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Capítulo 1
Lina
O restaurante está lotado. Risos, o tilintar de talheres, uma luz suave que acaricia as toalhas brancas. Estou sentada diante de Marc, e sorrio porque é o que se faz quando se está noiva e ainda se ignora a verdade.
Ele põe o garfo no prato. Quase não tocou na comida. Eu também não. Meu estômago está embrulhado desde esta manhã, desde aquela mensagem que ele recebeu e escondeu rápido demais. Achei que fosse trabalho. Sou ingênua.
— Lina — diz ele.
O tom é doce. Doce demais. É o tom que se usa para anunciar uma má notícia esperando que ela passe melhor.
— O quê?
Ele passa uma mão nos cabelos loiros. Marc é bonito. Bonito como um garoto que nunca precisou lutar por nada. O terno é novo, o relógio também. Seis meses atrás, ajudei-o a conseguir esse emprego. Incentivei-o, revisei suas cartas de apresentação, suportei suas noites de angústia. Hoje, ele ganha três vezes o meu salário. E já não me olha como antes.
— Precisamos conversar.
— Fala.
Pego minha taça de vinho. Um tinto espesso, quase preto. Bebo um gole para me impedir de gritar.
— Não acho que sejamos feitos um para o outro — deixa escapar, por fim.
As palavras caem sobre a toalha como facas. Ao nosso redor, ninguém nos escuta. Os outros clientes vivem suas vidas normais, indiferentes ao desmoronamento da minha.
— O que você está dizendo? — falo, com a voz estranhamente calma.
— Estou te deixando, Lina.
Ele não sustenta meu olhar. Fixa o prato, os dedos brincando com o guardanapo. Tem vergonha. Não o suficiente para parar, mas o bastante para desviar os olhos.
— Por quê?
— Porque...
Ele hesita. O segundo dura uma eternidade. E nesse segundo, eu entendo tudo. As noites que ele terminava tarde, as mensagens que apagava, os perfumes que eu não usava. Sou uma mulher inteligente. Só me recusei a ver.
— Tem outra pessoa — digo, não é uma pergunta.
Ele acena com a cabeça. O movimento é mínimo, quase culpado.
— Quem?
— Não posso te dizer.
— Marc. Olha para mim e me diz quem.
Ele finalmente levanta os olhos. Suas íris claras estão úmidas. Ele vai chorar. Ele. Vai ter a coragem de chorar quando é ele quem está me destruindo.
— É Anaïs — murmura.
O nome atinge meu peito como uma bala. Anaïs. Minha prima. A garota com quem cresci, dividi quartos, segredos, risadas loucas. Era minha dama de honra. Ajudou-me a escolher meu vestido de noiva.
O sangue some do meu rosto. Sinto o batom rachar nos meus lábios secos.
— Você dorme com a minha prima.
— Não é só... nós nos amamos, Lina. Sinto muito.
Ele sente muito. Como se sente muito por ter derrubado um copo, por ter estragado uma roupa. Não por ter destruído duas mulheres.
Ponho minha taça na mesa. Meus dedos tremem, mas minha voz é de aço.
— Desde quando?
— Três meses.
Três meses. Três meses em que divido minha cama com um mentiroso. Três meses em que minha prima sorri para mim desejando boa sorte para o casamento. Três meses de mentiras, de noites em que ele vinha a mim depois dela, de beijos roubados na minha boca que ele beijara em outro lugar uma hora antes.
Levanto-me. A cadeira range no assoalho. Algumas cabeças se viram. Uma mulher me encara com uma mistura de curiosidade e piedade.
— Lina, senta — implora Marc.
— Não.
Pego minha bolsa. Não olho o resto do restaurante. Não olho as outras mesas, os casais felizes, as famílias unidas. Olho a porta. Caminho até ela. Meus saltos estalam, um ritmo de raiva.
— Lina, podemos conversar como adultos!
Ele também se levantou. Vem na minha direção. Sua mão agarra meu braço, me segura.
— Solta-me — digo.
— Me escuta.
— Solta-me ou eu grito.
Ele solta. Recua. Seu rosto está desfeito. Melhor assim.
— Para onde você vai?
— Longe de você. Para sempre.
