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Uma Noite com o Diretor Glacial
Uma Noite com o Diretor Glacial
Author: Histoire

Capítulo 1

Author: Histoire
last update publish date: 2026-09-15 06:33:33

Capítulo 1

Lina

O restaurante está lotado. Risos, o tilintar de talheres, uma luz suave que acaricia as toalhas brancas. Estou sentada diante de Marc, e sorrio porque é o que se faz quando se está noiva e ainda se ignora a verdade.

Ele põe o garfo no prato. Quase não tocou na comida. Eu também não. Meu estômago está embrulhado desde esta manhã, desde aquela mensagem que ele recebeu e escondeu rápido demais. Achei que fosse trabalho. Sou ingênua.

— Lina — diz ele.

O tom é doce. Doce demais. É o tom que se usa para anunciar uma má notícia esperando que ela passe melhor.

— O quê?

Ele passa uma mão nos cabelos loiros. Marc é bonito. Bonito como um garoto que nunca precisou lutar por nada. O terno é novo, o relógio também. Seis meses atrás, ajudei-o a conseguir esse emprego. Incentivei-o, revisei suas cartas de apresentação, suportei suas noites de angústia. Hoje, ele ganha três vezes o meu salário. E já não me olha como antes.

— Precisamos conversar.

— Fala.

Pego minha taça de vinho. Um tinto espesso, quase preto. Bebo um gole para me impedir de gritar.

— Não acho que sejamos feitos um para o outro — deixa escapar, por fim.

As palavras caem sobre a toalha como facas. Ao nosso redor, ninguém nos escuta. Os outros clientes vivem suas vidas normais, indiferentes ao desmoronamento da minha.

— O que você está dizendo? — falo, com a voz estranhamente calma.

— Estou te deixando, Lina.

Ele não sustenta meu olhar. Fixa o prato, os dedos brincando com o guardanapo. Tem vergonha. Não o suficiente para parar, mas o bastante para desviar os olhos.

— Por quê?

— Porque...

Ele hesita. O segundo dura uma eternidade. E nesse segundo, eu entendo tudo. As noites que ele terminava tarde, as mensagens que apagava, os perfumes que eu não usava. Sou uma mulher inteligente. Só me recusei a ver.

— Tem outra pessoa — digo, não é uma pergunta.

Ele acena com a cabeça. O movimento é mínimo, quase culpado.

— Quem?

— Não posso te dizer.

— Marc. Olha para mim e me diz quem.

Ele finalmente levanta os olhos. Suas íris claras estão úmidas. Ele vai chorar. Ele. Vai ter a coragem de chorar quando é ele quem está me destruindo.

— É Anaïs — murmura.

O nome atinge meu peito como uma bala. Anaïs. Minha prima. A garota com quem cresci, dividi quartos, segredos, risadas loucas. Era minha dama de honra. Ajudou-me a escolher meu vestido de noiva.

O sangue some do meu rosto. Sinto o batom rachar nos meus lábios secos.

— Você dorme com a minha prima.

— Não é só... nós nos amamos, Lina. Sinto muito.

Ele sente muito. Como se sente muito por ter derrubado um copo, por ter estragado uma roupa. Não por ter destruído duas mulheres.

Ponho minha taça na mesa. Meus dedos tremem, mas minha voz é de aço.

— Desde quando?

— Três meses.

Três meses. Três meses em que divido minha cama com um mentiroso. Três meses em que minha prima sorri para mim desejando boa sorte para o casamento. Três meses de mentiras, de noites em que ele vinha a mim depois dela, de beijos roubados na minha boca que ele beijara em outro lugar uma hora antes.

Levanto-me. A cadeira range no assoalho. Algumas cabeças se viram. Uma mulher me encara com uma mistura de curiosidade e piedade.

— Lina, senta — implora Marc.

— Não.

Pego minha bolsa. Não olho o resto do restaurante. Não olho as outras mesas, os casais felizes, as famílias unidas. Olho a porta. Caminho até ela. Meus saltos estalam, um ritmo de raiva.

— Lina, podemos conversar como adultos!

Ele também se levantou. Vem na minha direção. Sua mão agarra meu braço, me segura.

— Solta-me — digo.

— Me escuta.

— Solta-me ou eu grito.

Ele solta. Recua. Seu rosto está desfeito. Melhor assim.

— Para onde você vai?

— Longe de você. Para sempre.

Empurro a porta. O ar da rua me atinge, morno, carregado de gasolina e pão quente. A noite caiu há muito tempo. Os postes da cidade — nem sei onde estou, só conheço o bairro chique onde Marc gostava de me levar para mostrar que podia pagar a conta.

Ando. Não sei para onde. Minhas pernas me levam sem que eu as guie. As lágrimas sobem, eu as engulo. Agora não. Não diante deles. Não diante das pessoas que saem dos restaurantes, que riem, que vivem.

Uma vitrine. Paro diante dela. Meu reflexo: uma mulher de vinte e seis anos em vestido azul-marinho, cabelos soltos, olhos brilhantes demais. Tenho a cara do que sou: uma noiva abandonada, uma prima traída, uma idiota que não viu nada.

Meu celular vibra. Marc. Desligo. Ele liga de novo. Bloqueio.

Levanto os olhos. Uma estação. Estou diante de uma estação. O acaso, ou o destino. Pouco importa. Tomo coragem, entro no saguão imenso, caminho até o primeiro trem que parte.

— Uma passagem para Valésia — digo na bilheteria.

— Agora?

— Agora.

Me entregam uma passagem. Pago. Subo no trem sem olhar para trás. A cidade atrás de mim se afasta pela janela, suas luzes que se desfiam, suas lembranças que queimam.

Estou fugindo. Não tenho mais nada a fazer.

O trem desliza na noite. Encosto a testa no vidro frio. As lágrimas correm enfim, silenciosas, quentes. Não as enxugo. Deixo que venham. Deixo que lavem Marc, Anaïs, os risos roubados, as promessas quebradas, as noites esperando um amor que ele nunca me deu de verdade.

Valésia. Nunca fui a Valésia. Dizem que é uma cidade de arte e segredos, de noites elegantes e palácios esquecidos. Uma cidade onde a gente pode se perder.

Quero me perder. Quero deixar de ser Lina, a noiva gentil, a futura casada, a mulher que é traída porque confia demais. Quero ser ninguém.

O trem desacelera. Luzes aparecem, primeiro pontilhadas, depois densas, depois ofuscantes. Valésia. A cidade se ergue diante de mim, suas torres de vidro e cúpulas antigas, seus jardins suspensos e pontes de pedra. Desço do trem. Minhas pernas estão pesadas. Minha cabeça está vazia.

Saio da estação. O ar da noite é mais doce aqui, quase morno. Palmeiras bordejam a avenida. Uma fonte canta ao longe. Valésia parece um cartão-postal.

Não sei para onde ir. Não sei quem sou.

Ando mais, ao acaso, até ver um letreiro luminoso: “Hotel dos Embaixadores”. Parece caro, caro demais. Mas pego um quarto. Subo. Deito na cama, toda vestida, os olhos abertos no escuro.

Amanhã, serei outra pessoa.

Amanhã, esquecerei.

Fecho as pálpebras. Um último pensamento para Marc, para sua boca que dizia “eu te amo” enquanto pensava nela. Eu o expulso.

Adormeço sozinha, em Valésia, à beira de recomeçar tudo.

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