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Capítulo 2

Auteur: Maidu
No dia seguinte, enquanto a enfermeira estava ocupada com minha medicação, mamãe entrou no quarto segurando uma marmita térmica.

O cheiro familiar de canja de galinha me fez hesitar.

Desde que fui diagnosticada com insuficiência cardíaca, não conseguia manter nenhum alimento no estômago, então mamãe preparava um tipo diferente de sopa para mim todos os dias. Ela se sentava ao lado da minha cama, alimentando-me colherada por colherada, com os olhos vermelhos.

— Se você conseguir melhorar, abrirei mão de dez anos da minha vida de bom grado.

Agora, ela perguntou:

— Você pegou o amuleto de proteção de Michelle?

Meu peito apertou.

— Não.

Mamãe não acreditou em mim e abriu todas as minhas gavetas para conferir.

— Como isso é possível? Ela veio aqui ontem e, depois disso, não conseguiu encontrá-lo.

Distraidamente, ela jogou meu organizador de comprimidos, meus formulários médicos e minhas fotos de infância para o lado. Um dos frascos de remédio caiu no chão e rolou para debaixo da cama.

Apoiei-me na beirada da cama para pegá-lo, mas, de repente, minha visão escureceu.

Quando mamãe percebeu, franziu a testa.

— O médico não disse que conseguiram salvar você ontem? Por que ainda está tão fraca?

Olhei para ela. Imaginei que aos olhos dela, ser resgatada da beira da morte significava que eu estava bem. Era como todas as vezes em que eu havia saído viva da sala de cirurgia ao longo daqueles anos. Por isso, eles davam como uma certeza que eu também sobreviveria à próxima.

Eu disse:

— Mamãe, talvez eu só tenha mais um mês.

Mamãe ficou paralisada por um instante antes de fechar a porta do armário.

— Os médicos sempre gostam de falar no pior cenário possível. Você estava em estado crítico aos 18 anos, mas ainda conseguiu aguentar até agora.

Em seguida, ela despejou a sopa em uma tigela.

Uma esperança tênue e tola surgiu silenciosamente em meu coração. Mas, no instante seguinte, mamãe pegou a tigela e se dirigiu à porta.

— Michelle não tem sentido vontade de comer hoje, então passei muito tempo preparando isso. Ela precisa tomar um pouco. Se você quiser, pedirei à empregada que traga um pouco mais tarde.

Depois que ela saiu, fiquei sentada no quarto, perdida em pensamentos. No fim, foi a enfermeira quem recuperou o frasco de remédio debaixo da minha cama.

Ela percebeu que eu estava pálida e me ofereceu um copo de leite morno.

— Por que você não pediu à sua família para ficar com você?

Baixei os olhos.

— Eles estão ocupados.

Estavam ocupados cuidando da internação de Michelle, organizando um centro de reabilitação pós-operatória e planejando a vida dela após a recuperação.

Naquela tarde, várias pessoas apareceram de repente no meu quarto particular. Sem qualquer explicação, começaram a empacotar meus pertences.

Impedindo um deles, perguntei:

— O que vocês estão fazendo?

— O Sr. Stone pediu que a transferíssemos para outro quarto.

A enfermeira-chefe veio apressadamente até nós, com uma expressão um tanto conflituosa.

— A Srta. Langley precisa descansar em um quarto silencioso antes da cirurgia, mas não há quartos individuais disponíveis neste andar no momento. Seu pai disse que não faria diferença se você ficasse em um quarto comum.

Eles colocaram minhas coisas em duas caixas de papelão, enquanto uma foto de família escorregava da minha pasta de prontuário e caía no chão.

A foto havia sido tirada no meu aniversário de 15 anos. Michelle tinha acabado de entrar para a família e estava timidamente na extremidade do grupo. Mamãe me segurava nos braços, enquanto papai e Dante estavam um de cada lado, colocando um chapéu de aniversário em mim.

Era a última foto de família em que eu era o centro das atenções.

O maqueiro me levou para além do novo quarto de Michelle quando saímos. A porta estava coberta de balões cor-de-rosa. Papai ajustava o projetor, enquanto mamãe organizava buquês de flores frescas em vasos. Enquanto isso, Dante acabara de chegar, trazendo o bolo favorito de Michelle.

Quando Dante me viu, parou.

— Por que você saiu da cama?

Olhei para as caixas.

— Estou mudando de quarto.

Dante pareceu se lembrar daquele assunto naquele instante, e seu rosto ficou tenso por um breve segundo.

— Michelle está nervosa por causa da cirurgia e precisa de um ambiente tranquilo. Você não está bem, então ficar em um quarto compartilhado facilita o trabalho das enfermeiras, que podem cuidar de você a qualquer momento.

Não respondi.

Michelle colocou a cabeça para fora da porta.

— Lia, talvez você devesse ficar aqui.

Apesar do que disse, suas mãos agarravam com força o braço de mamãe.

Mamãe imediatamente falou:

— Não pense demais nisso. Foi seu pai quem fez esse arranjo.

Dante olhou para mim, com a voz carregada de advertência.

— Lia, já que você deu sua vaga para Michelle, não faça com que ela se sinta desconfortável por causa de algo tão insignificante.

Para ele, mudar meu quarto de hospital — ou talvez minha vida — era algo insignificante.

Fui levada até a cama mais próxima da porta em um quarto com seis pacientes.

Ao perceber que eu estava sozinha, um familiar de outra paciente gentilmente arrumou minha cama.

Eram 21h quando Michelle publicou uma foto no Instagram. Havia um bolo no centro da imagem, enquanto Dante colocava um chapéu de aniversário nela e meus pais a incentivavam a fazer um pedido.

A legenda dizia: "Comemorando meu segundo aniversário com a família antecipadamente. A partir de agora, passaremos todos os aniversários juntos."

Ampliei a foto. O bolo era justamente o meu favorito: cheesecake de flor de sal. Ao lado da caixa do bolo, havia uma pulseira de estrela.

Meio mês antes, Dante havia me perguntado qual presente de aniversário eu gostaria de ganhar naquele ano. Enviei a ele uma foto daquela mesma pulseira, e ele me disse que era infantil.

Aparentemente, não era isso que Dante realmente pensava. O problema era apenas que quem a usaria não deveria ser eu.

Meu celular vibrou.

Dante escreveu:

"Michelle disse que você era quem estava interessada na pulseira. Ela gosta muito dela. Não brigue com ela por causa disso."

Fiquei olhando para a mensagem por um longo tempo antes de responder:

"Tudo bem."

De qualquer forma, depois que eu morresse, tudo naquela casa que me pertencia acabaria se tornando de Michelle. Que diferença fazia se isso acontecesse mais cedo ou mais tarde?

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