Mag-log inA sexta-feira chegou com a cidade abafada, como se o ar se recusasse a circular. Os corredores da universidade estavam mais vazios do que o habitual. Última aula da manhã, poucos professores no campus. A movimentação era quase silenciosa — ideal para quem procurava não ser notado.
O nome na plaquinha de madeira entalhada ainda reluzia na porta:
Prof. Dr. D. A. Moretti — Literatura Contemporânea
Dentro do gabinete, o ambiente era denso. As janelas altas deixavam entrar luz suave, mas as persianas fechadas quebravam o excesso. Prateleiras cobriam quase todas as paredes, abarrotadas de livros grossos, alguns com marcas de uso intenso. No centro, uma mesa de madeira maciça e duas cadeiras de couro. E, atrás dela, ele — paletó pendurado no encosto, mangas dobradas, os dedos segurando uma caneta, o olhar mergulhado em papéis.
A batida na porta foi sutil.
— Entre — disse, sem levantar os olhos.
O som da maçaneta girando foi seguido pelo clique da porta sendo fechada. Quando ele olhou, encontrou Luna parada à frente da mesa, vestida com uma camisa preta abotoada até o meio, deixando o sutiã de renda vermelho à mostra num descuido calculado. A saia era justa, o suficiente para revelar as coxas ao caminhar. Ela carregava um caderno pequeno e uma expressão contida demais para ser inocente.
— Vim tirar uma dúvida — disse, simples.
— Sobre o quê?
— Sobre linguagem ambígua. — Um sorriso lento curvou seus lábios. — E interpretações duplas.
Ele apontou a cadeira à sua frente com um gesto. Ela sentou-se com calma, cruzando as pernas, apoiando o caderno no colo.
— Fale — disse ele, mantendo a voz neutra, o corpo relaxado apenas na aparência.
Ela olhou em volta antes de responder, como se avaliasse o ambiente, absorvendo cada centímetro do lugar onde agora estavam sozinhos. A porta estava fechada. Sem janelas visíveis da parte de fora.
— Em certos textos, algumas palavras só revelam seu sentido real para leitores experientes. — Ela o olhou diretamente. — O senhor acredita que todo texto tem uma camada secreta?
— Os melhores têm.
Ela mordeu o lábio inferior, como se processasse a resposta.
— E quando o autor escreve só para um leitor específico?
Ele pousou a caneta. Estava cansado daquele jogo feito de eufemismos e metáforas. Ou talvez estivesse à beira de ceder.
— O autor corre riscos — disse, enfim. — Especialmente quando o leitor entende demais.
Ela inclinou-se ligeiramente para a frente. O decote agora mais visível. O perfume — doce e penetrante — tomou o espaço entre os dois.
— Às vezes, entender é inevitável — sussurrou. — Mesmo quando não é permitido.
Silêncio. O tempo parecia expandir ali dentro, pressionando contra os dois corpos.
Ele se recostou na cadeira, olhos fixos nela.
— Você entende de limites, Luna?
Ela piscou devagar. A pergunta cortou como um bisturi.
— Depende de quem os impõe — respondeu. — E de como.
A tensão entre os dois se condensou, como nuvens carregadas prestes a explodir. O som do ar-condicionado era o único ruído no ambiente. A mesa entre eles parecia simbólica — distância física que já não sustentava a emocional.
— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou, agora com a voz mais grave.
— Me perguntando o que o senhor faria... se eu ultrapassasse alguns desses limites.
Ela o provocava com maestria. Nada soava desesperado ou vulgar. Cada palavra era escolhida, calculada, com a elegância de uma personagem que sabia que o autor estava assistindo.
Ele levantou-se.
Contornou a mesa devagar. Seus passos ecoaram como batimentos cardíacos.
Ela o seguiu com os olhos, mas não se moveu.
Ele parou ao lado dela. Perto demais. A respiração dele agora podia ser sentida, quente, com um leve aroma de café e desejo contido.
Inclinou-se levemente. A mão pairando no ar, sem tocar.
— Você j**a bem. Mas há jogos perigosos demais.
— E excitantes demais para abandonar — ela sussurrou, virando o rosto em direção à voz dele.
Seus rostos estavam próximos. Centímetros. Ele podia ver cada cílio dela, o brilho úmido nos lábios.
A mão dele subiu devagar, até alcançar o queixo dela. Com um gesto leve, mas firme, ergueu seu rosto.
O toque era quase imperceptível, mas sua intensidade sacudiu ambos.
— Vá — disse, num tom entre comando e súplica. — Antes que eu faça algo que não posso desfazer.
Ela não respondeu.
Apenas encarou-o por um segundo longo demais. Um silêncio cheio de sim.
E então, obedeceu.
Levantou-se com leveza, ajeitou a alça da bolsa no ombro e caminhou até a porta.