Empurro a porta. O ar da rua me atinge, morno, carregado de gasolina e pão quente. A noite caiu há muito tempo. Os postes da cidade — nem sei onde estou, só conheço o bairro chique onde Marc gostava de me levar para mostrar que podia pagar a conta.
Ando. Não sei para onde. Minhas pernas me levam sem que eu as guie. As lágrimas sobem, eu as engulo. Agora não. Não diante deles. Não diante das pessoas que saem dos restaurantes, que riem, que vivem.
Uma vitrine. Paro diante dela. Meu reflexo: uma mulher de vinte e seis anos em vestido azul-marinho, cabelos soltos, olhos brilhantes demais. Tenho a cara do que sou: uma noiva abandonada, uma prima traída, uma idiota que não viu nada.
Meu celular vibra. Marc. Desligo. Ele liga de novo. Bloqueio.
Levanto os olhos. Uma estação. Estou diante de uma estação. O acaso, ou o destino. Pouco importa. Tomo coragem, entro no saguão imenso, caminho até o primeiro trem que parte.
— Uma passagem para Valésia — digo na bilheteria.
— Agora?
— Agora.
Me entregam uma passagem. Pago. Subo no trem sem olhar para trás. A cidade atrás de mim se afasta pela janela, suas luzes que se desfiam, suas lembranças que queimam.
Estou fugindo. Não tenho mais nada a fazer.
O trem desliza na noite. Encosto a testa no vidro frio. As lágrimas correm enfim, silenciosas, quentes. Não as enxugo. Deixo que venham. Deixo que lavem Marc, Anaïs, os risos roubados, as promessas quebradas, as noites esperando um amor que ele nunca me deu de verdade.
Valésia. Nunca fui a Valésia. Dizem que é uma cidade de arte e segredos, de noites elegantes e palácios esquecidos. Uma cidade onde a gente pode se perder.
Quero me perder. Quero deixar de ser Lina, a noiva gentil, a futura casada, a mulher que é traída porque confia demais. Quero ser ninguém.
O trem desacelera. Luzes aparecem, primeiro pontilhadas, depois densas, depois ofuscantes. Valésia. A cidade se ergue diante de mim, suas torres de vidro e cúpulas antigas, seus jardins suspensos e pontes de pedra. Desço do trem. Minhas pernas estão pesadas. Minha cabeça está vazia.
Saio da estação. O ar da noite é mais doce aqui, quase morno. Palmeiras bordejam a avenida. Uma fonte canta ao longe. Valésia parece um cartão-postal.
Não sei para onde ir. Não sei quem sou.
Ando mais, ao acaso, até ver um letreiro luminoso: “Hotel dos Embaixadores”. Parece caro, caro demais. Mas pego um quarto. Subo. Deito na cama, toda vestida, os olhos abertos no escuro.
Amanhã, serei outra pessoa.
Amanhã, esquecerei.
Fecho as pálpebras. Um último pensamento para Marc, para sua boca que dizia “eu te amo” enquanto pensava nela. Eu o expulso.
Adormeço sozinha, em Valésia, à beira de recomeçar tudo.
