassinada? — Minha voz é baixa, mas firme.Eleanor não responde diretamente, os olhos fixos em algum ponto distante.— Clara descobriu o que o marido pretendia fazer com as meninas. Tentou impedir.— Ele queria separar as duas.— Sim.— E conseguiu.— Conseguiu.Meu olhar cai para as minhas mã
JULIANA notícia chega até mim quando ainda estou no corredor lateral da mansão.— Uma mulher.Apenas isso. Duas palavras que ecoam pelo rádio como um aviso, um prenúncio de algo que ainda não compreendo completamente. Depois de tudo o que descobrimos naquela noite — os registros, as fotografias, os nomes que se acumulam como camadas de uma mentira que parece não ter fim —, aprendi que poucas palavras podem esconder uma quantidade assustadora de informações. Uma mulher desconhecida apareceu no perímetro dos Gallagher, atravessou uma área que deveria estar sob vigilância, e afirmou que veio atrás de Charlotte Beaumont.Meu primeiro pensamento é simples: uma armadilha. Alguém enviado para nos confundir, para plantar mais dúvidas, para nos fazer correr em círculos enquanto o verdadeiro inimigo se aproxima pelas sombras.Meu segundo pensamento é pior. E se ela realmente souber alguma coisa? E se for a primeira pessoa em seis anos capaz de explicar por que a mulher que amo está vivendo com
CAPÍTULO 25CHARLOTTEA mulher está parada no corredor, iluminada pela luz vermelha das emergências, e eu sinto o mundo inteiro inclinar-se sobre seu eixo.Ela não é o que eu esperava. Quando ouvi que alguém tinha vindo me procurar — alguém que conhecia Charlotte Beaumont —, imaginei uma figura ameaçadora, alguém enviado para me confundir ou me machucar. Mas a mulher diante de mim tem olhos cansados e mãos que tremem ligeiramente ao segurar a alça de uma bolsa surrada. Ela parece... humana. Frágil. Como alguém que carrega um peso há muito tempo e finalmente encontrou coragem para colocá-lo no chão.Ronan está na minha frente, o corpo tenso, a arma ainda na mão. Ele não confia nela. Eu também não deveria. Mas há algo nos olhos daquela mulher que me faz querer ouvir o que ela tem a dizer. Algo que parece... arrependimento.— Você disse que conhece Charlotte Beaumont. — Minha voz sai mais firme do que eu esperava.A mulher olha para mim, e seus olhos se enchem de lágrimas.— Conheço. — A
RONANEdward Hayes está dentro da minha casa.A informação atravessa meu corpo como uma corrente elétrica, cada músculo se tensionando ao mesmo tempo. O homem ferido ainda está no chão, o sangue escorrendo entre meus dedos, mas eu já não estou mais ali. Minha mente já voltou para a mansão, para o corredor onde deixei Charlotte, para a promessa que acabei de fazer.Eu volto.A passagem de volta até a casa parece mais longa do que deveria. A fumaça da explosão ainda paira no ar, e os homens correm em todas as direções, armas em punho, rádios crepitando com ordens sobrepostas. Luka está atrás de mim, a voz dele chegando em fragmentos enquanto ele coordena a defesa.— Cerquem o perímetro! Ninguém entra, ninguém sai!Eu não paro. Atravesso o pátio, subo os degraus da entrada lateral, e o corredor que leva à sala de segurança está mergulhado em uma penumbra que parece mais densa do que antes. As luzes de emergência piscam em intervalos irregulares, pintando as paredes de vermelho.— Charlot