Antes de sair, virou-se uma última vez, encostada no batente:
— Só para constar, professor... não sou boa em parar no meio.
Ele não respondeu. Apenas a olhou. Como quem contempla uma linha que já foi cruzada.
Ela fechou a porta atrás de si. E com ela, levou o ar inteiro do gabinete.
Naquele fim de tarde, o gabinete parecia suspenso no tempo.
O ar parado, as luzes amareladas lançando sombras nas paredes forradas de livros. Ele permanecia de pé, mãos mergulhadas nos bolsos da calça social, os ombros tensos, o maxilar rígido. Seus olhos estavam fixos na cadeira onde, minutos antes, Luna estivera sentada, cruzando as pernas, inclinando o corpo, soltando palavras como iscas para algo que ele mal se permitia nomear.
Mas agora não havia mais espaço para disfarces.
O cheiro suave do perfume dela ainda pairava no ambiente, misturado ao calor do próprio corpo que ele mal percebera suar. A pele do dedo indicador — o mesmo que tocou de leve o queixo dela — ainda parecia em brasa. Tão pouco contato, mas a memória era física, vívida, indelével.
A frase que ela deixara flutuava na sua mente como um feitiço sussurrado:
"Depende de quem os impõe."
Ele repetia mentalmente, e cada vez soava mais perigosa. Mais sedutora. Era uma rendição? Um desafio? Ou ambos? Talvez ela soubesse exatamente o que dizer. Talvez estivesse testando até onde ele iria.
Talvez ele já tivesse ido longe demais.
Andou até a cadeira onde ela se sentara, como se precisasse confirmar que ela de fato estivera ali. A ponta dos dedos tocou o encosto. Depois, ele se sentou no mesmo lugar, os cotovelos nos joelhos, as mãos entrelaçadas sob o queixo.
E ficou assim por longos minutos. Pensando. Sentindo.
Tentando, inutilmente, controlar a respiração.
O silêncio foi quebrado apenas pelo som suave de uma notificação.
Do outro lado do campus, Luna encostava-se ao próprio carro. A luz do pôr do sol pintava reflexos avermelhados na lataria, e ela olhava a tela do celular como quem escreve não uma mensagem, mas um segundo capítulo.
Os dedos digitaram com precisão, sem hesitação.
“Obrigada pela consulta.
Me sinto… estimulada a continuar o estudo. Até a próxima aula.”Sem emoticon. Sem nome.
Ela sabia que ele reconheceria.
Sabia que não precisava assinar o próprio desejo.
Pressionou “enviar” e sorriu. Um sorriso pequeno, controlado. Mas havia fogo atrás dele.
Enquanto isso, de volta ao gabinete, o celular dele vibrou sobre a mesa. Ele estendeu a mão, desbloqueou a tela. Leu a mensagem devagar, uma vez. Depois outra. O coração disparou — não de surpresa, mas de confirmação.
Ela tinha entendido o jogo. E estava dentro.
Ele apagou a tela, encostou-se à cadeira e fechou os olhos.
Não havia mais dúvida. A tensão entre eles agora era só o prenúncio.
Porque, a partir dali, nenhum dos dois sairia inteiro.
O salto de Mia ecoava no saguão de mármore como tiros secos no fim do mundo. Cada passo apressado batia com o ritmo do seu coração - nervoso, descompassado. Primeiro dia. Claro que ela ia se atrasar. Maldita maquiagem borrada, maldito Uber parado no sinal, maldita saia justa demais. Ou talvez... não tão maldita assim.O prédio era um monumento ao luxo e ao poder. Vidros espelhados, recepcionistas de terno preto e sorrisos vazios. Ela correu até o elevador e entrou no instante exato em que as portas estavam se fechando. Um corpo já estava lá dentro - alto, imponente, cheiro de madeira escura e pecado. Mia nem olhou, pressionou o botão do 8º andar e respirou fundo.Só então sentiu o olhar.Queimava. Não como calor de sol, mas como um fogo lento e sujo, deslizando pela pele dela como dedos invisíveis. Arrepiou. O homem ao lado não disse uma palavra. Apenas virou o rosto em sua direção, devagar, como um predador estudando sua presa. Mia sentiu o coração disparar.Olhou de relance.Terno e
A brisa da manhã soprava leve na varanda, trazendo o cheiro do café recém-passado misturado ao sal do ar e ao perfume amadeirado que parecia agora impregnado na pele de Alana. Ela estava sentada em uma das cadeiras largas, apenas com a camisa preta de Heitor no corpo - grande demais, caindo por um ombro, deixando uma coxa inteira exposta. As pernas cruzadas, a caneca quente entre as mãos, o olhar perdido no céu que ainda se tingia de dourado.Dentro do apartamento, o som abafado do chuveiro. Mas mesmo longe da cama, ela ainda sentia o corpo vibrando com os toques da madrugada.Heitor a havia tomado por completo. Em todos os sentidos. O corpo dela doía em lugares deliciosos, marcados por dedos, mordidas, gemidos e promessas que nenhum dos dois teve coragem de dizer em voz alta. Ainda.A porta de vidro se abriu. Ele apareceu, só de toalha enrolada na cintura. O cabelo úmido, o peito largo com gotas ainda escorrendo. O olhar... aquele olhar. Como se a visse pela primeira vez. Como se ela