Capítulo 56AdrianO avião aterrissa em Paris com um rugido de reatores que não cobre o tumulto dos meus pensamentos, essa tempestade que ruge na minha cabeça há quarenta e oito horas, desde que recebi essa foto, desde que vi aquele menino de olhos cinzentos de aço e sorriso radiante, desde que li essa mensagem que fez voar em estilhaços tudo o que eu acreditava saber. Ele se chama Liam. Tem dois anos. É teu filho. As palavras giram na minha cabeça, martelam minhas têmporas, cavam um sulco de fogo no meu peito, e não sei o que é mais forte, a raiva, a incredulidade, a dor ou essa alegria selvagem que pulsa nas minhas veias como um álcool forte demais. Um filho. Tenho um filho. Eu, Adrian Kessler, o Diretor Glacial, o homem que todos acreditam incapaz de amar, sou pai. E não sabia.Não respondi à mensagem de Lina. Não pude, não soube, n&ati
Capítulo 55LinaNa manhã seguinte, estou sentada na cama do meu quarto de hotel, os olhos fixos no telefone que seguro entre os dedos trêmulos. A noite foi longa, povoada de pesadelos em que eu revia sem cessar o rosto de Adrian, seus olhos cinzentos cheios de dor e raiva, seus lábios sobre os meus, o gosto do sangue. E depois Anaïs, sempre Anaïs, essa sombra que me persegue há anos, que parece determinada a destruir tudo o que construo.Não consegui falar com ele cara a cara, não consegui lhe dizer a verdade. Mas há outro meio. Um meio covarde talvez, um meio distante, mas um meio que não poderá ser interrompido por primas vingativas ou pais tirânicos. Pego meu telefone, abro minha galeria de fotos e passo os cliques até encontrar aquele que procuro. A foto que tirei na semana passada, no parque em frente ao nosso apartamento. Liam está sentado na grama, seus cac
Capítulo 54LinaO beijo de Adrian ainda queima nos meus lábios, esse beijo selvagem e desesperado que me deixou trêmula, os lábios em sangue, o coração em migalhas, a alma em carne viva. Ficamos muito tempo nos jardins, enlaçados um no outro, sem falar, sem nos mexer, apenas embalados pelo canto distante da fonte e pelo perfume das rosas que flutuava no ar noturno. Depois ele me pegou pela mão, me levou de volta para dentro do hotel, e atravessamos a sala de baile sem olhar para ninguém, ignorando os olhares curiosos, os murmúrios, as perguntas mudas. Victoria, a mulher que estava ao seu braço, desapareceu sem que eu soubesse onde nem como, e não fiz perguntas. Não tinha forças, não tinha vontade. Tudo o que eu queria era falar com ele, dizer-lhe finalmente a verdade, confessar-lhe que nunca o traí, que sempre o amei, que temos um filho.Agora, estamos
Capítulo 53AdrianEla está ali, diante de mim, os olhos cheios de lágrimas, os lábios entreabertos sobre uma confissão que não vem, as mãos trêmulas que se torcem uma contra a outra como se procurassem arrancar de si as palavras que não ousa pronunciar. A luz da lua acaricia seu rosto, esculpe suas maçãs do rosto, faz brilhar suas íris cor de avelã com um fulgor que me enlouquece, que me embriaga, que me torna violento. Dois anos. Dois anos que ela desapareceu, dois anos que me deixou sozinho com aquela carta que me dilacerou o coração, dois anos que me consumo no silêncio e na solidão, e eis que ela volta, que se põe diante de mim, que murmura promessas de explicações sem nunca dá-las.— Adrian — diz ela com uma voz trêmula, uma voz que se quebra no meu nome —, eu sei que está com raiva,
Capítulo 52AdrianO copo se quebra na minha mão antes mesmo que eu compreenda o que está acontecendo, antes que meu cérebro registre a pressão dos meus dedos, antes que a dor suba ao longo do meu braço. Num instante, seguro minha taça de champanhe, finjo ouvir as platitudes desse ministro que me fala de fiscalidade, de taxas de imposto, de reformas por vir, e no instante seguinte, o cristal explode sob a pressão dos meus dedos, estilhaços cortantes se enterram na minha palma, e o sangue começa a correr, quente, vermelho, pegajoso, manchando a toalha branca, escorrendo pelo punho da minha camisa. Ao meu redor, gritos abafados, exclamações de surpresa, mãos que se estendem para me ajudar, garçons que acorrem com guardanapos, mas não vejo nada, não ouço nada, não sinto nada. Nada além desse olhar. Esse olhar cor de avelã que acaba de
Capítulo 51LinaValésia não mudou. Suas avenidas ladeadas de palmeiras que se balançam suavemente na brisa de junho, suas fontes cantantes que murmuram melodias esquecidas, suas cúpulas douradas que cintilam sob o sol como promessas de riqueza e poder, tudo está exatamente como na minha lembrança, como se o tempo tivesse parado no dia em que fugi desta cidade chorando sob uma chuva torrencial. Mas eu mudei. Não sou mais a jovem mulher quebrada que subia num avião com uma mala e um coração em migalhas, que olhava pela janela a Torre Kessler desaparecer nas nuvens murmurando um adeus definitivo. Sou Lina Varel, mãe de um menino de dois anos, uma mulher que sobreviveu ao exílio, à solidão, às ameaças de um homem sem escrúpulos. E voltei para lutar.É uma reunião de ex-alunos que me serve de pretexto, uma noite organizada nos s