A sexta-feira chegou mais devagar do que Alana gostaria. Cada minuto da semana parecia arrastar-se, enquanto ela contava as horas para revê-lo. Dormia com os fones nos ouvidos, ouvindo os áudios sujos que ele mandava. Se tocava toda noite, com os olhos fechados, sussurrando o nome dele como se invocasse um feitiço.Agora, ali em frente ao espelho do seu quarto, Alana ajeitava o vestido escolhido com cuidado cirúrgico: vermelho, justo, com fenda lateral. E, claro, sem calcinha. Como ele pediu.Ela sabia exatamente o que fazia com aquele corpo. E sabia, ainda mais, o que Heitor fazia com o dela.Chamou o carro, conferiu o batom e desceu com o coração aos pulos. E molhada.A cada quilômetro até o apartamento dele, sua imaginação criava novas versões da mesma cena: ele abrindo a porta, puxando-a para dentro sem uma palavra, a prensando contra a parede, arrancando o vestido e enterrando-se dentro dela como se estivesse faminto.E, se ela conhecia Heitor um pouco que fosse, ele estaria exat
A porta do quarto bateu às costas de Alana com um estalo suave, abafado. Ela encostou-se nela por alguns segundos, ainda com os olhos fechados, como se o ar ali dentro estivesse carregado demais de tudo que tinham acabado de viver. Seu corpo ainda tremia. A pele ainda ardia dos toques de Heitor.Ele a havia fodido como ninguém. Com força, com precisão, com necessidade crua. E agora, sozinha no quarto, deitada com os lençóis grudando na pele quente, Alana queria mais.Mas ele estava em outro andar do hotel, provavelmente tomando um banho gelado ou encarando o teto, tentando entender o que, diabos, era aquilo que tinham acabado de viver.Nos dias seguintes, voltaram à vida real. Alana na sua cidade, cuidando dos projetos de arquitetura. Heitor voltando à empresa da família, afundado em reuniões e relatórios. Nenhum dos dois disse que aquilo tinha sido um erro.Mas nenhum dos dois disse que queria repetir.Pelo menos... não com palavras.Na terça-feira à noite, o celular dela vibrou. Um
O quarto estava em silêncio. Apenas o som do mar invadia pelas frestas da sacada, embalando o clima que queimava entre os dois. Heitor não se moveu de imediato. Ficou ali, de costas para a porta, encarando Alana como se ainda tentasse decidir se deveria atravessar aquela linha invisível do controle. Mas a verdade é que ele já havia atravessado.Ela estava parada no meio do quarto, o vestido verde escorrendo pelos quadris como se tivesse sido feito para cair. Os olhos dela, escuros e provocantes, cravados nele com a ousadia de quem já sabia exatamente o que queria.- Vai ficar aí me olhando... ou vai me tocar de verdade? - ela provocou, a voz rouca, baixa, com um leve tremor de desejo.Heitor deu dois passos largos. Um só movimento foi suficiente para agarrá-la pela cintura e colar seus corpos. A boca dele caiu sobre a dela com fome, e dessa vez não havia hesitação.Era beijo molhado, língua urgente, dentes que se arrastavam nos lábios. As mãos dele desceram pelas costas nuas dela, enc
O mar batia suave contra as pedras, e o céu dourado do fim da tarde parecia pintar um cenário de filme para o casamento. Alana ajeitou o vestido de cetim esmeralda no corpo, sentindo o vento acariciar sua pele exposta enquanto se posicionava ao lado da noiva. Estava linda - cabelos soltos com ondas naturais, olhos delineados com leveza, e um perfume amadeirado que sempre deixava rastros por onde passava.Mas nada disso a preparou para o momento em que o viu.Ele surgiu ao fundo, caminhando devagar entre as cadeiras dispostas para a cerimônia. Alto. Ombros largos sob a camisa branca com as mangas dobradas. A barba por fazer moldava seu rosto com uma virilidade que doía nos olhos. E os olhos... castanhos, intensos, fixaram-se nela como se a reconhecessem de algum lugar mais íntimo que o presente.Era Heitor. O irmão mais velho da noiva. O homem recém-divorciado que todos evitavam mencionar demais, como se estivesse envolto numa aura de silêncio e mistério. E agora ele estava ali, observ







